O preconceito é sempre uma premissa falsa

Thaís Nicoleti

Às vésperas da realização do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), acatando pedido da Associação Escola sem Partido, determinou a suspensão da anulação das redações cujo conteúdo desrespeite os direitos humanos, critério que vem sendo seguido pelas equipes de correção de textos desde 2013.

Sob o argumento de que “ninguém é obrigado a dizer o que não pensa para poder ter acesso às universidades”, a referida associação, na prática, reivindica, em nome da liberdade de expressão, o direito à manifestação de todo tipo de preconceito.

Nas palavras do desembargador federal Carlos Moreira Alves, o critério do Enem é ilegal, pois ofende a garantia constitucional de manifestação de pensamento e opinião. Na opinião dele, o candidato não deve ser privado do direito de ingresso em instituições de ensino superior caso a opinião manifestada “venha a ser considerada radical, não civilizada, preconceituosa, racista, desrespeitosa, polêmica, intolerante ou politicamente incorreta”.

O que sustenta essa decisão, da qual o Inep vai recorrer, é uma vaga premissa de que a correção de uma redação seja a análise da competência linguística do estudante como algo independente do conteúdo expresso. Em outras palavras, o professor deve corrigir a forma, não o conteúdo, como se houvesse um claro limite entre uma coisa e outra.

Será possível defender, com coerência, uma opinião “não civilizada, preconceituosa, racista, desrespeitosa ou intolerante”? Será o respeito aos direitos humanos uma opção no balcão de ideologias ou de partidos políticos?

O momento de polarização ideológica que vivemos expressa não apenas as diferenças de visão de mundo e de interesses como também a intolerância, cujos frutos a história já nos mostrou em grandes tragédias como o Holocausto dos judeus e a escravidão em vários lugares do mundo.

Dizer que alguém tem o direito de não gostar de homossexuais, de negros, de mulheres ou de judeus, por exemplo, é fazer apologia do preconceito. O preconceito, no entanto, é sempre uma premissa falsa.

Em tempos de devoção às redes sociais, o que se passou a considerar “opinião” é, na maioria das vezes, a primeira impressão que se tem de algo. Basta uma fração de segundo para conceder um “like” a um “post” lido em outra fração de segundo. Opinião é algo que se constrói com reflexão.

Muito se fala em respeito aos direitos humanos, ideia que deve nortear qualquer processo educacional, a menos que a escola abdique de ser o lugar por excelência da reflexão e da construção do pensamento crítico.

A palavra “respeito”, no entanto, talvez por ter diferentes significados, por vezes se presta a raciocínios imprecisos, do tipo “eu trato todo o mundo com respeito, mas não gosto de homossexuais nem de negros”. Quem diz isso respeita ou não os homossexuais e os negros?

É provável que a pessoa tome a ideia de respeito por não xingar ou não agredir, responder caso o outro lhe dirija a palavra e alguns gestos desse teor. Está, assim, quite com a sua cota de tolerância, o que lhe permite “não gostar de homossexuais e de negros” (atitude sentida como um direito seu) e, por conseguinte, não contratá-los para trabalhar em sua empresa, não admiti-los como amigos ou membros da família (por casamento ou namoro), enfim, segregá-los.

O respeito aos direitos humanos pressupõe uma atitude interna de reconhecimento do outro como igual em humanidade, mesmo quando o outro erra. A punição ao erro deve ser aplicada segundo a lei, sob os auspícios da razão. Caso contrário, estaremos renunciando à mais basilar conquista da civilização. Abrir espaço para a “defesa” de opiniões “não civilizadas, preconceituosas, racistas, desrespeitosas ou intolerantes” é sonegar à educação o seu papel na formação do caráter e da cidadania.

Comentários

  1. Preconceito, sim é que é uma falácia. A subscritora do artigo ficaria feliz se sua filha saísse de mãos dadas com um notório estuprador, um assaltante condenado pela justiça e foragido, um renitente drogado, por “respeito aos direitos humanos”?

    1. Não é isso que é respeitar os direitos humanos. Os criminosos devem ser punidos de acordo com a lei. Se está condenado a ficar preso por tantos anos, que fique preso, mas não precisa ser torturado ou coisa que o valha. É apenas seguir a lei, aquela que todos temos de seguir.

