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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Machão das novelas sai do personagem e cai na real

Por Thaís Nicoleti

O episódio de assédio sexual protagonizado pelo ator José Mayer nos bastidores da maior emissora de TV do país levou o machão das novelas a sair do personagem que vem encenando durante a vida toda e cair na real.

O depoimento contundente de uma figurinista da empresa ao blog AgoraÉQueSãoElas, da Folha, deflagrou o escândalo, que o ator espera ter abafado com um pedido público de desculpas, ao que tudo leva a crer, elaborado por sua assessoria de imprensa.

Vale lembrar que a primeira resposta de José Mayer menosprezava a inteligência da moça e, consequentemente, a do público de modo geral: ela estaria confundindo o ator com o personagem (ela, não ele). Não funcionou.

Muito bem. Nova resposta é divulgada à imprensa pela assessoria do ator, desta vez um texto um pouco mais elaborado.

O redator da carta usou a primeira pessoa do discurso para criar empatia com o leitor, que imagina estar diante das palavras de um  José Mayer arrependido, que, diga-se de passagem, se quisesse mesmo ser convincente, talvez gravasse um vídeo (sem TP!).

Mas vamos ao texto, a carta aberta. Diante da repercussão dos fatos, com direito a testemunhas e movimento de mulheres dentro da Rede Globo, a intenção do missivista é reconhecer o próprio erro, pedir desculpas e, de preferência, levar o público a esquecer o assunto. Afinal, o que está em jogo é a preservação da sua imagem, o seu maior ativo.

Ele é correto (pede desculpas porque essa é a “atitude correta”); ele é responsável (“Sou responsável pelo que faço”); ele é inocente (não tinha intenção de ofender, estava apenas fazendo brincadeiras de cunho machista); ele é uma boa pessoa (ter esposa, filha e amigas vale por um atestado de bons antecedentes); ele é humilde (“não me sinto superior a ninguém”); ele é vítima da educação machista de sua geração; ele é aberto às críticas (aprendeu em alguns dias o que levou 60 anos sem aprender). Finalmente, pede um voto de confiança, posiciona-se como um exemplo a ser seguido por outros homens, expressa sua dor e termina com uma mensagem moralmente positiva (“o José Mayer que surge hoje é, sem dúvida, muito melhor”).

Em suma, um homem correto, responsável, inocente, familiar, humilde, vítima, aberto à crítica, sensível, uma espécie de herói que sai do episódio transformado em um ser ainda melhor do que já era. Caso encerrado.

A trajetória do herói, no entanto, não parece tão convincente quanto o desejado. Não foram poucos os homens que, nas redes sociais, se manifestaram contra o compartilhamento dos atos condenáveis do ator com toda a sua geração – afinal, felizmente, não são todos os homens dessas gerações mais antigas que agem dessa maneira.

Cabe aqui, porém, alguma reflexão. Não se pode negar que homens e mulheres têm sido criados no machismo, numa cultura que tenta naturalizar supostas diferenças de comportamento entre os sexos, de papéis sociais etc., valores enfeixados num sistema de conveniências sempre desfavorável à mulher.

Em parte, ele, como os outros homens, é também vítima dessa situação. Ocorre, porém, que o nível das atitudes, que mais combinariam com os modos de um homem de Neandertal, chega a surpreender em pleno século 21.

Chama a atenção o fato de o ator ter-se sentido à vontade para desrespeitar a moça com gestos e xingamentos diante de 30 pessoas, num set de filmagem. Isso diz muito sobre o ambiente de trabalho na emissora, que, ao que tudo indica, sempre favoreceu esse tipo de comportamento, possivelmente visto como “normal” ou, no mínimo, permitido aos que alcançam prestígio e poder na estrutura hierárquica. Não foi à toa que ele disse que “o mundo mudou”.

Ele foi pego de surpresa pela vida real, na qual o estereótipo do machão cafajeste, em que canalhice é sinal de virilidade, já ficou para trás. O empoderamento da mulher não passa unicamente pelo seu sucesso no mundo do trabalho; a mulher quer ser sujeito de seus sentimentos e desejos, não um mero objeto ou presa a ser caçada.

É fato que ainda há homens que entendem a negativa feminina como artifício provocativo ou coquetismo – aliás, esses acham que a mulher deve ter essa atitude para “se valorizar”. É a “mulher difícil”, que esconde seu desejo para que o homem se sinta o “conquistador”. Terminada a conquista, quando ela cede ao próprio desejo, ele parte para a próxima captura. Esse modelo antigo de relação entre homens e mulheres confronta-se com os anseios da mulher do século 21. Mesmo tendo boa aparência, o ator mostra que envelheceu, porque é isso o que acontece com quem não acompanha as mudanças do mundo. O tempo passou na janela e (não) só o Zé Mayer não viu.

Talvez ter passado muito tempo no mesmo emprego, no mesmo ambiente de trabalho, encarnando o mesmo personagem, tenha privado o ator de experiências mais enriquecedoras. “O mundo é grande”, diria Drummond, muito maior que o Projac. Agora, a emissora afasta das telas o galã, pois não interessa comprometer a própria imagem. “Viver é muito perigoso”, diria Guimarães Rosa.

Para além do beijo gay, o desafio dos novelistas agora é desconstruir essa imagem tosca de virilidade, que, no fundo, é muito frágil. Está na hora de pôr em cena seres humanos com anseios do nosso tempo em vez de reforçar estereótipos que só convêm aos valentões que assediam mulheres na rua e, em casa, posam de bons maridos, sob o ódio complacente das esposas.

Desse jeito, não está bom para ninguém. Não basta investir em belas imagens e recursos técnicos, quando o texto continua fraco. Fica a dica, novelistas.

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