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Perfil Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL

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Os protestos e a língua portuguesa

Os recentes protestos da população em várias cidades do país, além de toda a sua natural repercussão, ensejaram alguns comentários em redes sociais sobre os já célebres “erros de português”, ora escritos em cartazes, ora verbalizados.

Em primeiro lugar, é preciso observar que o que se vê nas situações de espontaneidade é a língua viva, com a sua gramática, que nem sempre coincide com a norma culta (de prestígio) do idioma. Não há como (nem por que) cobrar o emprego da variante culta no calor das manifestações.

Nos ambientes formais, porém, a história é outra. O repórter que disse que a polícia “interviu” cometeu um desvio do padrão culto que, aliás, está entre os mais comuns, inclusive entre pessoas escolarizadas. O que fez foi regularizar um verbo irregular. Como o passado de “partir” é “partiu”, o de “cair” é “caiu”, o de “construir” é “construiu”, o “natural” seria que o de “intervir” fosse “interviu”. Ocorre, entretanto, que “intervir” é derivado de um verbo irregular, o verbo “vir”, cujo passado é “veio” – por esse motivo, o passado de “intervir” é “interveio”.

É provável que concorra para a permanência da irregularidade o fato de que “viu” é o passado de outro verbo (“ver”) – e, portanto, a terminação de passado dos seus derivados (“previu”, “anteviu” etc.). Estabelece-se, assim, uma oposição: os derivados de “vir” têm o passado terminado em “-veio” (interveio, adveio, proveio) e os derivados de “ver”, estes sim, têm o passado terminado em “-viu” (previu, anteviu, reviu).

E atenção: nem todos os verbos terminados em “-ver” são derivados de “ver”. “Escrever”, “descrever”, “absorver” e muitos outros são verbos regulares (escreveu, descreveu, absorveu etc.).

Outra reclamação dos internautas foi o clamor de muitas vozes que, em uníssono, repetiam a palavra “conhecidência” em vez de “coincidência”. Esse já não é um desvio tão comum entre as camadas mais escolarizadas. “Coincidir” é incidir ao mesmo tempo – duas coisas coincidem ou são coincidentes.

Nesse caso, não há nenhuma relação com a ideia de “conhecer”. Esse tipo de desvio pode ter origem numa espécie de acomodação do termo desconhecido (“coincidir” não é de uso coloquial) a uma palavra de sonoridade algo semelhante (“conheci”/ “coinci-”).

Há outros casos como esse (dizer “figo” em vez de “fígado”, trocar o “fuzil” em vez de trocar o “fusível”, “destrinchar o frango” em vez de “trinchá-lo” etc.). Isso sem entrar no campo dos parônimos, que são aqueles termos parecidos, mas de significados diferentes (fragrante/ flagrante, eminente/iminente, vultoso/ vultuoso etc.),  e sem levar em conta os que confundem “luxúria” com “luxo” ou “vultuoso” com “voluptuoso” etc. O fato é que o “erro” do outro é aquele que “dói nos ouvidos”…

Houve quem se queixasse da forma “vinhesse” (“que vinhessem em paz”). Esse também é um desvio do padrão culto, mas típico de uma das variantes da nossa língua (quem nunca ouviu essa forma?). Por tratar-se de uma variante não prestigiada, provocou incômodo em algumas pessoas. Para além do certo e do errado (definitivamente discutível quando se trata de língua), essa mistura de variantes linguísticas e também as “queixas” dos internautas têm algo a revelar: as manifestações realmente agruparam pessoas de diferentes estratos sociais, o que é relevante para quem se dispuser a analisar com profundidade o movimento. 

 

 

 

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Não confunda “a fim de” com “afim”

Um de nossos leitores pediu esclarecimento sobre a distinção entre “a fim” e “afim”.

Muito bem. A primeira forma integra locuções (a fim de, a fim de que), enquanto a segunda é um adjetivo e, como termo jurídico, também um substantivo. Vamos observar quando se usa cada uma delas.

