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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Curto, logo existo

Por Thaís Nicoleti

E aí? Curtiu? Não, ninguém está perguntando se você colocou o couro de molho para amaciá-lo num curtume. O uso informal do verbo “curtir” parece ter sobrepujado o outro nestes tempos de redes sociais, quando a ordem é dizer em poucas palavras o que quer que seja. Na maior parte das vezes, nem é preciso dizer nada: basta clicar no botão “curtir”. temalivre

À primeira vista, pode parecer que estamos dizendo que gostamos daquilo que foi publicado pelo amigo e é claro que, muitas vezes, pode ser isso mesmo, mas… nem sempre.

Alguém posta na rede social a notícia da morte de um parente e divulga a data do velório e do enterro. Logo abaixo, “76 pessoas curtiram isso”. Outro publica foto que o retrata em cama de hospital tratando de alguma doença: “115 pessoas curtiram isso”.

Difícil dizer que as pessoas estão, de fato, “curtindo” esses eventos, mas apertar o botão é muito fácil e serve para emitir algum tipo de mensagem. Qual?

Pode estar o sujeito dizendo apenas que viu a publicação e que se solidariza com o fato. Pode dar-se também o caso de não estar querendo dizer nada. Se quisesse dizer algo, faria um comentário, certo?

O botão “curtir” serve, por certo, para mantermos ativo o canal de comunicação, essa a função fática de que fala Roman Jakobson. Significa basicamente que aquele que curtiu está ativo na rede, está disponível, algo como “curto, logo existo”.

Não se pode negar que haja outras motivações para clicar no botão “curtir”. O número de curtidas recebidas serve para mensurar o prestígio da pessoa na rede, o que pode gerar uma troca de curtidas. Também pode dar-se o fato de as pessoas usarem as curtidas para construir a própria imagem, demonstrando, com um clique, a aprovação a uma causa politicamente correta. Fácil, não?

O que parece mesmo é que viramos mercadorias dispostas em prateleiras, todos competindo pelo olhar do comprador. Não será de admirar que invistamos na embalagem e nos demais recursos da propaganda. 🙂

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