-

Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

Pedagiar e escanear

Por Thaís Nicoleti

Vale ainda conversar um pouco mais sobre a conjugação dos verbos terminados em “-iar” e “-ear”. Apesar de uma confusão aqui, outra acolá, muitas vezes fruto da preocupação em “acertar” (a chamada hipercorreção), a tendência dos falantes do português é intuitivamente fazer as flexões adequadas.

Isso ocorre porque quem conhece uma língua internaliza a sua gramática, ou seja, “sabe sem saber que sabe” – mais ou menos isso. Uma maneira interessante de observar essas estruturas já apreendidas é examinar os neologismos, isto é, as palavras novas que passam a integrar o léxico da língua.

Há vários caminhos para o surgimento do neologismo, inclusive a influência de termos estrangeiros, que se acomodam à nossa língua no processo de incorporação ao uso.

Os verbos que intitulam este texto são neologismos. O primeiro deles ainda não conquistou seu lugar nos nossos dicionários, mas o segundo já está registrado. É um derivado de “escâner”, este um aportuguesamento do inglês “scanner”.

“Pedagiar” uma rodovia é instalar nela as chamadas “praças de pedágio”, coisa muito comum nas estradas que passam pelo estado de São Paulo, mas nem tanto nas que cortam outras regiões do país. O termo surgiu na forma de um verbo e logo o seu particípio passado passou à condição de adjetivo, como ocorre normalmente com essa forma nominal (a expressão “rodovia pedagiada” é um exemplo desse uso).

Para criar esses verbos, não foi preciso que alguém consultasse uma gramática, pois as palavras nascem espontaneamente (exceção feita aos termos científicos, para cuja formação geralmente se recorre a radicais gregos ou latinos). Muito bem: “pedagiar” termina com “-iar” e “escanear” termina com “-ear”. Por que será?

É aí que a entra a tal gramática que já está internalizada. Sem precisarem parar para pensar, as pessoas usaram a terminação “-iar” para formar um verbo derivado de um substantivo terminado em  “-io” (“pedagiar” – “pedágio”). Essa associação explica-se porque tal comportamento é frequente na língua (plágio – plagiar, salário – assalariar, frio – esfriar etc.). A terminação “-ia” de substantivos e adjetivos também leva à forma “-iar” (cópia – copiar, via – desviar, notícia – noticiar, polícia – policiar). Os exemplos são muitos.

“Escanear”, por sua vez, vem de “escâner”. Sua formação segue a de verbos oriundos de substantivos terminados em consoante (mar – marear, flor – florear, pastor – pastorear). É bom que se diga que a terminação “-ear” é típica dos verbos cujos nomes correlatos terminam em “-é” (tônico), “-eio” ou “-eia” (pé – apear, feio – enfear, rateio – ratear, ceia – cear, areia – arear; estreia – estrear) e dos terminados em vogal átona “-a”, “-e” ou “-o” precedida de consoante (granja –  granjear, prata – pratear, bronze – bronzear, sorte – sortear, branco – branquear).

Também é verdade, no entanto, que a terminação “-ear”, por vezes, concorre com a terminação “-ar” (caracolear/ caracolar, dosear/ dosar, pipoquear/ pipocar,  reboquear/rebocar, tricotear/ tricotar, sambear/ sambar) e que podem ocorrer tanto “-ear” como “-ar” em situações semelhantes (cabo – cabear, mapa – mapear, mas planta – plantar, pasto – pastar). Ainda na linha dos comportamentos de exceção, estão os verbos “alumiar” (de “lume”) , “abreviar” (de “breve”) e “ampliar” (de “amplo”), que se consagraram com a terminação em “-iar”, não em “-ear”.

CARREATA

Como uma palavra dá origem a outras, mesmo os termos que são novos têm sua grafia baseada na dos preexistentes. Veja-se um termo como “carreata”, derivado de “carrear”, formado por analogia a “passeata”, derivado de “passear”. “Negociata”, por sua vez, vem de “negociar”. O que fundamenta a grafia desses termos é ainda a oposição “-ear”/ “-iar”.

Os verbos “negociar” e “premiar”, no Brasil, conjugam-se apenas como regulares (negocio, negocias, negocia; premio, premias, premia), mas, em Portugal, são aceitas (e comuns) as formas “negoceio” e “premeio”.

ORTOGRAFIA

Não é difícil perceber por que escrevemos prateado, bronzeado, bronzeamento, branqueamento, todos com a letra “e”, mesmo que a sua pronúncia tenda ao som de “i”, certo?  Eles são derivados de verbos terminados em “-ear”.

“CREAÇÕES”

O verbo “criar”, do português, tem origem na forma latina creare (creo, creas, creat). Embora na passagem do latim ao português o “i” tenha substituído o “e”, durante certo tempo houve hesitação entre as grafias criar/crear. No Brasil, chegou a existir uma suposta distinção de uso, que, aliás, caiu por terra. Entendia-se que “crear” fosse dar existência, tirar do nada e que “criar” fosse educar, cultivar, promover o desenvolvimento. Daí distinções como creação (a obra de Deus) e criação (de gado, dos filhos). Curiosamente, ainda hoje sobrevivem nomes comerciais (geralmente de confecções) que incluem o termo “creações”, assim com  a letra “e” (Creações Kelman Confecções, Creações Vital Ltda., Pingo Doce Creações etc.).

Blogs da Folha