A FIM DE/ A FIM DE QUE

As locuções “a fim de” e “a fim de que” exprimem ideia de finalidade e podem ser substituídas por “para” e “para que”, respectivamente. Assim, podemos dizer o seguinte:

Economizaram dinheiro durante muitos anos a fim de comprar um imóvel. [para]

O palestrante pediu silêncio à plateia a fim de que todos pudessem ouvi-lo. [para que]

 

ESTAR A FIM DE FAZER ALGO/ ESTAR A FIM DE ALGUÉM

É ainda a locução “a fim de” que se usa no sentido de “com a intenção de”, “com vontade de”. É, aliás, muito comum esse uso. Veja exemplos abaixo:

Não estava a fim de conhecer pessoas naquele dia. [não tinha vontade de conhecer, não tinha intenção de conhecer]

Estava a fim de viajar. [tinha vontade de]

 

Na linguagem informal, “estar a fim de alguém” é ter interesse amoroso pela pessoa, ter a intenção de estabelecer um relacionamento. Assim:

Fazia tempo que o garoto estava a fim da filha do professor.

AFIM

O adjetivo “afim” é empregado para indicar que uma coisa tem afinidade com a outra. Há pessoas que têm temperamentos afins, ou seja, parecidos. Podemos ter ideias afins, comportamentos afins, interesses afins. Na maior parte das vezes, o adjetivo aparece no plural.

Também pode, porém, aparecer seguido de um complemento – e talvez aí resida a dúvida de muita gente. A preposição mais frequentemente empregada com esse adjetivo não é o “de”, mas o “com”. Assim, podemos dizer o seguinte:

As ideias socialistas são afins com o ideário cristão. (as ideias têm afinidade com o referido ideário)

 Podem aparecer ainda as preposições “de”, “em” e “a”. Assim:

Estudava as línguas afins do russo. (línguas que têm semelhanças com o russo)

Eram pessoas afins nas ideias. (pessoas que têm afinidade nas ideias)

As correntes culturais contemporâneas são afins ao modernismo. (têm semelhanças com o modernismo)

Embora admita complementos com várias preposições, “afim” sempre exprime a ideia de afinidade ou semelhança, o que não se confunde com a ideia de finalidade da locução “a fim de”.

Como substantivo, o termo designa pessoas ligadas por vínculo matrimonial, não sanguíneo ou de adoção. Sogros e cunhados, por exemplo, são parentes por afinidade – ou afins.  Assim:

Os afins não foram lembrados no testamento. [parentes]

 

 

 

 

 

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Língua portuguesa ganha novos espaços

Recentemente, a língua portuguesa foi lembrada em interessantes reportagens publicadas no caderno “Turismo”, da Folha.

Numa delas, informava-se que Nova York já vem se rendendo à língua de Camões: o MoMA (Museu de Arte Moderna), por exemplo, lançou em março a versão em português do Brasil de seu audioguia.

 

MoMA

 

E a história não para por aí, já que, em Madri, importantes museus fizeram o mesmo, restaurantes já incluíram o português no cardápio e lojas disputam vendedores fluentes na nossa língua.

Tudo isso porque o Brasil se tem revelado um importante exportador de turistas, que, ansiosos por conhecer o mundo e por fazer compras no exterior, estão levando na bagagem o idioma do maior país da América Latina.

Seguem dois links para os interessados:   

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/turismo/111254-museus-oferecem-audioguia-em-portugues-e-tour-com-brasileira.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/turismo/111253-na-corte-ingles-interprete-conduz-cliente-por-9-andares.shtml

No mundo das artes, a língua portuguesa também marcou presença internacional. Vejam esta:

“Pela primeira vez, foi em português o agradecimento à entrega do Leão de Ouro de Melhor Participação Nacional na Bienal de Arte de Veneza, concedido neste sábado (1º).

O ‘muito obrigado’ foi pronunciado pela ministra da cultura de Angola, Rosa Cruz e Silva, comissária do pavilhão, com o projeto ‘Luanda, Cidade Enciclopédica’.”

Edson Chagas, angolano, vencedor da BIenal de Veneza (2013)

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/06/1288426-pela-primeira-vez-angola-leva-leao-de-ouro-na-bienal-de-veneza.shtml

À parte essa movimentação, o nosso Neymar embarca para a Espanha  e ouço comentários de que o rapaz já deveria ter aprendido a falar a língua do país, coisa que, aparentemente, ele ainda não fez. Faz sentido essa cobrança?

O fato é que já adquirimos o hábito de nos desdobrarmos para falar línguas estrangeiras – e aqui reproduzo um pequeno trecho bem-humorado da coluna de ontem do professor Pasquale na Folha:

Divirto-me com o contorcionismo de alguns apresentadores do rádio e da TV para pronunciarem “Connecticut” do jeito que acham que se pronuncia no inglês americano (algo como “conéricât”). Nessas horas, vem-me à lembrança o que dizia o grande Eça (algo como “Tenho obrigação de falar mal qualquer língua que não seja o português”).

 http://www1.folha.uol.com.br/colunas/pasquale/2013/06/1290487-a-cidade-de-oklahoma-city.shtml

Será que o Neymar tem mesmo a obrigação de chegar à Espanha falando como um espanhol? Ou será que a nossa estrela do futebol poderá, naturalmente, divulgar a língua portuguesa por lá? Afinal, como é que uma língua se torna hegemônica?

