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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Datação de acepções e variantes inova pesquisa etimológica

Por Thaís Nicoleti

Com a criação do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa (NEHiLP), em 2012, o professor doutor Mário Eduardo Viaro, da FFLCH-USP, dava início a um ambicioso projeto de pesquisa na área de etimologia. Em pouco tempo, reuniu pesquisadores da área e de outros campos do conhecimento.

Por meio da pesquisa em documentos antigos e atuais, entre os quais se inclui, desde o século 20, material gravado (em rádio, TV e internet), os estudiosos obtêm grande quantidade de informação linguística, que, depois de organizada, permite a geração de dados efetivamente confiáveis para a consulta tanto de especialistas em linguística como de estudiosos e/ou profissionais de outros setores da sociedade que se interessem por etimologia.

O DELPo

Viaro está hoje à frente do que será um grande avanço na sua área de pesquisa: a confecção de um Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (DELPo) que englobe o maior número de palavras do português.

“Será um dicionário da língua portuguesa antiga e moderna, culta e popular, comum e regional, em todas as suas variantes populares. Também serão incluídos elementos do galego-português anteriores ao Renascimento. Depois disso, o galego e várias línguas minoritárias ibero-românicas (como o mirandês) só entrarão como elementos comparativos, importantes para a reconstrução de sincronias antigas”, explica.

APOIO À PESQUISA MULTIDISCIPLINAR

Mais do que um grande projeto para os estudiosos do português, o Dicionário poderá servir de apoio a pesquisadores de outras áreas. “Nas humanidades, é comum afirmar que um determinado conceito foi sendo alterado com o passar do tempo. Um dicionário etimológico que busque a primeira ocorrência de uma palavra ou de uma acepção de uma palavra é um instrumento fundamental para evitar anacronismos. Buscas por datas podem definir quais palavras eram usadas em quais sincronias e que significado tinham então, assim como informar o aumento ou a diminuição de seu uso.”

O campo da linguística histórica será particularmente beneficiado pelo dicionário, já que “qualquer afirmação em linguística histórica deve evitar o anacronismo e deve pautar-se numa descrição realista das sincronias estudadas”.  Viaro ainda nos lembra que “nada disso foi feito até agora e que o estudo etimológico é a condição sine qua non dessa abordagem linguística”.

Os estudiosos de lexicologia e de semântica também terão à mão um precioso instrumento de trabalho. “A lexicologia e a semântica sincrônicas são, às vezes, falseáveis porque a sensibilidade do falante está mais adequada aos estudos de psicologia que aos dos universais linguísticos, que, em certa medida, requerem da parte do linguista algum conhecimento da história da palavra ou do grupo de palavras investigado”, explica.

A necessidade de um material como esse, inexistente no âmbito da língua portuguesa, é compartilhada pelos profissionais da área, que são conhecedores das falhas existentes nos poucos dicionários etimológicos da nossa língua. Viaro mostra que, entre essas falhas, estão a confusão de processos como derivação sufixal e prefixal com etimologia, a confusão de étimo com origem remota, a falta de cuidado com os étimos de línguas ágrafas, o desconhecimento da influência árabe no português e total arbitrariedade no que toca a étimos de origem indígena e africana, além, é claro, da abundância de étimos fantasiosos, que descaracterizam o estudo etimológico como um trabalho científico.

Acrescem-se a esses problemas outros, como a falta de datação segura dos vocábulos, fruto em parte da ausência de metodologia de trabalho, e a inexistência de hipóteses etimológicas para acepções. O que existe majoritariamente são datações de lemas (as “entradas” do dicionário).

PARCERIA E COLABORAÇÃO

Para tornar possível a criação do Dicionário, obra que pretende pôr ordem nessa espécie de caos, o NEHiLP convidou o professor doutor Marcos Dimas Gubitoso, do IME (Instituto de Matemática e Estatística – USP), que, à frente de uma pequena equipe, desenvolveu softwares capazes de responder às necessidades da pesquisa etimológica. “A versão atual do projeto vai muito além de sua proposta original e ainda há bastante espaço para crescer. Temos diversas ideias bem interessantes para o futuro, mas é preciso avançar um passo por vez”, diz.

Gubitoso, que, desde 2013, pertence ao grupo de pesquisadores do NEHiLP, conta que, mesmo sendo uma pessoa curiosa por natureza, nunca tinha imaginado trabalhar nessa área. Hoje, ele é um grande entusiasta do projeto: “O trabalho interdisciplinar é muito interessante e sempre traz a oportunidade de aprender bastante. O projeto é empolgante e a computação oferece a ele recursos valiosos. A nossa parceria floresceu rapidamente”.

