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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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“Má-formação” ou “malformação”?

Por Thaís Nicoleti

“Má-formação” ou “malformação”? A imprensa tem usado ambos os termos, um ou outro segundo a preferência de cada veículo de comunicação, para explicar à população o que é a microcefalia, final portugues na folhaanomalia com que podem nascer os filhos de mulheres que tenham contraído o vírus da zika durante a gravidez.

Vários leitores têm entrado em contato com a Folha para questionar a escolha da grafia “má-formação”, empregada pelo jornal. Não raro, afirmam tratar-se de um “erro” da Redação. Alguns chegam a reproduzir o verbete “malformação” do dicionário “Houaiss”, desconsiderando o fato de que o mesmo “Houaiss” traz também o verbete “má-formação”.

O que fazem os dicionários em geral é registrar ambas as formas, para o incômodo de muita gente. Diante desse tipo de situação, as pessoas querem saber, pelo menos, qual é a forma “melhor”. Difícil responder a isso, mas vamos aos dados.

Antes de entrar no caso específico dessas palavras, convém trazer à memória a distinção entre “mal” e “mau”. “Mal”, um advérbio, pode modificar verbos e adjetivos. “Mau”, um adjetivo, caracteriza substantivos (é por isso que dizemos que uma pessoa é mal-humorada, mas que tem mau humor). “Mal” não é o termo que caracteriza substantivos. Vale aqui lembrar a grafia de “mau-caráter” (adjetivo  seguido de substantivo, formando um substantivo composto).

Ora, “formação” é um substantivo, motivo pelo qual seu modificador natural é um adjetivo. Sendo uma palavra feminina, o adjetivo “mau” vai também para o feminino, dando origem ao substantivo composto “má-formação”. É exatamente assim que se formam os substantivos má-fé e má-criação, por exemplo.

Ocorre, porém, que a grafia “malformação” já obteve o registro nos dicionários e no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp). Houaiss a interpreta como depreendida de “malformado” (note que, antes de “formado”, o que cabe é mesmo o “mal”). De “malformado”, supõe-se um verbo “malformar”, do qual poderia vir “malformação”. Ao lado dessa explicação, temos outra hipótese: a influência do francês e do inglês, línguas em que se registra a grafia “malformation”. Como se trata de termo da medicina, é possível que estudiosos, lendo em francês ou em inglês, tenham incorporado o termo ao português de forma intuitiva.

Louve-se a explicação de Houaiss porque ela se estende à forma “malcriação”, já registrada também no Volp. O autor, no entanto, observa o seguinte: “caso não se admita esse padrão derivacional, malcriação estaria por criação”.  Em outras palavras, Houaiss afirma que nem todos os gramáticos admitirão como válido o padrão derivacional que justifica as formas malcriação e malformação. Certamente os mais apegados à tradição hão de preferir má-criação e má-formação.

 

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