  2. Apesar de concordar plenamente com a ideia central de Thaís, foi radical e desnecessária a comparação do momento atual com o holocausto e Hitler. A advertência para uma possível volta para um regime radical de excessão, quase uma cartilha do esquerdismo de botique, além de falso, infla ainda mais os discursos preconceituosos aos quais a autora, com boa intenção, repudia. Os cuidados para não radicalizar discursos devem vir de todas as partes!

  3. Cara profª Thaís, o problema é que certas pessoas (incluindo as das bancas de concursos) veem tudo como “radical, preconceituoso, racista, desrespeitoso, intolerante, não civilizado”. Se alguém, por exemplo, é a favor da pena de morte para bandidos que cometem crimes hediondos, seria isso “preconceituoso, intolerante, não civilizado”? Não penso que isso seja separar o conteúdo da forma. É preciso analisar os argumentos apresentados com imparcialidade. Acredito que a Associação Escola sem Partido e o Tribunal pensaram nisso. Dá medo escrever nesses tempos de “politicamente correto”, justamente porque não se sabe se aqueles que vão ler o texto vão considerá-lo “radical, preconceituoso, racista, desrespeitoso, intolerante, não civilizado”. A banca não precisa tomar partido, concordar ou discordar do que foi escrito. Os argumentos apresentados no texto são consistentes? Penso que as redações deveriam mostrar se o candidato sabe expor suas ideias baseando-se em fatos, respeitando a língua padrão. Além do mais, ninguém é obrigado a gostar de todos. Nem Jesus conseguiu isso, escolheram livrar um bandido. Há um provérbio que diz: “Diga-me com quem tu andas, que eu te direi quem tu és”. Para não ser reconhecido como um homossexual (o que pode ser perigoso, em virtude da violência sofrida por eles), é preconceito ou discriminação não andar com homossexuais? Deixo claro que é só um exemplo para pensar. Abraço.

    1. Patrick, no próprio manual do candidato do Enem, que é bastante detalhado, existe o exemplo da pena de morte. Está lá com todas as letras que a pessoa pode defender isso como uma política de Estado. O que seria inadequado seria, por exemplo, defender que se faça justiça com as próprias mãos.Dê uma olhada no site do Enem. Abraços 🙂

  4. A livre expressão de pensamento é fundamental e parte integrante dos Direitos Humanos. Como professora há 28 anos, considero absurdo e “fascista” retaliar um candidato por manifestar sua opinião.Desde que não faça apologia àquilo que nossa Constituição considera crime, aquele que escreve tem direito de escrever o que pensa. Negar isso ao estudante/candidato é censura e PRECONCEITO.

  5. Mais sofismas de esquerdistas autoritários. A questão é que as bancadas de correção, dominadas por este tipo de gente, tem uma interpretação muito particular do que são direitos humanos, e usam essa subjetividade para doutrinar os alunos, obrigando-os a aderir a sua agenda. Simples assim.
    Se a articulista, que supostamente pertence a elite da sua profissão, a ponto de escrever no maior jornal brasileiro, é tão fraca assim, não pode surpreender ninguém que as crianças brasileiras não saibam ler e escrever.

  6. estamos considerando que a única forma de redação é a dissertação, e que a única voz presente é a do redator da dissertação? não pode haver outros personagens, além do autor, manifestando opiniões equivocadas num texto? mesmo numa dissartação, não creio que a manifestação de um ponto de vista absurdo seja motivo prá zerar, mas é uma cilada, já que vai ser complicado defender aquilo com lógica e um mínimo de coesão.

    1. Por acaso eu estou desrespeitando alguém? Veja se entendeu o que eu disse sobre gostar e respeitar. Acho que não entendeu o que eu disse. Gostamos ou não de indivíduos, sim, é possível. Ao dizer que não gosta de alguém por causa de sua identidade, você não estará sendo preconceituosa? Vamos pensar!