Numa época dinâmica como a de hoje, além do turismo e da economia, as artes, o futebol, enfim, os nossos produtos culturais também podem promover a nossa língua.

 

Neymar, do Brasil para a Espanha

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Um plano “maquiavélico”

Você sabe o que quer dizer “maquiavélico”?

Certamente, deverá saber, já que o adjetivo está entre os mais conhecidos e usados no dia a dia. Quando queremos dizer que alguém é astuto, ardiloso ou falso, logo nos lembramos dessa palavra. Sua origem está no sobrenome do político e escritor florentino Niccolò Macchiavelli (1469-1527), entre nós traduzido como Maquiavel.

Como vemos, “maquiavélico” é um adjetivo de conotação negativa: um governante maquiavélico é inescrupuloso, ardiloso; um plano maquiavélico é engendrado com perfídia, má-fé.

Em português, temos também os substantivos “maquiavelismo” (relativo à obra de Maquiavel, mas também um sinônimo de “deslealdade”) e “maquiavelice” (“velhacaria”) e o verbo “maquiavelizar”, ou seja, agir de modo “maquiavélico” (e, na forma pronominal, “maquiavelizar-se”, adotar comportamento “maquiavélico”).

Hoje os estudos sobre o autor de “O Príncipe” reconhecem que seu pensamento foi historicamente mal interpretado. Maquiavel discorreu sobre aquilo que observava na política, mas seus escritos foram lidos como conselhos.

Maquiavel, autor de “O Príncipe”

Quem se interessa pelo tema tem a oportunidade de assistir ao monólogo “Da Vinci, Maquiavel e Eu”, com Tadeu Di Pyetro, dirigido por Elias Andreato, no Teatro MuBE Nova Cultural, na cidade de São Paulo. Encarnando ora Maquiavel, ora Leonardo da Vinci, o ator traça um panorama do pensamento da época renascentista. Dirá, com todas as letras, que Maquiavel foi mal lido até mesmo por grandes filósofos e que jamais proferiu a célebre frase “Os fins justificam os meios”, frequentemente atribuída a ele.

Em tempo: é possível, sim, rever a interpretação de uma obra (e os estudiosos fazem isso com frequência), mas o significado que o adjetivo “maquiavélico” ganhou entre nós está provavelmente consolidado pela força do uso e assim se manterá.

 

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Língua e identidade cultural

MUITO SE TEM falado sobre o fenômeno da mudança linguística, e não é novidade dizer que as línguas são organismos vivos, que se modificam com o passar do tempo. Falta, talvez, falar um pouco do que não muda, do que há de permanente na língua, portanto capaz de identificá-la em qualquer variante ou mesmo em qualquer época.
É possivelmente a esse jogo entre mudança e permanência que alude Caetano Veloso no verso com que inicia a canção “Língua”: “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”. Para além da metáfora erótico-amorosa, na chave concreto/abstrato proposta pela palavra “língua”, o encontro entre a língua de hoje e a língua de ontem é revelador de uma trajetória de mudanças sobre um patamar de permanências -e são estas que nos permitem a comunicação com as diferentes épocas e com os diferentes autores que expressaram seus pensamentos e emoções por meio do mesmo recorte da realidade.
“O que quer/ O que pode esta língua?”, questiona Caetano no refrão da canção. A linguística explica que as mudanças não são aleatórias. Além de refletirem as influências históricas, extralinguísticas, seguem uma dinâmica intralinguística.
Só isso já bastaria para justificar o estudo da língua portuguesa e das suas apaixonantes sutilezas. “Gosto de ser e de estar”, diz Caetano. Eis uma sutileza da nossa língua que o inglês e o francês, por exemplo, anulam. Para nós, falantes do português, “ser” é diferente de “estar”.
A maneira de pensar de um povo expressa-se em sua língua. Daí a frase lapidar de Fernando Pessoa: “Minha pátria é a língua portuguesa”, que o nosso Caetano retomou como “Minha pátria é minha língua”.
Ainda que haja diferenças no espaço e no tempo, é a mesma língua que cruza fronteiras horizontais e verticais, afirmando sua unidade em meio à diversidade.
Em sua canção, repleta de referências, Caetano afirma e reafirma essa unidade camaleônica da língua, aberta à influência externa. Artífice da língua, Caetano trabalha e retrabalha suas canções do ponto de vista linguístico -metafórico e também sonoro, em que joga com as incontáveis possibilidades semânticas e sonoras da língua, em arranjos que oscilam entre o jogo etimológico e as imprevisíveis paronomásias, pura brincadeira com a forma das palavras, a carne da língua.
A percepção da língua como meio privilegiado de expressão e veículo de identidade cultural é o que deve nortear o seu estudo.

