Musa libérrima, exata e audaz

Por Thaís Nicoleti

Hoje teremos Manuel Bandeira, Castro Alves e Machado de Assis. O fio que conduzirá a leitura dos textos será não propriamente o seu tema, mas, antes, o emprego do superlativo, um dos graus do adjetivo, que vamos examinar aqui.

O poema de Bandeira, “Improviso”, é dedicado a Cecília Meireles, sua amiga e companheira de ofício. Desde o título escolhido, o poeta já antecipa uma das ideias centrais do texto: a liberdade. Diz ele: final sala de leitura

Cecília, és libérrima e exata / Como a concha. / Mas a concha é excessiva matéria, / E a matéria mata. // Cecília, és tão forte e tão frágil / Como a onda ao termo da luta. /Mas a onda é água que afoga: / Tu, não, és enxuta. // Cecília, és, como o ar, / Diáfana, diáfana. / Mas o ar tem limites: / Tu, quem te pode limitar? // Definição: / Concha, mas de orelha; / Água, mas de lágrimas; / Ar com sentimento. / – Brisa, viração / Da asa de uma abelha.  

Vale lembrar que  o título, “Improviso”, pode remeter a um tipo de composição musical de caráter livre e que o próprio poeta opta por liberdade formal na composição dos versos.

A ideia de liberdade, que persiste no decorrer do texto,  aparece no primeiro verso na forma do superlativo absoluto sintético do adjetivo “livre” (“és libérrima e exata”, numa associação de imagens que pode ser percebida como paradoxal: ser exato e ser livre ao mesmo tempo).

Essas características que o poeta vê em Cecília Meireles podem ser atribuídas ao próprio fazer poético: que é fazer poesia, senão ser livre e exato, forte e frágil, sem limites, exprimir a dor das lágrimas, o sentimento? Fica para o leitor um mote de reflexão.

Voltemos aos superlativos. O romântico Castro Alves também fez uso da forma “libérrima”. Para o vate romântico,  a poesia é uma “musa libérrima”, à qual ninguém pode calar. No seu belíssimo “Navio Negreiro”, o poeta a invoca para denunciar o crime da escravidão. Vejamos uma estrofe do poema:

Quem são estes desgraçados / Que não encontram em vós / Mais que o rir calmo da turba / Que excita a fúria do algoz? / Quem são?  Se a estrela se cala, / Se a vaga à pressa resvala / Como um cúmplice fugaz, / Perante a noite confusa… / Dize-o tu, severa Musa, / Musa libérrima, audaz!…

Os dois poetas, em textos e contextos bastante diversos, empregaram o superlativo “libérrima”, um termo de feição erudita, não muito ouvido na linguagem do dia a dia. O superlativo é a intensificação do grau de um adjetivo. O nome dado pela gramática tradicional a esse tipo de superlativo  não está isento de alguma controvérsia, como mostra o gramático Said Ali, que nos lembra ser praticamente impossível saber qual é o último grau a que se eleva uma qualidade, daí a impropriedade de chamar o superlativo de “absoluto”. Por esse motivo, ele opta pelo termo “intensivo” no lugar de “absoluto”.

Você já deve ter notado que a maior parte desses superlativos tem a terminação “-íssimo” (altíssimo, caríssimo, importantíssimo, educadíssimo, engraçadíssimo etc.), mas alguns terminam em “-érrimo”. Por que será?

Vale lembrar que esses superlativos entraram na língua portuguesa no século 15 por influência erudita e, assim, recuperaram os radicais latinos dos adjetivos. Os terminados em “r”, como liber- (livre), niger- (negro), pauper- (pobre), têm o “r” duplicado, daí formas como libérrimo, nigérrimo e paupérrimo.

MAGÉRRIMO OU MACÉRRIMO?

Eis o superlativo de “magro”, cuja forma latina era “macer-”. Pela via erudita, surgiu “macérrimo”, mas o povo tratou de associar a terminação “-érrimo”, que se mostrou fértil em vocábulos bastante expressivos (chiquérrimo, chatérrimo), ao radical do termo em português, daí “magérrimo”, com “g”, palavra largamente usada no Brasil, embora rechaçada por gramáticos tradicionais.

Note-se que, em chiquérrimo e chatérrimo, não há radical terminado em “r”, o que levaria a formas como chiquíssimo e chatíssimo. Ouve-se ainda uma forma como “chiquésimo”, que tem valor marcadamente expressivo. Apresenta a terminação dos numerais ordinais (milésimo, centésimo) empregada com valor intensivo. É um fenômeno da língua em uso hoje. Existe na internet um site de artigos de luxo cujo nome é “Chiquérrimo”.

LISTAS DE SUPERLATIVOS

Houve tempo em que os estudantes tinham de memorizar imensas listas de termos eruditos, entre as quais figurava a lista de superlativos. Muita gente deve ter achado aborrecido esse tipo de estudo e se afastado de um conhecimento muito interessante. Há como mostrar as palavras na sua “vida real”, seja quando aparecem nos textos, com finalidade estética, seja quando são faladas no dia a dia para comunicar ideias e afetos.

UM DEVER AMARÍSSIMO

Os leitores de Machado de Assis deverão estar lembrados de um curioso personagem da obra “Dom Casmurro” que “amava os superlativos”. No capítulo intitulado “Um dever amaríssimo!”, temos a antológica descrição de José Dias. Vamos rever a passagem (o narrador da obra é Bentinho, o Dom Casmurro):

José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as havendo, servia a prolongar as frases. Levantou-se para ir buscar o gamão, que estava no interior da casa. Cosi-me muito à parede, e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um arco de aço por dentro, imobilizava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de chita, veste caseira e leve, parecia nele uma casaca de cerimônia. Era magro, chupado, com um princípio de calva; teria os seus cinquenta e cinco anos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não aquele vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!

[IN: ASSIS, J.M. M de –  D. Casmurro, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1969 – texto adaptado à ortografia atual]

A conhecida ironia machadiana é o que há de mais divertido nessa passagem do romance. Note como o autor descreve o personagem, associando sua aparência física, seu modo de vestir-se, à sua personalidade. Sobrou ironia até mesmo para os superlativos. É interessante observar como, na época do romance (fim do século 19),  já se considerava artificial o uso dessas formas. É caricato o personagem que tem por hábito o emprego sistemático dessas palavras, “um modo de dar feição monumental às ideias” e, na ausência delas, um modo de “prolongar as frases”.

“Amaríssimo” é o superlativo de “amargo”, calcado na forma “amaro”, do latim “amarus”, que também pertence ao português, embora seja menos usada. No dicionário “Houaiss”, é citada também a forma “amarguíssimo” como superlativo de “amargo”, o que comprova a tendência, observada em “magérrimo”, ao uso do sufixo “-íssimo” com os radicais do português. É por isso que vemos “pobríssimo” ao lado de “paupérrimo” e “negríssimo” ao lado de “nigérrimo”. Houaiss ainda menciona “livríssimo” ao lado de “libérrimo”.

Há muito a falar sobre os superlativos. Voltaremos ao tema num próximo texto. 🙂

 

 

 

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