  7. Ridículo essa matéria. Uma redação deve ser avaliada a gramática, ortografia, construção e senso de argumentação, não importando se esse fere ou não algo. Impor essa anomalia, vira na verdade uma censura. Eu posso por exemplo fazer uma redação contra cotas raciais argumentando que existem diversos nordestinos pobres brancos, nesse caso, dependendo do imbecil que vai corrigir, o mesmo pode negativar na nota, por conta dessa aberração “partidária”. O Brasil tem um atraso educacional tremendo por conta do câncer da esquerda, e culpo principalmente a nossa falida educação por isso. O preconceito só existe no Brasil porque se da muito ibope pra ele e por conta de políticos que querem se promover com as “minorias”. É lucrativo para eles jogarem uns contra os outros. Veja nos EUA, a maior Potência, liberdade de expressão lá é seguida a risca, e la tem tanto negro, gays quanto aqui…

    1. Ricardo, é perfeitamente possível argumentar contra a política de cotas raciais, como você sugeriu. Isso, em si, não constitui preconceito. Nem tudo se resume a ser contra ou a favor disto ou daquilo. Também não precisa xingar ninguém de “imbecil” ou de qualquer outra coisa. Argumente civilizadamente. É essa a ideia. 🙂

  8. Opinião é a manifestação do pensamento individual, dos valores e conceitos da pessoa que se expressa. Caso seja julgado o conteúdo para atribuição de nota ou da validade de uma redação, a opinião de quem corrige estará se sobrepondo à do autor.

  9. O problema é que seres humanos são humanos. E é da natureza humana gostar de algumas coisas e não gostar de outras. Não é uma questão de educação. Afinal, independente de cor, raça ou credo, ninguém quer aproximação com quem não gosta.

  10. Ótimo texto. Em tempos de polarização ideológica, essas reflexões são mais do que necessárias. Parte disso é porque o Brasil tem um déficit na educação muito grande, temos 8% de analfabetos totais, quase 30% de analfabetos funcionais e apenas 8% é proficientes em alfabetização. Exigir um texto coerente com o direitos humanis de quem exercita um moralismo de goela parece muito para eles. Lembrando que um direito termina aonde o outro começa. O direito a a liberdade de expressão termina aonde começa a humanidade do outro.

  11. Concordo plenamente com a Associação Escola sem Partido, o Tribunal e com o comentário do Patrick. Ninguém deve ser obrigado a gostar ou deixar de gosta desse ou daquele seguimento da sociedade.
    A banca do Enem deve se limitar a verificar a correção gramatical, a capacidade do candidato de expor seu posicionamento (seja ele qual for) com argumentos e dentro do tema. Quem cometer crime de preconceito, racismo ou qualquer outro dever ser denunciado e julgado e punido pela justiça e não pela banca do Enem.

    1. O “politicamente correto” é um câncer que só serve para os tarados em controlar e impor sua narrativa, e muitas vezes impor aos outros o que não vivem, eu chamo estas pessoas de “hipócritas”, mas alguém me chamará de algum adjetivo dos “istas” (fascista, machistas, sexistas e sei lá mais o que ista que acharem), mas uma sociedade que não consegue aceitar que pessoas tenham opiniões diferentes e censura-las por qualquer pretexto é uma sociedade doente e é uma ditadura com roupagem light!!!!! Ditaduras que usam os instrumentos estatais para controlar e difundir suas “propagandas de um bem comum a virtude a ser propagada”, só criou justiceiros sociais e com pouca tolerância ao contraditório.

  12. Thaís, para aumentar um pouquinho mais a polêmica, não foi o que li no artigo “Veja frases que zeraram redação no Enem”. Concordo com o José Wilson — quem cometer crime deve ser julgado pela justiça, não pela banca do Enem. É hipocrisia deixar de falar o que pensa para ser aprovado. Depois de aprovado, o calouro vai mudar de opinião? Aqueles que respeitaram os direitos humanos na redação são todos boníssimos, generosos e cheios de empatia?