(texto publicado em 23.6.2010 no caderno “Fovest”, da Folha de S.Paulo)

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Baloeiro ou balonista?

O balonismo, esporte de que sou particularmente aficionada desde que me entendo por gente (ou antes), ganhou as páginas da imprensa recentemente pelo pior motivo possível: um acidente com mortes.

A região da Capadócia, na Turquia, vem atraindo grandes levas de turistas, que já incluem nos “pacotes” o voo panorâmico de balão sobre a belíssima paisagem. Bem antes de ter sido locação de novela da rede Globo, a Capadócia já estava no mapa dos viajantes – e, há mais de 15 anos, uma centena de balões levanta voo na região todos os dias.

Muito bem. Numa das várias reportagens suscitadas pelo acidente, apareceu a previsível confusão entre “baloeiros” e “balonistas”. Vejamos uma passagem publicada aqui no nosso jornal “Agora”:

O custo elevado para conseguir autorização da comercialização de voos panorâmicos em balões é a principal razão alegada por baloeiros para desistir da certificação.” (“Agora”, 26.5.13)

Baloeiros e balonistas, cada um a seu modo, são apaixonados por balões, mas vale a pena distinguir uns de outros. “Baloeiro” á aquele que faz balões, normalmente os balões de São João, hoje proibidos em virtude do perigo que, estes sim, representam, pois podem incendiar-se, cair sobre fiação elétrica, enfim, causar sérios acidentes.

Vale um parêntese: na minha infância, fui vizinha de “baloeiros”, cujo desafio, a cada ano, era fazer um balão maior, com um formato diferente. Era bonito de ver, mas o perigo andava de mãos dadas com a arte dos baloeiros.

A minha paixão, porém, sempre foram os outros balões, aqueles que podem carregar as pessoas em seu cesto, pois a aventura é deixar-se levar ao sabor do vento. Os praticantes dessa atividade esportiva chamam-se “balonistas” – e o esporte é o “balonismo”.

BALOEIROS

BALONISTAS

Aproveito para responder a uma questão do balonista Sacha Haim (ver entrevista abaixo), que me perguntou se existe um terceiro termo, a saber, “baloneiro”, com um terceiro significado.

O que encontrei, pelo menos por enquanto, foi a informação de que “baloneiro” é o mesmo que “baloeiro”, ou seja, uma variante deste último. Uma curiosidade, porém, é que “baloeiro” (e também “baloneiro”), na linguagem popular, quer dizer “mentiroso” (e “balão”, nesse mesmo registro informal, é “mentira”).

BALONISMO

Para além dos voos turísticos, que já são bastante conhecidos – em Boituva e em Piracicaba, no interior de São Paulo, há (ou havia) passeios nos fins de semana –, o balonismo é um esporte e, como tal, tem competições, campeonatos etc.

Meu primeiro voo foi “de carona” num campeonato, em Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, há muitos anos, com o piloto Sacha Haim, que acumula importantes títulos na modalidade: é tricampeão (e tetravice-campeão) brasileiro de balonismo, é campeão sul-americano, octocampeão do Festival de Torres (no Rio Grande do Sul) e medalhista de ouro nos Jogos Mundiais da Natureza.

Conversamos recentemente sobre o acidente na Turquia, sobre a atividade no Brasil e – por que não dizer? – sobre a paixão que move essas rústicas máquinas de voar, que estão na origem da aviação.

Sacha Haim

TN – Sacha, o que pode ter ocasionado o acidente na Turquia?

SH- Houve um choque do envelope de um dos balões com o cesto de outro. É preciso verificar a velocidade em que cada balão estava no momento, saber se ambos estavam subindo ou se o de cima (já) estava descendo e em que velocidade. Não é possível afirmar nada com certeza ainda, mas os aparelhos de GPS contêm registros de informações que vão ser analisados. Em princípio, o culpado é o balão que está em cima, pois o de baixo não tem como ver o balão de cima. Assim como em um acidente de trânsito o culpado é, por definição, o que bate na traseira do outro.

