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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Quando o agente da ação não se dá a conhecer

Por Thaís Nicoleti

Aluga-se casas ou alugam-se casas? Essa questão de concordância verbal já foi mote de muitas aulas de português e também de muita controvérsia.

Segundo a tradição da língua portuguesa, “alugam-se casas”, mas, segundo os linguistas (cientistas da língua), o que vale é o que as pessoas usam com mais frequência – e tudo indica que, pelo menos no Brasil, a construção “aluga-se casas” venha ganhando terreno mesmo entre os falantes que dominam a norma culta.

O cientista, como se vê, não está preocupado em dizer qual é o “correto”. Seu objetivo é entender a língua e suas transformações sem fazer juízo de valor. No âmbito da universidade, ele desenvolve uma série de pesquisas.

No dia a dia de quem escreve, no entanto, surgem dúvidas. As pessoas hesitam diante de possibilidades de expressão e querem, legitimamente (por que não?), saber que vereda tomar. Quem pergunta geralmente quer seguir a tradição da língua, identificada com a ideia de correção.

Se a resposta do professor à pergunta que encabeça o texto for um sincero “tanto faz”, um cauteloso “depende do ponto de vista” ou talvez um “segundo fulano, é isto, mas, segundo beltrano, é aquilo”, é bastante provável que a pessoa insista: mas, afinal, qual é o certo (ou ainda “qual é o mais certo”)?

Aqui não pretendo encetar o debate sobre a existência ou a inexistência de erro em língua. Modestamente, quero refletir sobre o que teria levado a construção “alugam-se casas” a tornar-se estranha aos falantes.

É comum a percepção do pronome “se” como índice de indeterminação do agente da ação. Quando não se sabe ou não se pretende dizer quem pratica a ação, usa-se o “se”. É assim quando dizemos “Só se fala nisso” ou “Não se come bem aqui”. Os predicados “só falar nisso” ou “não comer bem aqui” não são atribuídos a um ser específico, mas a qualquer um, daí a ideia de indeterminação. Nessas frases, não há problemas, porém. Nenhuma delas provocaria a dúvida quanto a flexionar ou não o verbo, certo?

A estrutura aluga-se casas/ alugam-se casas, no entanto, suscita o questionamento. É preciso verificar em que ela difere das demais. Sem muito esforço, vamos observar que, diferentemente das outras, essa estrutura contém um substantivo no plural (casas), que é o complicador.

Das duas, uma: ou esse substantivo é o sujeito do verbo “alugar”, ou é o objeto direto do verbo “alugar”. Muita gente pensa que o sujeito representa necessariamente o elemento que pratica a ação expressa pelo verbo; se assim for, como aceitar que as casas aluguem a si mesmas? Parece um contrassenso. O sujeito, porém, nem sempre é o elemento que age. Ao dizer que casas são alugadas, o sujeito “casas” sofre uma ação. O que é o sujeito, então?

O sujeito de uma oração

Sujeito é aquele ou aquilo de quem ou de que se fala. Simples assim. Todo predicado se constrói sobre o sujeito, e o verbo da oração concorda com o sujeito. Quando se diz “alugam-se casas”, não se espera que as pessoas interpretem o “se” como pronome reflexivo (alugar a si mesmo). Que se espera, então?

Os saudosistas sempre têm na ponta da língua uma frase do tipo “Já não se fazem hospitais como antigamente”, “Já não se fazem escolas como antigamente”, não é mesmo?

Nessa construção, não imaginamos que hospitais não se façam a si mesmos ou que escolas não se façam a si mesmas. O que entendemos é que hospitais e escolas não são feitos como antes, não são mais como no passado. É curioso notar que a expressão fixa, talvez pela sua repetição, continua sendo usada com a concordância tradicional.

Ocorre também, nessa construção, a supressão do pronome “se” (Já não fazem hospitais como antigamente), o que muda a estrutura da frase, embora a ideia de indeterminação do agente permaneça.

Uma das formas de indeterminar o sujeito é usar o verbo na terceira pessoa do plural. Dizemos algo como “Falaram de você ontem” porque queremos ocultar a identidade de quem falou. Embora o verbo esteja no plural, o autor da ação pode ter sido uma só pessoa.

É essa a estrutura usada na canção “Balada do louco”, dos Mutantes,  à qual Ney Matogrosso deu uma interpretação inesquecível. Quem não se lembra do verso inicial “Dizem que sou louco por pensar assim”?


Sujeito indeterminado

Ao usarmos a construção “dizem que”, temos sujeito indeterminado. Então, vamos recapitular: há duas formas de indeterminar o sujeito. Uma delas se dá com o uso do pronome “se” (chamado índice de indeterminação do sujeito) e a outra com o uso de um verbo na terceira pessoa do plural sem antecedente no contexto que permita identificar a quem a ação pode ser atribuída. Assim:

Fala-se muito de política nas redes sociais.

