Perfil Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL.

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"Não cabe mais ficar discutindo filigranas"; leia entrevista com prof. Dante Lucchesi

Por Thaís Nicoleti
21/10/14 18:58

No esforço de compreender e divulgar o debate que ora se trava no Senado sobre eventuais mudanças a fazer no Acordo Ortográfico 90,  vigente desde 2009, este blog tem aberto espaço a todos os interessados na discussão.

Assim é que estudiosos da língua têm sido convidados a expor suas ideias sobre o tema.portugues em pauta

Os leitores que vêm acompanhando esse trabalho hoje terão a oportunidade de conhecer um pouco do pensamento do linguista Dante Lucchesi, professor titular de língua portuguesa da Universidade Federal da Bahia.

Mestre em linguística portuguesa histórica pela Universidade de Lisboa e doutor em linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele é coordenador do projeto Vertentes do Português Popular do Estado da Bahia  e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq.

É também autor do livro Sistema, Mudança e Linguagem (Parábola Editorial, 2004), além de organizador e autor do volume O Português Afro-Brasileiro (EDUFBA, 2009).

Com atuação em diversas áreas de pesquisa (análise sociolinguística, história da linguística, contato entre línguas e história da língua portuguesa), Dante Lucchesi conversou com o blog sobre ortografia e muito mais. Segundo o professor, que considera esquizofrênicas as nossas gramáticas, está na hora de pôr em pauta uma discussão sobre a atualidade da norma-padrão no Brasil. Abaixo a entrevista:

 

Thaís Nicoleti - Prof. Dante Lucchesi, o Acordo Ortográfico de 1990 foi objeto de uma série de críticas por ocasião de sua implementação, em 2009. Alguns o criticavam por não verem necessidade de unificar a grafia do português nos países lusófonos, outros criticaram as mudanças em si. O senhor acha que as pessoas têm certa tendência a repudiar as mudanças? O professor Sírio Possenti, por exemplo, afirmou em entrevista ao blog que preferiria que a ortografia de 1943, com todos os acentos diferenciais, tivesse sido mantida, embora acrescente que, para ele, isso não faz diferença. 

Dante Lucchesi – A promoção do Acordo Ortográfico sempre esteve inserida em um movimento pelo estreitamento das relações culturais entre os países de língua oficial portuguesa (Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste) e pelo fortalecimento do português como língua internacional, o que considero muito positivo. Mas você tem razão. Qualquer mudança em relação à língua provoca muitas reações. A língua está presente em todos os momentos e em todos os planos de nossas vidas. A condição humana, de animal simbólico, está estreitamente vinculada à faculdade da linguagem. E as pessoas constroem sua identidade em grande medida pelo seu comportamento linguístico. Assim, qualquer mudança, mesmo que apenas na representação ortográfica da língua, provoca reações de toda ordem. Sim, porque a ortografia é apenas uma representação da língua, já que o princípio da língua é a oralidade. Mas, em uma sociedade com uma longa tradição letrada, como a nossa, a modalidade escrita da língua tem um peso enorme, daí o grande impacto de qualquer proposta de alteração no sistema ortográfico.

TN – O senhor afirmou, em texto publicado na Folha, que “a sociedade já havia acatado e assimilado o acordo”, acrescentando que “os livros didáticos, as editoras, a imprensa, todos já haviam adotado o novo sistema ortográfico”, e que, portanto, houve um erro de avaliação da presidente da República ao prorrogar o período de transição até janeiro de 2016. A presidente assinou um adiamento da entrada em vigor das mudanças ortográficas, pensando provavelmente em alinhar o Brasil aos demais países lusófonos no processo de implantação. Isso, porém, parece ter ensejado a discussão em torno do texto do Acordo e do Volp. O senhor acha que oportuno fazer essa discussão agora?

 

DL - Ao que parece, foram alguns questionamentos fomentados na Comissão de Educação do Senado que levaram os senadores a pressionar o governo federal pela prorrogação do período de transição. Creio que essa prorrogação criou um ambiente de incertezas e confusão que considero prejudicial. Reafirmo que a sociedade assimilou o Acordo. A Folha e todos os demais jornais do país são publicados dentro do sistema previsto no Acordo. Todos os livros didáticos, bem como todas as editoras comerciais e públicas, seguem o Acordo. Assim, creio que faltou ao Senado, que fez a pressão pela prorrogação, a sensibilidade democrática para acatar o sentimento predominante na sociedade. Na língua, as coisas funcionam assim: o que vale é o que é consagrado pelo uso, pois não existem, entre as formas linguísticas que vão surgindo no devir histórico, formas melhores ou formas piores; o que existe é uma seleção social, que vai consagrando determinadas formas em detrimento de suas variantes. É nessa variação linguística que a língua vai mudando ininterrupta e inexoravelmente. Toda língua viva está em permanente estado de mudança, e essa mudança ininterrupta não compromete seu funcionamento. Infelizmente, existe na sociedade um desconhecimento enorme sobre realidade da linguagem humana. Há muitos mitos e disparates que são repetidos e propagados como grandes verdades, tais como o mito de que a língua está se deteriorando com as inovações da linguagem corrente e que a variação linguística prejudica a comunicação entre as pessoas. Essa ignorância generalizada dá espaço para que muitos equívocos sejam cometidos. E o que é pior: faz com que a língua seja o terreno propício para toda sorte de preconceito e discriminação. O preconceito linguístico é hoje um dos grandes empecilhos para o desenvolvimento de uma cidadania fundada no respeito à diferença.

 

TN – Todas essas questões merecem discussão séria. No entanto, o que está na pauta da Comissão de Educação do Senado neste momento é a ortografia da língua. A proposta de mudança do sistema ortográfico de autoria do professor Ernani Pimentel virou tema de debate em razão de ser esse professor o coordenador do grupo de trabalho técnico criado pela Comissão de Educação do Senado. O senhor acha que uma proposta de ortografia fonética é realista? Poderia ser de fato discutida no bojo do debate sobre o Acordo Ortográfico?

 

DL -  A proposta é totalmente irrealista. Trata-se de um desses grandes equívocos que só prosperam em função do grande desconhecimento que existe na sociedade em relação à realidade da língua. Soluções mágicas como essa trazem muito mais prejuízos do que benefícios. O atual sistema ortográfico permite fazer distinções, como entre caçar e cassar, que constituem uma grande riqueza do idioma e se perderiam com essa pseudopanaceia ortográfica. Deve-se também ter em conta o imenso custo adaptativo e os enormes gastos com reimpressões que a implementação dessa danosa reforma ensejaria. Assim, os custos e prejuízos excedem em muito os alegados benefícios.

 

TN -   Segundo o prof. Ernani Pimentel afirma em seu site, “a simplificação ortográfica é o maior projeto de inclusão social”. Também diz que o seu movimento “visa a propor uma simplificação na ortografia para que todos a dominem e se libertem de dicionários e manuais na hora de escrever x/ch, j/g, s/z, s/ss/sc/x/xc”. O senhor acha que é importante “libertar-se dos dicionários” e que esse seria um caminho para a inclusão social?

 

DL - Claro que não! A consulta aos dicionários é fonte de conhecimento e deve ser sempre estimulada. O desenvolvimento intelectual requer muito esforço e é lamentável que se fiquem propagando sofismas demagógicos da facilitação e de que o aprendizado deva ter apenas uma dimensão lúdica. O que é preciso fazer é oferecer aos nossos alunos as condições adequadas para o aprendizado da variedade formal da língua, desenvolvendo a leitura e a produção de textos em todos os gêneros, pois o ensino da língua tem de ampliar a consciência do indivíduo para a diversidade e a heterogeneidade da língua, desconstruindo essa imagem artificialmente rígida e imutável do idioma. Há quase vinte anos, o MEC estabeleceu, com a publicação do documento dos Parâmetros Curriculares Nacionais, diretrizes muito profícuas para o ensino de língua portuguesa. Nessa visão mais ampla, realista e eficaz, a ortografia é um problema de somenos. Assim, essa proposta de reforma, além de imprópria, é dispensável. Na verdade, até o critério de eliminar as diferenças arbitrárias, como na representação dos sons [s] e [z], para facilitar o aprendizado, não é seguido coerentemente, pois a regra de uso do dígrafo “qu” é clara e geral (o som [k] é sempre representado por “qu” antes de “e” e “i”), e sua eliminação, como proposta nessa reforma, escrevendo-se qeijo em vez de queijo, não facilitaria em nada a vida dos aprendizes e usuários da língua.

