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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Péssimo exemplo

Por Thaís Nicoleti

Não faltassem motivos para questionar a ida de Alexandre de Moraes para a vaga do STF aberta com a morte de Teori Zavascki, ainda surge a revelação de que ele teria cometido plágio em livro publicado em 1997 (já na 11ª edição). temalivre

É claro que os simpatizantes do atual governo tentarão “relativizar” o fato, minimizando-o ou atribuindo-o a mera formalidade (sempre se pode dizer que a falta de aspas nas citações foi um descuido, um deslize na digitação, erro do revisor de texto, coisa desse tipo ou, quem sabe, a apropriação canibalística de texto alheio seja uma espécie de “homenagem” a seu autor). Aguardemos.

Vale notar que o fato de o título do livro original constar da “bibliografia anexa à publicação” (conforme nota emitida por Moraes) antes endossa que enfraquece a tese de plágio, pois confirma o contato do autor com a obra dita plagiada.  É para evitar esse tipo de controvérsia que a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) estabelece regras para citação de trabalho alheio (aspas, recuo, indicação de se tratar de texto traduzido etc.). Qualquer pessoa que tenha passado pelos bancos da universidade sabe disso.

Como o senso comum tende a julgar qualquer ato pelo afeto (positivo ou negativo), dependendo do grau de simpatia pelo envolvido ou de eventual interesse pessoal na questão em si, existem leis e instâncias jurídicas, às quais se destina a difícil tarefa de julgar com base na razão. Plágio é crime, sim, previsto na Lei de Direitos Autorais.

É verdade que, em tempos de internet e trabalhos digitados desde o início da vida escolar, os estudantes têm abusado da facilidade de burlar as tarefas propostas pelos professores, prática que se estende à graduação.  De tão fácil, para muitos a colagem virou procedimento “natural”.

Ao ser detectado numa sala de aula de ensino médio, esse tipo de problema pode conduzir a um debate sobre ética, de todo salutar para jovens em formação. Quando, todavia, o exemplo vem de cima – um ministro indicado para vaga na mais alta instância jurídica do país, homem de confiança do presidente da República –, o que se transmite é uma péssima lição.

Vale a leitura do conto de Lima Barreto, “O Homem que Sabia Javanês”, uma alegoria do sucesso como resultado da velhacaria.

 

 

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