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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Acordo Ortográfico: entre querelas e mal-entendidos

Por Thaís Nicoleti

Desde  o último dia 13 de maio, o Acordo Ortográfico está oficialmente em vigor em Portugal, apesar de alguma controvérsia; no Brasil, embora esteja em uso desde 2009, quando a imprensa o adotou sem restrições, a data da entrada oficial em vigor foi adiada para 2016, sob o pretexto de ampliar as discussões, dando voz a algumas pessoas que não tinham participado das tratativas até então. Os autores do litígio eram liderados pelo professor que propunha a abolição definitiva da letra “h”, a supressão do dígrafo “ch”, que seria substituído pelo “x”, e outras  modificações baseadas apenas na fonética. Tal proposta, ao que tudo indica, não teve acolhida.

Ainda assim, o referido professor criou o Centro de Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa, do qual se fez presidente, tendo chamado para vice o seu colega de GTT (grupo técnico de trabalho) do Senado, que, advogado, é membro da seção goiana da OAB. O tal centro, segundo seu fundador, milita “em defesa da democratização da língua portuguesa”. Em outras palavras, o presidente e o vice-presidente desse instituto são os responsáveis pelo adiamento da entrada em vigor no Brasil do Acordo, que, na opinião deles, deixou a desejar.

Embora se digam unidos na “defesa da língua portuguesa”, presidente e vice defendem ideias muito diferentes entre si. O presidente queria fazer uma mudança radical no sistema ortográfico, já o vice se contenta em estabelecer uma cota de palavras, que ficariam imunes às mudanças propostas pelo Acordo. Mais curioso é que um queria abolir o “h” de uma vez por todas, mas o outro mostra grande apreço pelo mesmo “h”, tanto que não aceita a supressão dessa letra em duas palavras da língua (coerdeiro e coerdar).

É bom que se diga que a língua, por si só, talvez seja a nossa maior reserva democrática, independentemente da ação de paladinos de qualquer espécie, pois ela segue seu curso, como uma senhora indiferente às escaramuças perpetradas em seu nome.

A nova proposta é que voltem para o antigo sistema ortográfico alguns termos que têm uso no universo jurídico. Sendo assim, por ter uso jurídico, a palavra “arguição” deveria recuperar o trema perdido. “Coautor”, “contrarrazões”, “coobrigação”, “coerdeiro”, “semiaberto”, pelo mesmo alegado motivo, deveriam ignorar as mudanças e retornar à forma antiga.  É curioso que as leis mudem, acompanhando as transformações sociais e políticas, mas a simples grafia de uma palavra não possa mudar  em nome de um acordo que envolve a comunidade de países lusófonos. Do ponto de vista jurídico, qual seria a diferença entre “coautor” e “co-autor”?  Reforma ortográfica é apenas o que revela o próprio nome: muda a grafia, não muda a pronúncia, não muda o significado da palavra. O advogado/ professor, no entanto, acredita que, na condição de “conceito jurídico”, “hora extra” deva receber um hífen. Na condição de substantivo seguido de adjetivo (como senso comum, edição extra e outras sequências), o hífen não parece fazer falta.

Ele esteve reunido recentemente em Portugal com membros da Ordem dos Advogados daquele país a fim de apresentar essa proposta, na qual se incluem as grafias “ação” e “afetação” (usadas no Brasil). Em Portugal, essas palavras tinham outras formas: “acção” e “afectação”. Com o Acordo, “acção” mudou para “ação”, mas “afectação” coexiste com “afetação”.  Note-se que as grafias duplas contemplam diferenças de pronúncia, oficializando as duas. Em Portugal, pronuncia-se o “c” de “facto”; no Brasil, dizemos (e escrevemos) “fato”; em Portugal, pronuncia-se “corrução” (e assim se escreve); no Brasil, pronunciamos a letra “p” de “corrupção” (e assim grafamos a palavra). Tais diferenças, por estarem ligadas à pronúncia, não podem ser ignoradas, de modo que a solução foi manter algumas grafias duplas.