COMPUTAÇÃO

O carro-chefe do sistema é um programa chamado Moedor, uma ferramenta bastante complexa por meio da qual o pesquisador consegue extrair de um texto todas as palavras que têm interesse para a etimologia e proceder à sua datação ou retrodatação.

Entre muitas coisas, o programa separa a data da primeira ocorrência de cada palavra e faz uma comparação com os dados previamente inseridos, a fim de informar se a palavra do texto analisado é ou não mais antiga que a do banco de dados.

O processo de “moagem” de um texto é a separação e classificação de suas palavras com a finalidade de verificar possíveis retrodatações, ou seja, de descobrir ocorrências mais antigas de uma palavra já datada.

Além do Moedor, foram criados um Concordanciador, programa que armazena todas as ocorrências obtidas no processo de “moagem” de uma obra, e um sistema manual de inserção de dados, ideal para as situações em que um texto não pode ser processado pelo Moedor.

O Concordanciador permite ao pesquisador fazer inserções e eventuais correções de dados, bem como atribuir diferentes acepções a um mesmo lema. O sistema manual foi carinhosamente batizado pela equipe do NEHiLP de “Papavero”, sobrenome do renomado especialista em zoologia, o professor doutor Nelson Papavero, do Museu de Zoologia da USP.

Homem de vastíssimo conhecimento, que ultrapassa a sua especialidade, Papavero tem sido um grande colaborador do Núcleo.

Ele nos conta que, desde sua aposentadoria, em conjunto com o professor doutor Dante Martins Teixeira, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, vem elaborando o Dicionário histórico de nomes populares de animais do Brasil: Quinhentos anos de nomenclatura zoológica popular.

O material já coligido contempla todas as variantes encontradas dos nomes populares de animais desde o início do século 16 até o momento presente. “Até ontem, eram por volta de cerca de 44.500 verbetes e a bibliografia inclui 9.868 referências. Para um dado nome, escolhido aleatoriamente entre seus sinônimos, informam-se a classificação do animal até onde é possível, sua distribuição geográfica, os sinônimos e variantes (quando os há) e as referências ao nome. Nas referências, citam-se os textos mais relevantes. Indicam-se também as tentativas de estabelecer uma etimologia”, explica o professor.

Embora esse seja um projeto pessoal de Papavero, fruto do trabalho desenvolvido ao longo de toda a sua carreira, o Dicionário certamente terá grande utilidade para a pesquisa etimológica. “Só foi possível fazer esse trabalho graças ao maravilhoso instrumento que é o Google! Frequentemente o Dante e eu encontramos novas obras, ou no Google, ou impressas, que têm que ser incluídas no texto. Uma coisa boa foi o desenvolvimento dos trabalhos de etnozoologia; há excelentes grupos de pesquisa que entrevistam pessoas em vários lugares do Brasil e obtêm novos nomes populares, mostrando a riqueza do conhecimento do nosso povo sobre a fauna”, diz.

INEDITISMO

Os softwares permitiram à equipe do NEHiLP algo inédito na pesquisa etimológica em língua portuguesa: a datação não só dos lemas como também de suas acepções e variantes. Uma palavra como “ponto”, por exemplo, pode ter dezenas de acepções. Cada uma delas terá sua própria datação, assim como as variantes (ou diferentes grafias que uma palavra pode assumir) também passam a ter datação.

PATROCÍNIO

Não há dúvida de que o NEHiLP tem em mãos um grande projeto, que já avançou bastante com o recente lançamento da plataforma digital do Dicionário Etimológico (anunciada no dia 25 de fevereiro de 2015). Gerida por um grupo de pesquisadores de alto nível, a iniciativa hoje precisa de investimento.

“O núcleo começou em 2012 com a declaração de um fomento proveniente da Pró-Reitoria da USP, um valor que seria parcelado em três vezes ao longo do triênio, mas, com a mudança do reitor e com a crise orçamentária da USP, 80% do valor remanescente de 2013 foi retido no início do ano passado. Negociamos longamente para conseguir um adiantamento e mantivemos as bolsas dos pós-doc e os monitores em 2014, mas em 2015 o saldo é insuficiente para manter o projeto. Como isso nos pegou bem no meio do projeto, não pudemos interromper o trabalho para buscarmos outros órgãos de fomento estaduais ou federais. Penso, todavia, que, ao apresentarmos nosso ambicioso projeto, haverá interesse da parte de outros patrocinadores que costumam investir em cultura, mas ainda não fomos procurá-los”, explica Viaro.

Seria lastimável que, por falta de recursos, um trabalho desse porte, único no âmbito da língua portuguesa, se perdesse ou deixasse de dar os frutos que tão cuidadosamente vêm sendo semeados pelos pesquisadores.

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