Questão de gênero

Por Thaís Nicoleti

É inegável a ascensão das mulheres no mercado de trabalho e na administração pública. Atividades que antes eram tipicamente masculinas, como as ligadas à política e à polícia, hoje deixaram de ser exclusivas dos homens.

As mulheres estão no Exército, no Corpo de Bombeiros e em cargos diplomáticos, estão dirigindo ônibus e táxis, pilotando aviões, regendo orquestras e até erguendo edifícios. Não é de estranhar, portanto, que elas queiram exprimir o nome de seus cargos ou de suas atividades profissionais no gênero que lhes é próprio.

No Brasil, com a eleição da primeira mulher para o cargo de presidente da República, houve muita polêmica em torno do tratamento a ser dado a ela. O caso específico da palavra “presidenta” foi amplamente discutido na imprensa à época. Por ser um herdeiro do particípio presente latino, o termo (terminado em “-nte”) não requer a distinção de gênero (estudante, amante, contribuinte, pedinte, presidente, todos são comuns de dois gêneros, isto é, admitem o artigo masculino e o feminino).

Ocorre, porém, que, além de “presidenta”, outras palavras de origem semelhante sofreram essa flexão no passado (infanta, parenta, governanta). “Presidenta” não é, portanto, uma forma nova, supostamente criada por ocasião da eleição de Dilma Rousseff. Nada disso. Já existia e foi o tratamento que a mandatária escolheu para si, uma forma de reforçar a presença de uma mulher no mais alto cargo de poder do país. Na prática, há quem prefira “presidente” e quem prefira “presidenta” – ambas as formas corretas do ponto de vista gramatical.

GOVERNANTE E GOVERNANTA

O termo “governanta”, como todos sabemos, não pode ser usado como feminino de “governante”, pois seu uso é restrito a uma profissão exercida por mulheres no ambiente doméstico. Segundo o dicionário Houaiss, esse termo aparece no português em 1881 por influência da forma feminina francesa “gouvernante” (o “e” final é a marca de feminino em francês). Cabia à governanta administrar o lar alheio, cuidar da educação de crianças, tarefas então tipicamente femininas. É curioso perceber a divisão sexual das atividades: não se imaginaria à época a possibilidade de uma mulher gerir um país; seu lugar era dentro de casa, cuidando de crianças, ainda que não fossem os seus próprios filhos.

MASCULINO E FEMININO

Enquanto os termos derivados do particípio presente (os terminados em “-nte”) não requerem marca de feminino, outros, de formação bem diferente, são claramente biformes. É o caso dos pares profeta/profetisa, poeta/poetisa, diácono/diaconisa, sacerdote/sacerdotisa, maestro/maestrina, cônsul/consulesa, capitão/capitã etc.

POETA E POETISA

Agora o terreno tende a ficar pantanoso e vamos tentar entender por quê. Os dicionários e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (da Academia Brasileira de Letras) continuam registrando a forma “poeta” como substantivo masculino, cujo feminino é “poetisa”, mas o dicionário Houaiss, em particular, já acrescenta uma observação sobre o uso da forma “poeta” como substantivo comum de dois gêneros, coisa que vem ocorrendo no Brasil e em Portugal. Isso não significa que “poetisa” tenha deixado de ser o feminino de “poeta”. Trata-se de um uso que pode fixar-se definitivamente ou não. Nada consta quanto a profeta ou sacerdote. Não se sabe que haja algum movimento contra as profetisas e sacerdotisas (!).

MAESTRINA

O feminino de “maestro” é “maestrina”. “Maestrino”, no masculino, no entanto, é um diminutivo usado para denominar o compositor iniciante. A forma feminina, como vemos, é calcada no diminutivo, o que pode incomodar mulheres que exerçam essa atividade, levando-as a optar pela forma “regente”, idêntica para ambos os gêneros (é um daqueles particípios presentes). Por outro lado, a existência de uma forma marcada por um sufixo feminino (“maestrina”) pode realçar o fato de ser uma mulher quem conduz a orquestra. Questão de ponto de vista. A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo tem no cargo de regente titular uma mulher, a maestrina (ou a regente) Marin Alsop.

EMBAIXADORA OU EMBAIXATRIZ?

