-

Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Puristas de ontem e de hoje

Por Thaís Nicoleti

Antigamente existiam os puristas propriamente ditos, aqueles indivíduos que tomavam para si a missão de defender o idioma, o que se traduzia no incansável combate à influência estrangeira e na busca de um estilo elegante e correto. Eram geralmente pessoas detentoras de erudição, como o conhecimento de grego e latim.

Para essa turma, o princípio da correção gramatical nem de longe admitiria o grau de controvérsia que hoje se vê. No máximo, as tertúlias de gramáticos girariam em torno do uso que os clássicos fizeram de certa palavra ou construção sintática. O conceito de elegância, ligado ao de correção e de emprego de figuras de linguagem, é sempre difícil de definir, mas soava como um acordo tácito entre aqueles que pretendiam fazer bom uso da língua. Imitar os bons autores era, assim, caminhar na direção correta, sem sobressaltos e hesitações.

Vale notar que, do ponto de vista dos puristas, o grego e o latim sempre foram os legítimos fornecedores de elementos para compor palavras. Um bom exemplo disso está no gentílico “soteropolitano”, atribuído a quem nasce em Salvador. Chega-se a esse termo partindo da helenização do nome da cidade (de Salvador faz-se, com os elementos gregos “sotero” e “pólis”, Soterópolis, que quer dizer “cidade do Salvador”). De “Soterópolis”, derivamos “soteropolitano”, o adjetivo usado para os baianos da capital do estado.

Coisa capaz de irritar um purista, no entanto, é o chamado hibridismo, ou seja, a palavra formada de elementos de línguas diferentes, como televisão (que chega ao português pelo francês “télévision” ou pelo inglês “television”, mas contém o elemento grego “tele-” unido ao elemento latino “-visão”), burocracia (junção do francês “bureau” com o grego “-cracia”) e sambódromo (de “samba”, do banto, e “-dromo”, do grego), vocábulo criado em 1984 pelo saudoso Darcy Ribeiro, cuja morte acaba de completar 20 anos. Darcy era vice-governador do Rio na ocasião, quando idealizou a obra, que, projetada por Oscar Niemeyer, recebeu o nome de passarela Professor Darcy Ribeiro, mas ficou conhecida mesmo como “sambódromo”.

O purista repele com veemência essas palavras mestiças, bem como as forasteiras, os malfalados estrangeirismos, que “descaracterizam a língua”. O mesmo vale para os neologismos e as gírias. O que nutre a atitude purista é um ideal de conservação da língua, esta vista como um patrimônio que deve ser reverenciado e protegido de seus inimigos. O pressuposto dessa visão é que a língua em si é algo externo aos falantes.

Ocorre que as coisas não são tão simples assim. A língua é um bem coletivo que pertence a quem a fala, a todos e a cada um (mesmo quem não sabe escrever sabe falar e articular a gramática da língua). Hoje, com a popularização dos conhecimentos vindos da linguística, a ciência da linguagem, qualquer pessoa medianamente informada sabe que a língua é dinâmica e que as transformações são parte de sua permanência. Quem decide se um neologismo ou um estrangeirismo entra definitivamente na língua são os falantes, ou seja, o uso e, somente depois da consagração pelo uso, o termo é incorporado ao dicionário. Em suma, o que está em uso vale, o que está em desuso não vale mais – é o arcaísmo, aquela palavra que saiu de cena.

Como se vê, é vã a luta dos puristas. Eles não conseguem barrar a entrada dos estrangeirismos, embora talvez desejassem erguer um muro imaginário para confinar a última flor do Lácio, inculta e bela, em algum lugar de um suposto passado de esplendor e pureza, impermeável às inovações e às mudanças.

A beleza da expressão era, para eles, associada, entre outras coisas, a certos malabarismos sintáticos. Vejam-se os versos iniciais do Hino Nacional Brasileiro, que muita gente sabe de cor, mas nunca entendeu: Ouviram do Ipiranga as margens plácidas/ De um povo heroico o brado retumbante (As margens plácidas do [rio] Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico). Nos nossos dias, dificilmente esse tipo de construção seria visto como melhor do que outros – até porque é difícil de compreender. Nem está hoje a beleza do idioma em formas que caíram em desuso, como a mesóclise no português do Brasil, que, embora esteja aposentada, de vez em quando dá o ar da graça para enfeitar algum discurso de ocasião, que, afinal, soa antes postiço que propriamente belo.

É voz corrente que de médico e de louco todo o mundo tem um pouco. Parece que de purista também. Não falta gente moderna, bem informada, que trava discussões em redes sociais fazendo discurso de fundo purista. A figura de retórica predileta desse pessoal é a preterição, ou seja, aquele volteio de palavras que se usa para dizer que não se vai fazer aquilo que efetivamente se está fazendo.

