Amar e ser amado; perdoar e ser perdoado?

Thaís Nicoleti

Celso Luft, em seu conhecido “Dicionário de Regência Verbal”, a propósito de discutir a sintaxe do verbo “perdoar”, alfineta gramáticos puristas e mesmo dicionaristas que, ao reprovarem uma construção, logo vêm com a  célebre introdução “É muito corrente, embora irregular…”. Retruca Luft: “O que é usual, corrente, é regular”.

Regular ou irregular? Vai depender do ponto de vista. Aquilo que é corrente só pode ser irregular se comparado a um padrão fixo. O problema é que, quando um uso linguístico se dissemina e muita gente se desvia do padrão fixo, é porque talvez esse padrão já tenha mudado. Será preciso, então, descrever a língua de outro modo, não apenas esgarçar uma teoria antiga, tentar, a todo custo, encaixar o pé no sapatinho de cristal da Cinderela.

Pertence ao senso comum a percepção de que só existe um modo de explicar a língua, daí a ideia de que o certo é algo fixo. O que a linguística mostra (em suas várias vertentes) é que muita coisa ficava de fora do modelo teórico que se tornou conhecido como gramática tradicional.

A observação de Luft dizia respeito à construção “perdoar alguém” (perdoar o amigo, perdoar o namorado, perdoar o filho etc.), que os puristas consideram incorreta – afinal, perdoamos alguma coisa a alguém (objeto direto de coisa e objeto indireto de pessoa), donde as construções tidas como corretas demandarem uma preposição “a”: perdoar ao amigo, ao namorado, ao filho etc.

O raciocínio em questão, que igualmente se aplica ao verbo “pagar” (pagar ao médico, pagar ao dentista, pagar ao professor particular) parte do pressuposto de que, se o verbo tem dois objetos (direto e indireto), ao suprimir um deles, o outro não se altera. É um raciocínio de fundo logicista, que, no entanto, não explica o fenômeno. O purista quer que a língua entre no modelo, em vez de buscar um novo modelo para explicar o que a língua, de fato, é.

No caso desses dois verbos, o que se observa é que, na ausência do objeto direto (cujo conteúdo fica implícito), o que era objeto indireto ocupa o seu lugar. Daí as construções “perdoar o amigo” e “pagar o médico” – sem o objeto direto de coisa, o indireto de pessoa assume o seu lugar. Importam, aparentemente, a ação em si (dar o perdão, dar o pagamento/ dinheiro) e a pessoa que é afetada por ela.

O comportamento parece estender-se a outros verbos. Veja-se o caso de “cobrar”. Cobramos algo a ou de alguém. Essa é a regência do verbo “cobrar” consagrada em dicionários especializados (cobrar dos /aos políticos o respeito ao eleitor; cobrar de/a alguém uma dívida etc.). Ocorre que o verbo já tem largo uso na língua com o complemento de pessoa na posição de objeto direto (O time cobrou o técnico, mas decidiu mantê-lo; Eleitor tem a obrigação de cobrar os políticos etc.) – casos em que o objeto de coisa ficou implícito.

O mesmo ocorre com “extorquir”, bitransitivo, com objeto direto de coisa e indireto de pessoa (extorquir dinheiro de alguém). Quando o complemento direto é “dinheiro”, geralmente fica subentendido, mas nem por isso se diz algo como “Eles extorquiram da pessoa”. Mais comuns são construções em que a pessoa ocupa a posição de objeto direto  (Antigamente, para humilhar e extorquir investigados, policiais recolhiam com espalhafato as impressões digitais dos investigados).

A força desse uso é tal que a voz passiva soa muito natural: em “os profissionais mais bem pagos do mercado”, está pressuposto que “profissionais” seria o objeto direto da voz ativa (pagar bem os profissionais); o mesmo vale para “fulano foi perdoado”,”fulano foi cobrado” e “fulano foi extorquido” (este último aparece, por exemplo, em crônica de Ruy Castro na Folha: Reduziu o episódio a uma farra que fugiu do controle, omitiu o principal — sua mentira sobre o assalto — e mentiu de novo ao dizer que foi extorquido e ameaçado).

Vale notar que o apagamento do objeto direto em casos como esses ocorre por economia, já que, em geral, a informação está no contexto. Veja-se o título “Luiza Brunet diz que perdoou ex-marido Lirio Parisotto, acusado de agressão” , que é seguido da transcrição da declaração da ex-modelo: “Eu já perdoei. O que eu procuro é outro tipo de justiça. O perdão está dado”. Na fala transcrita, há o apagamento dos dois objetos (direto e indireto). Já se sabe a quem perdoou e o que perdoou. Segundo a tradição gramatical, Brunet deveria ter dito: “Eu já lhe perdoei a agressão”. Para fazer essa construção, hoje, a pessoa teria de refletir sobre o modo da expressão antes de se expressar, o que só ocorre em situações de formalidade, nas quais não se espera ouvir a fala espontânea.

É possível lidar com essa questão de duas maneiras: uma delas é contornar o problema, alterando a construção, explicitando sempre os dois objetos dos verbos, de modo a satisfazer os princípios da gramática tradicional; a outra é reconhecer a mudança linguística e registrar a língua como ela se apresenta. Optar pela primeira pode ser mais seguro, mas optar pela segunda não significa incorporar usos idiossincráticos sem nenhum critério.

Embora seja mais fácil seguir o caminho de chão batido da obediência à tradição, certamente não será possível frear as transformações. A arte está em perceber o que já é, o que não é mais e o que ainda não é.

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