-

Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

Para Ferreira Gullar, poeta e polemista, sonho de uma sociedade igualitária não deve ser sepultado

Por Thaís Nicoleti

Ferreira Gullar deixou-nos ontem, 4 de dezembro de 2016. Mais um dos grandes se vai, sem aviso prévio, que não o avanço da idade e alguma fragilidade na saúde. A par de sua obra literária, o autor do “Poema Sujo”, que foi também um polemista, legou-nos grande quantidade de artigos de jornal nos quais tratou de política, de artes plásticas e, de quando em quando, de língua portuguesa, uma de suas preocupações.temalivre

É de maneira saborosa que conta, seja em artigos, seja em entrevistas, que seu interesse pela escrita teve início ainda na adolescência, quando, depois de entregar uma redação à professora de português,  foi muito elogiado pela originalidade do texto, mas não recebeu a nota dez por ter cometido dois erros gramaticais, fato que o levou a passar dois anos estudando gramática. O poeta que se tornou foi além desses estudos, é claro. Foi antes fruto de uma sensibilidade capaz de traduzir (traduzir-se?) o comum do cotidiano em arte.

O fato, porém, é que a língua portuguesa foi um de seus objetos de reflexão. Como polemista que era, também nessa seara não fugia de uma bola dividida. Mais de uma vez entrou no debate sobre o “erro de português”. Em “Alguém fala errado?”, texto publicado em 2005 na Folha, o poeta não economizou ironias em relação à posição adotada pelos linguistas, segundo a qual não há erro em língua. Menos de um mês depois, voltaria ao tema com o texto “O jogo da semântica”, em que relativizaria suas afirmações anteriores:

“Gostaria de esclarecer ao leitor que, quando aqui publiquei a crônica “Alguém fala errado?”, não pretendi me arvorar em defensor radical do purismo lingüístico, que não sou, primeiro porque, em matéria literária, estou mais para os poemas sujos do que para os limpos e, depois, por não ter mesmo competência para isso. Respeito os filólogos, os lingüistas e os gramáticos; embora nem sempre concorde com eles, estou convencido do papel importante que desempenham no conhecimento e preservação de valores fundamentais de nosso universo cultural, de que a língua é uma das vigas mestras”.

Em “Da fala ao grunhido”, artigo publicado em 2012, ciente de que seria chamado de conservador, tornou a mostrar-se incomodado com a ideia de que o professor não deva corrigir os erros dos alunos. Embora tal abordagem possa ter algo de simplista, certamente  — e talvez por isso mesmo — encontra eco no público leitor. Para muita gente, o estudo da língua se resume a um jogo de certo e errado.  Gullar, entretanto,  sempre se mostrou intrigado com a questão, que aparece novamente em “Ler e falar”.

Apreciador do combate de ideias, dedicou boa parte de suas colunas no caderno “Ilustrada”, da Folha, a tratar de política. Propôs-se a ser um crítico da esquerda, a mesma esquerda que abraçara durante muito tempo de sua vida, mas, mesmo assim, deixou-nos um último texto, intitulado “Solidariedade” (título do autor), no qual, longe de incentivar o ódio, nestes tempos de intensa polarização de ideias na política, de alguma forma se reconcilia com os caminhos de sua juventude e reafirma seu ideal de uma sociedade justa:

Não tenho dúvida alguma em afirmar que Karl Marx foi uma personalidade excepcional, tanto por sua inteligência como por sua generosidade, pois dedicou a sua vida à luta por um mundo menos injusto.

Graças a homens como ele, as relações de capital e trabalho –que, na época, eram simplesmente selvagens– mudaram, alcançado as conquistas que as caracterizam hoje. Marx contribuiu para mudar a sociedade humana, muito embora o seu sonho da sociedade proletária se tenha frustrado.

Nisso ele errou, e nós, que acreditávamos em suas ideias, erramos com ele. Isso não significa, porém, que o sonho da sociedade igualitária tenha que ser sepultado. Continua vivo e o que importa é encontrar outros meios de torná-lo realidade. Já alguns países têm avançado nessa direção.

Para trilhar a estrada em busca desse sonho, talvez a melhor disposição de espírito seja aquela que o poeta sintetizou numa frase que gostava de repetir: “Eu não quero ter razão; eu quero é ser feliz”.

Para lembrar o poeta,”Traduzir-se”, na voz de Fagner:

Uma parte de mim/ é todo mundo:/ outra parte é ninguém:/ fundo sem fundo.

Uma parte de mim/ é multidão: / outra parte estranheza/ e solidão.

Uma parte de mim/ pesa, pondera:/ outra parte/ delira.

Uma parte de mim/ almoça e janta:/ outra parte/ se espanta.

Uma parte de mim/ é permanente:/ outra parte/ se sabe de repente.

Uma parte de mim/ é só vertigem: / outra parte, linguagem/

Traduzir uma parte/ na outra parte/ — que é uma questão/ de vida ou de morte — / será arte?

 

 

 

 

 

Blogs da Folha