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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Mesóclise rouba a cena em discurso de posse de ministros

Por Thaís Nicoleti

O tema do “Português em Foco” de hoje é a mesóclise, tipo de colocação pronominal já pouco usado no português do Brasil. O assunto vem à baila por ocasião de algumas falas do presidente interino, Michel Temer, em que a construção foi empregada.             Adão portugues em foco

Como não poderia deixar de acontecer, muita gente estranhou. Não tardou que as comparações entre os últimos presidentes da República (no quesito expressão) virassem conversa de mesa de bar (ou do Facebook).

FORMAL E INFORMAL

Aparentemente, a mesóclise do presidente interino fez menos sucesso que o “nhe-nhe-nhém” de Fernando Henrique Cardoso, termo popular que o ex-presidente usou para rebater a crítica de que suas políticas eram neoliberais. A onomatopeia, de sabor popular, proferida por um mandatário sabidamente vindo do meio intelectual, criou efeito oposto ao da mesóclise, que Temer, como disse muita gente, tirou do baú,. Enquanto o “nhe-nhe-nhém” demonstrou descontração, o “sê-lo-ia” demonstrou preocupação com a formalidade.

ÊNCLISE E PRÓCLISE

As regras de colocação pronominal estão ligadas ao modo como as partículas átonas são lidas. No português europeu, pronuncia-se facilmente algo como “ter-se lembrado”, sendo o “se” uma espécie de sílaba átona de “ter-se”. É por esse motivo, aliás, que o pronome é preso por um hífen ao verbo “ter”.

A mesma locução é lida no Brasil com outro ritmo: o pronome “se” parece preso ao particípio (“se lembrado”), como se fosse sílaba átona dele, não de “ter”. É por isso que dificilmente se vê por aqui o emprego do hífen numa locução como essa (“ter se lembrado”).

É fato que, no português do Brasil, a tendência é usar a próclise em quase todas as situações, até mesmo no início de frase, posição em que, segundo a gramática tradicional, não se deve usar o pronome átono de jeito nenhum. É extremamente comum que se digam frases como estas “Me diga a verdade”, “Me chama amanhã cedo”, “Te ligo amanhã”, “Se vira!”, “Me respeite”, “Me erra”, que estão em um registro informal da língua.

Nesse mesmo registro, há oscilação entre próclise e ênclise (“Dane-se”, por exemplo, geralmente aparece de acordo com a tradição, ou seja, ênclise com verbo no imperativo afirmativo). Em frases feitas, também é comum a ênclise: “Durma-se com um barulho desses”, “Dize-me com quem andas e te direi quem és”, “Valha-me Deus”, “Faz-me rir”, “Acabou-se o que era doce” etc. Ênclise e próclise continuam sendo usadas. A mesóclise, mesmo em situações de formalidade, é pouco recorrente (vejam-se textos acadêmicos, por exemplo).

É oportuno lembrar aqui um poema de Oswald de Andrade, um dos representantes do movimento modernista. Foi ele mesmo que, recentemente, pela segunda vez, esteve no centro de uma contenda entre dois poetas contemporâneos (Augusto de Campos e Ferreira Gullar), ambos preocupados em reivindicar para si a descoberta e introdução dele no cenário das letras. Muito bem, Oswald, nos idos de 1920, escreveu um poemeto cujo tema era a colocação dos pronomes átonos. Intitulado “Pronominais”, o texto tratava do uso brasileiro dessas partículas:

Dê-me um cigarroOswald - Erro de Português
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Para bom entendedor, meia palavra basta. Oswald, há quase um século, queixava-se das aulas de gramática em que se ensinava um modelo diferente daquele realizado pelos falantes da língua. A valorização da dicção brasileira foi uma das bandeiras do modernismo, que, liderado por Oswald e Mário de Andrade, foi seguido por outros autores que igualmente pensaram sobre a língua. O poema atesta que a próclise em início de frase, com imperativo, já era bastante comum na época.

Mário de Andrade, no romance “Amar: Verbo Intransitivo” (1927), também fugiu ao emprego lusitano da colocação pronominal, propondo que se escrevesse de acordo com a fala brasileira. Vejamos dois breves fragmentos (entre muitos exemplos), que se alternam com outros em que usa a ênclise em início de frase:

Se impacientou. Quis pensar prático,  e o almoço?

(…)

Se aboletaram no torpedo. Desta vez Carlos não brigou com Maria Luísa por causa do lugar da frente. Deixou ela sentar-se ao lado do pai que dirigia. 

Vale fazer um parêntese: os escritores estão aqui chamados não para ilustrar uma suposta “licença poética”, a que, na condição de artistas, teriam “direito”. Nada disso: eles mesmos talvez não gostassem nem um pouco dessa interpretação. Eles deram status literário à fala do dia a dia, ao modo como as pessoas se expressam de verdade. Isso era revolucionário à época.

MESÓCLISE: COMO FUNCIONA

A mesóclise no Brasil realmente está apartada do uso. Trata-se de uma construção algo complicada, que só é possível com verbos no futuro do presente ou do pretérito. Vale lembrar que o pronome átono é geralmente um complemento do verbo (objeto direto ou indireto), que será posto entre o radical e a desinência verbal. Os pronomes demonstrativos o, a, os e as também são átonos, portanto sujeitos às mesmas regras de colocação. Vejamos alguns exemplos:

1. Comprarei os bilhetes amanhã. [“os bilhetes” – objeto direto, que é substituído pelo pronome “os”, masculino plural, exatamente como “bilhetes”]

2. Comprarei + os + amanhã.

3. Comprar/ os/ ei amanhã. [Comprar (radical) — ei (desinência)]

Antes do passo final, é preciso fazer uma observação: a oxítona terminada em “r” (“comprar”), por uma questão fonética, perde o “r” antes dos pronomes vocálicos, os quais recebem uma letra “l” (“comprá-los”). Assim:

4. Comprá-los-ei amanhã. Os bilhetes, comprá-los-ei amanhã. [Note que “comprá”, lido como oxítona, tem acento gráfico]

Veja um verbo irregular (“dizer”).

1. Ele dirá algo a ela.

2. Ele dir + o + á + a ela.

3. Di-lo-á a ela. [“Di”, monossílabo terminado em “i”, não recebe acento, mas “á”, monossílabo tônico, sim]

Caso se deseje, é possível transformar “a ela” em um pronome átono (“lhe”). Assim:

4. Dir-lhe-á algo. [Veja que, agora, o “r” do radical se manteve, pois o pronome átono não começa com vogal]

Finalmente, é possível combinar os dois pronomes átonos (“lhe” + “o”), obtendo a forma “lho”. Assim:

5. Dir-lho-á.

E agora mais um exemplo com verbo irregular (verbo “fazer”):

1. Ele fará o trabalho.

2. Ele fará + o [“o” substitui “o trabalho”]

3. Ele far/ o/ á.

4. Fá-lo-á [observe os acentos].

DESAFIO

Agora tente fazer algumas mesóclises, substituindo o elemento grifado pelo pronome átono correspondente (a resposta será dada no próximo post):

a. Traremos a encomenda amanhã.

b. Estudarás as lições durante a semana.

c. Direi a verdade a você.

d. Contaria isso a você se pudesse.

e. Seria esse/isso o seu fim.

 

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