O feminino de “embaixador” é “embaixadora” ou “embaixatriz”? A forma “embaixatriz” designa a mulher de um embaixador, enquanto “embaixadora” é a mulher incumbida das funções diplomáticas. Diga-se de passagem, o termo “governadora”, hoje usado para a mulher que governa, já foi usado para designar a mulher de um governador. A forma “governatriz” também se presta a nomear a mulher que exerce o cargo administrativo, porém, no Brasil, é de uso raro.

PÕE NA CONSUL

O feminino de “cônsul” é “consulesa” (com o sufixo “-esa”, o mesmo de princesa, duquesa, marquesa, baronesa, dogesa, prioresa). Ocorre, porém, que mulheres que exercem essa atividade tendem a atribuir-se o termo “cônsul”, no gênero masculino, embora não costumem abrir mão do artigo feminino, cunhando uma expressão como “a cônsul honorária”, em vez de “a consulesa honorária” ou “o cônsul honorário”.  Duquesas e marquesas não parecem ter-se incomodado com a forma feminina de seus títulos. Já pensou se tivéssemos de dizer “a marquês de Santos” ou “a barão de Itu”? Mas “a cônsul”… Lembra um antigo comercial de geladeira, cujo bordão era “Põe na Consul” (o nome da geladeira é assim mesmo, sem acento).

Curiosidade

Segundo o site Mundo das Marcas, o nome Consul, dado à primeira geladeira fabricada no Brasil, foi uma homenagem de seus criadores, Guilherme Holderegger e Rudolfo Stutzer, ao cônsul Carlos Renaux, que, empresário do ramo da tecelagem em Santa Catarina, deu ajuda financeira ao projeto de Stutzer, seu motorista e amigo.

BISPA SÔNIA

O termo “bispa” como feminino de “bispo” adentrou a mídia com muita naturalidade, já que foi esse o título assumido pela líder espiritual da Igreja Renascer em Cristo, figura constante no noticiário. Pode haver outras “bispas” de outras igrejas, mas o fato é que, segundo as gramáticas tradicionais, o feminino de “bispo” (termo certamente entendido no bojo do catolicismo, em que nomeia o chefe espiritual de uma diocese) é “episcopisa”. A palavra é calcada na forma “epíscopo”, de origem grega, que passou ao latim, veio para o português e evoluiu para “bispo”. “Bispa” surge como a natural flexão de “bispo”, mas num contexto totalmente diferente, ligado especificamente a certas denominações religiosas.

 

HIERARQUIA MILITAR

Capitã, coronela, generala… Dicionários registram, mas o uso parece repelir essas formas, sobretudo no ambiente militar. No âmbito do esporte, ocorre normalmente algo como “capitã do time”. “Coronela” e “generala” atribuem-se, informalmente, às mulheres casadas com coronéis e generais.

No dicionário Aulete, observa-se, no verbete “capitão”, que as formas de feminino são “capitã” e “capitoa”, esta última pouco usada, e que, entre os militares, a forma usual é a masculina, mesmo referente às mulheres.  Não explicita, porém, se o artigo que antecede essa forma ficaria no feminino (“a capitão”), coisa que contrariaria o princípio da concordância nominal, embora provavelmente seja o que se faz. Por ora, tudo indica que a força da nomenclatura masculina nas instituições militares não vá ceder espaço à presença feminina que, de fato, já existe no ambiente. Se é tão importante que esses termos estejam no masculino mesmo quando se referem a mulheres, melhor seria dizer “o capitão Maria Luísa” em vez de “a capitão” porque o  artigo determina o substantivo comum e com ele deve concordar. Ao redigir um texto, sempre é possível dar um volteio que contorne a questão – por exemplo, algo como “Maria Luísa de Andrade, capitão de mar e guerra, declarou…”. Mas por que será que as palavras femininas são rejeitadas mesmo estando as mulheres ocupando esses postos?

UNIVERSO CORPORATIVO

A hesitação na hora de fazer a flexão de gênero também chegou ao universo das empresas. Existem muitas mulheres se dizendo “auxiliares administrativos”, no masculino.  Muito difícil seria encontrar uma justificativa para isso. Um homem é diretor de uma empresa, uma mulher é diretora. Um rapaz é auxiliar administrativo, uma moça é auxiliar administrativa; homens são diretores financeiros, mulheres são diretoras financeiras – e assim por diante.  Simples assim.