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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Vogais “dobradas” perdem o acento nas paroxítonas

Por Thaís Nicoleti

As regras de acentuação do ditongo aberto (éi, ói, éu) e do hiato com “i” e “u” tônicos só sofreram alteração nas palavras paroxítonas, aquelas cuja sílaba forte é a penúltima.

Nas oxítonas que contêm ditongos abertos, os acentos são mantidos. É o caso de chapéu, escarcéu, herói e também de uma boa quantidade de plurais (lençóis, faróis, anéis, painéis, papéis, carretéis etc.) e de formas verbais (corrói, corróis, destrói, destróis, constrói, constróis etc.). O mesmo vale para os monossílabos  (céu, réu, mói, rói, dói, réis etc.). 

Observe que o acento é importante nesses casos, pois é necessário para indicar a pronúncia aberta. Basta observar, por exemplo, o par correu/corréu. Ambas as palavras são oxítonas, mas cada qual tem sua pronúncia. “Correu” é a forma do verbo “correr”, como todos sabem; “corréu” é uma grafia nova, fruto das novas regras de hifenização (antes era grafada “co-réu”). “Corréu” é, na linguagem jurídica, o indivíduo acusado ou condenado pela participação com outra pessoa em um mesmo delito.

A regra vale também para os monossílabos. É o caso de réis/reis, por exemplo. Uma das formas de plural de “mel”, “méis”, continua acentuada. A outra forma de plural é “meles” – diga-se de passagem, ambas as formas são palavras pouco usadas no dia a dia.  

Duzentos réis, com acento

 

Rei (e reis), sem acento.

 

Outras paroxítonas que perderam o acento foram as que terminam em “oo”. É o caso de palavras como zoo (redução de “zoológico”), voo (substantivo ou verbo) e enjoo (substantivo ou verbo), entre outras. Observe que, na primeira pessoa do singular dos verbos terminados em “-oar” conjugados no presente do indicativo, temos exemplos desse tipo de ocorrência: abençoar (abençoo), amaldiçoar (amaldiçoo), acolchoar (acolchoo), afeiçoar-se (eu me afeiçoo), perdoar (perdoo), povoar (povoo) etc.

Assim:

Voo livre, sem acento

 

Algumas formas verbais apresentam a duplicação da vogal “e” na sua sílaba tônica. São paroxítonas que também perderam o acento gráfico. É esse o caso em que se enquadram as terceiras pessoas do plural dos verbos “crer”, ler” e “ver” no presente do indicativo: eles creem, eles leem, eles veem. Vale a regra para os verbos deles derivados por prefixação: descreem, releem, preveem, anteveem etc.  O verbo “dar” também produz formas desse tipo, mas no presente do subjuntivo, quando sua vogal temática “a” se converte em “e”: “Espero que eles deem a volta por cima!”.  

ATENÇÃO

Merece atenção especial o verbo “prover”, que, embora não seja derivado de “ver”, segue a sua conjugação no presente do indicativo. Assim: Eles proveem a despensa toda semana.

NÃO CONFUNDA

Os verbos “ter” e “vir” mantêm o acento na terceira do plural quando conjugados no presente do indicativo. Assim: ele tem/eles têm, ele vem/eles vêm.

Verbos deles derivados por prefixação conservam o acento agudo na terceira do singular e o circunflexo na terceira do plural. Assim: ele mantém/eles mantêm, ele detém/eles detêm; ele intervém/ eles intervêm, ele provém/eles provêm etc. Todas as formas recebem acento, pois são oxítonas terminadas em “-em” (como vintém, refém, Belém, também, porém etc.). O acento circunflexo nas formas de plural tem o objetivo de estabelecer distinção gráfica, não de pronúncia.

Não vale confundir “eles proveem” (verbo “prover”) com “eles provêm” (verbo “provir”). “Prover” é abastecer; “provir” é vir (de algum lugar). 

DICA

As formas de segunda pessoa do singular dos derivados de “ter” e “vir” também são acentuadas, pois, a exemplo de parabénsreféns, são oxítonas terminadas em “-ens”. Assim: tu entreténs, tu deténs, tu intervéns, tu provéns etc.

HIATO

Quanto à regra do hiato, conforme já foi dito, pouca coisa muda. As alterações limitam-se às paroxítonas cuja sílaba tônica em “i” ou “u” (seguidos ou não de “s”) sucede a um ditongo. Assim: bocaiuva, feiura, Costa do Sauipe, maoista etc.

Não sofreram alteração as oxítonas em geral, independentemente de haver (ou não) ditongo antes do “i” e do “u” (Piauí, teiú, tuiuiú, Jundiaí, Itajaí, baú etc.) nem as paroxítonas cuja sílaba tônica em “i” ou “u” não seja antecedida de ditongo (saída, juízes, egoísta, egoísmo, saúde, alaúde, amiúde, miúdo, balaústre etc.).

OBSERVAÇÃO

Não se acentua a palavra juiz, mas acentua-se o seu plural, juízes. O mesmo vale para raiz/raízes.

 

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