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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Baloeiro ou balonista?

Por Thaís Nicoleti

O balonismo, esporte de que sou particularmente aficionada desde que me entendo por gente (ou antes), ganhou as páginas da imprensa recentemente pelo pior motivo possível: um acidente com mortes.

A região da Capadócia, na Turquia, vem atraindo grandes levas de turistas, que já incluem nos “pacotes” o voo panorâmico de balão sobre a belíssima paisagem. Bem antes de ter sido locação de novela da rede Globo, a Capadócia já estava no mapa dos viajantes – e, há mais de 15 anos, uma centena de balões levanta voo na região todos os dias.

Muito bem. Numa das várias reportagens suscitadas pelo acidente, apareceu a previsível confusão entre “baloeiros” e “balonistas”. Vejamos uma passagem publicada aqui no nosso jornal “Agora”:

O custo elevado para conseguir autorização da comercialização de voos panorâmicos em balões é a principal razão alegada por baloeiros para desistir da certificação.” (“Agora”, 26.5.13)

Baloeiros e balonistas, cada um a seu modo, são apaixonados por balões, mas vale a pena distinguir uns de outros. “Baloeiro” á aquele que faz balões, normalmente os balões de São João, hoje proibidos em virtude do perigo que, estes sim, representam, pois podem incendiar-se, cair sobre fiação elétrica, enfim, causar sérios acidentes.

Vale um parêntese: na minha infância, fui vizinha de “baloeiros”, cujo desafio, a cada ano, era fazer um balão maior, com um formato diferente. Era bonito de ver, mas o perigo andava de mãos dadas com a arte dos baloeiros.

A minha paixão, porém, sempre foram os outros balões, aqueles que podem carregar as pessoas em seu cesto, pois a aventura é deixar-se levar ao sabor do vento. Os praticantes dessa atividade esportiva chamam-se “balonistas” – e o esporte é o “balonismo”.

BALOEIROS
BALONISTAS

Aproveito para responder a uma questão do balonista Sacha Haim (ver entrevista abaixo), que me perguntou se existe um terceiro termo, a saber, “baloneiro”, com um terceiro significado.

O que encontrei, pelo menos por enquanto, foi a informação de que “baloneiro” é o mesmo que “baloeiro”, ou seja, uma variante deste último. Uma curiosidade, porém, é que “baloeiro” (e também “baloneiro”), na linguagem popular, quer dizer “mentiroso” (e “balão”, nesse mesmo registro informal, é “mentira”).

BALONISMO

Para além dos voos turísticos, que já são bastante conhecidos – em Boituva e em Piracicaba, no interior de São Paulo, há (ou havia) passeios nos fins de semana –, o balonismo é um esporte e, como tal, tem competições, campeonatos etc.

Meu primeiro voo foi “de carona” num campeonato, em Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, há muitos anos, com o piloto Sacha Haim, que acumula importantes títulos na modalidade: é tricampeão (e tetravice-campeão) brasileiro de balonismo, é campeão sul-americano, octocampeão do Festival de Torres (no Rio Grande do Sul) e medalhista de ouro nos Jogos Mundiais da Natureza.

Conversamos recentemente sobre o acidente na Turquia, sobre a atividade no Brasil e – por que não dizer? – sobre a paixão que move essas rústicas máquinas de voar, que estão na origem da aviação.

Sacha Haim

TN – Sacha, o que pode ter ocasionado o acidente na Turquia?

SH- Houve um choque do envelope de um dos balões com o cesto de outro. É preciso verificar a velocidade em que cada balão estava no momento, saber se ambos estavam subindo ou se o de cima (já) estava descendo e em que velocidade. Não é possível afirmar nada com certeza ainda, mas os aparelhos de GPS contêm registros de informações que vão ser analisados. Em princípio, o culpado é o balão que está em cima, pois o de baixo não tem como ver o balão de cima. Assim como em um acidente de trânsito o culpado é, por definição, o que bate na traseira do outro.

TN – Esse tipo de acidente é pouco comum, não?

SH – Sim. É importante salientar que, na Capadócia, são cem balões voando simultaneamente todos os dias há mais de 15 anos – e esta foi a primeira vez que se noticiou um acidente grave.

TN – Até que ponto o piloto tem controle sobre o voo?

SH – O piloto tem controle total sobre a subida e a descida do balão. Ele pode regular a velocidade de subida por meio do aquecimento do ar do envelope e a velocidade de descida deixando o balão esfriar ou abrindo o “paraquedas”, uma válvula que libera ar quente e esfria o balão acelerando a velocidade de descida. Antes de decolar, é sempre feita uma análise da direção dos ventos, de modo que é possível saber para que rumo aproximado vai o balão.

