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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Por que, porque, porquê, por quê: empregue corretamente cada forma

Por Thaís Nicoleti

Porque, porquê, por que, por quê. Quatro grafias para o mesmo som, ou seja, um convite à confusão. Com um pouquinho de atenção, no entanto, você vai perceber que é muito simples distinguir uma da outra.

Porque, uma só palavra, sem acento, só se emprega como conjunção, ou seja, para ligar duas orações. Grosso modo, pode-se dizer que as conjunções explicitam as relações semânticas entre as ideias. “Porque” encabeça uma oração que exprime a causa ou a explicação de outra. Lembre-se de que causa é aquilo que provoca determinado fato, o que é diferente de explicação.

Dessa forma, temos “porque” como conjunção subordinativa causal (aparece em uma oração subordinada) e “porque” como conjunção coordenativa explicativa (aparece em uma oração coordenada). Quando falamos em subordinação e coordenação, estamos no domínio da sintaxe, ou seja, falamos do conjunto de relações entre as partes do texto. Como se vê, a conjunção exprime, mais do que relações semânticas, relações sintático-semânticas.

Muito bem. Nosso objetivo aqui é a ortografia, portanto, por ora, basta identificar a situação em que “porque” é uma conjunção (causal ou explicativa, tanto faz).

Veja os célebres versos de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa:   Adão portugues em foco

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

Nesse verso, “porque” é uma conjunção, pois liga duas orações, cada qual em um verso do poema. O fato de não ser o rio que corre pela aldeia do “eu lírico” é a causa de o Tejo não ser mais belo que o rio que corre pela sua aldeia. O raciocínio tem algo de capcioso, mas mostra que o belo é subjetivo, filtrado pela emoção.

É também a conjunção “porque” que aparece na canção dos Titãs “Porque Eu Sei que É Amor”. Observe que a causa aparece antes do fato principal. O autor da letra poderia ter dito “Sei que cada palavra importa porque eu sei que é amor”. A inversão, porém, confere ênfase a esse verso, que se repetirá e dará título à canção.

Nessa mesma letra, encontramos a substantivação dessa conjunção, ou seja, o porquê com acento. Essa grafia, acentuada, indica que a palavra é um substantivo. Pode, então, ser substituída por sinônimos como motivo ou causa.

Porque eu sei que é amor,/ Eu não peço nada em troca/ Porque eu sei que é amor,/ Eu não peço nenhuma prova

Mesmo que você não esteja aqui,/ O amor está aqui/ Agora/ Mesmo que você tenha que partir,/ O amor não há de ir/ Embora

Eu sei que é pra sempre/ Enquanto durar/ E eu peço somente/ O que eu puder dar

Porque eu sei que é amor,/ Sei que cada palavra importa/ Porque eu sei que é amor,/ Sei que só há uma resposta

Mesmo sem porquê, eu te trago aqui/ O amor está aqui/ Comigo/ Mesmo sem porquê, eu te levo assim/ O amor está em mim/ Mais vivo

Eu sei que é pra sempre/ Enquanto durar

Note que o “porque” causal pode ser substituído por “como” quando a oração está antes da principal, exatamente como ocorre nesses versos. Seria possível dizer “Como eu sei que é amor, eu não peço nada em troca”, “Como eu sei que é amor, eu não peço nenhuma prova”, “Como eu sei que é amor, sei que cada palavra importa”, “Como eu sei que é amor, sei que só há uma resposta”, mantendo o sentido de “porque”. Na passagem “mesmo sem porquê”, temos o substantivo, daí o acento circunflexo. Poderíamos dizer “mesmo sem motivo“. Na condição de substantivo, “porquê” admite anteposição de artigo e flexão de número, portanto podemos dizer, por exemplo, que cada um tem seus porquês (isto é, suas razões ou seus motivos) ou que o porquê de uma atitude nem sempre é claro (o porquê de = o motivo de).

INTERROGAÇÃO DIRETA E INTERROGAÇÃO INDIRETA

Por que é um advérbio interrogativo de causa, que serve para introduzir uma pergunta de natureza causal. Veja um exemplo, extraído do “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade:

Meu Deus, por que me abandonaste

Se sabias que eu não era Deus

Se sabias que eu era fraco?

