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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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O discurso vitorioso

Por Thaís Nicoleti

A votação da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, no domingo 17 de abril, aguardada como final de campeonato e acompanhada no país inteiro em clima de torcida de futebol, rendeu um espetáculo inesperado, a par do já esperado resultado.

Durante a semana subsequente, não houve articulista da imprensa que, independentemente da opinião sobre o impeachment, resistisse à tentação de comentar os discursos que acompanharam o voto de cada temalivredeputado.

Mais importante que coligir eventuais deslizes de concordância ou de regência verbal cometidos durante as falas é tentar entender os discursos que estiveram em jogo no palco do Congresso.

A expressiva maioria dos que votaram pela aprovação da abertura do processo evocou como motivação maior para o seu gesto político a própria família, com direito a declarar o nome de filhos, netos, bisnetos, pai, mãe, tias, noras, o pai que completaria cem anos e alguns bebês que ainda vão nascer, além de amigos e colegas de profissão. Mais de um agradeceu à família por ter “chegado aonde chegou”, outro enviou os parabéns à neta aniversariante, enfim, a síntese algo patética de um deprimente provincianismo.

Saindo da esfera das emoções privadas, esse grupo ainda devotou homenagens a algumas instituições, como a Polícia Militar e as Forças Armadas, aos movimentos Vem Pra Rua, MBL e Revoltados On-Line, aos manifestantes da avenida Paulista, a alguns personagens (Olavo de Carvalho, major Olímpio, apóstolo Valdemiro Santiago, coronel Brilhante Ustra, juiz Moro, Roberto Jeferson), aos militares de 64, aos maçons, a Deus e a grupos religiosos identificados como “nação evangélica”, “nação quadrangular”, “assembleanos de todo o Brasil” e  membros da Renovação Carismática.

A maioria lembrou também os próprios redutos eleitorais, muitas vezes pequenas cidades ou regiões, bem como grupos ligados a atividades profissionais (transportadores, profissionais da saúde, corretores de seguros, médicos). Houve quem dedicasse o voto aos “homens de bons costumes”.

Desse grupo vieram posicionamentos contrários ao PT, à corrupção, à “bandeira vermelha”, ao comunismo, vozes que clamaram pelo “verde-amarelo”, pela “ordem e progresso”, pelos ideais da Revolução Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade) e pela paz em Jerusalém.

Um deputado pediu desculpas a Lula e afirmou estar respondendo às redes sociais. Alguns falaram em ética, recuperação da economia e do desemprego. Um disse que o impeachment ocorreria porque a presidente não tem relação com o Congresso, outro disse que seu pai (César Maia) foi atropelado pelo PT. Alguns fizeram queixas de que o governo federal não atendeu a suas reivindicações. Houve um que afirmou “ter sofrido nas mãos do PT”, mas não estar votando por rancor, e sim ouvindo a voz das ruas. Alguns teceram críticas ao presidente da Casa, Eduardo Cunha, enredado em acusações de vários delitos. Paulo Maluf preferiu não dizer nada.

Os que votaram contra a abertura do processo, em sua maioria, evocaram a Constituição, a democracia, as lutas sociais, a justiça social, os direitos da população, o direito ao trabalho, o Estado democrático de Direito e grupos como quilombolas, negros, indígenas, pobres, sem-teto, sem-terra, mulheres “empoderadas”, LGBT e pessoas com deficiência. Em geral, chamaram o processo de golpe, farsa e hipocrisia e, majoritariamente, criticaram o que consideraram “demagogia” dos colegas e a falta de honestidade do presidente da Casa, que conduzia o processo.

Os homenageados por esse grupo foram os estudantes que ocuparam escolas, as pessoas que enfrentaram o golpe de 64, as mães que perderam filhos para a violência e personagens como Zumbi dos Palmares, Miguel Arraes, Leonel Brizola e Marighela.

O primeiro ponto relevante a considerar é o fato de que esses parlamentares são os representantes do povo brasileiro. Cada um deles foi escolhido por uma parcela do eleitorado.

Se tantos evocaram as relações com a própria família, a provar que são “homens de bons costumes”, ciosos dos seus entes queridos, é muito provável que esse discurso, independentemente de ser verdadeiro, agrade aos seus nichos eleitorais. O mesmo vale para os do grupo contrário ao impeachment, que fala com as minorias organizadas e com boa parte dos intelectuais, sua base eleitoral.

O discurso vitorioso, a medir pelos votantes do dia 17 de abril, mais que o de partidários do liberalismo econômico, da democracia e da ética, foi o do conservadorismo dos costumes. Tudo leva a crer que deputados que homenageiam suas “nações” evangélicas, quadrangulares ou assembleanas se elejam em nome de valores religiosos e da defesa de certos comportamentos, coisas que, num estado laico, não deveriam ser pauta política.

Para a aprovação da abertura do processo, foi necessária a votação maciça desses representantes da moral, dos bons costumes e até do golpe militar de 64.

O Brasil descortinado no melancólico espetáculo do 17 de abril é um país despolitizado e conservador nos costumes, muito aquém do necessário debate de ideias.

Somente com o investimento em uma educação capaz de promover o pensamento autônomo e a capacidade crítica é que, um dia, poderemos conviver como cidadãos que, mesmo com pontos de vista e interesses diversos, com divergências legítimas, busquem o bem comum, ou seja, o bem todos, para além das bem constituídas famílias tradicionais.

 

 

 

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