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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Hércules-Quasímodo, o sertanejo de Euclydes da Cunha

Por Thaís Nicoleti

É muito provável que, mesmo sem ter lido “Os Sertões”, muita gente conheça a frase que celebrizou a obra máxima de Euclydes (ou Euclides) da Cunha: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. final sala de leitura

Hoje, vamos ler um trecho do terceiro capítulo da segunda parte do livro (intitulada “O Homem”), que começa exatamente com essa afirmação. Para ajudar o leitor, foram postas entre colchetes explicações de alguns termos empregados pelo autor.

Como temos observado, chama a atenção no estilo do escritor a obsessão (no bom sentido!) pelo emprego preciso dos termos e pelo uso do par substantivo/adjetivo.

Procure observar outro traço estilístico da obra: a alternância de parágrafos longos (não raro constituídos de uma só frase bastante longa) com parágrafos muito curtos, de um só período. O parágrafo curto, de alto impacto, sintetiza a reflexão de Euclydes.

Hoje, 15 de agosto, aniversário da morte trágica do escritor, encerro esta sequência de textos da sua obra. Sua leitura é a maior homenagem que se pode fazer à memória do autor. Não se trata de tarefa das mais fáceis, como é preciso reconhecer, mas nisso reside o desafio. Reserve um tempo para ler, longe das inúmeras distrações do mundo real e do virtual.

Boa leitura!!

 

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno [porte elegante, ereto, desempenado], a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade [característica daquilo que é feio] típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo [posição elegante, ereta], quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal [susta o movimento do animal puxando as rédeas] para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela [parte da sela em que se apoia a coxa do cavaleiro]. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo — cai é o termo — de cócaras [variante de cócoras], atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.

É o homem permanentemente fatigado.

Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene [perda permanente do tônus muscular], em tudo: na palavra remorada [fala lenta, interrompida], no gesto contrafeito [desfigurado], no andar desaprumado, na cadência langorosa [fraca, enfraquecida] das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude.

Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.

Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida [fraca, sem firmeza] operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormidas [variante de ‘adormecidas’]. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando [ostentando, exibindo com orgulho] novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes [com presteza, rapidamente], numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar [comum, corriqueiro, usual] do tabaréu canhestro [indivíduo simplório e desajeitado], reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado [gigante amorenado] e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias.

Este contraste impõe-se ao mais leve exame. Revela-se a todo o momento, em todos os pormenores da vida sertaneja — caracterizado sempre pela intercadência impressionadora entre extremos impulsos e apatias longas [longos períodos de desânimo].

É impossível idear-se [idealizar-se] cavaleiro mais chucro [não domado, sem traquejo, grosseiro] e deselegante; sem posição, pernas coladas ao bojo da montaria, tronco pendido para a frente e oscilando à feição da andadura [passo de cavalgadura] dos pequenos cavalos do sertão, desferrados e maltratados, resistentes e rápidos como poucos. Nesta atitude indolente [indiferente, desleixada, descuidada], acompanhando morosamente [lentamente], a passo, pelas chapadas, o passo tardo [lento] das boiadas, o vaqueiro preguiçoso quase transforma o campião [variante antiga de ‘campeão’] que cavalga na rede amolecedora em que atravessa dois terços da existência.

Mas se uma rês alevantada [que fica em pé] envereda, esquiva [arredia, arisca], adiante, pela caatinga garranchenta [cheia de galhos tortuosos]; ou se uma ponta [chifre] de gado, ao longe, se trasmalha [escapa, se afasta do bando], ei-lo em momentos transformado, cravando os acicates [esporas] de rosetas largas [parte móvel da espora, em forma de roda dentada] nas ilhargas [parte lateral do corpo] da montaria e partindo como um dardo, atufando-se [embrenhando-se] velozmente nos dédalos [labirintos] inextricáveis [que não se podem desembaraçar] das juremas [árvores de caule tortuoso].

Vimo-lo neste steeple-chase [corrida com obstáculos] bárbaro [desumano, feroz].

Não há contê-lo, então, no ímpeto. Que se lhe antolhem [que se lhe apresentem aos olhos] quebradas [declives de montanhas], acervos [grandes quantidades] de pedras, coivaras [gravetos e troncos soltos], moitas de espinhos ou barrancas de ribeirões, nada lhe impede encalçar [perseguir] o garrote [bezerro] desgarrado, porque por onde passa o boi passa o vaqueiro com o seu cavalo

Colado ao dorso deste, confundindo-se com ele, graças à pressão dos jarretes [parte da perna oposta ao joelho, pela qual este se flexiona] firmes, realiza a criação bizarra de um centauro bronco [tosco, não polido]: emergindo inopinadamente [inesperadamente] nas clareiras [local de vegetação rasteira ou sem vegetação em meio a um bosque]; mergulhando nas macegas [tipo de arbusto} altas; saltando valos [muros; fossos] e ipueiras [charcos]; vingando cômoros alçados [ultrapassando, vencendo dunas ou montes elevados]; rompendo [atravessando], célere [com rapidez], pelos espinheirais mordentes; precipitando-se, a toda brida [a toda a velocidade, à rédea solta], no largo dos tabuleiros [tipos de terreno]

