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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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O bom leitor

Por Thaís Nicoleti

Os antigos diziam que, “para bom entendedor, meia palavra basta”. É provável que com isso quisessem dizer que devemos ler mesmo
o que não está explícito num texto.

Já não é novidade entre professores e estudantes que a leitura competente requer muito mais que o conhecimento do sentido literal das palavras e da organização gramatical do conteúdo. Outro não é o motivo de exames vestibulares e provas de português de concursos enfatizarem a compreensão refinada do texto.

Vale dizer que, quanto mais a pessoa lê, melhor tende a ser a sua leitura, seja por se familiarizar com os componentes linguísticos, seja por ampliar seu leque de referências históricas e culturais.

Todo texto é inserido em contexto extralinguístico (histórico, político, social etc.), com o qual dialoga. Isso quer dizer que, entre o enunciador do texto e o seu receptor, há um saber compartilhado, que não precisa ser explicitado.

O bom leitor não pode ser ingênuo. Cabe a ele ler também o que está escrito nas entrelinhas, ou seja, as informações implícitas. O linguista francês Oswald Ducrot já afirmava que não existem enunciados que ocorram fora de um contexto.

Imaginemos que alguém profira uma frase nominal, como “Belo gesto!”. É evidente que o contexto é que irá permitir dizer se devemos entendê-la como um elogio (sentido literal) ou como uma crítica (ironia). O bom leitor sabe disso e permanece atento aos pressupostos e subentendidos dos textos.

Esses conceitos distinguem dois tipos importantes de informação implícita num texto.

Os pressupostos são, por assim dizer, indiscutíveis. Só a um fumante sugerimos que deixe de fumar. Não recomendaríamos a quem nunca fumou  que deixasse de fazê-lo. Está, portanto, pressuposto numa construção como “Você deveria deixar de fumar” que o interlocutor é fumante. Caso contrário, a frase não teria sentido.

Os subentendidos, por sua vez, são um pouco mais sutis. São aquelas ideias sugeridas nas entrelinhas, mas não assumidas explicitamente pelo enunciador. Quando pergunta ao interlocutor se ele “tem horas”, a pessoa não espera uma resposta do tipo “sim” ou “não”. Espera, isto sim, que o outro lhe informe que horas são.

Há quem diga, jocosamente ou não, que nossos amigos portugueses responderiam a essa pergunta com um simples “Tenho, sim, senhor”. Para nós, brasileiros, isso soa engraçado, pois, no nosso contexto cultural, a pergunta “Você tem horas?” é apropriada para indagar que horas são. Nada impede, porém, que seja respondida “à moda lusitana”, pois o subentendido está necessariamente ligado a um contexto sociocultural, que pode não ser o mesmo  ainda que a língua seja a mesma. Seria uma resposta frustrante para o emissor brasileiro, mas não seria sem sentido.

Feita a distinção entre pressupostos e subentendidos, cabe uma palavra ainda sobre estes últimos. Embora postos no discurso pelo enunciador (aquele que fala ou escreve um texto), a sua compreensão fica a cargo do receptor da mensagem — e o enunciador sempre poderá negá-los, dizendo que não foi isso o que quis dizer. Nesse tipo de “defesa”, o enunciador não reconhece o subentendido que ele próprio provocou e “exige” que sua mensagem seja lida no sentido literal, como se não houvesse contexto ou universo de  referências.

Essa é uma estratégia largamente empregada por aqueles que não querem se comprometer com o que estão dizendo. É como se transferissem ao receptor (ouvinte ou leitor) a responsabilidade pela informação ou ideia que queriam transmitir. Escondem-se atrás dos subentendidos e os negam se acharem nisso algum tipo de vantagem, alegando, em geral, que foi o receptor da mensagem que não a entendeu. Vão “comprovar” seu ponto de vista apelando para o sentido literal das palavras.

Hoje, os estudos da linguística têm chegado às escolas de ensino médio, onde professores e estudantes já promovem debates no campo da análise do discurso, disciplina que se ocupa de questões desse tipo.

É esse o caminho para formar um bom leitor, ou seja, um leitor capaz de ler o que está escrito nas linhas e nas entrelinhas.

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