-

Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

Perfil completo

Publicidade

Sala de Leitura estreia com Machado de Assis

Por Thaís Nicoleti

Ninguém melhor para a estreia da seção Sala de Leitura do que o “bruxo do Cosme Velho”.  Sim, é Machado de Assis que  hoje nos convida a adentrar o mundo da literatura. A obra escolhida foi o conto “A causa secreta”, que integra a coletânea “Várias Histórias”, publicada no ano de 1896. Se lhe parece “antigo”, talvez você se surpreenda com a atualidade da narrativa machadiana, que passa longe de rebuscamentos e é toda enlaçada pela fina ironia que só os inteligentes usam com tanta maestria.  O que vamos ler a seguir é o trecho inicial do conto.

    Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente – de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço.

    Tinham falado também de outra cousa, além daquelas três, cousa tão feia e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que, para fazê-lo entender, é preciso remontar à origem da situação.

 

 Comentário

Note como o autor apresenta os personagens centrais do conto: o primeiro período é formado de três orações assindéticas (sem conjunção), separadas por ponto e vírgula. As três orações têm a mesma estrutura interna (o nome, a posição de cada um  na sala, uma ação no pretérito imperfeito), o que combina perfeitamente com o uso dessa pontuação.

Ponto e vírgula

O ponto e vírgula é quase um ponto final, mas naturalmente não chega a sê-lo. Não é uma pontuação adequada para separar a oração subordinada da principal. O bom uso que dele fez Machado, organizando três orações de mesma estrutura interna, reforça a intenção do escritor de descrever a cena sem hierarquizar seus elementos.

Verbos no pretérito imperfeito

Se o pretérito perfeito indica uma ação terminada (alguém fez alguma coisa), o imperfeito indica uma ação não terminada (alguém fazia alguma coisa), o que pode sugerir tanto uma interrupção da ação quanto o seu  prolongamento por tempo indefinido. No texto de Machado, prevalece a ideia de duração (mirava, estalava, olhava, concluía), ou seja, são ações que as pessoas estão realizando no momento em que são vistas pelo narrador.

Tempo é de contar a história sem rebuço 

O autor opta por “tempo é”, em vez de “é tempo”, uma leve  inversão sintática, que dá ênfase ao que será narrado em seguida. “Sem rebuço” quer dizer “abertamente”, “sem rodeios”. “Rebuço” era o nome que se dava à parte de uma capa que cobria o rosto da pessoa. O narrador deixa claro que, por estarem mortos os personagens da história, ele poderá contar tudo sem disfarces ou qualquer constrangimento. Essa apresentação feita pelo narrador cria o efeito de suspense.

Verbos no presente do indicativo

Certamente você percebeu que, no segundo parágrafo, o narrador trouxe os verbos para o presente e empregou o advérbio “agora”.  Trata-se de um recurso de estilo que produz aproximação. É como se ele  transportasse a ação para diante dos olhos do leitor. Em seguida, suspende novamente a ação e comenta que “o que se passou foi de tal natureza que…”. Mais uma vez, atiça a curiosidade do leitor, dizendo sem dizer. Quem estiver muito curioso poderá ir diretamente ao restante do conto, que aqui continuaremos lendo aos poucos. 🙂

 

Blogs da Folha