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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Eles são lindos, mas…

Por Thaís Nicoleti

Uma coordenadora de escola infantil envia um bilhete à mãe de dois alunos gêmeos de três anos de idade com os seguintes dizeres:

Olá! Mamãe Débora, peço-lhe se possível aparar ou trançar o cabelinho dos meninos, eles são lindos, mais (sic) eu ficaria mais feliz com o cabelo deles mais baixo ou preso. Beijos, Fran. portugues na rua (1)

A mãe, indignada com a atitude que considerou racista, põe o bilhete nas redes sociais, e o assunto vira notícia. Louvemos o imenso poder dessas redes de propalar informação com a rapidez de um relâmpago.

Quantas mães de alunos já terão recebido bilhetinhos desse tipo? A dona da escola, mãe da referida coordenadora, não vê nenhum problema na mensagem.

Tirante os lamentáveis erros gramaticais do bilhete redigido por uma professora, que aparentemente não consegue diferenciar “mais” de “mas” nem ponto final de vírgula, tentemos entender, nas linhas e nas entrelinhas, onde está o problema.

Termos como “mamãe”, “cabelinho”, “lindos” e “beijos, Fran” parecem ali postos para demonstrar carinho, uma espécie de embalagem da mensagem principal. A frase “eles são lindos” seguida do que deveria ser a conjunção adversativa “mas”, no entanto, desmonta a ideia e entra no assunto: corte ou trance os cabelos das crianças. Por que motivo?

O motivo é, segundo o texto, deixar a coordenadora da escola “mais feliz”. Por que a pessoa ficaria “mais feliz” se as crianças disciplinassem os cabelos crespos em tranças ou simplesmente os tivessem cortados? Seria porque os cabelos são um traço étnico que é preciso disfarçar?

As supostas palavras de carinho do bilhete, ingênua tentativa de camuflar preconceitos, mais parecem insultos. Tudo indica que o assunto vá ser resolvido na Justiça.

Que o episódio sirva de lição para todos aqueles que se propõem trabalhar na área de educação. A tarefa do educador pressupõe uma visão de mundo liberta das amarras do preconceito.

 

 

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