O amor e os performativos

Por Thaís Nicoleti

“Em linguística, chamamos performativas aquelas expressões que, ao serem proferidas, constituem o fato do qual elas falam. Exemplo clássico: um chefe de Estado dizendo ‘Declaro a guerra’ – essa frase é a própria declaração da guerra.”

O fragmento é de Contardo Calligaris, extraído do texto “Palavras de amor” (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2013/08/1323252-palavras-de-amor.shtml) , no qual o psicanalista propõe a ideia de que as palavras de amor são “semiperformativos”. Além do exemplo citado pelo autor, são tipicamente performativos os verbos “jurar” e “prometer”.

O que é “jurar”? É uma palavra que, ao mesmo tempo, é um ato. Para jurar, basta dizer “eu juro” e, ao dizer “eu juro”, está-se praticando a própria ação de jurar. O mesmo vale para “prometer”, ou seja, para prometer algo, basta dizer “eu prometo”. Cumprir o que se promete já é outra história, como bem sabemos.

Segundo Contardo Calligaris, as palavras de amor seriam em si mesmas o que chamamos de amor (ou quase isso). É ele mesmo quem suaviza a ideia: “(…) talvez os sentimentos existam antes de serem declarados, mas eles só crescem e tomam conta da gente na hora de serem ditos, descritos e contados – na hora da sua declaração, pública ou privada”. Seguindo o raciocínio, chegará à conclusão de que a cura dos estragos do amor é “simples”: “basta se calar um pouco”. Será?

Em tempo: aos interessados em amor e linguagem, vale a leitura do clássico de Roland Barthes intitulado “Fragmentos de um Discurso Amoroso”.