    1. Patrick, eu respondi a alguém aqui e vou dizer a você: não é um discurso politicamente correto de fachada que vai garantir nota na redação. Espera-se com esse critério que as escolas de ensino fundamental e médio façam a sua parte, levando esses debates para a sala de aula nos anos de formação básica do estudante. Quem faz reflexão não reproduz preconceitos. Acho que é por aí, mas estamos vendo que as pessoas que se dispuseram a comentar o texto aqui no blog, em sua maioria, são favoráveis à livre manifestação dos preconceitos como premissas e argumentos válidos para a construção de soluções para os problemas da sociedade. Não creio, porém, que essa amostra represente o pensamento da maioria das pessoas. O que me parece é que esse é o discurso da moda, por incrível que pareça! Defender os direitos humanos hoje é moralmente incorreto!…

      1. Desculpe, mas você está com problemas de interpretação. “em sua maioria, são favoráveis à livre manifestação dos preconceitos como premissas e argumentos válidos para a construção de soluções para os problemas da sociedade” é uma afirmação completamente equivocada. Outra afirmação equivocada: “Defender os direitos humanos hoje é moralmente incorreto”. Inclusive, você a encerrou com uma exclamação. A impressão que está dando é que está em uma disputa. Parece que ficou irritada e quer ofender quem a está criticando, chamando as pessoas de preconceituosas. Pense: a pessoa que não tem preconceito não julga sequer o preconceituoso. Todos temos o direito de agir de acordo com a nossa vontade. Não há cartilhas a seguir. A lei está aí para limitar os desvios, e não a opinião do outro. Não é o Robinson nem a Thaís que vão dizer se fulano ou beltrano deve ser ou não preconceituoso ou defender ideias que são contra os direitos humanos. Quando fazemos isso, estamos flertando diretamente com o fascismo, por mais que estejamos cheios de boas intenções.

      1. será que existe algum partido de direita contrário aos direitos humanos? será que no Brasil existe algum partido de direita? Será que existe algum partido de esquerda no Brasil? Talvez tenhamos pessoas que se dizem de esquerda, pessoas que se dizem progressistas e outras que se dizem conservadoras. E, diante disso, temos a seguinte situação: os progressistas não aceitam o convício com o conservadorismo e utiliza o próprio termo para dar um significado pejorativo às pessoas que o evocam. Fazem isso e – sem querer – tornam-se reacionários.

    1. Eu lembro, sim. Aliás, a frase nem é dele, não é mesmo? Mas o problema aqui, Walter, não é dizer. É mais que isso. A educação deve formar o caráter das pessoas e prepará-las para a vida em sociedade. Uma educação competente não forma gente preconceituosa. Mas você discorda, eu já sei.

      1. De novo, Thaís? “Mas você discorda, eu já sei” é necessário? Precisa dessa carga de ironia querendo julgar seu interlocutor? Quando vc diz “A educação deve formar o caráter das pessoas e prepará-las para a vida em sociedade” está se referindo à escola somente? Ou à família também? Ou às experiências vividas pelo indivíduo? Quando vc fala “Uma educação competente não forma gente preconceituosa” quer dizer que uma educação competente (que deve ser o conjunto da escola e da família e da própria capacidade de reflexão do indivíduo) não forma – por exemplo – um eleitor do Bolsonaro? Como vc julga essa gente não preconceituosa? Se o seu aluno diz que não vota em militar, vc o repreende? Se o seu aluno diz que todo PM é assassino, vc o repreende? Ou existe (não digo que vc defenda isso, ok?) um preconceito bom? Vc afirmou ainda há pouco que nem todo partido de direita é contra os direitos humanos. Isso parte de um preconceito de que partidos de direita são contra os direitos humanos. Ou parte de uma reflexão sua sobre isso? Sobre qual partido de direita? Vc não está percebendo o quanto está julgando seus críticos baseada também em preconceito? Vc está deixando claro em suas réplicas que “Quem te critica é preconceituoso” e que vc não tem nada a rever sobre sua posição. O copo está tão cheio assim?

        1. Robinson, o que eu disse sobre partidos de direita está no contexto dessa polarização esquerda-direita. Defender os direitos humanos é visto, nessa chave, como postura de esquerda (os leitores mesmo estão dizendo), mas não é. Foi o que eu disse. Não sou eu que digo que defender direitos humanos é defender bandido (você já ouviu isso?). O texto foi publicado para que as pessoas pensem, discutam, se acharem que vale a reflexão. Não é a minha opinião pessoal que importa. Seu propósito, com todas essas mensagens, é “provar” que todo o mundo é preconceituoso, que eu sou preconceituosa, esse tipo de coisa. Não acho que todos os PMs são assassinos (aliás, tenho amigos na corporação, o que nem vem ao caso) nem nada disso que você falou.