Para alimentar o imbróglio, vem o colega cronista Gregório Duvivier, a  propósito de fazer chistes, escrever texto crítico ao Acordo Ortográfico, que, no entender dele,  é tão irritante quanto a tomada de três pinos. O humorista, craque do stand-up comedy, embora seja sagaz e divertido, é impreciso ao tratar de certos pontos da nova ortografia. Em sua crônica, afirma que a tomada de três pinos tornou obsoletos todos os eletrodomésticos e, numa analogia fácil, afiança que o Acordo Ortográfico tornou obsoletos todos os livros publicados antes de 2009 – e isso num país em que pouco se lê etc.

Tomara que nenhum leitor leve isso a sério. Pequenas alterações — em 0,5% do léxico do português do Brasil e em 1,5% do léxico do português de Portugal — não tornam livro nenhum obsoleto. Somente livros específicos sobre ortografia podem ter perdido a utilidade imediata, mas nem mesmo esses ficaram obsoletos, uma vez que não é da natureza do livro ficar obsoleto (todo livro é um registro de uma época).

Para ilustrar o próprio raciocínio, Duvivier comparou “pão de ló” (sem hífen depois do Acordo) com “pão-de-leite” (com hifens antes e depois do Acordo por tratar-se de nome de planta). O colunista não mencionou o fato de “pão-de-leite”, com hifens, ser o nome de uma planta (Primula acaulis, L.).

pão-de-leite (com os hifens)
pão-de-leite (com os hifens)

Daí por que muita gente possa ter pensado que o “pão de leite” vendido na padaria passou a ser escrito com hifens. Nada disso!

Pão de leite, pão de queijo, pão de batata, todos sem hífen. Aliás, esses termos nunca tiveram hífen, mesmo quando se escrevia “pão-de-ló” (com hifens), e ninguém reclamava de incoerência.

O que fez o Acordo nessa seara específica foi retirar os hifens dos compostos que, ligados por algum tipo de conectivo, possam ser entendidos como uma locução substantiva, uma espécie de expressão.

Ficaram de fora apenas os compostos que, mesmo ligados por uma preposição, designam espécies botânicas e animais. É por isso que uma planta denominada “pão-de-leite” se escreve com hifens, mas o pão feito com leite não. O mesmo vale para “boca-de-lobo” (com hifens, denomina uma planta) e “boca de lobo” (sem hifens, é o bueiro). “Mão-de-vaca”, com hifens, é nome de planta; a pessoa avarenta é chamada de “mão de vaca”, sem hifens. “Pé-de-galinha”, com hifens, é uma planta; “pé de galinha”, sem hifens, é o conjunto de rugas que se forma em torno dos olhos.

Vale lembrar que, no sistema anterior, havia hifens em “fim-de-século” e “fim-de-safra” (filho mais novo), mas não havia em “fim de semana” nem em “fim de ano”.  “Cor-de-rosa” tinha registro com hifens, mas “cor de vinho” e “cor de laranja” não.

Quanto a “pé-de-meia” e “cor-de-rosa” terem permanecido com os hifens, aí sim, temos motivo para fazer uma crítica, mas nem por isso precisamos arrancar os cabelos. As exceções à regra são pé-de-meia (no sentido figurado, de poupança), cor-de-rosa, arco-da-velha e água-de-colônia. Essas palavras foram citadas no texto do Acordo como grafias consagradas. Tudo indica que, com mais algum tempo, esse ajuste vá ser feito e esses hifens vão acabar desaparecendo. Assim esperamos, mas isso de modo algum invalida todo o trabalho que foi feito até agora, nem deveria dar ensejo a discursos sensacionalistas.