 

TN – No Brasil, os nomes próprios parecem não estar subordinados às regras ortográficas (Mario sem acento, Antonio sem acento, Karla com k, Wanessa com w etc.) e as pessoas demonstram grande apego pela grafia do próprio nome tal qual se encontra nos registros. Isso, de alguma forma, indica haver uma relação forte das pessoas com a imagem da palavra? Pensando assim, até que ponto seria democrática ou inclusiva uma reforma que alterasse radicalmente a grafia das palavras?

 

DL – Você observou bem. Numa cultura letrada como a nossa, a imagem da palavra fixada pela ortografia tem uma importância muito grande no imaginário coletivo. Isso torna o sistema ortográfico parte do patrimônio cultural da sociedade. Há que se ter muita cautela e responsabilidade ao propor qualquer alteração nesse sistema. Por essa razão, todas as reformas ortográficas que se sucederam ao longo do século XX foram conservadoras e pontuais, como no caso do Acordo Ortográfico de 1990. É exatamente o que falta a essa proposta de mutilação da ortografia do senhor Ernani Pimentel. Vale lembrar também que propostas esdrúxulas de simplificação como essa têm surgido desde o século XIX, sem qualquer sucesso. Antes de ser inclusiva, é uma proposta muito autoritária, que só se coloca, volto a repetir, pela ignorância que existe em relação à verdadeira realidade do idioma. O universo linguístico é demasiadamente amplo e complexo. Quem conhece bem a lógica da língua respeita muito sua diversidade e complexidade. Assim como não se pode sair por aí reformando a natureza (e eu lembro aqui o magistral conto de Monteiro Lobato), não se pode sair por aí reformando a língua. Só os incautos e ignorantes acham que podem reformar radicalmente o idioma. A língua é patrimônio do povo que a fala, e é o povo, em sua sábia e tácita democracia linguística, que vai moldando a língua, no uso corrente. Mas se alguém que saísse por aí tentando reformar a natureza (acabando com todos os insetos, por exemplo) não seria levado a sério, os reformadores da língua, infelizmente, se levantam com ares de grande autoridade, graças à já referida ignorância linguística da sociedade.

 

TN -    O senhor acha possível conceber um sistema que elimine a distinção entre fala e escrita?

 

DL - Claro que não! É como se você quisesse eliminar a distinção entre a atmosfera e os oceanos. A fala e a escrita constituem duas realidades distintas da língua, cada uma com sua lógica e dinâmica próprias. A realidade primeva da língua é a oralidade. A escrita é um sucedâneo que surgiu com a civilização, para atender às necessidades que esse sistema mais complexo de relações sociais ensejava. O advento da escrita possibilitou um enorme progresso do conhecimento humano, impulsionando o desenvolvimento social. Com isso, a escrita alcançou, nas sociedades letradas, um estatuto de grande importância e reverência, tornando-se a medida para todos os julgamentos sobre a língua. Porém, não se pode sobrepor a realidade da escrita à realidade da língua falada. O espectro da variação linguística é muito mais amplo na fala do que na escrita, em função da realidade mais dinâmica e efêmera daquela em relação a esta. Esse predomínio ideológico da escrita sobre a fala é a base para essa visão estática e homogênea de língua, que considera todas as formas variantes, sobretudo, as formas da linguagem popular, como deterioradas ou inferiores, julgamento que não tem qualquer base científica e fomenta terríveis preconceitos. Ao contrário do que pensa o senso comum, não é a heterogeneidade, mas a homogeneidade que seria disfuncional, pois, se fosse um código rígido e inflexível, a língua não poderia funcionar plenamente, como funciona, tanto nas feiras livres, quanto nas sessões dos tribunais de justiça. Mas um pesado estigma se abate sobre estruturas da linguagem popular, como a falta de concordância nominal e verbal (e.g., “meus filho trabalha muito”), que têm uma correspondência evidente com o que ocorre em línguas de grande prestígio, como o inglês (“my sons work a lot”). Isso revela o caráter preconceituoso de tal julgamento. O mais grave é que o preconceito linguístico tem sido usado como um perverso mecanismo de legitimação da exclusão social em nosso país, como ficou evidente no lamentável episódio do livro de português do MEC, ocorrido em 2011. Pode-se entender, assim, a feroz resistência que os grupos mais conservadores da sociedade têm oposto à difusão do conhecimento científico da língua.

 

TN -    A origem das palavras é um dos aspectos do estudo da língua que mais atraem a atenção das pessoas. Monteiro Lobato já lançava mão de etimologia na Gramática da Emília, um livro infantil. Na sua opinião, ao ignorar a informação etimológica que a palavra carrega, substituindo-a pela transcrição fonética (aproximada) da pronúncia, estaremos ganhando ou perdendo?   

 

DL - Você também lembrou do Monteiro Lobato com muita propriedade. Com sua perenidade, a escrita tornou-se um poderoso mecanismo de transmissão e acúmulo do conhecimento, possibilitando, como já disse, um vertiginoso progresso social. A forma escrita da palavra se mantém, enquanto sua forma falada vai se alterando com tempo, o que torna a ortografia um registro da história da língua. O princípio etimológico, que mantém o “h”, em homem, harém e no prefixo hiper, preserva a história dessas palavras. Com a proposta do senhor Pimentel, tudo isso se perderia. Mas isso não é o mais grave. Essa proposta mutila de tal maneira o sistema ortográfico da língua, que as pessoas que dominam o sistema atual teriam de se realfabetizar para poder lidar com o novo sistema. E o pior ainda estaria por vir. As pessoas que viessem a ser alfabetizadas pelo sistema do senhor Pimentel teriam uma imensa dificuldade, ou seriam mesmo incapazes de ler qualquer texto escrito no sistema atual, criando uma terrível solução de continuidade na tradição escrita da língua, com imensos prejuízos para a transmissão do conhecimento e da cultura erudita. Se tivermos consciência da importância e do papel central da tradição ortográfica no contexto cultural da civilização, seremos capazes de compreender, por exemplo, por que os países de língua inglesa e francesa, que têm sistemas ortográficos muito mais “problemáticos” que o nosso, nem sequer cogitam fazer reformas simplificadoras na sua ortografia. Esse é um exemplo que deve ser seguido.

 

TN – O senhor acha que existe alguma alteração realmente importante a fazer no Acordo Ortográfico?  

 

DL - Muitos argumentam que os critérios de hifenação contidos no Acordo são contraditórios, mas, no geral, esses parâmetros de uma racionalidade abstrata não se adéquam à lógica e às especificidades da língua. Não creio que se deva continuar prolongando indefinidamente essa discussão em torno do Acordo Ortográfico. Há problemas mais importantes em relação à normatização linguística e ao ensino de língua portuguesa que merecem mais a nossa atenção. Vou aproveitar esta oportunidade para colocar uma questão que reputo da maior relevância e que não vem sendo devidamente tratada por órgãos, como a Comissão de Educação do Senado Federal. Refiro-me à necessidade de uma atualização de nossa norma de referência linguística, ou seja, a norma padrão brasileira. O enfrentamento da questão da normatização gramatical brasileira terá efeitos muito mais positivos sobre o ensino e o uso formal da língua no Brasil do que essa interminável discussão sobre a ortografia. A norma padrão atualmente vigente no Brasil é adventícia e estranha aos nossos usos linguísticos, pois é fruto do purismo gramatical do século XIX, que impôs, no Brasil, o padrão normativo de Portugal, contra a vontade de grandes expoentes da língua nacional, como o romancista José de Alencar. Com isso, o Brasil continua sendo colônia de Portugal, no plano da língua. Construções legítimas como “os candidatos têm sempre se acusado nos debates da televisão” são preteridas em função de construções estranhas aos nossos usos como “os candidatos têm-se sempre acusado nos debates da televisão”, porque nossas gramáticas tomam como modelo os usos da língua que se plasmaram em Portugal, a partir do final do século XVIII. Na verdade, nossas gramáticas normativas padecem de uma espécie de esquizofrenia, já que colocam a forma portuguesa no corpo de texto e o uso brasileiro em nota de rodapé, o que cria um enorme problema para o professor de Língua Portuguesa e para quem se propõe a escrever um texto formal.