TN – Em voos turísticos, é comum o piloto descer na carroceria do carro de resgate…

SH – Isso depende sempre das condições climáticas. Na Capadócia, como normalmente quase não venta, o pouso na carreta se tornou um clássico, um charme para os turistas, mas, acima de tudo, evita a mão de obra de colocar esses pesadíssimos cestos manualmente sobre o caminhão. O motorista do resgate ajuda um pouco, manobrando o veículo, e a equipe de terra, se necessário, dá o toque final. O piloto consegue manobrar o balão considerando a direção dos ventos, a altitude e a velocidade vertical (de subida e descida). É quase como se ele estivesse em uma competição, cuidando da precisão de aproximação.

TN – Você faz voos turísticos?

SH – Trabalhei como piloto comercial, levando passageiros em balões turísticos durante alguns anos, quando vivi na Espanha, mas prefiro manter o balonismo como esporte de competição e como hobby.

TN – Por quê?

SH- Porque á a maneira de não perder a paixão que eu tenho pelo balonismo; percebi depois de mais de dois anos que, em alguns momentos, buscava um hobby para descansar e deixar de ser o “motorista de ônibus”, fazendo voos por obrigação, com hora marcada. Percebi que estava transformando a paixão em rotina.

TN – De onde vem essa paixão?

SH – Aos 10 anos, fiz meu primeiro voo acompanhando meu pai [o balonista e empresário Salvator Haim], que havia sido convidado por amigos ingleses já pilotos. Foi paixão ao primeiro voo e já são 28 anos de paixão…

TN – Há jovens que não se interessam muito pelo balonismo porque parece que o esporte é muito tranquilo, não provoca a “adrenalina”…

SH – Pois é. Comigo aconteceu uma história curiosa: certa vez, levando um casal e o filho adolescente num voo, o garoto parecia muito entediado. Quando pousamos, os pais dele estavam encantados, extasiados com a viagem, mas ele estava dando de ombros (“Foi mais ou menos” ). Eu pedi licença aos pais dele para voar mais um pouquinho só com o garoto. Muito bem. Eu decolei numa velocidade mais alta, fiz manobras e fizemos um pouso bem menos tranquilo. Não deu outra: “Animal!” – foi o que ele disse entusiasmado. Naquele voo de Rio das Ostras em que você estava, também tivemos um pouso com “adrenalina”, você se lembra…

TN – E como esquecer? Uma descida com o cesto virado num assentamento de trabalhadores sem terra. Mas você passou muita segurança para todos, foi realmente incrível!  Você tem uma história de muitos feitos no balonismo. Qual você considera ter sido até agora a sua experiência mais marcante?

SH – É difícil escolher uma, mas creio que o voo sobre o vulcão Kilimanjaro, na Tanzânia, o ponto mais alto da África é algo memorável. Voamos a mais de 7.000 m de altitude. Foi um grande desafio, recompensado a cada minuto.

TN – Sacha, se você tivesse de definir o que é o balonismo para você…

SH – Posso parecer meio “brega” ou sentimental, mas eu acho que o balonismo é como a vida: nós temos uma ideia da direção que queremos tomar, mas nunca temos certeza absoluta de onde vamos parar. Não adianta ir contra os ventos.

TN – E o que dizer às pessoas que hoje estão assustadas, com medo de voar de balão?

SH – A verdade é que acidentes ocorrem todos os dias no trânsito e nem por isso as pessoas vão deixar de andar de automóvel. É preciso observar que, estatisticamente, acidentes de balão são muito raros, principalmente em comparação com todos os demais esportes aéreos. Apesar de se tratar da aeronave mais antiga que existe, há diversas tecnologias em desenvolvimento que certamente ajudarão a reduzir ainda mais os acidentes.

TN – Há fabricantes de balão no Brasil?

SH – Sim, o Brasil é conhecido internacionalmente por ser um dos maiores fabricantes de balões de formatos especiais (“special shapes”). Somos o país com o maior número de fabricantes, considerando o número de balonistas no Brasil. O país exporta balões de formato especial para o mundo inteiro.

TN – Sacha, o que é necessário para se tornar um piloto de balão?

