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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Chico Buarque, o amor e a saudade da Amélia: onde está o machismo?

Por Thaís Nicoleti

De uns tempos para cá, talvez em razão desse bate-papo de milhares de vozes que são as redes sociais, quase tudo é alvo de algum tipo de crítica. E, num ambiente de muito alarido, muitas vezes vence quem fala mais alto – ou quem é mais radical. 

Recentemente, o nosso Chico Buarque, que sempre cantou tão bem o amor e os amantes, foi alvo de uma injustiça. Sua nova canção, intitulada “Tua cantiga”, foi tachada de machista. A estrofe que deflagrou a polêmica foi esta:

Quando teu coração suplicar,
Ou quando teu capricho exigir,
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir

Depreende-se da letra que o eu lírico (a voz que fala no poema) é um homem casado que se apaixona por outra mulher e se diz capaz de deixar o casamento para segui-la, caso ela assim o deseje. Trata-se de uma declaração de amor, como, de resto, o são as outras estrofes, em que fala de saudade, oferece proteção, sugere delicadamente a sensualidade da mulher, expressa desejo de fazer carinhos, sente ciúme etc.

Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E, estrada afora, te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

Quando teu coração suplicar
Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir

Na nossa casa
Serás rainha
Serás cruel, talvez
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre mais feliz

Silentemente
Vou te deitar
Na cama que arrumei
Pisando em plumas
Toda manhã
Eu te despertarei

Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E, estrada afora, te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Entre suspiros
Pode outro nome
Dos lábios te escapar
Terei ciúme
Até de mim
No espelho, a te abraçar

Mas teu amante
Sempre serei
Mais do que hoje sou
Ou estas rimas
Não escrevi
Nem ninguém nunca amou

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

E quando o nosso tempo passar
Quando eu não estiver mais aqui
Lembra-te, minha nega
Desta cantiga
Que fiz pra ti.

 

Os que viram machismo na letra talvez tenham privilegiado um viés moralista que não combina com nenhuma das poesias de Chico Buarque –  já dizia Oscar Wilde que a arte é amoral. “Amoral” (não “imoral”), ou seja, passa ao largo da moral.

Para falar de amor – e quem entre os nossos cancionistas o faz melhor que Chico? –, talvez seja mesmo necessário se desvestir das convenções da moral vigente, que, cá entre nós, têm muito de hipocrisia.

O próprio autor veio a público para explicar que machismo seria ficar com as duas mulheres. O eu lírico do poema se propõe a deixar o casamento para seguir o amor. Implícito está que, se o amor estivesse no casamento, não haveria a “amante”.

“Amante”, vale lembrar, é aquele ou aquela que ama, malgrado o sentido pejorativo que se pespegou à palavra, o que não deixa de ser curioso. Amar, este o tabu dos tempos modernos.

O casamento não requer necessariamente o amor, a paixão (nem mesmo o sexo), mas impõe deveres de responsabilidade e, ao mesmo tempo que oferece como bônus uma espécie de respeitabilidade aos que aderem a ele, ameaça retirar esse bônus daqueles que ousem partir em busca de outras paragens ou que se atrevam a correr o “risco de viver” – lanço mão das palavras do psicanalista Contardo Calligaris, que, em sua coluna do dia 17 de agosto na Folha, à maneira de um chiste, faz um jogo com a expressão “risco de vida”, a ela atribuindo um sentido literal (nada a ver com outra polêmica, aquela das aulas de português). Ele cita a filósofa e psicanalista francesa Anne Dufourmantelle (autora de “Éloge du Risque”), para quem

o risco não é tanto um ato pontual quanto uma maneira de ser, um jeito de estar no mundo com coragem, mesmo sem gestos extremos ou momentos de perigo. O risco de quem se arrisca a viver (risco de vida) é aceitar um desejo que nem nós mesmos conhecemos, um novo amor, uma paixão, a liberdade, a infidelidade, o risco de se separar ou de encontrar alguém, o risco de desapontar o outro, o risco de pensar além do que já sabemos, de não repetir as trivialidades compartilhadas.

Ora, Chico está falando de amor em sua canção. É disso que se trata. Amor implica o “risco de viver”, aquele risco que, muitas vezes, não temos coragem de correr por medo do julgamento alheio ou por culpa. Não faltam psicólogos para defender a moral e apaziguar corações inquietos, sob o argumento de que o amor se transforma em amizade etc. e tal – e de que isso é “normal”. Muito justo se o casal assim quiser viver, mas insuficiente diante da revolução que o amor pode fazer se aparecer no caminho de um dos dois. Que, pelo menos, na arte o amor não sucumba a convenções por vezes estéreis e a toda sorte de egoísmos travestidos de “deveres”.

Os que viram machismo na canção de Chico talvez não o vejam em “Ai, que saudade da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago:

 

Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Não vê que eu sou um pobre rapaz

Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo o que você vê, você quer
Ai, meu Deus, que saudade da Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E, quando me via contrariado, dizia
Meu filho, o que se há de fazer?

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade

Nessa canção, o eu lírico se arrepende de ter deixado a mulher (a “verdadeira”) pela amante. É o homem que, seduzido por uma amante interesseira e cheia de luxos, enxerga que a mulher “de verdade” é aquela que passa fome ao lado dele, que não reclama e que não tem a menor vaidade. “Aquilo sim é que era mulher.”

Aqui não se fala propriamente de amor, mas daquilo em que se transformam os casamentos no decorrer do tempo – com sorte, uma relação de companheirismo, resignação e amizade. A “amante”, nesse contexto, é a vilã, a mulher sedutora – e o homem é a vítima dela.

As duas letras mostram atitudes opostas. Na de Chico, a mulher desperta o amor e o homem quer viver o amor, o que pode levá-lo a deixar uma mulher por outra (as duas em pé de igualdade, um amor depois do outro); na de Ataulfo, há dois modelos de mulher: uma é sedutora e interesseira, a outra é resignada e sem vaidade. A “verdadeira” é a que dá menos trabalho. Onde estará o machismo?

De resto, só pra terminar com Chico Buarque, vale lembrar a sua divertida canção “O casamento do pequenos burgueses” (da “Ópera do Malandro”), em que o poeta fala de casamento, não de amor (infelizmente, não encontrei um vídeo com o próprio Chico, mas vale ouvir a canção):

Ele faz o noivo correto
E ela faz que quase desmaia
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a casa caia
Até que a casa caia

Ele é o empregado discreto
Ela engoma o seu colarinho
Vão viver sob o mesmo teto
Até explodir o ninho
Até explodir o ninho

Ele faz o macho irrequieto
E ela faz crianças de monte
Vão viver sob o mesmo teto
Até secar a fonte
Até secar a fonte

Ele é o funcionário completo
E ela aprende a fazer suspiros
Vão viver sob o mesmo teto
Até trocarem tiros
Até trocarem tiros

Ele tem um caso secreto
Ela diz que não sai dos trilhos
Vão viver sob o mesmo teto
Até casarem os filhos
Até casarem os filhos

Ele fala de cianureto
E ela sonha com formicida
Vão viver sob o mesmo teto
Até que alguém decida
Até que alguém decida

Ele tem um velho projeto
Ela tem um monte de estrias
Vão viver sob o mesmo teto
Até o fim dos dias
Até o fim dos dias

Ele às vezes cede um afeto
Ela só se despe no escuro
Vão viver sob o mesmo teto
Até um breve futuro
Até um breve futuro

Ela esquenta a papa do neto
E ele quase que fez fortuna
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a morte os una
Até que a morte os una

 

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