Além disso, construções bem-aceitas entre os usuários cultos da língua no Brasil, como “analisou-se essas questões na última reunião” ou “na época que os colonizadores chegaram ao Brasil”, são condenadas até pelos gramáticos mais modernos, sob o argumento de que as construções próprias do que chamam indevidamente norma culta seriam: “analisaram-se essas questões na última reunião” e “na época em que os colonizadores chegaram ao Brasil.

É preciso fazer a devida distinção entre norma padrão (a norma linguística preconizada pela tradição gramatical – uma norma ideal) e norma culta (a forma como as pessoas cultas efetivamente usam a língua – uma norma objetiva). Um exemplo para ilustrar a pertinência dessa dicotomia vem mais uma vez da colocação pronominal. Pode-se encontrar em qualquer grande jornal brasileiro uma construção como “Diria-se que se trata de uma questão complexa”. Temos, portanto, uma construção legítima da norma culta brasileira. Porém, a tradição gramatical condena tal construção, defendendo, nesse caso, a mesóclise, que seria forma típica da norma padrão ainda vigente: “Dir-se-ia que se trata de uma questão complexa”.

A tensão entre a norma padrão e a norma culta é normal nas sociedades letradas, por conta da natureza estática daquela e do caráter dinâmico desta. Porém, essa tensão, no Brasil, atingiu um patamar crítico, em função, sobretudo, do problema de origem de nossa norma padrão. Em face disso, por que não colocar na pauta da sociedade a atualização de nossa normatização gramatical, conferindo aceitabilidade às formas já legitimadas no uso culto da língua, ao lado das construções tradicionais? Portanto, ao invés de ficar prolongando indefinidamente a discussão em torno das soluções contidas no Acordo Ortográfico, a Comissão de Educação do Senado deveria colocar em pauta uma discussão sobre a atualidade da norma padrão no Brasil.

 

TN –   Há quem critique a implantação do Acordo pelo modo como foi feita, não exatamente pelas alterações propostas. Dizem que a ABL não ouviu as pessoas. Na sua opinião, essa crítica procede? 

 

DL -  O Acordo foi formalizado em 1990 e só foi implementado em 2009, prevendo ainda um período de transição. Houve muita discussão em torno dele, sobretudo na década de 1990. Foram dezenove anos. É tempo mais do que suficiente para debater uma matéria. E o que é mais importante é que a sociedade brasileira já assimilou o Acordo, pois todos os jornais, revistas e livros já são publicados no Brasil segundo a ortografia nele definida. Não cabe mais ficar discutindo filigranas que têm pouca ou nenhuma relevância para o ensino e a regulamentação do uso formal da língua. As aparentes contradições sobre as regras de hifenação, que têm sido levantadas para postergar a efetivação do Acordo, se desfazem, em sua maioria, quando se atenta para as especificidades da história de cada palavra, como bem demonstrou o Professor Evanildo Bechara, em entrevista aqui mesmo neste Blog. Portanto, está na hora de a sociedade virar essa página e enfrentar questões mais relevantes para o ensino e a regulamentação do uso formal da língua, como a atualização de nossa norma padrão. Além disso, é preciso ter responsabilidade com os compromissos assumidos com os demais países de língua portuguesa e atentar para a importância de estreitamento das relações linguísticas e culturais com esses países, no contexto atual de um mundo globalizado, em que a formação de blocos é crucial.

 

TN –   Há quem argumente que os portugueses relutam em aceitar o Acordo e que, nos países africanos, a implantação é ainda mais lenta. O senhor acha que esses são empecilhos à implantação definitiva do Acordo no Brasil?

 

DL –  Creio que devemos encarar essa questão desde uma perspectiva diversa. Mais de 80% dos falantes nativos da língua portuguesa são brasileiros, e o Brasil é disparado o país de maior peso econômico dentre os países lusófonos. Além disso, o país tem assumido, nos últimos anos, um grande protagonismo no plano internacional. Nesse contexto, o Brasil deveria assumir também um papel de liderança e vanguarda nessa articulação em torno da língua portuguesa no mundo. A implementação definitiva do Acordo Ortográfico aqui teria um peso muito grande nessa direção, estimulando os demais países a seguirem o mesmo caminho. Devemos ter consciência da importância do estreitamento das relações com os países lusófonos e da implementação de projetos de cooperação, no plano da língua e da cultura, em um mundo cada vez mais internacionalizado. Há um grande potencial a ser explorado nesse campo, e projetos muito interessantes, como o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, já são uma realidade. O mais importante em projetos como esse é que o fortalecimento da unidade da língua portuguesa no mundo não entra em contradição com a diversidade de formas que ela assume na realidade específica de cada país. Não cabe mais a visão anacrônica de um colonialismo linguístico. A promoção da língua portuguesa no plano internacional só será sustentável se contemplar toda a riqueza de sua diversidade, tanto no plano das diferentes culturas dos países lusófonos quanto no plano da diversidade interna da cultura de cada país.

 

"A saída não é simplificar a grafia, mas sofisticar a educação letrada"; leia entrevista com Sírio Possenti

Por Thaís Nicoleti
09/10/14 16:32

Desta vez, quem conversa com o blog sobre reforma ortográfica é Sírio Possenti, professor titular do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

Autor de diversas obras (“Discurso, Estilo e Subjetividade”, “Por que (Não) Ensinar Gramática na Escola”, “Os Humores da Língua”, “Os Limites do Discurso”, “Questões para Analistas do Discurso”, “Questões de Linguagem”, “Humor, Língua e Discurso”, entre outras), o linguista, filósofo e estudioso do humor também publica textos regularmente na imprensa (nas revistas “Língua” e “Ciência Hoje” e no jornal “O Estado de S. Paulo”).

Possenti já provou que não se furta a um bom debate. No seu “Blog do Sírio”, recentemente teceu críticas à proposta de ortografia fonética defendida pelo professor Ernani Pimentel, coordenador de um grupo de trabalho técnico criado pela Comissão de Educação do Senado para discutir o Acordo Ortográfico de 1990, em vigor desde 2009. Segundo Possenti, “o discurso da simplificação tem muito apelo, mas é furado” e “a verdadeira questão é o grau de letramento de uma sociedade”. portugues em pautaConheça as ideias do professor, que concedeu ao blog esta entrevista:

Thaís NicoletiRecentemente, a imprensa divulgou a existência de uma proposta radical de mudança do sistema ortográfico do português, baseada na fonética. Das informações publicadas, depreendem-se, por exemplo, as seguintes ideias:

a) eliminação do “h” inicial das palavras (por não representar um fonema). Exemplos: oje, omem, ora;

b) eliminação do “ç” (o fonema /s/ seria representado sempre pela letra “s”). Exemplos: pesa (no lugar de “peça”), masarico (no lugar de “maçarico”);

c) substituição do “ch” por “x”. Exemplos: caxorro, chave, xaruto, flexa;

e) representação do fonema /z/ sempre pela letra “z”. Exemplos: ezame, aza, pezar;

f) a letra “c” deixaria de ser usada antes de “e” e “i”. Exemplos: sebola, sigarro, sílio;

g) eliminação do dígrafo “qu”, passando a letra “q” a representar o fonema /k/ diante das vogais “e” e “i”. Exemplos: aqele, esqilo, leqe;

h) eliminação do dígrafo “gu”, passando a letra “g” a representar apenas o fonema /g/ mesmo antes de “e” e “i”. Exemplos: gitarra, gerra, gindaste;

h) a letra “j” passaria a representar o fonema /j/ em todas as situações. Exemplos: jeleia, ajenda, ajir.

