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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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“Haja o que hajar!”

Por Thaís Nicoleti

“Quem é corintiano não deve ter estranhado quando uma tatuagem com os dizeres “Haja o que hajar” começou a “bombar” no Facebook e no Twitter há algumas semanas. A frase, atribuída a um ex-presidente do clube, aparecia tatuada nas costas de Lidiane de Sousa, 30, e virou motivo de piada pelo erro de português. Mesmo chateada com os comentários maldosos sobre a tattoo, feita em homenagem ao marido, Lidiane está aproveitando o sucesso na internet para vender camisetas com a expressão que marcou “para sempre” no próprio corpo.” ( http://tecnologia.uol.com.br/noticias/redacao/2013/04/10/mulher-que-tatuou-haja-o-que-hajar-usa-fama-da-frase-na-internet-para-vender-camisetas.htm)

O erro de português repercutiu nas redes sociais. Apesar de a moça ter ficado chateada, esse pode ser um sinal de que as pessoas se sentem, de alguma forma, “ofendidas” com a desfaçatez de quem escolheu imprimir no próprio corpo uma frase tão acintosamente destoante do padrão culto da língua.

Alguns dirão que esse tipo de atitude revela preconceito linguístico, pois mostra o desejo de excluir alguém — no caso, por meio da gozação ou de comentários agressivos — em razão de sua forma de se expressar.  

Que cada um dê a sua opinião livremente. De um ponto de vista estritamente gramatical, a referida frase é bastante curiosa. Como sabemos, o verbo “haver” está entre os irregulares. Sua conjugação foge ao modelo da maioria dos verbos. No presente do subjuntivo, temos haja, hajas, haja, hajamos, hajais, hajam. A forma “haja” é a que se emprega nas chamadas orações optativas (orações que exprimem desejo, do tipo “Haja fé!”, “Haja paciência!”, “Haja saúde!”).

A frase em questão tem esse mesmo formato, mas peca quanto à conjugação da segunda forma do verbo “haver”, que deveria estar no futuro do subjuntivo. Assim: “Haja o que houver”, como “Esteja onde estiver”, “Seja o que for”, “Venha o que vier” etc.).

O suposto autor da frase intuiu, pelo menos, que a forma do futuro do subjuntivo deveria terminar com “-r” – nesse detalhe, ele acertou!   

Para acertar mesmo, faça o seguinte: quando surgir uma dúvida sobre a conjugação de um verbo no futuro do subjuntivo, conjugue esse verbo no pretérito perfeito (o passado das ações efetivamente concluídas) e preste atenção à forma da terceira pessoa do plural. Assim: eu houve, tu houveste, ele houve, nós houvemos, vós houvestes, eles houveram.

Da forma houveram”, retire as duas letras finais (“-am”). Assim, você obterá a forma da primeira pessoa do singular (eu) do futuro do subjuntivo (quando/ se eu houver). As demais formas baseiam-se nessa: tu houveres, ele houver, nós houvermos, vós houverdes, eles houverem.

A terceira do singular é sempre idêntica à primeira. Na frase em questão, é a terceira pessoa que deve aparecer: “Haja o que houver!”.

A brincadeira toda serviu para chamar a atenção para a conjugação dos verbos irregulares no português, que, digamos a verdade, desafia muita gente!

Abraços a todos!

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