TN – Esse tipo de acidente é pouco comum, não?

SH – Sim. É importante salientar que, na Capadócia, são cem balões voando simultaneamente todos os dias há mais de 15 anos – e esta foi a primeira vez que se noticiou um acidente grave.

TN – Até que ponto o piloto tem controle sobre o voo?

SH – O piloto tem controle total sobre a subida e a descida do balão. Ele pode regular a velocidade de subida por meio do aquecimento do ar do envelope e a velocidade de descida deixando o balão esfriar ou abrindo o “paraquedas”, uma válvula que libera ar quente e esfria o balão acelerando a velocidade de descida. Antes de decolar, é sempre feita uma análise da direção dos ventos, de modo que é possível saber para que rumo aproximado vai o balão.

TN – Em voos turísticos, é comum o piloto descer na carroceria do carro de resgate…

SH – Isso depende sempre das condições climáticas. Na Capadócia, como normalmente quase não venta, o pouso na carreta se tornou um clássico, um charme para os turistas, mas, acima de tudo, evita a mão de obra de colocar esses pesadíssimos cestos manualmente sobre o caminhão. O motorista do resgate ajuda um pouco, manobrando o veículo, e a equipe de terra, se necessário, dá o toque final. O piloto consegue manobrar o balão considerando a direção dos ventos, a altitude e a velocidade vertical (de subida e descida). É quase como se ele estivesse em uma competição, cuidando da precisão de aproximação.

TN – Você faz voos turísticos?

SH – Trabalhei como piloto comercial, levando passageiros em balões turísticos durante alguns anos, quando vivi na Espanha, mas prefiro manter o balonismo como esporte de competição e como hobby.

TN – Por quê?

SH- Porque á a maneira de não perder a paixão que eu tenho pelo balonismo; percebi depois de mais de dois anos que, em alguns momentos, buscava um hobby para descansar e deixar de ser o “motorista de ônibus”, fazendo voos por obrigação, com hora marcada. Percebi que estava transformando a paixão em rotina.

TN – De onde vem essa paixão?

SH – Aos 10 anos, fiz meu primeiro voo acompanhando meu pai [o balonista e empresário Salvator Haim], que havia sido convidado por amigos ingleses já pilotos. Foi paixão ao primeiro voo e já são 28 anos de paixão…

TN – Há jovens que não se interessam muito pelo balonismo porque parece que o esporte é muito tranquilo, não provoca a “adrenalina”…

SH – Pois é. Comigo aconteceu uma história curiosa: certa vez, levando um casal e o filho adolescente num voo, o garoto parecia muito entediado. Quando pousamos, os pais dele estavam encantados, extasiados com a viagem, mas ele estava dando de ombros (“Foi mais ou menos” ). Eu pedi licença aos pais dele para voar mais um pouquinho só com o garoto. Muito bem. Eu decolei numa velocidade mais alta, fiz manobras e fizemos um pouso bem menos tranquilo. Não deu outra: “Animal!” – foi o que ele disse entusiasmado. Naquele voo de Rio das Ostras em que você estava, também tivemos um pouso com “adrenalina”, você se lembra…

TN – E como esquecer? Uma descida com o cesto virado num assentamento de trabalhadores sem terra. Mas você passou muita segurança para todos, foi realmente incrível!  Você tem uma história de muitos feitos no balonismo. Qual você considera ter sido até agora a sua experiência mais marcante?

SH – É difícil escolher uma, mas creio que o voo sobre o vulcão Kilimanjaro, na Tanzânia, o ponto mais alto da África é algo memorável. Voamos a mais de 7.000 m de altitude. Foi um grande desafio, recompensado a cada minuto.

TN – Sacha, se você tivesse de definir o que é o balonismo para você…

SH – Posso parecer meio “brega” ou sentimental, mas eu acho que o balonismo é como a vida: nós temos uma ideia da direção que queremos tomar, mas nunca temos certeza absoluta de onde vamos parar. Não adianta ir contra os ventos.

TN – E o que dizer às pessoas que hoje estão assustadas, com medo de voar de balão?

SH – A verdade é que acidentes ocorrem todos os dias no trânsito e nem por isso as pessoas vão deixar de andar de automóvel. É preciso observar que, estatisticamente, acidentes de balão são muito raros, principalmente em comparação com todos os demais esportes aéreos. Apesar de se tratar da aeronave mais antiga que existe, há diversas tecnologias em desenvolvimento que certamente ajudarão a reduzir ainda mais os acidentes.