  13. A posição da articulista defende um debate em que se proíbe o outro lado de se manifestar. Vem dizer que há formas corretas de pensar. Questões como racismo, sexismo, preconceito e outras são culturais. Devem ser conversadas. Discursos feministas, usando como exemplo, muitas vezes colocam o homem em posição inferior e, pelo critério defendido, sua defesa deveria ser proibida em redações escolares. Censura é censura, para o lado que apontar.

    1. Não, Nelson. Acho que você está confundindo as coisas. O preconceito, seja ela qual for, deve sim ser combatido. Quem fomenta um preconceito (considerando-o simples opinião) o faz por não se sentir alvo dele, o que é óbvio. Digamos então que todos fomentem preconceitos uns contra os outros. Em algum momento ninguém escapará de ser alvo de algum. Note que algum homem se sentir inferiorizado por algum discurso feminista infelizmente não muda as relações de poder. O preconceito é construído historicamente. O homem não é alvo de preconceito por sua condição de homem, mas a mulher o é por sua condição de mulher. Há muitos homens que reconhecem isso, as coisas estão caminhando.

      1. Quando vc diz “Digamos então que todos fomentem preconceitos uns contra os outros. Em algum momento ninguém escapará de ser alvo de algum” parece deixar escapar o fato de que já vivemos essa realidade. Quando vc diz “O homem não é alvo de preconceito por sua condição de homem” parece esquecer (mais uma vez esquece o óbvio) de frases como “todos os homens são assim”; “homens não prestam”; “homem não sabe fazer X, Y ou Z”. Experimente sair de sua posição encastelada (sim, vc está fazendo isso, se não percebeu, pois rebate todos os seus críticos de uma posição superior [sim, vc é publicada na folha, né?] sem sequer saber do cacife de seu interlocutor. Vc não avalia) e repense sobre o que está falando. Não seriam essas afirmativas todas baseadas em preconceitos? “Homem trai mesmo”; “homem não chora”; “coisa de homem é fazer isso, isso e aquilo”; quer que continue aqui? Você acha que algum homem gosta de ver sua masculinidade resumida a afirmações assim? Vc não consegue perceber que tudo isso é um pré conceito da masculinidade?

        1. Robinson, eu discordo veementemente de todas essas afirmações contrárias aos homens que você reproduziu. Acho que não existe isso de “coisa de homem”, “homem é assim ou assado”. Já escrevi sobre isso aqui mesmo neste blog. Muitas das mulheres que dizem isso não são feministas. Apenas tentam desenvolver algum tipo de defesa pessoal contra situações corriqueiras, mas isso não constitui um preconceito social. Não sei qual é o seu cacife, mas deve ser maior que o meu, com toda a certeza. Então, muito obrigada por ter aparecido por aqui. Abraços 🙂

  14. Ótimo texto, Thais. É interessante como as pessoas estão confundindo manifestar posições favoráveis a pena de morte e contrárias a lei de cotas como preconceito. Se bem argumentadas, são posições válidas e podem render boas notas. Boa reflexão!

    1. Sim, Vinicius. É isso mesmo. Creio que haja pessoas achando que têm de fazer um discurso “politicamente correto” de fachada para obter uma boa nota. Estão erradas. É preciso desenvolver uma linha de raciocínio coerente. Vamos ver qual será o tema desta vez. Geralmente o Enem propõe discussões atuais, que estão sendo feitas na sociedade. 🙂

  15. São tempos dificeis os nossos.
    Eu tive a oportunidade (e muita sorte) de estudar em uma escola durante o ensino fundamental que buscava nos trazer cultura de todo o país. A cada semana aprendiamos sobre as diferenças regionais e isso me moldou para ser esse ser humano que se veste de respeito. O Brasil teve a oportunidade de crescer economicamente mas não fez uma reforma educacional no ensino público, que hoje carece de forma vergonhosa. Quando você não recebe o mínimo de respeito, não consegue reproduzir e não consegue enxergar que todos ao seu redor merecem isso. O resultado é esse; desrespeito e ódio para todos os lados em busca de suprir aquilo que nunca se recebeu.
    Acho que a professora está correta e sua preocupação é a mesma que a minha assistindo diariamente o preconceito e ódio sendo mascaradas com “é minha opinião”, pois bem sabemos que é assim que a desgraça começa. A história infelizmente é ciclica.

