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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Só ou sós?

Por Thaís Nicoleti

Quem é leitor de jornal certamente já deparou com os desagradáveis erros de digitação ou outros problemas de redação, muitos dos quais fruto do ritmo de produção dos textos.   Português Na Folha

Na Folha, realizamos um trabalho interno com os jornalistas a fim de ajudá-los a aprimorar o texto final e de minimizar os erros gramaticais. Na lida diária com as questões propostas por eles ou mesmo em posterior trabalho de análise do material publicado, tratamos dos mais diversos temas. Nesta seção, traremos ao leitor um pouco da rotina da Consultoria de Língua Portuguesa da Folha de S.Paulo.

Quem tiver lido o jornal nesta data natalina, terá visto a manchete “Triplica o número de idosos que vivem sós”. Muito bem. O emprego da forma “sós”, no plural, chegou a provocar dúvida entre os redatores. Afinal, ou sós?  “Sós”, exatamente como foi publicado.

Essa questão é frequente, uma vez que a palavra “só” pode ser um advérbio, caso em que não admitirá a flexão de número (plural), ou um adjetivo (sinônimo de “sozinho”), quando obececerá ao princípio da concordância, harmonizando-se com o substantivo a que se referir. Vejamos dois casos:

(1) Idosos só viajam acompanhados [com valor de advérbio, “só” equivale a “somente”; não admite plural]

(2) Idosos sós viajam pouco [com valor de adjetivo, “sós” equivale a “sozinhos”; concorda com “idosos”]

(3) Muitos idosos viajam sós [com valor de adjetivo, “sós” equivale a “sozinhos”; concorda com “idosos”]

O leitor atento terá notado que, em (2) e (3), embora tenha o mesmo valor semântico (sinônimo de “sozinhos”), o adjetivo “sós” produz sentidos diversos nas duas construções. Em (2), “sós” é uma característica permanente dos idosos (eles são efetivamente sós), mas, em (3), “sós” é uma característica circunstancial (sabemos que viajam sós, portanto são “sós” quando viajam). Entender essa distinção equivale a compreender a diferença entre adjunto adnominal (2) e predicativo do sujeito (3), dois nomes familiares a quem estuda a gramática do português. Essas são funções sintáticas que o adjetivo pode assumir na frase.

POR SI SÓ

Vez ou outra alguém quer saber se essa expressão é “invariável”. Não, não é. Vejamos um exemplo, publicado na coluna de Janio de Freitas (4.4.13):

“As exigências burocráticas de difícil acesso pelos empregadores domésticos tendem, por si sós, a multiplicar descumprimentos até que haja a prometida simplificação.”

O adjetivo “sós” está concordando com  “exigências burocráticas”, a expressão a que se refere. Caso se tratasse de uma só exigência, teríamos “por si só”. Veja:

A exigência burocrática tende, por si  só, a multiplicar…

A SÓS

Agora sim temos uma expressão invariável, que pode ser aplicada a um ou mais seres. Veja dois exemplos:

(1) Ele gostava de ouvir música a sós. [sozinho]

(2) Os namorados ficaram a sós depois do jantar. [um com o outro, sem outra companhia]

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Ainda em tempo de desejar a todos que o espírito de paz e confraternização permaneça para além das festas.

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