Falam muito de política nas redes sociais.

As duas estruturas equivalem-se. Em ambas o sujeito é indeterminado.

Nem sempre, porém, teremos as duas opções – considerando-se, é claro, a tradição da língua. Os verbos transitivos diretos (e também os que admitem dois objetos, um direto e um indireto) não admitem a primeira construção (com o “se” como índice de indeterminação do sujeito).

Voz passiva

O “se” usado com verbos que admitem o objeto direto (aquele que completa o verbo sem mediação de preposição) atua como pronome apassivador, ou seja, torna passivo o sujeito da oração. Isso significa que o sujeito não será o agente da ação (na voz passiva, quem age é o “agente da passiva”). Com esses verbos, temos as seguintes construções passivas:

Aluga-se uma sala.

Uma sala é alugada.

As duas estruturas equivalem-se. Em ambas o sujeito é passivo (uma sala). Note que, na segunda construção, seria possível acrescentar o agente da passiva (Uma sala é alugada pelo dono do imóvel). O dono do imóvel é quem pratica a ação, mas ele não é o sujeito da oração, ele é o “agente da (voz) passiva”.

Na primeira estrutura (com o “se”), não se usa o agente da passiva na língua moderna. A omissão do agente (da passiva) leva à percepção de que o sujeito está indeterminado, quando, na verdade, o sujeito está determinado, mas é passivo (o que não se conhece é o agente da ação – quem aluga uma sala?).

A falsa percepção de que o sujeito sempre pratica uma ação pode ser responsável pela dificuldade que muitos têm de entender essa questão. Vale reforçar que o sujeito nem sempre pratica a ação. Na voz passiva, ele sofre a ação e quem a pratica é um termo acessório, chamado de “agente da passiva”. Grosso modo, a gramática tradicional considera “acessório” o termo que pode ser omitido da frase sem prejuízo de seu sentido. Ao dizer que uma sala é alugada, não é necessário explicitar quem a aluga.

Fazemos uso da voz passiva quando pretendemos enfatizar o resultado de uma ação (A energia elétrica será cortada durante a madrugada; O dinheiro foi distribuído entre os participantes; A mansão é vigiada durante o dia). Muitas vezes, não sentimos a necessidade de dizer quem pratica a ação – quem vai cortar a energia, quem distribuiu o dinheiro, quem vigia a mansão). Caso seja importante explicitar o autor da ação, basta usar o agente da passiva (O dinheiro foi distribuído por ele).

“Eu quero indeterminar o sujeito!”

É muito comum que as pessoas se recusem a aceitar que é passiva uma construção como “Doou-se uma vultosa quantia ao candidato”. Dizem que querem indeterminar o sujeito porque não se sabe quem doou etc. Ora, querem indeterminar o agente da ação de doar – e isso está feito, pois a frase não contém agente da passiva. É uma questão de dar nomes aos bois (pelo menos por enquanto). Com o verbo “doar” (transitivo direto), não se usa índice de indeterminação do sujeito. “E se eu quiser usar para dar o sentido de sujeito indeterminado?” Parece “nonsense”.

O problema se resolveria se a pessoa deixasse de usar o termo “sujeito”. Afinal, ela quer indeterminar o agente da ação de doar. E assim será. Que ocorrerá, porém, se, no lugar de “uma vultosa quantia”, decidirmos dizer “milhões de reais” (plural)?

Então diremos “Doaram-se milhões de reais ao candidato”. Quem doou? Não sabemos, pois não há agente da passiva. Sujeito existe: “milhões de reais” – um sujeito que não praticou a ação (que não se doou a si mesmo!), mas que sofreu a ação de “ser doado” por alguém que não se deu a conhecer no contexto (o agente da passiva omitido).

Quem insistir em achar que é o sujeito de doar que está indeterminado (não o agente da passiva que está omitido) vai dizer “Doou-se milhões de reais ao candidato”. Está certo? Do ponto de vista da tradição da língua, ponto de vista assumido neste texto, a resposta é negativa.

A língua muda, certo?

Sim, a língua muda, mas só podemos falar em mudança quando há um consenso (tácito) sobre isso. Enquanto houver quem use uma construção (em geral, porque aprendeu em aulas de português ou porque absorveu o conhecimento da leitura de textos escritos no registro formal), não se poderá aboli-la como se ela fosse o erro. Há quem, na ânsia de proclamar a mudança em nome de uma visão científica da língua, acabe por determinar o novo “certo” (“então o certo é aluga-se casas, professor?”). Na prática, as duas construções vão disputar a preferência dos falantes até que uma das duas desapareça.

 

 

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