      1. Mas esse preconceito e ódio está em todos os lados. Quem estabelece que existe uma única opinião correta sobre o tema direitos humanos, política, etc já está sendo preconceituoso, já está afirmando a existência de uma ideologia que possa ser a referência da moral e da correção. É isso o que acontece hoje com as pessoas que se dizem progressistas e de esquerda. A própria autora criticou uma opinião de um leitor que usou o termo “imbecil” e pediu um debate civilizado. No entanto, se formos observar diariamente os debates nas redes sociais, o que vemos é um espetáculo de ofensas de todos os lados. Defensores de direitos humanos dizendo que político X ou Y deveria morrer, etc. Cartunista que se diz progressista fazendo charges em que afirma que pessoas que pensam assim ou assado defecam pela boca. Onde está o respeito com a forma como o outro pensa? Por mais que eu não concorde com quem faz X, Y ou Z, não cabe a mim esse julgamento público, ofensas e etc. A lei está aí para ser mediadora e punir, caso seja necessário.

        1. Caro, eu nunca xinguei ninguém nem aqui no meu blog nem em redes sociais, portanto acho que, no mínimo, posso pedir que não rebaixem tanto a discussão aqui no meu blog. Ou não? Não sou responsável por tudo o que dizem nas redes sociais ou pelos termos que usam. Não estou defendendo um grupo, estou defendendo ideias, propondo uma reflexão sobre ideias. Só isso.

  16. Se eu fosse fazer a redação, sabendo da possibilidade de levar um zero, passaria longe de qualquer afirmação polêmica por via das dúvidas. Uma postura ateísta agressiva no estilo Dawkings ou Hitchens por exemplo, poderia ser interpretada como desrespeitosa ou preconceituosa, dependendo do examinador e de sua crença pessoal.

    1. Cláudio, vale a pena ler o manual do Enem. É bem detalhado e dá vários exemplos. Tentei chamar a atenção para um ponto que me parece essencial no processo de argumentação: a premissa. Sendo falsa, vai falsear todo o raciocínio. O preconceito não é uma “opção ideológica” nem “democrática”. É muito difícil enfrentar esse problema, porque ele requer reavaliação de julgamentos apressados, estes sempre mais fáceis.

      1. O problema é quem julga o que é preconceito ou não. Como disse o Pedro Aleixo para o Presidente Costa e Silva logo após o AI-5: “meu medo não é de você, é do guarda da esquina”. A ministra Carmem Lucia fez bem em abolir essa censura disfarçada.

  17. Quem deveria levar um “O” é o inventor dessa regra. Trata-se até do contrário: quem é preconceituoso, racista, intolerante, mais do que outros, necessita receber conhecimentos nas universidades para mudar sua mente desumana. Afinal estamos em construção, e nossas ideias e posturas mudam ,à medida que adquirimos conhecimento em idade e sabedoria.

      1. Porque as pessoas que estão fazendo o Enem estão indo para a faculdade, Thaís. Ou vc inventou a máquina do tempo? Vc está vendo como a sua capacidade de argumentar se esvai quando quer simplesmente rebater seu interlocutor? Lembre-se da pessoa que disse: “É muito difícil enfrentar esse problema, porque ele requer reavaliação de julgamentos apressados, estes sempre mais fáceis”. Sim, não foi Voltaire. E outro ponto: o preconceito – na maioria das vezes – não é uma formação individual. Um princípio imaginário que surge na cabeça da pessoa. Preconceito é construído. Tem base lógica – por mais que possamos discordar do preconceito em sim, ok? – que é um histórico de um grupo social. Para desconstruir preconceitos não basta chegar e falar que o preconceito é feio, é errado. Cada indivíduo tem a sua vivência. Uma pessoa que foi assaltada 10 vezes por loiros de olhos azuis vai ter receio ao ver loiros de olhos azuis. Pessoas que são sistematicamente prejudicadas por políticos de gravatas vão julgar que todo político é safado. Consegue perceber que a premissa do preconceito não é tão frágil como por decreto vc quer impor? Por mais errado que o preconceito seja, ele tem uma base lógica, histórica, de repetição experimentada por uma ou mais pessoas. Como é o caso do preconceito com o homem: “todo homem trai”. Preciso dizer mais alguma coisa?