Dessa forma, seriam eliminadas distinções gráficas como a de hora/ora, aja/haja, cozido/cosido, seção/sessão/cessão, entre muitas outras e, além disso, grafias tradicionais passariam a representar outras ideias. “Casa”, por exemplo, seria a nova forma de escrever “caça” e também “cassa”, “pesa” seria a nova grafia de “peça”. Há inúmeros casos semelhantes a esses, além de termos que sofreriam mais de uma alteração (“caxasa”, por “cachaça”, por exemplo) e daqueles de mais de uma pronúncia (“liquidação”, “hexacampeão” etc.), problema difícil de resolver no interior desse sistema, mas a ideia, segundo seu autor, visa à simplificação da ortografia. O senhor acha que esse sistema seria, de fato, mais simples? Por quê?

Sírio Possenti – Não há dúvida de que seria mais simples. Algumas dúvidas atuais deixariam de existir, mas a questão crucial não é essa. Na verdade, há duas questões mais relevantes do que a “simplificação”. Uma é o fato de que a quantidade de erros de ortografia cometidos em decorrência das “dificuldades” que seriam eliminadas é menor do que se imagina. A verdadeira grande dificuldade é decorrente da relação entre letras e pronúncias variáveis. A reforma proposta não atingiria dificuldades como as que ocorrem numa palavra aparentemente simples como “menino”, que tem pronúncias variáveis da primeira (e/i) e da última vogal (o/u), o que leva a grafias como “me / mi” e “no / nu”. Uma palavra como “anos” pode receber a grafia “anus” em decorrência do alçamento da vogal átona final; a palavra “maldade” pode receber a grafia “maudade” (sem contar a variação da vogal final), em decorrência da vocalização do “l” em final de sílaba.  Os casos são, pode-se dizer, inúmeros (essa palavra pode vir a ser escrita “enúmeros/us”). Aliás, esse exemplo mostra outras dificuldades, ligadas exatamente à divisão de palavras… (“serhumano” ou “ser humano” – independentemente do “h”). A proposta não vai na direção de “escrever como se fala” (ainda bem), mas vale assinalar que não é verdade que a maior parte das dificuldades decorre de questões do tipo “hoje / oje / (h)oge”. A outra questão diz respeito aos custos financeiros, políticos e mesmo “escolares”. Tudo teria que ser reimpresso; ou as pessoas deveriam lidar com mais uma diferença de grafia, além daquelas com as quais elas já têm que lidar, quando fossem ler obras mais antigas que não tivessem sido adaptadas.  Os problemas políticos têm a ver com a aceitação da “nova” ortografia por todos os países nos quais o português é língua oficial. A saída não é simplificar a grafia, mas sofisticar a educação letrada.

TNEmbora a proposta tenha surgido por ocasião de discussões sobre o Acordo Ortográfico de 1990, que tratou basicamente de acentuação e hífen, seu objeto é, aparentemente, muito mais amplo. O Senado, acolhendo críticas ao Acordo Ortográfico de 1990, criou um GTT (grupo de trabalho técnico), cuja coordenação ficou a cargo do autor dessa proposta. Ainda que não esteja claro o trabalho que esse grupo empreende e, muito menos, se existe alguma possibilidade de essa proposta vir a ser discutida algum dia, pergunto se o senhor acha oportuno que esse tema seja objeto de discussão no Senado.

SP - Não acho oportuno. Aliás, acho muito inoportuno. Especialmente porque os especialistas nunca são convidados. Quando se discutiu a questão da pesquisa com células-tronco (para dar um exemplo), houve audiências públicas com geneticistas.   Mas, quando se discute ortografia, nunca se chamam linguistas. Dá-se o mesmo quando a mídia trata de educação. Quando provas nacionais ou internacionais revelam problemas escolares, a mídia entrevista donos ou professores de cursinhos, que são as instituições menos adequadas para falar de escola.

TN- No âmbito da universidade, existem críticas ao Acordo Ortográfico de 1990?

SP - Se houver, são “conversas” particulares. São poucos os que se envolvem com a questão. Até porque nunca são envolvidos. Diria que não é um tema considerado muito relevante. Pelo que sei, com exceção das questões políticas, que certamente são importantes, a maioria dos professores universitários (falo das universidades, não dos colegiões) sabe que se trata, do ponto de vista da escrita, de uma questão menor. Por um lado, sabem que o desempenho ortográfico depende de boa escola (basta ver o que ocorre na França e nos países de fala anglófona). Por outro, sabem que ortografia é apenas um aspecto, e é o menos relevante, de uma escrita que mereça este nome. Nossa sociedade sofre de fixação ortográfica. Muita gente metida a especialista não sabe analisar um texto; é por isso que sai à cata de erros de grafia.

TN – Nas redes sociais, é muito comum que as pessoas expressem uma espécie de “indignação” diante dos erros de grafia. A que o senhor atribui esse comportamento? Há uma supervalorização do aspecto visual das palavras?

SP - Nas redes sociais, e, na verdade, em qualquer lugar em que as pessoas podem opinar, os erros de grafia são objeto de crítica ou de gozação. Este fato resulta de três fatores: a) uma valorização excessiva da grafia (iguala-se “saber escrever” a “escrever sem erros de grafia”): b) o fato de que ninguém compreende as razões pelas quais os erros foram cometidos; c) trata-se de uma questão simples; como, frequentemente, não se consegue analisar o texto, seus argumentos etc., ele é desqualificado  com base nos erros. É uma atitude intelectualmente bem pobre.

TN- O site “Placas do Meu Brasil” faz sucesso nas redes sociais ao divulgar formas de  expressão popular, muitas das quais com erros de grafia. O senhor já comentou em artigos seus que muitas dessas grafias têm uma gramática. O senhor poderia citar alguns exemplos?

SP - Analisar as “Placas do Meu Brasil” ensina muita coisa. A principal é que os erros de grafia que uma proposta como a do prof. Pimentel evitaria são relativamente poucos. Os verdadeiros “problemas” não são do tipo escrever geladeira com “g” ou com” j”, mas escrever com ou sem ditongo (geladeira/geladera) e também “pexe/otro /oro”. Uma das consequências dessa variação que elimina semivogais é, curiosamente,  acrescentá-las onde “não existem”. O melhor exemplo é uma palavra estrangeira, “cover”, que pode vir a ser escrita “cover”, é claro, mas também, por hipercorreção, “couver” ou mesmo “colver”, embora tenha sempre a mesma pronúncia.

 TN. Em recente artigo seu, o senhor mostra isso. As diferenças entre grafia e pronúncia (pexe/ peixe; toca/touca), consideradas inclusive as diferenças regionais, são um problema maior para o aprendizado da escrita do que o emprego de pares consonantais como  g/j  ou  x/ch e esse tipo de problema não seria solucionado com uma reforma ortográfica, pois não há como unificar grafia e pronúncia. O senhor acha que alçar a ortografia a centro de discussões sobre a língua e a educação (no âmbito do Senado) é, de alguma forma, sobrevalorizar um tema menor? 

SP – Respondo “sim” a sua pergunta final. Especialmente quando se trata da questão escolar. O discurso da simplificação tem muito apelo, mas é furado. Basta ver como se anunciam livros e programas de TV: ensinam gramática de maneira simples e bem-humorada! É um verdadeiro horror. E é efeito do discurso de cursinho, instituição que gosta muito de aulas com piadas ou musiquinhas mnemônicas. Pouco engraçadas, aliás.

TNDe certa forma, esse tipo de aula (de cursinho, com piadas e parlendas) acaba por fomentar uma visão limitada (e talvez infantil) da língua? O senhor acha que o estudante precisa se divertir enquanto estuda? 

SP - Ora, estudar é um trabalho. Não precisa ser necessariamente desagradável. Mas achar que precisa ser divertido é uma bobagem. No fundo, esta atitude encobre a verdadeira natureza do aprendizado, reduzido, no fundo, a decoreba por associação.

TN – Em recente artigo publicado na Folha, o colunista Hélio Schwartsman afirma o seguinte: “Faria algum sentido abraçar uma mudança radical que tornasse a escrita tão foneticamente transparente quanto possível. Isso significaria aniquilar não só o “h” inicial, o “ch” e o “ç” como também disciplinar o “x”, domar o “r-rr” etc. O que ganharíamos? O processo de alfabetização se tornaria mais fácil, rápido e barato”. Como o senhor vê tal afirmação?

