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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Um poema de Bocage: convite à leitura

Por Thaís Nicoleti

 

A 15 de setembro de 1765, nascia na cidade de Setúbal, em Portugal, um dos maiores sonetistas da língua portuguesa. Estamos falando de Manuel Maria Barbosa du Bocage, muitas vezes lembrado pela autoria de poemas eróticos ou satíricos e por uma vida desregrada que lhe rendeu muitos dissabores, até mesmo a prisão. final sala de leitura

Foi o maior representante do Arcadismo português, tendo participado da Nova Arcádia, uma academia de belas-artes. Foi nessa instituição que adotou, como faziam os árcades, um pseudônimo. Criou-o fazendo um anagrama de seu primeiro nome e uma homenagem ao rio Sado, que banha a sua cidade. Foi assim que surgiu Elmano Sadino.

Na sua cidade natal, foi erigida uma estátua em sua homenagem. De autoria do escultor Pedro Carlos dos Reis, a peça, talhada em mármore, foi posta sobre uma coluna coríntia. O monumento, de 12 metros de altura ao todo, foi instalado na praça do Bocage em 1871.

A obra de Bocage está reunida nos três tomos do livro “Rimas”, publicados do fim do século XVIII ao início do XIX. A seguir, vamos degustar um soneto de Bocage que é considerado um autorretrato seu.

Magro, de olhos azuis, carão moreno,

Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno;

 

Incapaz de assistir num só terreno,

Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos, por taça escura,

De zelos infernais letal veneno;

 

Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades,

 

Eis Bocage em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades,

Num dia em que se achou mais pachorrento.

 

O leitor percebe facilmente que algumas palavras não lhe são muito familiares ou mesmo que algumas delas hoje têm sentido diverso daquele que apresentam no texto. Para a boa compreensão da obra, é muito importante considerar a época em que foi produzida e tentar recuperar o sentido que as palavras evocavam então.

Logo de início, o poeta usa o termo “carão” para se referir à própria face. Pode o termo significar apenas uma cara grande, mas também pode ser uma cara feia. Hoje, a palavra é mais usada em seu sentido figurado, ou seja, como sinônimo de repreensão ou descompostura. Uma pessoa pode levar um carão (sofrer admoestação) ou dar um carão (censurar, repreender).

No universo das modelos, coisa bem mais recente, “carão” é a “expressão poderosa e sensual” que as garotas fazem na passarela ou diante dos fotógrafos para se transformarem em verdadeiras mulheres fatais.

Voltando ao nosso Bocage, que se diz “bem servido de pés” e “meão na altura”, ficamos sabendo que o poeta tem pés grandes e estatura mediana. “Facha”, segundo o dicionário “Houaiss” é um termo de uso informal para dizer “face”, datado de 1805 — era, portanto, um termo novo na época de Bocage, caso a sua datação seja mesmo essa.

Na segunda estrofe, aparece o verbo “assistir” numa acepção menos usual hoje, ao menos no Brasil. “Assistir”, no texto, não quer dizer “presenciar” ou “ver” (como em “assistir a um jogo ou a a uma aula”); nesse contexto, o termo significa “morar”. O poeta se diz “incapaz de assistir num só terreno”, revelando sua instabilidade, reforçada nas antíteses de que se vale em imagens como níveas mãos/ taça escura ou zelos infernais/deidades.

Na terceira estrofe, revela-se um lisonjeador de moças, a quem, metaforicamente, chama de “deidades” (divindades), metáfora que,  em seguida, numa espécie de autoironia, ele próprio traduz: “de mil deidades/ (Digo, de moças mil)”, substituindo deidades por moças, o etéreo pelo concreto e, de quebra, invertendo a posição do numeral “mil”, num quiasmo (disposição cruzada da ordem das partes simétricas de duas frases).

Finaliza o soneto (dois quartetos, dois tercetos, versos decassílabos organizados no esquema rímico abba/ abba/ cdc/dcd) resumindo a própria descrição: “Eis Bocage em quem luz algum talento”. Hoje é muito comum vermos as construções “eis aqui” ou mesmo “eis aí”, em que advérbios de lugar reforçam o sentido de “eis”, este também um advérbio cujo sentido é “aqui está”.

A etimologia dessa palavra é incerta, conforme atestam tanto Houaiss como Antônio Geraldo da Cunha. Segundo este, pode tratar-se de forma evolutiva do latim “ex”. Segundo Cegalla, pode provir de “heis” (por “haveis”) ou do latim “ecce”. Gramaticalmente, seu complemento, não sendo um nome, será um pronome pessoal do caso oblíquo (eis-me, ei-lo, eis-nos).

No mesmo verso, temos uma inversão sintática: “algum talento” é sujeito de luz” (forma do verbo “luzir”). Eis Bocage, em quem algum talento luz, brilha, sobressai.

Finalmente, rima “talento” com “pachorrento”, esta uma palavra nova à época do texto (segundo Houaiss, seu primeiro registro data de 1789). Sendo “pachorra” a falta de pressa, o poeta, num dia em que se achou se achou “mais pachorrento” (com tempo de sobra, sossegado), escreveu o poema.

Em textos poéticos, costuma haver grande concentração de recursos de estilo, que passam pelas chamadas figuras de linguagem, mas não se esgotam nelas. A escolha das palavras, sua disposição na frase ou no verso, o uso (ou não) de rimas e de metrificação regular, as imagens evocadas, tudo concorre para a construção e a expressão de ideias e estados de espírito. No exercício atento da leitura, vamos aprendendo a língua e o mundo.

 

 

 

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