Esse é o caso típico do “por que” da pergunta, pois aparece em uma interrogação direta, com ponto de interrogação no final. Nem sempre, porém, esse advérbio vai introduzir perguntas diretas. É ainda ele que se emprega nas chamadas interrogações indiretas (sem o ponto de interrogação). Quando dizemos, por exemplo, que gostaríamos de saber por que alguma coisa ocorreu, estamos, de modo indireto, fazendo uma interrogação. É, portanto, o mesmo advérbio (“por que”) que se emprega na frase. Geralmente pode ser substituído pela expressão “a razão pela qual”. Gostaria de saber a razão pela qual algo ocorreu. É a grafia “por que” (em duas palavras) que se se usa no verso da canção “Lenha”, de Zeca Baleiro.

Eu não sei dizer/ o que quer dizer/ o que vou dizer
Eu amo você,/ mas não sei o que/ isso quer dizer
Eu não sei por que/ eu teimo em dizer/ que amo você
se eu não sei dizer/ o que quer dizer/ o que vou dizer
Se eu digo pare,/ você não repare/ no que possa parecer
Se eu digo siga,/ o que quer que eu diga/ você não vai entender,
mas se eu digo venha,/ você traz a lenha/ pro meu fogo acender

No trecho “Eu não sei por que eu teimo em dizer que amo você”, podemos substituir “por que” por “a razão pela qual” (Eu não sei a razão pela qual eu teimo em dizer que amo você). Esse advérbio “por que”, se colocado no fim da frase, ganharia um acento. Imagine que os versos de Zeca Baleiro fossem estes: Eu teimo em dizer que amo você não sei por quê.  No final do período, a chamada posição tônica,  o advérbio é acentuado.

DISTINÇÃO FUNDAMENTAL: POR QUE/ PORQUE

Aparentemente, essas  são as grafias que mais ocasionam confusão. É muito comum que as pessoas usem no lugar do advérbio “por que” a conjunção “porque”, o que pode ter origem no fato de que o advérbio interrogativo nas chamadas interrogações indiretas também encabeça uma oração. Daí a parecer uma conjunção, é um passo curto. Convém, portanto, explicar esse ponto. Será o advérbio (por que), não a conjunção (porque), a palavra que introduz uma oração cuja função é ser o objeto direto da anterior. Complicado? Nem tanto. Vamos à canção de Zeca Baleiro:

Eu não sei/ por que eu teimo em dizer/ que amo você [aqui as barras separam as orações, não os versos]

A primeira oração, “Eu não sei”, requer um complemento (o que é que eu não sei?). O complemento do verbo “saber” (o seu objeto direto) é a oração “por que eu teimo em dizer” (a razão pela qual eu teimo em dizer). Essa oração exerce a função de objeto direto da anterior, enquanto a causal (introduzida por “porque”) exerce função de adjunto adverbial de causa. O objeto direto é um termo complementar, que poderia ser substituído por um substantivo (Eu não sei alguma coisa). Essa “coisa” pode expressar-se na forma de uma oração justaposta (sem conjunção, iniciada por um advérbio). Vejamos alguns exemplos:

Eu não sei como você chegou aqui. [como = modo de chegar]

Eu não sei quando você chegou aqui. [quando = tempo, momento da chegada]

Eu não sei onde você mora. [onde = lugar em que se mora]

Eu não sei por que eu teimo em dizer [por que = motivo da teimosia]

Observe que a mesma oração (“Eu não sei”) é completada por orações iniciadas por advérbios interrogativos (“como”, de modo; “quando”, de tempo; “onde”, de lugar; “por que”, de causa). Pode-se dizer que, nesse tipo de estrutura, “por que” (advérbio) permuta com outros advérbios (como, quando, onde). Já a conjunção “porque” é empregada em outro tipo de situação. Como ela introduz um adjunto adverbial, que não é um termo complementar, a oração principal do período tende a expressar uma ideia completa. Veja um exemplo: “Ele não foi ao cinema porque se sentiu mal”. [Ele não foi ao cinema – ideia completa/  porque se sentiu mal – circunstância de causa, ideia acessória, não complementar].

