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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Acentuação e concordância intrigam leitor

Por Thaís Nicoleti

Nosso leitor Elisio Neves, com toda a razão, ficou intrigado com os textos de duas fotos, que gentilmente enviou ao blog. Na primeira delas, o que está em jogo é a acentuação gráfica; na segunda, um interessante caso de concordância verbal.  final o leitor quer saber

O olho atento a todas as manifestações da língua é uma ótima maneira de estudar. Na internet, não faltam pessoas que publicam fotos de erros gramaticais em tabuletas e cartazes com a intenção de fazer piada. Aqui vamos usar o material enviado pelo leitor para discutir a língua.

 

 

 

Vejamos a primeira delas:

LAMA SÊCA OU LAMA SECA?
LAMA SÊCA OU LAMA SECA?

 

A esta altura ainda há quem grafe “sêca”, assim, com acento?

Elísio nos lembra que a palavra “seca”, sendo uma paroxítona terminada em “a”, não poderia ter acento. De fato, é isso mesmo. Se as oxítonas terminadas em “a”, “e”, “o”, “em” e “ens” recebem acento, as paroxítonas que têm essa mesma terminação não o recebem.  É por isso que sofá, balé, quiproquó, vintém e parabéns têm acento, mas seca, balde, carro, homem e itens não o têm.

Nesse caso específico, porém, é possível que a pessoa que assim grafou a palavra ainda guarde na memória a época em que o termo tinha acento diferencial (distinguia-se “sêca”, substantivo, de “seca”, forma do verbo “secar”), antes da reforma ortográfica de 1971.

Nessa época, também se distinguia “côco” (a fruta) de “coco” /ó/ (bactéria). O acento desapareceu há 45 anos, mas ainda dá o ar da graça nas barraquinhas e carrinhos de vendedores de água de coco.

CARRINHO DE COCO

Há quem tente justificar essa tendência pelo fato de a palavra ser formada de duas sílabas iguais, mas há outros casos que se enquadrariam nesse tipo de percepção e que nem por isso fizeram aparecer acentos inúteis. Ninguém acentua “baba”, que aparece no doce “baba de moça”, “meme”, o neologismo do mundo das redes sociais, ou “Momo”, o rei do Carnaval, não é mesmo?

Outros dizem que o acento evita confusão com “cocô” (!). Essa palavrinha, sim, recebe o acento, já que é uma oxítona, certo?

No nosso país, existe certo apego pela grafia das palavras, como se elas fossem indissociáveis do nome em si. No caso dos nomes próprios, isso é muito visível, pois as pessoas podem decidir se querem escrever Carlos ou Karlos, Luiz ou Luís, sem considerar as normas de ortografia. Até os topônimos ficam imunes às regras da ortografia. Basta observar os sites das prefeituras Brasil afora ou adentro.

A segunda questão apresentada por Elisio Neves diz respeito à concordância verbal da frase que se lê no cartaz abaixo:

CONCORDÂNCIA CORRETA

CONCORDÂNCIA CORRETA

Ele pergunta se estaria incorreta a concordância verbal nesse cartaz, uma vez que o verbo está no singular (“causa”) e o sujeito é composto.

Se o sujeito fosse mesmo composto, a frase estaria incorreta. O que temos, entretanto, é um sujeito oracional, que equivale a um sujeito simples. O que causa inundação nos dias de chuva é “jogar lixo e entulho”. O núcleo desse sujeito é a ação de “jogar”, um verbo. É por isso que dizemos que o sujeito é oracional. A oração “jogar lixo e entulho” funciona como sujeito de “causar”. “Lixo” e “entulho” são núcleos do objeto direto de “jogar” e fazem parte do sujeito oracional. Por esse motivo, não há erro no cartaz acima.

Se você quiser enviar uma questão ou material para ser comentado no blog, entre em contato pelo e-mail thaisncamargo@uol.com.br.

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