Primeiramente, a pessoa critica os puristas, que são retrógrados, conservadores e não conhecem linguística; depois, pode até acrescentar explicações sobre o dinamismo da língua e mencionar a grande influência que o português recebeu do francês (os “galicismos”, que provocavam pruridos nos puristas de antanho e hoje soam como se fossem português puro-sangue). Nem sempre se lembram, no entanto, de que, provavelmente, se banidos da língua todos os estrangeirismos, não nos sobrariam um alfinete ou uma xícara de açúcar.

Muito bem. Depois de se apresentarem como conhecedores dos pressupostos (básicos) da linguística (grosso modo, o de que a língua muda e o de que não existe propriamente erro gramatical), vestem a casaca e desandam a vociferar contra o uso de estrangeirismos, vistos como erros de tradução cometidos por quem sabe mal o inglês, o que é, mais ou menos, digamos, uma vergonha. Citam-se os termos traduzidos incorretamente para, em seguida, mostrar a tradução correta em bom português.

Então estamos, na maior parte das vezes, diante de puristas disfarçados. A língua é indomesticável, mas certo modismo é intolerável, grosseiro, deselegante…, ou seja, vamos tentar domesticá-la.  O maior problema dessas aulas de tradução é que a questão nunca é tão simples quanto se afigura. Não vamos defender que a melhor tradução seja a que está mais próxima da cognação, prática muito comum que, por vezes, leva a impropriedades como confundir silício (“silicon”) com silicone. Nem sempre, porém, o que está em jogo é esse tipo de problema (os chamados “falsos cognatos”).

A cognação, de fato, leva à tradução por semelhança (“empoderar”, de “empower”) ou mesmo à adaptação de uma forma estrangeira (“printar”, de “print”, em vez de “imprimir”, por exemplo) e até à ressignificação de um termo, que se incorpora na língua como empréstimo semântico. É esse o caso de “submissão” (do inglês “submission”), largamente usado no meio acadêmico no sentido de “apresentar um trabalho para o exame ou apreciação de alguém”, emprego, aliás, já defendido por teóricos da tradução (veja-se a esse respeito o “Guia Prático de Tradução Inglesa”, de Agenor Soares dos Santos). O verbo “submeter” já se registra em dicionários com esse mesmo sentido; inserir o registro do substantivo “submissão” com explicitação desse significado é mera formalidade.

Em textos traduzidos do inglês, é muito comum vermos pessoas “devastadas” (“devastated”) diante de um fato trágico; quando o texto é feito em português, geralmente as pessoas ficam “arrasadas” ou “desoladas” diante do mesmo tipo de situação (e poderiam ficar “consternadas” ou “pesarosas”). É evidente que há influência da cognação, mas podemos falar em erro? “Desolado”, empregado nesse sentido, tem provável origem no francês “désolé”; “arrasar” hoje tem vários significados, inclusive o de sair-se muito bem em alguma atividade. Qual é o termo melhor?

O inglês é acolhido com tanto entusiasmo porque está associado à ideia de modernidade, de tecnologia, de comunicação sem fronteiras, uma gama de valores que se corporificam nas escolhas lexicais. É o caso de constatar o fato, não de julgá-lo.  Coibir o estrangeirismo, em si, não muda o que as pessoas sentem e pensam. É por isso que não adianta fazer qualquer tipo de lei que proíba o seu uso, como já se tentou por aqui e, diga-se de passagem, não só por aqui. Essa é uma das facetas, talvez a mais ingênua, da xenofobia.

Se os puristas da antiga tradição tinham lá suas convicções, os novos, em geral, nestes tempos fluidos, têm outras motivações: ou estão tentando exibir algum grau de erudição (não mais conhecimento de grego ou latim, mas de inglês mesmo), ou, coisa pior, estão tentando atingir aqueles de cujas posições ideológicas discordam.

As manifestações de indignação diante dos erros de português ou de alguma falta de fluência oral de um político ou de qualquer outra personalidade pública vêm quase sempre daqueles que divergem das ideias dessas pessoas ou do espectro ideológico a que elas pertencem, quando não são fruto do mais raso dos preconceitos, aquele que se volta contra quem teve menos oportunidades na vida.

Quando é o outro que usa estrangeirismo, vem à tona o Policarpo Quaresma que cada um guarda em si; quando é o outro que comete o erro de português, vem à tona o Rui Barbosa que quase ninguém leu, mas que permanece no imaginário como repositório da correção gramatical.

Blogs da Folha