TN – Há fabricantes de balão no Brasil?

SH – Sim, o Brasil é conhecido internacionalmente por ser um dos maiores fabricantes de balões de formatos especiais (“special shapes”). Somos o país com o maior número de fabricantes, considerando o número de balonistas no Brasil. O país exporta balões de formato especial para o mundo inteiro.

TN – Sacha, o que é necessário para se tornar um piloto de balão?

SH   - Para se tornar piloto de balão, é necessário fazer um curso de pilotagem, regulamentado pela Anac, fazer os exames médicos idênticos aos realizados para um piloto de avião. É necessário no mínimo 16 horas de voo e 1 hora de voo solo. Só então será feito o voo de check final.

VEJA Sacha Haim no Programa do Jô -

http://www.youtube.com/watch?v=WWW3Bvepb9g

                                                                        *   *   *

AS ORIGENS DO BALÃO

Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o inventor do balão, é imortalizado na obra de ficção de José Saramago

Considerado o inventor do balão, fato ocorrido em 1709, o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nascido em Santos, no Brasil, em 1685, passou muitos anos de sua vida em Portugal. Parte de sua trajetória é romanceada no livro “Memorial do Convento”, de José Saramago.

Apelidado de “padre voador”, nas páginas do romance ele é ajudado por Blimunda e Baltasar Sete-Sóis (personagens fictícios) na realização de uma das mais antigas aspirações da humanidade. Para ele, a vontade era o combustível desse fantástico sonho. Na época de Bartolomeu de Gusmão, o antecessor do balão era chamado, com certo tom pejorativo, de “passarola”.

Abaixo, a passagem do romance em que o “padre voador” leva Baltasar Sete-Sóis à sua “oficina” e descreve o projeto que tinha em mente:

“Baltasar entrou logo atrás do padre, curioso, olhou em redor sem compreender o que via, talvez esperasse um balão, umas asas de pardal em maior, um saco de penas, e não teve mão que não duvidasse, Então é isto, e o padre Bartolomeu Lourenço respondeu, Há-de ser isto, e, abrindo uma arca, tirou um papel que desenrolou, onde se via o desenho de uma ave, a passarola seria, isso era Baltasar capaz de reconhecer, e porque à vista era o desenho de um pássaro, acreditou que todos aqueles materiais, juntos e ordenados nos lugares competentes, seriam capazes de voar. Mais para si próprio do que para Sete-Sóis, que do desenho não via mais que a semelhança da ave, e ela lhe bastava, o padre explicou, em tom primeiramente sereno, depois animando-se, Isto que aqui vês são as velas que servem para cortar o vento e que se movem segundo as necessidades, e aqui é o leme com que se dirigirá a barca, não ao acaso, mas por mão e ciência do piloto, e este é o corpo do navio dos ares, à proa e à popa em forma de concha marinha, onde se dispõem os tubos do fole para o caso de faltar o vento, como tantas vezes sucede no mar, e estas são as asas, sem elas como se haveria de equilibrar a barca voadora, e destas esferas não te falarei, que são segredo meu, bastará que te diga que sem o que elas levarão dentro não voará a barca, mas sobre este ponto ainda não estou seguro, e neste tecto de arames penduraremos umas bolas de âmbar, porque o âmbar responde muito bem ao calor dos raios do sol para o efeito que quero, e isto é a bússola, sem ela não se vai a parte alguma, e isto são roldanas, servem para largar ou recolher as velas, como nos navios do mar. Calou-se alguns momentos, e acrescentou, E quando tudo estiver armado e concordante entre si, voarei.”

(IN: “Memorial do Convento”, José Saramago)

 

Desenho da chamada “passarola”

Para além da ficção, o verdadeiro nascimento das atividades aéreas teria ocasião somente em 4 de junho de 1783, com o voo do balão dos irmãos franceses Joseph e Etienne Montgolfier, que chegou a atingir cerca de 2.000 metros de altura.

Há registro de que o primeiro voo de balão no Brasil foi feito em 1867 por dois americanos, J. e E. Allen.

Alguns brasileiros, como Júlio César Ribeiro de Souza (em 1881, com o aeróstato Victória) e Augusto Severo de Albuquerque Maranhão (em 1893, com o balão denominado de Bartholomeu de Gusmão), destacaram-se na história do balonismo. Posteriormente, Alberto Santos Dumont faria sua série de dirigíveis que acabariam resultando no avião.

