-

Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

Perfil completo

Publicidade

“Extravazar” ou “extravasar”?

Por Thaís Nicoleti

A dúvida não é pouco frequente e, apesar da existência de corretores ortográficos eletrônicos, deslizes dessa natureza ocorrem até mesmo em editoras. Um fragmento do romance japonês “Mil Tsurus”, de Yasunari Kawabata, ilustra o problema:

Aquilo espantou Kikuji. Não havia o menor sinal de inimizade ou de maldade nas atitudes dela. Mas, ao contrário, a saudade parecia extravazar da viúva. O encontro com KIkuji parecia deixá-la realmente feliz.

A grafia correta do termo é “extravasar”, com a letra “s”, não com “z”, como foi grafado no livro. Muita gente faz confusão por imaginar ser esse verbo um derivado de “vazar”, este escrito com “z”. Na verdade, não é isso o que ocorre.

“Vazar” é deixar sair o conteúdo de um recipiente até que fique “vazio”. “Vazar” e “vazio” são da mesma família etimológica, à qual não pertencem “extravasar” e “envasar”, ambos derivados de “vaso”. “Extravasar” é transbordar de um “vaso”; “envasar” é colocar em um “vaso” (recipiente) — daí a conhecida expressão “gás envasado de cozinha”, que é o gás de bujão (ou de botijão). “Bujão”, embora tenha outros significados, é sinônimo de “botijão” – pelo menos no Brasil, onde vive a maior parte dos falantes da língua portuguesa. Derivados de “vaso” escrevem-se com “s”: extravasar e envasar, portanto.

Blogs da Folha