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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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CUJO OU ONDE?

Por Thaís Nicoleti

O leitor Emanuel Jackson traz uma questão sobre o emprego do pronome relativo “cujo”. O trecho apresentado por ele, extraído de prova de concurso, é o seguinte: final o leitor quer saber

Eles também mencionaram a importância do esforço conjunto que está sendo feito pelos TCs, cujo objetivo é traçar um diagnóstico sobre a gestão sustentável de zonas de preservação da floresta amazônica, estudando e analisando as principais ações do governo para a proteção do patrimônio ambiental…

Pergunta ele se haveria prejuízo da correção gramatical e do sentido original do texto caso se substituísse “cujo” por “onde o” e qual seria a função desse “onde o” na frase.

Em primeiro lugar, cumpre relembrar o emprego do pronome “cujo”, que estabelece com o antecedente relação de posse. Nas palavras de Celso Cunha e Lindley Cintra (“A Nova Gramática do Português Contemporâneo”), “cujo é, a um tempo, relativo e possessivo, equivalente pelo sentido a do qual, de quem, de que”.

No fragmento acima, o pronome pode relacionar os substantivos “esforço” e “objetivo” ou “Tribunais de Contas” e “ objetivo” (“o esforço cujo objetivo”, ou seja,  “o objetivo do esforço”; “os TCs, cujo objetivo”, ou seja, “o objetivo dos TCs” ). Essa equivalência nos dá uma pista para descobrir a função sintática do relativo “cujo”: o pronome substitui “do esforço” no sintagma “objetivo do esforço” ou “dos TCs” no sintagma “objetivo dos TCs”, logo exerce a função de adjunto adnominal, a mesma função exercida pelas referidas locuções.

Por estabelecer necessariamente a relação de posse entre dois substantivos (a moça cujos olhos = os olhos da moça; o rapaz cuja mãe = a mãe do rapaz), cujo sempre exercerá a função de adjunto adnominal.

O advérbio relativo “onde” equivale a “o lugar em que, no qual”. O termo aplica-se a lugares, portanto seu antecedente deve ser um nome que indique lugar (o país onde nasceu = o país no qual nasceu; a empresa onde trabalha = a empresa na qual trabalha) ou mesmo um advérbio de lugar (ali, onde nasce o sol = ali, no lugar em que nasce o sol). Sua função sintática é sempre a de adjunto adverbial de lugar.

O objetivo da questão proposta no concurso talvez fosse mostrar que o relativo “onde” retomaria TCs (Tribunais de Contas) como lugar em que alguma coisa tem existência, o que, a meu ver, alteraria o sentido original do texto, pois estaria sendo dito que os TCs são lugares onde [existe] o objetivo de traçar um diagnóstico sobre a gestão sustentável etc. Tal objetivo, como se depreende do contexto, está relacionado ao esforço conjunto que vem sendo feito pelos TCs. O objetivo desse esforço conjunto feito pelos TCs é traçar um diagnóstico sobre a gestão sustentável etc.

Note ainda que, para empregar “onde o”, aceitando o fato de que o sentido da mensagem se modificaria, seria necessário fazer algumas alterações no texto original. Não se construiria um texto assim: “… esforço feito pelos TCs, onde o objetivo é traçar um diagnóstico…”. Para que fosse cabível o emprego do “onde”, teríamos algo assim: “… esforço feito pelos TCs, onde existe o objetivo de…”.

É provável que a pergunta do exame tenha nascido da percepção de que o advérbio relativo “onde” tem sido usado com muita frequência nas mais variadas situações, como uma espécie de “articulador universal”, enquanto o pronome “cujo” tem sido escanteado por muita gente. Vale reforçar que cada um deles tem seu uso.  O manuseio seguro das formas contribui muito para a clareza e a fluência do texto.

 

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