SH   – Para se tornar piloto de balão, é necessário fazer um curso de pilotagem, regulamentado pela Anac, fazer os exames médicos idênticos aos realizados para um piloto de avião. É necessário no mínimo 16 horas de voo e 1 hora de voo solo. Só então será feito o voo de check final.

VEJA Sacha Haim no Programa do Jô –

http://www.youtube.com/watch?v=WWW3Bvepb9g

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AS ORIGENS DO BALÃO

Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o inventor do balão, é imortalizado na obra de ficção de José Saramago

Considerado o inventor do balão, fato ocorrido em 1709, o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nascido em Santos, no Brasil, em 1685, passou muitos anos de sua vida em Portugal. Parte de sua trajetória é romanceada no livro “Memorial do Convento”, de José Saramago.

Apelidado de “padre voador”, nas páginas do romance ele é ajudado por Blimunda e Baltasar Sete-Sóis (personagens fictícios) na realização de uma das mais antigas aspirações da humanidade. Para ele, a vontade era o combustível desse fantástico sonho. Na época de Bartolomeu de Gusmão, o antecessor do balão era chamado, com certo tom pejorativo, de “passarola”.

Abaixo, a passagem do romance em que o “padre voador” leva Baltasar Sete-Sóis à sua “oficina” e descreve o projeto que tinha em mente:

“Baltasar entrou logo atrás do padre, curioso, olhou em redor sem compreender o que via, talvez esperasse um balão, umas asas de pardal em maior, um saco de penas, e não teve mão que não duvidasse, Então é isto, e o padre Bartolomeu Lourenço respondeu, Há-de ser isto, e, abrindo uma arca, tirou um papel que desenrolou, onde se via o desenho de uma ave, a passarola seria, isso era Baltasar capaz de reconhecer, e porque à vista era o desenho de um pássaro, acreditou que todos aqueles materiais, juntos e ordenados nos lugares competentes, seriam capazes de voar. Mais para si próprio do que para Sete-Sóis, que do desenho não via mais que a semelhança da ave, e ela lhe bastava, o padre explicou, em tom primeiramente sereno, depois animando-se, Isto que aqui vês são as velas que servem para cortar o vento e que se movem segundo as necessidades, e aqui é o leme com que se dirigirá a barca, não ao acaso, mas por mão e ciência do piloto, e este é o corpo do navio dos ares, à proa e à popa em forma de concha marinha, onde se dispõem os tubos do fole para o caso de faltar o vento, como tantas vezes sucede no mar, e estas são as asas, sem elas como se haveria de equilibrar a barca voadora, e destas esferas não te falarei, que são segredo meu, bastará que te diga que sem o que elas levarão dentro não voará a barca, mas sobre este ponto ainda não estou seguro, e neste tecto de arames penduraremos umas bolas de âmbar, porque o âmbar responde muito bem ao calor dos raios do sol para o efeito que quero, e isto é a bússola, sem ela não se vai a parte alguma, e isto são roldanas, servem para largar ou recolher as velas, como nos navios do mar. Calou-se alguns momentos, e acrescentou, E quando tudo estiver armado e concordante entre si, voarei.”

(IN: “Memorial do Convento”, José Saramago)

 

Desenho da chamada “passarola”
Para além da ficção, o verdadeiro nascimento das atividades aéreas teria ocasião somente em 4 de junho de 1783, com o voo do balão dos irmãos franceses Joseph e Etienne Montgolfier, que chegou a atingir cerca de 2.000 metros de altura.

Há registro de que o primeiro voo de balão no Brasil foi feito em 1867 por dois americanos, J. e E. Allen.

Alguns brasileiros, como Júlio César Ribeiro de Souza (em 1881, com o aeróstato Victória) e Augusto Severo de Albuquerque Maranhão (em 1893, com o balão denominado de Bartholomeu de Gusmão), destacaram-se na história do balonismo. Posteriormente, Alberto Santos Dumont faria sua série de dirigíveis que acabariam resultando no avião.

BALONISMO

Como esporte, o balonismo teve seu primeiro campeonato em 1963 nos EUA e o primeiro Mundial em 1973, o que estimulou o crescimento da atividade esportiva também no Brasil, onde se daria em 1987 o primeiro campeonato em âmbito nacional. O pioneiro do balonismo no Brasil foi Victorio Truffi. Realizando um sonho de criança, com a ajuda do amigo Bob Rechs, Truffi construiu um balão e voou em Araraquara, SP, no dia 25 de outubro de 1970. Esse foi o primeiro voo na América do Sul de um balão de ar quente moderno.

(informações cedidas pelo site 360º)

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