A falta de ética do grão de café

Antiético é tudo aquilo que contraria a ética, ou seja, aquilo que se opõe ao conjunto de princípios de natureza moral, segundo os quais distinguimos, temalivregrosso modo, a conduta certa da errada.

Muito bem. Um dia destes, numa loja de perfumes, hesitante entre uma fragrância e outra, o olfato já com dificuldade de distinguir um aroma do outro, pedi ao vendedor o pequeno pote de grãos de café torrado que costuma (ou costumava ) ser oferecido nesse tipo de estabelecimento.

Dizem os entendidos no assunto que o odor do café torrado ativa as glândulas olfativas e, de certa forma, “limpa” o aroma do perfume anterior.

Ocorre que, segundo o atendente, a Anvisa proibiu as lojas de manter aqueles potes de grãos de café à disposição dos clientes. Para explicar o motivo da restrição, o simpático vendedor afirmou que passar o pote de uma pessoa a outra é algo “antiético”. Repetiu o termo com ênfase, justificando a medida, enquanto me informava sobre o risco de proliferação de fungos nos grãos.

Muito bem.  O motivo é de ordem sanitária, não ética.  Então me pergunto que voltas teria dado o pensamento do rapaz para confundir coisas tão diferentes. Cá com meus botões, arrisco o seguinte:  “antiético”  soa mais elegante que “anti-higiênico”. Falta de higiene não é assunto para uma sofisticada loja de perfumes, enquanto “ética” é um tema “elevado”. Ainda que ele não tenha feito esse raciocínio de maneira deliberada, é possível que a inusitada escolha do termo tenha alguma explicação para além do simples “não saber”.

Por ora, deixemos em paz os grãos de café, que nada têm que ver com os nossos problemas éticos.

 

 

Comentários

  1. Talvez seja apenas uma questão de perspectiva.

    Para a Anvisa, o uso do pote seria anti-higiênico. Mas, para o próprio vendedor, oferecer o pote (“passar o pote de uma pessoa a outra”) seria uma conduta antiética, uma vez que ele estaria contrariando as determinações da Anvisa e pondo em risco a saúde dos clientes.

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