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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Língua e identidade cultural

Por Thaís Nicoleti

MUITO SE TEM falado sobre o fenômeno da mudança linguística, e não é novidade dizer que as línguas são organismos vivos, que se modificam com o passar do tempo. Falta, talvez, falar um pouco do que não muda, do que há de permanente na língua, portanto capaz de identificá-la em qualquer variante ou mesmo em qualquer época.
É possivelmente a esse jogo entre mudança e permanência que alude Caetano Veloso no verso com que inicia a canção “Língua”: “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”. Para além da metáfora erótico-amorosa, na chave concreto/abstrato proposta pela palavra “língua”, o encontro entre a língua de hoje e a língua de ontem é revelador de uma trajetória de mudanças sobre um patamar de permanências -e são estas que nos permitem a comunicação com as diferentes épocas e com os diferentes autores que expressaram seus pensamentos e emoções por meio do mesmo recorte da realidade.
“O que quer/ O que pode esta língua?”, questiona Caetano no refrão da canção. A linguística explica que as mudanças não são aleatórias. Além de refletirem as influências históricas, extralinguísticas, seguem uma dinâmica intralinguística.
Só isso já bastaria para justificar o estudo da língua portuguesa e das suas apaixonantes sutilezas. “Gosto de ser e de estar”, diz Caetano. Eis uma sutileza da nossa língua que o inglês e o francês, por exemplo, anulam. Para nós, falantes do português, “ser” é diferente de “estar”.
A maneira de pensar de um povo expressa-se em sua língua. Daí a frase lapidar de Fernando Pessoa: “Minha pátria é a língua portuguesa”, que o nosso Caetano retomou como “Minha pátria é minha língua”.
Ainda que haja diferenças no espaço e no tempo, é a mesma língua que cruza fronteiras horizontais e verticais, afirmando sua unidade em meio à diversidade.
Em sua canção, repleta de referências, Caetano afirma e reafirma essa unidade camaleônica da língua, aberta à influência externa. Artífice da língua, Caetano trabalha e retrabalha suas canções do ponto de vista linguístico -metafórico e também sonoro, em que joga com as incontáveis possibilidades semânticas e sonoras da língua, em arranjos que oscilam entre o jogo etimológico e as imprevisíveis paronomásias, pura brincadeira com a forma das palavras, a carne da língua.
A percepção da língua como meio privilegiado de expressão e veículo de identidade cultural é o que deve nortear o seu estudo.

(texto publicado em 23.6.2010 no caderno “Fovest”, da Folha de S.Paulo)

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