A sua compleição robusta ostenta-se, nesse momento, em toda a plenitude. Como que é o cavaleiro robusto que empresta vigor ao cavalo pequenino e frágil, sustenta-o nas rédeas improvisadas de caroá [planta de cuja fibra se fazem cordas], suspendendo-o nas esporas, arrojando-o na carreira [lançando-o com ímpeto na estrada] – estribando curto, pernas encolhidas, joelhos fincados para a frente, torso colado no arção [armação da sela],escanchado [montado] no rastro do novilho esquivo: aqui curvando-se agilíssimo, sob um ramalho [ramo cortado de árvore, grande e seco] que lhe roça quase pela sela; além desmontando, de repente, como um acrobata, agarrado às crinas do animal, para fugir ao embate de um tronco percebido no último momento e galgando, logo depois, num pulo, o selim; — e galopando sempre, através de todos os obstáculos, sopesando à destra [equilibrando (coisa pesada) com a mão direita] sem a perder nunca, sem a deixar no inextricável dos cipoais, a longa aguilhada [aguilhão, vara de tanger bois] de ponta de ferro encastoada [arrematada] em couro, que por si só constituiria, noutras mãos, sérios obstáculos à travessia…

Mas terminada a refrega, restituída ao rebanho a rês dominada, ei-lo, de novo caído sobre o lombilho retovado [sela forrada de couro], outra vez desgracioso e inerte, oscilando à feição da andadura lenta, com a aparência triste de um inválido esmorecido [desanimado, triste].

(IN: CUNHA, E – “Os Sertões”, Círculo do Livro, s/d)

Hércules-Quasímodo

A expressão com que Euclydes da Cunha sintetizou sua percepção do sertanejo é dos mais conhecidos oximoros da literatura brasileira. Oximoro é o nome de uma figura de retórica que consiste em combinar palavras de sentido oposto, que, à primeira vista, parecem contradizer-se, excluindo-se mutuamente, mas que, no contexto, reforçam um sentido pretendido.

A força do herói mitológico Hércules e a fealdade de Quasímodo (referência à personagem monstruosa da obra “Notre-Dame de Paris”, de Victor Hugo), na visão do autor, são, juntas, a síntese do sertanejo que ele encontrou em Canudos. Ele vê um homem adaptado ao meio em que vive, cuja aparência “permanentemente fatigada” oculta a força de um guerreiro.

Um pouco de gramática

“Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso.”

Nessa frase, o autor constata que a aparência de cansaço desaparece repentinamente. A estrutura sintática escolhida por ele em “vê-la desaparecer”  nem sempre é empregada no registro oral da língua. É comum ouvirmos “ver ela desaparecer”, “ver ela chegar” etc. Você já notou que há uma diferença entre essas estruturas? Este costuma ser o momento em que as pessoas perguntam qual é, afinal, a forma “correta”.

Vamos tentar não fazer essa pergunta, pois, ao considerar uma forma “correta” e a outra “errada”, estamos  apenas simplificando uma questão complexa. Certamente as duas estruturas coexistem na língua portuguesa, queiramos ou não.

A do texto euclidiano está no registro formal, no qual o sujeito do infinitivo (“desaparecer”) é representado por um pronome de objeto direto (oblíquo/ -la), enquanto a da fala sinaliza possível mudança no decorrer do processo evolutivo da língua (substituição do pronome de objeto direto pelo de sujeito/ -la para ela).

Vamos compreender a estrutura própria do registro formal: existe um grupo de verbos auxiliares (chamados causativos e sensitivos) cujo complemento são orações reduzidas de infinitivo (como a da frase de Euclydes: vê-la desaparecer) ou orações desenvolvidas (ver que ela desaparece). Como esses verbos (mandar, deixar, fazer, ver, ouvir, sentir) são transitivos diretos, a oração que vier a completar algum deles será o seu objeto direto.

Essa estrutura foi, por assim dizer, herdada do latim. Os verbos acima (todos transitivos diretos) regem uma oração infinitiva no caso acusativo (grosso modo, o caso acusativo do latim equivale ao objeto direto do português), cujos elementos apareciam no latim declinados no acusativo. O português não herdou as declinações do latim, mas conservou, nos pronomes pessoais, a distinção entre formas de sujeito (eu, tu, ele, nós, vós, eles) e formas de objeto (me, te, se, lhe, o, a, nos, vos, lhes, os, as).

O sujeito do infinitivo é uma espécie de sujeito no caso acusativo (é sujeito, mas é representado pelo pronome de objeto direto). É por isso que, no registro formal, veremos construções como “mandou-o sair” e “deixe-me ver”, que, em contextos (bem) menos formais aparecem como “mandou ele sair” e “deixe eu ver”.  Note que a substituição do pronome oblíquo pelo reto parece mais frequente na terceira pessoa gramatical (ele, eles).

Procure observar, nos ambientes que você frequenta, qual é a construção mais usada. 🙂

 

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