SP - Se selecionamos só esta passagem do texto dele, pode-se dizer que não leva em conta o tipo de argumento que apresento no meu texto “Simplificar a ortografia?” e que, resumidamente, apresentei acima. Mas, mais adiante, ele fala também em deixar as coisas em paz (“Meu apelo sincero aos legisladores é que deixem o idioma em paz. Se há norma que valeria a pena aprovar é uma que limite a três séculos a periodicidade das reformas ortográficas”).  Mas, mesmo modalizado, o argumento citado por ele, que é meio lugar-comum, não leva em conta leitura e escrita de verdade. Serviria mais para ditados artificiais (do tipo “soletrando”, que, em si, são uma bobagem, embora possam servir para despertar indiretamente mais vontade de estudar, algo que poderia ser obtido por meios mais relevantes).

TN – O autor fala em alfabetização mais rápida, porém, se pensarmos não propriamente em “alfabetização”, mas em “letramento”, esse argumento,  que, aliás,  é compartilhado pelo prof. Pimentel, autor da referida proposta, continuaria válido?

SP - Esse tipo de argumento se restringe ao que se poderia chamar de alfabetização, que é o domínio do código escrito, da representação dos sons. Mas o verdadeiro problema é o letramento, isto é, a inserção real dos alunos no mundo da escrita, que implica a capacidade de ler e escrever pelo menos na medida das necessidades sociais de cada cidadão (embora o ideal seja que a cultura letrada seja objeto de desejo de todos).

TN – Segundo o prof. Ernani Pimentel, “os psicólogos e biólogos já constatam que boa parte das crianças de hoje estão nascendo com um par a mais de cromossomos ativados, o que significa estar a humanidade passando por verdadeira mutação genética que traz uma visão quântica da realidade, descomunalmente superior à antiga visão linear a que os adultos ainda estamos condicionados”. E prossegue: “Hoje o estudante, e qualquer indivíduo, ri de quem aceita regras com exceções. Não faz sentido perder tempo. Ou o que se lhe ensina é lógico, prático ou não lhe desperta interesse”. O senhor concorda com isso? Nessa linha de raciocínio, poderíamos pensar que aquilo que se tem chamado de “internetês” será a ortografia do futuro?

SP - Sobre as supostas descobertas de psicólogos e biólogos, nunca ouvi falar delas, nem o prof. Pimentel cita as fontes, o que é bem típico, aliás. Citar fontes é uma prática das universidades, porque lá não se pode chutar. Mas, se tais mutações estiverem ocorrendo, por que seria necessário simplificar? Falando em “evolução”, seria mais adequado apostar na evolução tecnológica, que vai permitir que todo mundo logo escreva com computadores ou instrumentos similares, que contêm um dicionário acoplado e um corretor ortográfico que avisa quando a grafia de uma palavra está errada. As tentativas de corrigir acabam ensinando mais do que muitas aulas e dispensam até mesmo um sistema mais “lógico”. Sobre o internetês, quem já olhou esta escrita de perto percebeu que é um tipo de escrita silábica  (“vc” por “você”, “hj” por “hoje” etc). Observe-se que se trata sempre de privilegiar as consoantes (ninguém escreve “você” com “oe”). É uma escrita bem esperta, na verdade. Também vale a pena dizer que todo mundo que já anotou aulas na vida, antes dos computadores, usava essas mesmas abreviações. E que os jornais publicam desde sempre pequenos anúncios do tipo “vd ap c/ 4 q, gr” e ninguém achou que isso fosse um problema. O que quero dizer é que as escritas diversas aparecem em contextos diversos. O internetês é uma escrita de computador (e smartphone) e apenas para certos casos. Ninguém escreve assim em blogs…

TN- O senhor tem críticas ao Acordo Ortográfico?

SP - Minha crítica à proposta do prof. Pimentel não implica que eu considere excelentes os efeitos do recente acordo. Por mim, vigorariam as regras da reforma de 1943, que foi a “minha” ortografia, com muitos acentos diferenciais, como “êle”, para distinguir o pronome do nome da letra “L”, “aquêle”, para distinguir este pronome da primeira e da terceira pessoas do presente do subjuntivo do verbo “aquelar” etc. Mas é claro que, mesmo que não houvesse nenhum acento, isso não causaria nenhum problema para pessoas letradas. Ou seja: a verdadeira questão é o grau de letramento de uma sociedade.

TN – Na sua opinião, é importante haver uma “ortografia oficial”? Qual é o peso desse tema nos estudos empreendidos na universidade? 

SP - Não faz mal haver uma ortografia oficial. Mas não acho que seja tão necessária, se uma sociedade for de fato letrada. E, se houver uma oficial, preferia que não fosse objeto de legislação, mas de um acordo de editores, mais ou menos como ocorre com a escrita do inglês.

TN – O senhor  tem livros em que analisa piadas do ponto de vista linguístico. Em que esse material se mostra útil no estudo da língua?

SP - Para ficar no tema da entrevista: alguns aspectos da escrita são explorados em piadas. Veja este exemplo, uma piada que envolve um intelectual que, defendendo suas ideias com muita convicção, foi interrompido por alguém que lhe disse: “Mas suas ideias podem ser postas em xeque!”. E ele respondeu:  “De quanto?”. A graça da piada decorre da percepção das palavras homófonas xeque/cheque.  Veja esta outra piada, a da professora que pede ao aluno, o popular Joãozinho, que faça uma frase com “hospedar” e o menino responde: “Os pedar da minha bicicreta tá quebrado!”. A piada envolve divisão de palavra (hospedar/os pedar) e variação linguística (pedar/pedal e bicicreta/bicicleta). Em vez de decoreba de listas de palavras, uma aula poderia basear-se em histórias assim.

TN – Os professores de português poderiam, então,  em vez de contar piadas para distrair os alunos, analisar essas piadas a sério.  

 

"Língua é patrimônio do povo brasileiro"; leia entrevista com o filólogo Deonísio da Silva

Por Thaís Nicoleti
06/10/14 18:51

Ultimamente, a ortografia tem ocupado na mídia espaço maior que o esperado, o que talvez se explique não por ser um tema apaixonante, mas pelo fato de, no Brasil, ser objeto de lei. A perspectiva de haver novas mudanças na grafia das palavras cria certo alvoroço tanto no meio editorial como na imprensa e nas escolas, enfim, entre aqueles que mais diretamente estão comprometidos com o tema, seja porque publicam obras, seja porque ensinam a escrever.

O fato de existir no Senado um grupo técnico de trabalho encarregado de rever o último Acordo, que, embora date de 1990, entrou em vigor em 2009,  cria alguma apreensão e, de certa forma, desestimula os esforços que têm sido feitos em direção à adaptação às novas regras.

De início, muitas foram as vozes que o criticaram, afinal, a necessidade de unificação da grafia do português nos países lusófonos não parecia ser algo tão urgente. Além disso, antes da publicação do Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), havia muita dúvida sobre as novas regras e, consequentemente, proliferaram não só as criticas como também os equívocos.

Depois da publicação do Vocabulário (e de uma errata com substituições, correções e aditamentos) e, sobretudo, depois de ser o corpus posto gratuitamente à disposição para consulta no site da ABL (www.academia.org.br), os ânimos se acalmaram e o processo de adaptação parecia seguir seu rumo.

Eis que a divulgação de uma proposta de ortografia fonética, que imporia grandes mudanças à ortografia vigente (em nada comparáveis à supressão de alguns acentos e à alteração nas regras do hífen), vem novamente trazer à tona o tema da ortografia.

Hoje quem conversa com o blog a respeito do assunto é o professor Deonísio da Silva,  que é membro da Academia Brasileira de Filologia, professor universitário, escritor e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo.