Repetir a ladainha de que uma suposta manchete de jornal em que aparecesse a forma verbal “para” sem acento (obra do Acordo) não seria compreendida é, no mínimo, subestimar demais o leitor. Aliás, qualquer leitor de jornal sabe que os títulos de notícias contêm uma forma verbal (Manifestação para trânsito). Não há por que achar que esse “para” poderia ser uma preposição. Afinal, quando a mesma frase é lida em voz alta no noticiário de TV ou de rádio, todos entendem sem saber como a palavra estava escrita.

De resto, os saudosos do acento diferencial de “pára” não parecem defender com as mesmas unhas e dentes as grafias antigas “pára-quedista” e “pára-quedismo”. Vale lembrar que “paraquedista” e “paraquedismo”, agora grafias oficiais, já vinham sendo usadas sem a menor cerimônia. Encontrar alguém que acertasse a grafia correta segundo o sistema antigo era tão fácil quanto encontrar agulha no palheiro.

Dureza mesmo é ver profissionais que conhecem a ortografia, tanto a nova como a anterior, às turras com o Acordo Ortográfico sete anos depois da sua implantação. Problemas há, mas são coisa miúda. É totalmente desproporcional o alarido que fazem alguns dos autointitulados críticos do Acordo.

É verdade que, segundo o texto do Acordo, as palavras “co-herdeiro” e “co-herdar” continuariam sendo escritas com hífen e “h”. A ABL, no entanto, tomou a liberdade de  fazer que esses dois termos fossem grafados como o verbo “coabitar”, que  os críticos não pensaram em escrever “co-habitar”. Pugnam pela volta do sistema anterior sem considerar os defeitos que ele tinha. O prefixo “co-” ora vinha preso por hífen, ora vinha incorporado ao termo seguinte (sem nenhum critério claro). Esses que dizem reivindicar um sistema “lógico” são os primeiros a rejeitar uma simplificação “logica” (representada pelas grafias coerdeiro e coerdar), que vem evitar mais exceções (se “co-herdeiro” é regra, “coabitar” é exceção e vice-versa). Em suma, os tais integrantes do GTT parecem representar cada um a si próprio – o ponto comum entre eles é negar o Acordo a qualquer preço, fomentando o dissenso.

Há críticas em Portugal? Sim, mas diversas das que se veem por aqui. Para fazer um acordo, as partes tiveram de fazer concessões. Em Portugal, as críticas que se fazem ao Acordo dizem respeito, sobretudo, à supressão das consoantes mudas (“p” de “óptimo”, por exemplo, ou “c” de “acção”), coisa que não repercute no Brasil, uma vez que já suprimimos essas consoantes há muito tempo. Os brasileiros cederam alguns acentos e o trema (além do trema, os antigos acentos de “geleia” e de “feiura” já não eram usados em Portugal bem antes do Acordo; nós, brasileiros, incorporamos agora essa mudança). As críticas de cá e as de lá são, portanto, muito diferentes. A atitude de não querer ceder, de não aceitar a mudança, essa sim é semelhante. Nem todos querem entrar em acordo; há sempre quem prefira a resistência ou a hostilidade. Esses, porém, são contrários a fazer qualquer tipo de acordo.

Note-se que é praticamente impossível ajustar todas as palavras sem que sobre uma ou outra exceção. Há uma série de problemas envolvidos numa reforma ortográfica. Críticas, portanto, sempre vai haver. O sistema anterior tinha vários problemas, dos quais não se ouve ninguém falar.

A dificuldade de estabelecer regra única para o emprego do prefixo “pré/pre”, por exemplo, é coisa antiga, mas há quem faça parecer, em eloquentes arroubos de duvidosa retórica, que esse foi um problema criado pelo Acordo. Os tais críticos também não têm solução ou proposta para resolver o problema, que envolve fonética e fatores ligados à diversidade de falas regionais. A língua democraticamente encontrará o melhor caminho.

De resto, fazer voltar a grafia de uma pequena lista de palavras do vocabulário, criando no idioma uma ilha de termos intocáveis, não parece favorecer o aprendizado “lógico” da língua, muito menos combina com os propósitos democráticos tão propalados aos quatro ventos.

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