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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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“Fora Temer” ou “Fora, Temer”?

Por Thaís Nicoleti

Em tempos de impeachment ou de golpe branco, a depender do ponto de vista adotado, temos convivido com a interinidade de um presidente que, ao que tudo indica, está bem longe de responder aos anseios da população. Quem diz isso são as ruas, que, ora menos ruidosas, ainda tentam empunhar cartazes com a mensagem que melhor sintetiza sua decepção com o rumo dos acontecimentos: “Fora, Temer”. Adão portugues em foco

Durante a Olimpíada, mesmo proibidos, os cartazes apareceram. Essa proibição, aliás, foi condenada pela Folha em editorial intitulado “Fora, censura”.

Como muita gente está deixando de usar a necessária vírgula que isola o vocativo, o tema chegou ao Português em Foco:

O vocativo, na gramática, é aquele elemento que indica a quem nos dirigimos no momento da fala. Sua regra de pontuação é das mais fáceis de memorizar, pois ele está sempre separado do restante do período, qualquer que seja a sua posição (no início, no fim ou no meio). Veja exemplos:

Faça o melhor que puder, querido!

Querido, faça o melhor que puder!

Venham, crianças, que é tarde!

O nome “vocativo” vem do latim, língua em que nomeava um caso (caso vocativo). Quando fazemos uma saudação a alguém, também usamos o vocativo: “Bom dia, João”, “Oi, Maria”, “Tchau, querida” etc.

É possível que um ponto de exclamação separe o vocativo do período. Veja um trecho do poema “Navio Negreiro”, de Castro Alves, magistralmente musicado por Caetano Veloso.

 

Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade/ Tanto horror perante os céus…

Ó mar, por que não apagas/ Co’a esponja de tuas vagas/ De teu manto este borrão?…

Astros! noite! tempestades!/ Rolai das imensidades!/ Varrei os mares, tufão!…

(…)

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo… / Andrada! Arranca este pendão dos ares!/ Colombo! Fecha a porta de teus mares!

Também vale observar que o vocativo pode ser antecedido de uma interjeição que lhe é própria – é até chamada de “ó” do vocativo. É exatamente o que aparece no trecho “Ó mar, por que não apagas…”. Nesse caso, não há vírgula. Veja outro caso semelhante, este no poema “Mar Português”, de Fernando Pessoa:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Esse “ó” é mais comum no português falado em Portugal; no Brasil, acabou sendo substituído por um “ô”, sobretudo no registro informal: “Ô meu chapa, eu estou com pressa!”.

Seria injusto, porém, dizer que, no Brasil, não se usa o “ó” do vocativo. Há uma bela canção de Gilberto Gil, intitulada “Meu amigo, meu herói”, que foi gravada por Zizi Possi, em que esse uso aparece. Aliás, nessa canção há um curioso jogo entre o “ó!” do vocativo e a interjeição “oh”, de sentido amplo (surpresa, desejo, dor, tristeza etc.). Ouça:

Ó meu amigo, meu herói
Oh, como dói saber que a ti também corrói
A dor da solidão
Ó meu amado, minha luz
Descansa tua mão cansada sobre a minha
Sobre a minha mão
A força do universo não te deixará
O lume das estrelas te alumiará
Na casa do meu coração pequeno
No quarto do meu coração menino
No canto do meu coração espero
Agasalhar-te a ilusão
Ó meu amigo, meu herói
Oh, como dói
Oh, como dói

Na canção de Chico Buarque que ilustra o vídeo, “Acorda, amor”, “amor” é forma carinhosa de chamar a esposa – aliás forma muito usada pelos casais de namorados e enamorados, que serve para qualquer gênero. Alguns casais inventam formas próprias de se chamar um ao outro. Não importa o que seja, sempre será um vocativo.

“Acorda, amor”, de Chico Buarque, merece que se recorde a sua letra inteira. Com muita maestria, o compositor cria metáforas para driblar a ação dos censores da ditadura. Veja o uso que ele faz da palavra “dura” (no lugar de “ditadura”) e divirta-se com o irônico estribilho (“Chame o ladrão, chame o ladrão!”). Quando a polícia é o invasor, melhor mesmo chamar o ladrão!  Veja os vocativos grifados no texto.

 

Acorda, amor,/ Eu tive um pesadelo agora/ Sonhei que tinha gente lá fora

Batendo no portão, que aflição/ Era a dura, numa muito escura viatura/

Minha nossa, santa criatura,/ Chame, chame, chame lá

Chame, chame o ladrão, chame o ladrão

Acorda, amor,/ Não é mais pesadelo nada

Tem gente já no vão de escada/ Fazendo confusão, que aflição/

São os homens/ E eu aqui parado de pijama

Eu não gosto de passar vexame/ Chame, chame, chame

Chame o ladrão, chame o ladrão

Se eu demorar uns meses,/ Convém, às vezes, você sofrer, /Mas, depois de um ano, eu não vindo

Ponha a roupa de domingo/ E pode me esquecer

Acorda, amor, Que o bicho é brabo e não sossega/ Se você corre, o bicho pega

Se fica, não sei não/ Atenção!

Não demora/ Dia desses, chega a sua hora/ Não discuta à toa, não reclame

Clame, chame lá, clame, chame/ Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão

(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)

O teste rápido de pontuação entrará no próximo post.

 

 

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