Respeitado nos círculos acadêmicos, Deonísio é também muito conhecido fora deles – e não é à toa, pois sua página de etimologia na revista “Caras” é sucesso há 20 anos. Além desse trabalho, Deonísio tem uma coluna na Rádio Bandnews Fluminense e vem publicando, ao longo de sua vida, títulos de grande interesse, entre os quais está o best-seller “De Onde Vêm as Palavras”, já na 17ª edição. É autor de  34 livros, em meio aos quais se destacam outras obras voltadas à etimologia (“A Vida Íntima das Frases” e “Palavras de Direito”) e os romances “Lotte & Zweig” (2012), baseado na vida do escritor, poeta e dramaturgo austríaco Stefan Zweig, “Teresa d’Avila” (1997) e “Avante, Soldados: para trás” (2005), romance que recebeu o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por nada menos que José Saramago – e o Nobel de Literatura não lhe poupou elogios.

Leia, a seguir, a entrevista com o professor Deonísio da Silva:

Thaís NicoletiO senhor esteve no Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, realizado recentemente em Brasília (nos dias 10, 11 e 12 de setembro)?  portugues em pautaO senhor apresentou uma proposta de revisão do Acordo Ortográfico de 1990? Em que ela consiste?

Deonísio da Silva – Sim, estive no simpósio, que teve seu herói,  o escritor José Carlos Gentili, que do nada tirou aquele evento. Para fazer jus ao convite, preparei um “paper”. O título foi “A Extinção do Hífen”, mas não o apresentei porque notei certo enfado dos presentes com a repetição de questões de complexas sutilezas, cuja explicação é inútil, apesar da alta qualificação dos conferencistas.  Fiz, então, da etimologia a referência solar de minha intervenção, ilustrando com exemplos concretos o quanto perderíamos se adotássemos uma escrita fonética, de resto impossível de ser sequer formulada, quanto mais aplicada. Copo é copo, e leite é leite, mas “copo de leite” designa um copo com leite, porém “copo-de-leite” [com hifens] designa a açucena, uma planta ornamental. “Copo” e “leite” vieram ambos do latim, respectivamente de “cuppa” e de “lacte”; açucena veio do árabe “as-susana”, designando o que o grego conhecia por “leírion”, que deu “lilium” em latim e “lírio” em português. Essas questões etimológicas tornam-se ainda mais esclarecedoras no caso dos fármacos, em que a mudança de uma letra, não apenas da dosagem, pode designar remédio ou veneno. Além do mais, sou de Santa Catarina e lá se pronuncia “leite” de um modo diferente do que ouvi por longos anos no Rio Grande do Sul, no Paraná e em São Paulo, estados onde morei por vários anos. E no Rio, onde vivo há 11 anos, a pronúncia tem outras variações. Minha crítica foi esta: o Acordo ouviu muito pouca gente! Não me refiro a plebiscitos, mas acredito que profissionais da língua, como aqueles que, como eu, a estudam e a explicam a alunos ou a leitores, devam ser ouvidos. Essa foi a minha proposta. Como é que pode o nosso amigo Evanildo Bechara ser o executor das medidas de emergência do Acordo? Ele é altamente qualificado, é uma honra ser colega dele na Academia Brasileira de Filologia, mas ele precisa consultar, por exemplo, os colegas das duas Academias: da ABL e da ABRAFIL! Pelo menos esses!

TNHá alguma proposta de revisão do Acordo formalizada, além da sua, em condições de ser discutida no âmbito do Senado?

DS – Creio que ainda não, mas achei bom o Senado estar envolvido nisso.

TNA quem caberá liderar essa discussão no Senado e como exatamente se definirão as novas regras, na hipótese de isso vir a acontecer? Há um conselho de pessoas especializadas?

DS – Se houver uma proposta, ela deverá ser formulada por quem entende do riscado. O brasileiro tem uma habilidade verbal impressionante, mas estuda pouco a sua língua. É bom que seus representantes no Senado examinem esta questão. Alguns dos que têm determinado como devemos escrever deveriam usar tornozeleiras eletrônicas para sabermos por onde andam e por que formulam tantas impropriedades. Não é o caso de Ernani Pimentel. Ele detectou certa hostilidade em minhas críticas, mas eu não critico pessoas. Critico instituições. E elas, apesar de conduzidas por pessoas, também moldam aqueles que as conduzem.

TN – A quem exatamente o senhor se refere?

DS –  Por exemplo: recentemente, o dinheiro público financiou uma edição de 600 mil exemplares de “O Alienista”, de Machado de Assis, em que, em vez de serem explicadas as palavras que ampliavam e melhoravam o vocabulário dos leitores, principalmente alunos, elas eram substituídas por outras, tidas por mais fáceis, resultando em edição falsificada de nosso maior escritor, paga com dinheiro público! Ora, todos sabemos que o autor é modelo de escrever bem.

TN – Novamente a ideia de que é preciso “simplificar” as coisas. Penso que seria mais produtivo ensinar mais e melhor, fomentar a leitura e despertar o interesse pela nossa literatura. Mas, ainda sobre as possíveis mudanças ortográficas, o senhor acredita que um GTT [grupo de trabalho técnico, criado pela Comissão de Educação do Senado] coordenado por alguém que está fora do meio acadêmico vai conseguir congregar professores e estudiosos das universidades para debater o tema?

DS – Não vai. O meio acadêmico trabalha sobre credenciais, vitae, competência, desempenho, aferidos trienalmente por suas publicações, palestras, conferências etc., de acordo com a Plataforma Lattes, do CNPQ.

TN – O senhor percebeu alguma intenção desse GTT de levar o debate aos especialistas que estão nas universidades? O Senado, ao criar o GTT, não deveria ter buscado a universidade?

DS - “Pau que nasce torto, nunca se endireita”, como diz o Melô do Tchan,  e “menina que requebra… mãe, pega na cabeça”. O GTT – ele existe? – começou mal e pode terminar pior. “Depois de nove meses você vê o resultado”. Vai nascer um monstrinho.

TN – O senhor acha que o GTT vai realmente propor alguma mudança ou o papel desse grupo é apenas levantar a questão?   

DS – Soube que o Senado vai fazer uma audiência pública sobre o tema. Parece uma boa coisa, mas eu tenho minhas dúvidas sobre se vale a pena e se este é o melhor caminho. Temo que entre os interessados haja gente interessada em outra coisa. Por exemplo: ganhar dinheiro com publicações apressadas, incluindo fazer dicionários com verbetes errados, como fizeram quando da “decretação” do Acordo.

TN – O senhor acredita que haja intenção por parte da própria ABL de propor algum tipo de alteração no Acordo ou no Volp [Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa]?

DS – Eu me esforço para acreditar que haja, mas estou muito desconfiado de que não seja assim! Ademais, a ABL não é sequer a instituição mais indicada para fazer isso. Examinemos os “vitae” de cada um dos acadêmicos. Quem ali pode fazer isso? Poucos. Acho que há excluídos até mesmo no interior da ABL, quanto mais fora! Os responsáveis pelo Acordo não podem desprezar os centros universitários de excelência onde a língua portuguesa é pesquisada e ensinada.

TN – Que críticas o senhor faz ao texto do Acordo Ortográfico e/ou à interpretação que a ABL fez dele? 

DS – A principal é não terem consultado mais gente. “In medio virtus”, como ensinaram os sábios romanos. Não era necessário fazer plebiscito sobre os temas, mas tampouco era necessário tratar o Acordo como obra de “illuminati”. Ainda mais que pesam tantas controvérsias sobre se são tão “illuminati” assim.

TN – O senhor acredita que qualquer pessoa, independentemente da formação acadêmica, possa propor um novo sistema ortográfico?

DS – Não! Se eu não acreditasse na relação bunda-cadeira-hora, não teria estudado tanto! Quando um técnico de informática vem resolver um problema em meu computador, não lhe pergunto se ele sabe quais as mais de 21 mil palavras com hífen que sofreram alterações no português com o Acordo. E espero que ele não me pergunte se eu sei as sutis diferenças entre um “software” e um “hardware”. Dele espero que entenda de computador. Se as pessoas que inventaram computadores, celulares e “smartphones” escrevessem como seus usuários escrevem nesses utensílios, estaríamos na idade do “chip” lascado…

TN – Na sua avaliação, o Acordo Ortográfico de 1990 era necessário? Fazer a reforma desse Acordo vale a pena? 

