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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Diminutivos podem expressar carinho ou ofensa

Por Thaís Nicoleti

Recentemente, um par de diminutivos provocou polêmica e pedido de desculpas nas altas esferas do poder. O presidente do Senado chamou de chefete de polícia o ministro da Justiça do governo Temer e de juizeco de primeira instância o magistrado que autorizou a prisão de quatro policiais do Legislativo. portugues em dia

Não há dúvida de que qualquer falante do português percebe o sentido depreciativo das duas palavras. A presidente do Supremo tomou para si a ofensa dirigida a um membro da magistratura e recebeu do senador um pedido de desculpas. O incidente pode ser útil para rememorarmos o valor do diminutivo no português.

Está claro que o grau do substantivo (aumentativo e diminutivo) expressa bem mais que o tamanho dos objetos. Para além disso, essas formas podem evocar vasta gama de valores afetivos, para o bem ou para o mal.

O sufixo de diminutivo serve para expressar carinho, delicadeza – os namorados que o digam, sempre a se chamarem de “amorzinho”, “benzinho” e similares –, mas também para demonstrar desdém, ironia, exasperação (jornaleco, livreco, chefete etc.).

É comum que as terminações de diminutivo se prendam a palavras de outras classes gramaticais que não o substantivo. É sobretudo nesse tipo de ocorrência que ganham valor subjetivo. Preso a um lexema que, em si, contém uma ideia negativa ou vista como tal, o sufixo passa a indicar não a redução de tamanho, mas a redução de valor.

Formas como senhorzinho, senhorinha (os novos substitutos de velhinho e velhinha), gordinho e gordinha, mulatinho ou negrinha, entre outras, acionam um mecanismo de atenuação, que geralmente evoca algum tipo de preconceito ou, no mínimo, a pretensa superioridade de quem os usa (quem chama o outro de “senhorzinho” vê o outro, mas não a si, como frágil ou menos capaz). Nada de generalizações, porém, pois esse é um terreno delicado. O limite entre o carinho e a ofensa pode estar no modo como se fala, na entonação e, sobretudo, no contexto.

Na expressão usada pelo senador, “juizeco de primeira instância”, o que reforça o sentido pejorativo do sufixo “-eco” (o mesmo que aparece em “pixuleco”) é a locução adjetiva “de primeira instância”, dado por suposto que um juiz de primeira instância exerça uma função menor ou de menor prestígio. Não faria sentido, por exemplo, uma construção como “juizeco do Supremo”. O que está em jogo aqui é a percepção geral de se tratar de função de menos prestígio. Não será difícil encontrar outros exemplos similares: pode-se dizer “professorzinho primário”, mas não “professorzinho universitário”; “jornaleco de bairro”, mas não “jornaleco de alcance nacional”. Vale então observar os termos que acompanham os diminutivos (casinha de periferia, quartinho de empregada, paiseco de terceiro mundo, republiqueta de bananas etc.).

O diminutivo “chefete”, por sua vez, é palavra dicionarizada, com significado bem definido. É uma forma (depreciativa) de se referir a quem, tendo cargo de chefe, compraz-se em dar ordens, mas não tem autoridade ou liderança.

Alguns dirão que “professorinha” é um termo carinhoso. Será? Que dizer, então, de “professorzinho”? Ambos têm carga pejorativa, mas em diferentes níveis. A professorinha será inferior por exercer uma atividade vista como menor, “de mulheres” (embutido aí o preconceito de gênero), enquanto o professorzinho é um mau profissional ou simplesmente um profissional de pouco prestígio, que recebe salário baixo. Novamente, o contexto é que definirá o sentido. Nunca é prudente fazer generalizações.

Muitas vezes, o sufixo de diminutivo reforça a ideia de tamanho pequeno contida no lexema da palavra (bebezinho, criancinha, anãozinho). Vale aqui um alerta: “anãozinho” soa ofensivo para as pessoas que têm nanismo. Um adulto se sente infantilizado quando chamado dessa maneira.

Aliás, há quem trate os idosos só com diminutivos (Vou buscar uma cadeirinha para a senhora; Apoie o bracinho aqui, Ponha a perninha ali, A senhora está muito bonitinha hoje), o que pode não ser agradável para alguém que já viveu bastante.

Não são poucos os casos de diminutivos que adquirem vida própria na língua, deixando de ser entendidos como um grau do substantivo. Os de feição erudita encabeçam essa lista. Basta lembrar que a terminação erudita “-ulo/a” produz diminutivos, muitos dos quais, formados no latim, hoje não são percebidos como tais (óvulo/ovo, fórmula/forma, cutícula/cútis, película/pele, fascículo/feixe, glóbulo/globo, nódulo/nó). Cálculo é pedrinha, cápsula é caixinha, óculo é olhinho, ósculo (beijo) é boquinha e assim por diante.

Entre os populares, aparecem “camisinha”, que não é uma camisa pequena, mas o preservativo masculino, “cursinho” (preparatório para o vestibular) ou “cebolinha” (erva para tempero), entre outros.

Há muitos usos do diminutivo, cujos matizes são objeto de estudo da estilística. Por exemplo, no trecho “Ao chio da primeira cigarra no jardim respondia lá na rua a flautinha do sorveteiro – era verão”, do conto “A Náusea do Gordo”, de Dalton Trevisan, o diminutivo atende antes a um requisito afetivo que a uma descrição objetiva da flauta. Não é flauta que é pequena, mas a canção que dela sai é suave, singela, ouvida ao longe.

 

 

 

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