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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Fuvest 2016: prova de português priorizou interpretação de textos

Por Thaís Nicoleti

Com 18 questões de português, a maioria das quais voltada para a interpretação de textos, o exame da primeira fase da Fuvest continua valorizando a capacidade do candidato de aplicar seu conhecimento linguístico para ler portugues em diaadequadamente. O que pode parecer fácil à primeira vista – afinal, as pessoas sempre acham que entenderam o que leram –  é, na verdade, um grande desafio (e não nos deixam mentir as incontáveis confusões de que andam repletas as redes sociais).

A leitura competente depende, é claro, da atenção, mas isso não basta. Requer também a compreensão das estruturas linguísticas e do significado das palavras, a percepção dos recursos figurativos da linguagem e, mais ainda, o entendimento das referências que atuam latentes em quaisquer processos comunicativos. Não há como treinar um estudante para responder a esse tipo de questão, mas há como desenvolver sua competência no decorrer do processo educacional. Ao que tudo indica, é isso o que a Fuvest tem valorizado.

A prova privilegiou o dinamismo da linguagem, ora cobrando do candidato que relacionasse texto e imagem, ora fazendo-o perceber que o contexto de uma afirmação pode modificar o seu sentido literal. Saber a diferença entre um provérbio e um pensamento comum, repetido à exaustão, relacionar provérbios entre si, mostrando que muitos carregam mensagens semelhantes e outros tantos exprimem exatamente o contrário dos primeiros, tudo isso obriga o estudante a pensar sobre a linguagem, a fazer um exercício de reflexão sobre o seu instrumento de comunicação e expressão.

O ótimo texto de Boris Fausto e o fragmento do saboroso livro de Paulo Rónai convidam à reflexão, um sobre a propaganda, outro sobre aspectos antropológicos da linguagem, tema caro ao húngaro que aprendeu sozinho o português. Em uma das questões, o estudante deveria relacionar o texto de Boris Fausto a trechos d’ “O Príncipe”, de Maquiavel, explicitando a importância do repertório cultural para a competente leitura de um texto. Até a biologia apareceu na prova, numa questão de literatura que tratava da bexiga (trecho da obra “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, um dos nossos “clássicos” da modernidade), acenando com a interdisciplinaridade, característica do Enem.

Foi do romance de Jorge Amado que se extraiu a única questão de correção gramatical, em que, diga-se, há o reconhecimento da importância desse tipo de saber no âmbito dos estudos linguísticos. A expressão “erro gramatical” aparece com todas as letras no enunciado de uma das perguntas.

Para bem responder a essa questão, o estudante deveria ter conhecimento da equivalência entre o pretérito mais-que-perfeito simples (morrera) e o composto (havia/ tinha morrido) e entre as conjunções “mas” e “no entanto”, ambas adversativas. Precisava saber distinguir “tampouco” (também não) de “tão pouco” (muito pouco) e conhecer a regência do verbo “esquecer”, bem como o emprego das preposições antes dos pronomes relativos.

Crítica literária, história da literatura e literatura comparada também foram temas abordados. Machado de Assis, mesmo quando não aparece diretamente, é presença obrigatória na Fuvest (e na nossa vida também).

A literatura portuguesa apareceu com o último romance de Eça de Queiroz, “A Cidade e as Serras”, uma das leituras obrigatórias, e a poesia veio representada por outro dos nossos grandes nomes, Carlos Drummond de Andrade, que fecha com chave de ouro a bela prova de português da Fuvest, dando ensejo não só à interpretação do poema como também ao entendimento do emprego sutil da adversativa que liga os versos “Itabira é apenas uma fotografia na parede/ Mas como dói!”.

 

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