DS – Se você está passando mal e não sabe o que tem, é melhor procurar um médico no qual confie. O português estava passando bem e, ainda assim, resolveram medicá-lo e, mais do que isso, submetê-lo a intervenções cirúrgicas dispensáveis. A verdade é que não precisávamos deste Acordo. Unificar modos de escrever, como fez o árabe, que tinha 14 grafias e agora tem uma apenas, para efeito internacional, respeitando a variação de cada país, tudo bem. Mas impor, não! Fala-se em Acordo com as outras nações lusófonas. Certo! Mas antes é preciso fazer o Acordo com os brasileiros. Esta proposta de refazê-lo é pior ainda. Este coelho não saiu do mato. Saiu de alguma cartola.

TN – O professor Ernani Pimentel, coordenador do GTT, apresenta em seu site uma proposta de ortografia fonética que chegou a ser divulgada por vários veículos de comunicação. Após a divulgação, as reportagens foram desmentidas pela Agência Senado, mas o desmentido foi baseado apenas no fato de que tal proposta não estaria “formalizada”. O senhor acha que os senadores que criaram o GTT conhecem, de fato, essa proposta? Cristóvão Buarque aparece no site do prof. Ernani Pimentel  ao lado de declaração favorável a ela.  

DS – Tenho grande apreço pelo senador Cristóvão Buarque, aliás, um bom romancista, mas esta parte de sua biografia é sempre esquecida. E sempre tenho  sido um defensor intransigente de  parlamentos, por piores que sejam, pois nos representam. Se o jabuti está no galho da árvore, alguém o pôs lá. Então, se são aqueles os nossos representantes, foi o povo quem os pôs lá. E livremente. Mas senadores podem ser enganados por espertos, por desavisados, por quem não tem maldade, mas prejudica mais do que se tivesse… Sem contar que os senadores não são santos. Enfim, todo cuidado é pouco quando se mexe no patrimônio público. E a língua é isso: um patrimônio do povo brasileiro.

 

Ortografia é assunto no Senado; leia entrevista com prof. Evanildo Bechara

Por Thaís Nicoleti
16/09/14 13:29

O Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90) entrou em vigor no Brasil em 1º de janeiro de 2009 e, desde então, os usuários da língua escrita vêm passando por um processo de aprendizado das novas regras e de adaptação a elas. Como já foi dito inúmeras vezes, no que se refere ao português do Brasil, a mudança atingiu 0,5% do léxico, o que, convenhamos, representa uma parcela bem pequena do conjunto de palavras do idioma.portugues em dia

No sexto ano de vigência do Acordo, o acento agudo nos ditongos abertos das paroxítonas e o trema já parecem coisa do passado. O sistema de hifenização dos prefixos também  ficou bem mais simples que o anterior, mas, como não se está lidando com uma ciência exata, sobram aqui e ali exceções ou casos em que foi necessário interpretar o documento oficial — à luz, é claro, de seus princípios.

O trabalho de estabilização das normas propostas pelo Acordo foi feito pela Academia Brasileira de Letras, cuja Comissão de Lexicografia tem entre seus membros o lexicógrafo Evanildo Bechara, professor titular da UERJ e da UFF e doutor honoris causa da Universidade de Coimbra. Bechara dispensa apresentações para aqueles que têm na língua portuguesa o seu ofício, pois suas gramáticas são referência para qualquer estudioso do assunto, dentro e fora das universidades.

Apesar de as alterações propostas pelo Acordo terem sido mínimas, como convém a uma boa reforma ortográfica, críticas tanto ao texto do Acordo como à sua interpretação feita pela Comissão de Lexicografia da ABL, responsável pela confecção do VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), vêm aparecendo na imprensa. Recentemente, diversos sites e jornais divulgaram a existência de um grupo de trabalho técnico, designado pela Comissão de Educação do Senado, cujo objetivo é rever, reformar, revisar ou, quem sabe, revogar o Acordo (AO 90), com base no que esse próprio grupo considera serem “incoerências” ora do Acordo, ora do VOLP.

Um dos coordenadores desse grupo (GTT) vem divulgando uma proposta de “simplificação da ortografia” — exatamente aquela que chegou à imprensa e que foi objeto de celeuma até que o Senado desmentisse tê-la posto em discussão. A proposta, de autoria de Ernani Pimentel, professor de português que atua em Brasília, é polêmica, pois sugere uma transformação radical da ortografia do português, ou seja, a adoção de um critério estritamente fonético (grosso modo, escrever como se fala). Embora ainda não esteja em discussão, a proposta existe e é defendida por um professor a quem coube coordenar os trabalhos de revisão do Acordo Ortográfico na Comissão de Educação do Senado.  Um dos sites de Pimentel, em que apresenta suas ideias, intitula-se Acordar Melhor, pois sua intenção é “melhorar o Acordo”.

Será muito difícil, porém, que uma proposta como essa seja aceita em todos os países da chamada lusofonia, o que seria condição para a sua implantação, já que o Brasil assinou um Acordo de Unificação Ortográfica. Aliás, vale lembrar que o motivo dessa reforma ortográfica, vigente desde 2009, foi o projeto de unificação da ortografia nos países em que o português tem status de língua oficial. A menos que se revogue o Acordo e que se desista da ideia de unificação ortográfica, o professor Pimentel terá de convencer os demais países da CPLP a escrever omem, caxorro, ezérsito etc. A tarefa parece difícil. No Brasil, embora tenha chegado ao Senado, a ideia parece não ter tido ressonância nas universidades, entre os estudiosos da língua.

De resto, há os que, sem apresentarem qualquer proposta concreta de mudança, apontam supostas incoerências no Acordo e conclamam ao debate quaisquer cidadãos que tenham quaisquer propostas.Talvez seja mais sensato admitir que algumas exceções não são incoerências ou, havendo o entendimento de que o sejam, indicar a solução para eliminá-las sem incorrer em outras “incoerências”.

O assunto pode parecer simples, ao alcance de todos, mas o processo de sistematização da ortografia é repleto de sutilezas e requer o conhecimento especializado de filólogos e demais estudiosos da língua. Se assim não for, estaremos a ponto de respaldar escolhas idiossincráticas apresentadas como “democráticas”.  O que mais espanta, a esta altura, é que o Senado se tenha mobilizado em prol de uma causa que se resume na suposta incoerência da grafia de uma dezena de palavras do idioma, se tanto.

ENTREVISTA

A seguir, o professor Evanildo Bechara comenta a questão em entrevista ao blog:

Thaís Nicoleti -Recentemente, foi assunto de grande número de reportagens na imprensa um projeto de simplificação da ortografia defendido por um professor de português de Brasília, ora designado coordenador de um grupo de trabalho 

portugues em pautatécnico da Comissão de Educação do Senado constituído com o intuito de rever as modificações da ortografia do português decorrentes da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.  O senhor deve ter tomado conhecimento dessas ideias (o “ch” seria substituído por “x”, o “h” inicial seria suprimido etc.). Que pensa o senhor acerca desse projeto? Há vantagens em privilegiar a fonética como critério de ortografia?

Evanildo Bechara – A substituição de “ch” por “x” em qualquer posição na palavra é proposta de um sistema ortográfico chamado fonético, proposta que vem sendo trazida à baila pelo menos desde o século XIX, à qual sempre os especialistas e os usuários responderam com providencial negativa. Muitos são os problemas que tal proposta traz como consequência. A primeira é a extinção dos homófonos não homógrafos, do tipo de seção, sessão e cessão, que ficam reduzidos a uma só grafia: sesão, o que, com certeza, prejudicará a compreensão da mensagem. A segunda é a necessidade de criar novos símbolos ortográficos ou maneira de representá-los: é o caso da diferença entre o “r” de ira e “rr” de terra. Um sistema antigo representava o “r” simples com “r” e o “r” múltiplo com “R”, grafando então ira e teRa. E assim por diante. Elimina-se o “h” de omem e oje, mas como fazer com o “h” dos dígrafos palatais lh (palha), nh (manhã)?

TN – Sim. Uma expressão como “hora H” teria de ser grafada “ora agá” e, a meu ver, perderia o sentido, pois o “h” é o “h” de hora. Enfim,  o argumento em que se baseia a proposta é o de que o processo de alfabetização se tornaria mais simples e, consequentemente, mais barato.