        1. Repense, por favor. Por que será que a pessoa foi assaltada tantas vezes por um loiro de olhos azuis? Mas ok, entendo o que você diz. Por isso é preciso ir mais fundo nas reflexões. Obrigada por participar deste debate. Abraços 🙂

  18. Todo esse contorcionismo que estamos vivendo hoje é fruto de uma crise que se instalou no sistema educacional nacional.A politica educacional foi traçada de forma equivocada,com o condão de privilegiar a desfaçatez, ao invés do respeito. Confundiram as liberdades de expressões às vezes respeitosas ou não, para dar lugar às libertinagens de expressões. É contumaz as informações noticiando que aluno mata colega e mata professor. Tudo isso, esbarra na insensatez de decisões de técnicos tupiniquins que violentaram e mudaram a antiga Lei de Diretrizes Educacionais de 1962. Com isso rotularam os segmentos sociais politicamente de esquerda ou direita, imprimindo preconceitos e contribuindo para dividir e ampliar as diferenças de forma sectária e xenófoba? Ora, tanto a esquerda, quanto a direita não tem ideologia, a não ser privilegiar os seus expoentes e mantê-los no poder em detrimento da maioria do povo brasileiro.

  19. Bem, sobre o cerne da questão de toda essa discussão sou totalmente favorável a não invalidação da redação por questão de opinião, até por que o que está sendo avaliado e a interpretação, argumentação e desenvolvimento da escrita sobre o texto sugerido na prova e não a opinião pessoal do candidato. Seguindo a linha dos que aprovam a anulação da redação por opinião, nós, estaríamos entrando em um “minority Report” onde estaríamos condenando alguém antes mesmo do mesmo cometer um crime, e vamos concordar, não podemos criminalizar a opinião, pois, essa atitude seria nada mais que uma forma fascista de impor o que as pessoas tem que pensar e dizer, mesmo que o que seja proferido for algo reprovável e nocivo… Lembramos de celebre frase “não concordo em nada com o que você diz, porém, daria minha vida para que possa as dizer”.

    1. Charles, creio que o entendimento do Inep nunca foi o de impedir a expressão de “opinião”. Toda a questão passa pela reflexão e argumentação. De qualquer forma, ao fim e ao cabo, acho que não muda muita coisa. A pessoa vai ter de argumentar pra validar a ideia, como sempre foi.

  20. Pois é, parece que a ministra Carmem Lucia, até este momento insuspeita de direitismo radical, também precisa refletir mais antes de falar…
    Pelo menos desta vez, os iluminados ditadores do bem, conhecedores privilegiados das verdades, do bom, do belo e do justo, não conseguiram impor a luz a todos nós, reles mortais. Uma pena.
    Mas não há de ser nada, ainda chegaremos ao excesso de democracia venezuelano.

  21. Tomara que os candidatos ao Enem filiados a essa tal Associação Escola sem Partido façam as piores provas de redação. Geralmente quem expressa preconceito o faz sempre de maneira tosca e com muitos erros gramaticais e estruturais. Essa gente covarde que vive infernizando os outros nas redes sociais despreza o estudo e a reflexão. São um bando de derrotados que se acham o máximo. Vão ter de estudar nas piores universidades, pagando preços extorsivos. Que, então, por favor, se expressem livremente no Enem! Dessa forma abrirão caminho para os candidatos verdadeiramente estudiosos que dominam o tema e o desenvolvem com argumentos racionais e de forma crítica.

  22. Alma minha gentil, que te partiste
    Tão cedo desta vida descontente,
    Repousa lá no Céu eternamente,
    E viva eu cá na terra sempre triste.

    Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
    Memória desta vida se consente,
    Não te esqueças daquele amor ardente,
    Que já nos olhos meus tão puro viste.

    E se vires que pode merecer-te
    Algũa cousa a dor que me ficou
    Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

    Roga a Deus, que teus anos encurtou,
    Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
    Quão cedo de meus olhos te levou.

    Luís Vaz de Camões

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