PORTUGUÊS BRASILEIRO E PORTUGUÊS EUROPEU

Existe diferença de grafia entre o registro brasileiro e o português no que se refere ao emprego dessas duas formas. O advérbio interrogativo de causa, que aqui se grafa em duas palavras, em Portugal é escrito como uma só palavra. Diga-se que o sistema de lá é mais sensato nesse ponto. Veja um exemplo, no célebre soneto de Camões “Busque Amor novas artes, novo engenho”:

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n’alma me têm posto
um não sei quê*, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

Observe como o “porquê” final é um advérbio (como “onde” e “como”). Na grafia portuguesa, é uma palavra só e recebe o acento por estar na posição tônica. Na grafia brasileira, teríamos “dói não sei por quê”.

OUTROS USOS

Por que, em duas palavras, também pode ser equivalente a “pelo qual” (e flexões). Assim: “O ideal por que lutamos é a liberdade” equivale a “O ideal pelo qual lutamos é a liberdade”.  Nesse caso, temos a preposição “por” seguida do pronome relativo “que” (o pronome relativo é responsável pela retomada de um termo já mencionado e deve ser antecedido de preposição se a regência de um verbo ou nome assim o exigir). Veja alguns exemplos:

Essa era a explicação de que eu precisava. [precisava de – de que precisava]

Esse foi o filme a que eu assisti. [assisti a – a que assisti]

Aqui está a mala com que ela viajou. [viajou com – com que viajou]

Aquela era a causa por que lutava. [lutava por – por que lutava]

Por que também pode ser a preposição “por” seguida do pronome indefinido “que”, o que ocorre em situações como estas: Por que caminho você veio? [por qual caminho] ou Não sei por que motivo ela não veio [por qual caminho].  O encontro da preposição “por” (regida por um verbo ou nome) com a conjunção integrante “que” (a que introduz as orações substantivas) é outra estrutura em que teremos a grafia “por que”: Ansiava por que aquela viagem terminasse logo [ansiava por algo/ algo = que aquela viagem terminasse logo].

DÚVIDAS FREQUENTES

Em títulos jornalísticos, é comum observarmos o emprego de “por que” em interrogativas indiretas elípticas. Vejamos um exemplo:

Por que as mulheres devem amamentar os bebês

Esse tipo de construção intitula um artigo em que se discorre sobre as razões pelas quais as mulheres devem amamentar os bebês. Em outras palavras, caberá ao texto responder à interrogação indireta representada pelo título, que aqui chamei de elíptica, pois nela se subentende uma oração principal que configuraria uma estrutura do tipo “Saiba por que as mulheres devem amamentar os bebês”. É comum as pessoas hesitarem quanto à pontuação desse tipo de frase. Costumam perguntar se caberia um ponto de interrogação. A resposta é “não”, exatamente por se tratar de interrogação indireta.

O acento de “por quê” é outra dúvida frequente. A  regra é que seja empregado quando a palavra aparece em posição tônica, ou seja, antes de pausa forte (representada por ponto final, ponto de interrogação, ponto de exclamação, reticências), ou seja, no fim do período. Ocorre, porém, que, antes das orações coordenadas adversativas (aquelas introduzidas pelo “mas”), ocorre uma pausa enfática que autoriza o emprego do acento, dado que a pronúncia se torna tônica. Assim: Não sei por quê, mas isso não me agrada.

Esse acento não se usa apenas em “por quê”. O princípio se estende ao “que” posto em posição tônica. Assim: Você vai comprar isso para quê? Vou usar esse chapéu não sei com quê. Vale lembrar aqui que o “que” pode sofrer o processo de substantivação e, nesse caso, também será acentuado (Seu olhar evocava um quê de mistério). Na expressão “não sei quê”*, usa-se o acento.

A conjunção porque pode aparecer em orações interrogativas. Isso ocorre quando a pergunta incide sobre a relação de causa e efeito, não sobre a causa em si, de modo que a resposta será na forma de “sim” ou “não”. Veja um exemplo: “Você não veio ao escritório ontem porque estava doente?”. Nesse caso, quem pergunta quer confirmar a relação de causa e efeito (foi esse o motivo de sua ausência?). A essa pergunta respondemos “sim” ou “não”. É diferente de perguntarmos “Por que você não veio ao escritório?”. Agora, indagamos a causa, empregando, portanto, o advérbio interrogativo de causa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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