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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Escrita no corpo: um gesto banal?

Por Thaís Nicoleti

Às vésperas de mais uma votação na Câmara para autorizar (ou não)  a investigação do presidente da República, um deputado decide registrar o voto no próprio corpo. Novamente, a tatuagem está na ordem do dia. Não faz muito tempo, a imprensa noticiava com consternação o episódio de um rapaz que tentava furtar uma bicicleta e foi brutalmente castigado por dois homens (juízes e carrascos a um só tempo), que, à força, depois de amarrarem seus braços e pernas, dividiram a tarefa de puni-lo: enquanto um tatuava na sua testa os dizeres “Eu sou ladrão e vacilão”, o outro filmava a proeza para mostrá-la ao mundo, multiplicando-a em milhões de telas.

Em ambas as situações, o corpo é convertido em suporte de uma mensagem escrita, que, pelo menos em tese, deveria ser permanente.

No caso do rapaz, o fato se dá involuntariamente, como punição, num franco retorno a práticas dos séculos 16 e 17, quando escravos que roubavam tinham o corpo marcado com a letra F (de forca), quando não à imaginação de Franz Kafka (na sua novela “Na colônia penal”, escrita em 1914, o escritor descreve em detalhes uma máquina de tortura e execução de condenados, que, posta em funcionamento, inscrevia no corpo da pessoa repetidas vezes, por meio de agulhas incrustadas numa engrenagem, o crime pelo qual estava sendo punida).

No caso do deputado Wladimir Costa (SD-PA), é por livre e espontânea vontade que, num gesto de “solidariedade” ao amigo presidente, às voltas com mais denúncias de corrupção, marca o próprio corpo. Tatua uma espécie de logotipo em que um desenho da bandeira brasileira encima o sobrenome do presidente, “Temer” (que também poderá ser lido como o verbo “temer”, de acordo com a conveniência).

Em ambos os casos, o destino do gesto é a veiculação na internet. A imagem do rapaz filmado com as garatujas inscritas na testa acabou produzindo efeito contrário ao pretendido, como sói acontecer quando o castigo é desproporcional ao delito.

À imagem do deputado, acompanhada de suas frases lapidares, “Quem é Temer é Temer, não tem medo. Amigo é amigo, filho da puta é filho da puta. Vamos vencer dia 2 com a bênção de Deus. Deus está no comando”, só resta integrar a galeria de ridicularias destes tempos bicudos.

 

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