BALONISMO

Como esporte, o balonismo teve seu primeiro campeonato em 1963 nos EUA e o primeiro Mundial em 1973, o que estimulou o crescimento da atividade esportiva também no Brasil, onde se daria em 1987 o primeiro campeonato em âmbito nacional. O pioneiro do balonismo no Brasil foi Victorio Truffi. Realizando um sonho de criança, com a ajuda do amigo Bob Rechs, Truffi construiu um balão e voou em Araraquara, SP, no dia 25 de outubro de 1970. Esse foi o primeiro voo na América do Sul de um balão de ar quente moderno.

(informações cedidas pelo site 360º)

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A novela e a crase

Segundo o querido José Simão, colunista da Folha, a nova novela da Globo, intitulada “Amor à Vida”, “promete ser polêmica, tem até crase”.

Piada à parte, conhecendo a influência que as novelas exercem na população, é bem provável mesmo que as pessoas passem a prestar mais atenção aos mistérios da crase. Na verdade, não há mistério propriamente dito, mas muita gente bem escolarizada se atrapalha na hora de decidir-se por usar ou não o acento grave sobre o “a”.

Crase, para começar, não é o acento em si, mas o fenômeno (fonético) da fusão de dois “aa”, sendo um deles a preposição e o outro o artigo definido feminino (pelo menos, na maior parte das vezes). Essa fusão é que é representada pelo “a” craseado: “à”.

POR QUE OCORRE CRASE NO TÍTULO DA NOVELA?

É um dos casos mais simples de crase. A palavra “amor” é completada por um substantivo feminino (“vida”) e a preposição responsável pela ligação dos dois termos é o “a”. Temos amor a alguma coisa, amor a alguém, portanto “amor a… a vida” – em vez de escrevermos dois “aa”, usamos “à”: amor à vida.  Se o alvo do amor fosse o trabalho, teríamos “amor ao trabalho”. É fácil, não?

Em tempo: o substantivo “amor” rege complementos com outras preposições também: amor pela vida, amor para com a vida etc.

Dúvidas sobre o uso correto das preposições podem ser resolvidas com a consulta a dicionários de regência verbal e nominal. Os dois volumes de Celso Luft, publicados pela editora Ática, são uma ótima pedida para quem se interessa pelo assunto:

LUFT, Celso – Dicionário Prático de Regência Nominal

LUFT, Celso – Dicionário Prático de Regência Verbal

Nos próximos textos, vamos tratar de mais alguns casos de crase.

 

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Poemas inéditos de Fernando Pessoa

Os inúmeros fãs de Fernando Pessoa vão gostar da notícia. Acabam de ser descobertos manuscritos do poeta, até agora inéditos. Vale a leitura de reportagem publicada hoje no caderno “Ilustrada”, da Folha.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/110396-pessoa-tem-centenas-de-poemas-ineditos.shtml

Aqui a reprodução do poema publicado hoje na Folha, respeitada a grafia original do fac-símile, a ser também reproduzida na edição da revista “Granta”:

Alma de Côrno

Alma de côrno – isto é, dura como isso;

Cara que nem servia para rabo;

Idéas e intenções taes que o diabo

As recusou a ter a seu serviço –

 

Ó lama feita vida! ó trampa em viço!

Se é p’ra ti todo o insulto cheira a gabo

– Ó do Hindustão da sordidez nababo!

Universal e essencial enguiço!

 

De ti se suja a imaginação

Ao querer descrever-te em verso. Tu

Fazes dôr de barriga á inspiração.

 

Quér faças bem ou mal, hyper-sabujo,

Tu fazes sempre mal. És como um cú,

Que ainda que esteja limpo é sempre sujo.

DICA: vale ler e guardar a reportagem do Guia Folha de hoje sobre bibliotecas, livrarias e sebos da cidade de São Paulo. Segue o link:

http://guia.folha.uol.com.br/passeios/2013/05/1283795-guia-sugere-30-bibliotecas-livrarias-e-sebos-classicos-e-novos-em-sp.shtml

 

 

 

 

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Qual é a melhor maneira de aprender a escrever?

Seguramente, a resposta é curta: ler. A leitura de bons livros é o que nos familiariza com as palavras e com os recursos de coesão, que garantem a fluência do texto e a coerência entre as suas partes. Para além disso, a leitura nos instrui e nos oferece grandes momentos de prazer.

