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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Ser fêmea de hipopótamo: uma conversa sobre o gênero do substantivo

Por Thaís Nicoleti

“Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim.” Assim se intitulava saborosa crônica de Rubem Braga escrita nos anos 50 do século passado. O cronista, engalfinhado com questões dificultosas da nossa língua, entediava-se com o português de “quiz show”, que, com suas “pegadinhas”, só servia mesmo, segundo ele, para fazer palavras cruzadas.

Seu texto à época era uma crítica às provas de português de concursos públicos. Dizia ele: “No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, mas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros”.

Muito bem. Impossível não dar razão ao velho Braga, que nos brindou com textos tão inteligentes e, entre nós, elevou a crônica a gênero literário, mas o fato é que, no dia a dia, sobretudo na imprensa, às vezes nos defrontamos com questões que, embora imaginássemos não serem de grande importância, assumem caráter relevante – ainda que temporariamente.

Situação semelhante à da fêmea de cupim a que alude o escritor, surgiu certa vez na mídia a dúvida sobre o feminino de “hipopótamo”. Houve quem grafasse “hipopótama”, fazendo a flexão de feminino que se faz em “elefanta”, por exemplo. Na ausência de registro em dicionários, os mais cautelosos apelaram para o velho truque: usar só o artigo no feminino, preservando a forma da palavra, tal como se faz com os comuns de dois gêneros (o dentista, a dentista), o que resultou em “a hipopótamo”.

O motivo da questão foi a morte, na época, de uma fêmea de hipopótamo no Zoológico de São Paulo. O animal, que ainda amamentava sua cria, atendia pelo doce nome de Teteia, termo que se usa para apelidar moças atraentes, graciosas. Estava claro que seria necessário tratá-lo no feminino – afinal quem acabava de morrer era não simplesmente um hipopótamo, mas Teteia. A solução para o enigma, na verdade, estava no simples uso da palavra “fêmea” aposta ao substantivo “hipopótamo”. Hipopótamo fêmea, sem hífen.

Aparentemente simples, a questão parecia resolvida, mas um rápido levantamento atestava a incerteza de muitos jornalistas: “o fêmea do hipopótamo” foi uma das versões que circularam na internet. Afinal, “o hipopótamo fêmea” ou “a hipopótamo fêmea”? Houve quem achasse que o artigo poderia ser feminino já que se usou o termo “fêmea”. Nada mais natural, certo? Errado.

SOBRECOMUNS E EPICENOS 

Em português, gênero e sexo são coisas distintas. É claro que, entre os seres sexuados, geralmente o gênero acompanha o sexo – é bom lembrar, porém, que existem termos de um gênero só, mas aplicáveis a pessoas de ambos os sexos, como “a testemunha”, “a criança”, “a vítima”, “o indivíduo” etc., chamados “sobrecomuns”.

Nos assexuados, a bipartição de gênero (masculino e feminino) existe, mas apenas ligada ao artigo anteposto à palavra (“a cadeira”, feminino; “o sofá”, masculino).

 No caso dos epicenos (sempre nomes de animais), entre os quais está o hipopótamo, o gênero é único, determinado pelo artigo, independentemente do sexo. É por isso que dizemos “o hipopótamo”, no masculino, tanto para o macho como para a fêmea, portanto “o hipopótamo fêmea”. No caso da “cobra”, por exemplo, a palavra em si é feminina, mas é possível especificar o sexo do animal: “a cobra macho” ou “a cobra fêmea”, preservando o gênero original.

 

Hipopótamo é palavra de origem grega, cujo significado primeiro é “cavalo de rio” (‘hipo’ = cavalo, ‘potamos’ = rio). Basta lembrar que “hipo-” dá origem a “hipódromo”, pista de corrida de cavalos, e “potamos” está na formação de “Mesopotâmia” (entre rios), por exemplo.

Os hipopótamos continuaram em voga na imprensa por mais um tempo, dado que foi descoberta uma população desses animais na Colômbia, em antiga propriedade do traficante de drogas Pablo Escobar.  No mundo das notícias, tudo pode acontecer – e as questões linguísticas acompanham o ritmo das surpresas. Todo conhecimento, mais hora, menos hora, acaba tendo seu emprego.

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