Por esse motivo, só temos a lamentar a decadência do programa “Embarque na Leitura”, que vinha funcionando no metrô de São Paulo. Segundo reportagem publicada ontem na Folha de S.Paulo, três das quatro unidades do projeto estão desativadas por falta de patrocínio.

“Milhares de livros de autores consagrados, de diversos temas, antes disponíveis para empréstimo em estações do metrô da CPTM, estão ociosos em prateleiras de bibliotecas do programa ‘Embarque na Leitura’ há quase oito meses.”

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/05/1281171-bibliotecas-do-metro-tem-acervo-ocioso-ha-oito-meses.shtml

Segundo a reportagem, os usuários do serviço já fizeram até mesmo um abaixo-assinado pela internet a fim de obter a reativação das unidades, mas sem sucesso.

Esperamos que o poder público e os possíveis patrocinadores do projeto se sensibilizem, pois iniciativas como essa só têm pontos positivos.

 

 

 

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Para aprender a nova ortografia

Como sabemos, oficialmente, foi transferida para 2016 a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990 (sim, o último Acordo Ortográfico, esse que vem sendo posto em prática desde 2009, é de 1990).  O adiamento não significa, porém, que não vamos ter de aprender as novas regras. Aliás, quanto antes o fizermos, melhor, já que isso é muito mais simples do que conviver com dois sistemas ao mesmo tempo.

As manifestações contrárias à mudança fazem parte do jogo.  Postas à parte as críticas fundamentadas, feitas principalmente por profissionais da área, muita gente se opõe à reforma pelo simples fato de ter de reaprender algumas regras, o que, aliás, é compreensível. Na prática, porém, são poucas as alterações e há boas obras disponíveis para quem quer aprimorar o conhecimento.

O TREMA

Lembremos o caso específico do trema, que deixou saudade em muitos, inclusive nesta que ora escreve. O fato é que, embora se ouça aqui e ali algum lamento relativo a essa mudança, os dois pinguinhos sobre a letra “u” eram frequentemente sequestrados da escrita de muita gente escolarizada. Quantas pessoas realmente se preocupavam em usar o sinal diacrítico sobre o “u” de “cinquenta” quando, por exemplo, assinavam um cheque?

Pois é. O trema era esquecido na maior parte das vezes e, quando advertidas do esquecimento, muitas pessoas perguntavam se ele já não “tinha caído”, enquanto outras chegavam a afirmar isso com alguma convicção. Bem, agora caiu mesmo – para o bem ou para o mal, o tempo dirá.

Em tempo: em Portugal, já não se usava o trema. Veja um fragmento do “Ensaio sobre a Cegueira” (1995), de José Saramago:

“Por um instante, primeiro pensou a mulher que o seu homem havia sido apanhado em flagrante delito e que a polícia estava ali para passar busca à casa, ideia esta, por outro lado, e por muito paradoxal que pareça, bastante tranquilizadora, considerando que o marido só roubava automóveis, objectos que, pelo seu tamanho, não podem ser escondidos debaixo da cama.” 

ACENTOS E HIFENS

Não só a acentuação como também o sistema de hifenização foram simplificados no Acordo, mas, mesmo assim, os hifens continuam provocando dúvidas. Os revisores e demais profissionais que lidam com a língua portuguesa no dia a dia devem consultar o site da ABL (www.academia.org.br) e ter à mão obras de referência, como bons dicionários e aquele nosso velho conhecido Grande Manual de Ortografia (da editora Globo), uma obra do filólogo Celso Luft bastante conhecida entre os “militantes” da área.

Note-se que o livro ganhou nova edição, atualizada em conformidade com o texto do Acordo. Encontram-se lá, mais que essas regras, muitas outras informações, organizadas de maneira prática, favorecendo a consulta rápida. Uma lista de abreviaturas, um apêndice de antropônimos (nomes próprios de pessoas) e de topônimos (nomes próprios de lugares)  e uma boa quantidade de expressões da língua que oferecem dúvida quanto à ocorrência da crase e de artigos são tópicos de grande interesse para a turma da revisão.

SIMPÓSIO EM GOIÁS

FICA A DICA: o IV SIMPÓSIO MUNDIAL DE ESTUDOS DE LÍNGUA PORTUGUESA  será realizado na Faculdade de Letras Universidade Federal de Goiás, de 2 a 5 de julho de 2013. Entre muitos outros estudiosos da nossa língua, estarão por lá Evanildo Bechara, Maria Helena de Moura Neves e Ataliba Teixeira de Castilho.  http://www.simelp.letras.ufg.br

 

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