EB – Quanto à tese de que tal sistema simplifica o processo de alfabetização, a ciência e a experiência do real mostram-nos que tal relação é falsa. Se fora verdadeira, franceses e ingleses seriam analfabetos por terem grafias mais abstrusas que as nossas. E eles estão na vanguarda da nossa civilização. Nada substitui uma boa escola e competentes professores.

TN – Ouvem-se críticas ao fato de a última edição do  Vocabulário Ortográfico, pós-Acordo Ortográfico, registrar grafias duplas, como é o caso de “bi-hebdomadário” e “biebdomadário” ou mesmo de “ad-renal” e “adrenal”, “ab-rupto” e “abrupto”, “sub-humano” e “subumano”, “carboidrato” e “carbo-hidrato” etc.

EB – Quanto à duplicidade de grafias em biebdomadário, o caso é frequente em palavras eruditas das ciências e das tecnologias. Grafias duplas como abrupto e ab-ruptoadrenal e ad-renal são realidades da língua, em pleno uso. A forma adrenal, com o encontro consonantal que se profere em Adriano, nos foi legada pelo inglês, por isso corretamente o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa a agasalha, ao lado de outras tantas.

TN - Há quem critique o fato de a ABL ter optado pela grafia “coerdeiro” no Vocabulário Ortográfico, em dissonância com o texto do Acordo, no qual a grafia “co-herdeiro” aparece como um dos exemplos de emprego do hífen (Base XVI). Qual é a sua explicação para isso?

EB – Em mais de um artigo já expliquei o engano em conservar no Acordo Ortográfico de 1990 a grafia co-herdeiro, novidade trazida pelo ortógrafo português Rebelo Gonçalves, em 1940, e agasalhada pelas reformas de 1943 e 1945. Baseava-se Gonçalves numa pseudodiferença semântica desse prefixo. Desde a reforma de 1911, bem melhor que as sucedâneas, usava-se coerdeiro. Como o Acordo Ortográfico de 1990 está muito ligado à reforma portuguesa de 1945, escapou esse exemplo “co-herdeiro” , que contraria a lição deste último na Base XVI, 1º , b, obs. “Nas formações com prefixo co -  este aglutina-se em geral com o segundo elemento mesmo quando iniciado por o“. Por isso, se escrevo coabitar sem hífen e sem h inicial, terei de escrever coerdeiro, como propõe corretamente o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

TN – Há críticas ao fato de “paraquedas” ter passado a se escrever sem hífen, enquanto outras formações aparentemente similares continuaram a ser escritas com hífen (para-choque, para-raios, para-brisa, por exemplo). Tenho a impressão de que a grafia “paraquedas” se justifica não só pelo uso que já se fazia antes do Acordo como pelo fato de a palavra ter derivados, uma família de cognatos (paraquedismo, paraquedista), nos quais já se deu a sufixação, coisa que contribui para que se perca a percepção da composição. Como isso não ocorre com os demais termos considerados semelhantes quanto à formação, as soluções gráficas foram diferentes. Gostaria de ouvir a sua explicação.

EB – Tecnicamente, o bom ortógrafo tem de levar em conta a história de cada palavra dentro do léxico, razão por que recomenda a aglutinação das mais antigas, como girassol, mandachuva, pontapé, paraquedasPara-choque não é similar a paraquedas na história do léxico. Chegará o dia em que para-choque se usará aglutinadamente. Razões desta natureza justificam dizermos que uma reforma ortográfica, como tudo que ocorre nos domínios de uma língua histórica, é objeto de técnicos, e não de um simples usuário, por mais boa intenção que o mova.

TN – No início da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990, houve o entendimento de que a grafia “benfeito” substituiria a forma hifenizada “bem-feito”, uma vez que o Vocabulário não trazia a forma verbal “bem-fazer” nem o seu particípio, “bem-feito”. Aparentemente, essa mudança não foi bem-vinda. Ouviam-se muitas críticas a ela etc. Posteriormente, foi lançada uma Errata do Vocabulário Ortográfico em que voltou a aparecer a forma “bem-fazer”, da qual se deduz a grafia “bem-feito”. A ABL voltou atrás?

EB – No caso de benfeito, a Academia não voltou atrás; é que existe o verbo benfazer do qual saem derivados como benfeitor, benfeitoria.

TN – Sim. Vale então a distinção registrada no dicionário “Houaiss”: “benfazer” é praticar o bem, realizar benfeitorias, enquanto “bem-fazer” é fazer algo com capricho, com esmero. Outro caso interessante: a palavra “extraordinário”, no sistema antigo, era vista como exceção à regra de hifenização e hoje ela deixa de ser exceção para ser regra; palavras como “ultrassom” e “ultrassonografia” já se escreviam dessa forma quando o sistema (o antigo) previa uso de hífen (“ultra-som”, “ultra-sonografia”). “Paraquedas” e “paraquedismo” também se escreviam sem hífen mesmo na vigência do sistema antigo, quando oficialmente deveriam ser escritas com hífen e acento (“pára-quedas”, “pára-quedismo”). O uso generalizado foi levado em consideração na hora de propor a mudança?

EB – Essas são decisões que o uso consagra, para depois mudar a fim de atender a um novo princípio.

TN – Professor Evanildo Bechara, o assunto é fascinante e poderíamos falar muito sobre as palavras, sua história, suas mudanças de significado e seu indissociável vínculo com a vida social. Gostaria, finalmente, de que o senhor externasse sua opinião sobre a ideia do GTT do Senado de “democraticamente” abrir a discussão sobre a ortografia, facultando a qualquer cidadão o direito de propor um projeto que “melhore” o trabalho empreendido pela ABL na interpretação do texto do Acordo e na confecção do Vocabulário (VOLP).

EB – A língua é uma organização criada pelo espírito humano e deve ser estudada como uma ciência. Não é domínio de palpiteiros despreparados ou inocentes bem-intencionados. Já mais de uma vez disse aos reformistas do movimento que “Acordar melhor” deve ser interpretado não como “fazer melhor acordo”, mas como “despertar melhor, “abrir mais os olhos” ao tentar dar sugestões sobre a língua.

Com "h" ou sem "h"?

Por Thaís Nicoleti
22/08/14 17:53

O Senado atribui a boato em rede social a divulgação de uma proposta radical de mudança na ortografia do português. O assunto ganhou as redes sociais, no entanto, depois de ter sido tema de reportagens publicadas no UOL e em outros veículos da imprensa. A reportagem do UOL foi modificada hoje.

Texto hoje publicado no site do Senado explica que, embora exista, essa proposta não foi formalizada, portanto não está em discussão.portugues em dia

Isso não significa, porém, que não venha a ser formalizada e discutida futuramente, já que seu autor é um dos coordenadores de um grupo técnico de trabalho constituído pela Comissão de Educação da casa com o objetivo de rever o Acordo Ortográfico.

A divulgação das demais propostas daria mais transparência ao processo, permitindo o enriquecimento do debate, e sobretudo evitaria que boatos se disseminassem nas redes sociais e até na imprensa.

Quem precisa abolir o "h"?

Por Thaís Nicoleti
20/08/14 17:13

Parece mentira, mas é verdade. Existe no Senado uma proposta de reforma ortográfica que mudaria radicalmente a grafia das palavras do português. portugues em dia

Entre as alterações desejadas por quem concebeu a ideia está a supressão do “h” inicial dos vocábulos. Na prática, a “hora H” viraria algo como “ora agá” e desapareceria a letra muda inicial de  homem, humano, herói, humildade, habitação, horta, hierarquia etc. O verbo “haver” sem “h” (“aver”) produziria algumas conjugações curiosas: eu ei de vencer, ele á de entender isso, aja paciência!…

O argumento brandido é o da “simplificação” da ortografia. Considera-se ser mais simples escrever como se fala, suprimindo, portanto, o “h” mudo, que não teria função. Essa linha de raciocínio leva a outras sugestões, como a extinção da letra “u” dos dígrafos “qu” e “gu”, o que resultaria em grafias como “qilombo” (no lugar de “quilombo”) e “gerra” (no lugar de “guerra”). “Casa” com “z” (“caza”) e “cachorro” com “x” (“caxorro”) passariam a ser as grafias corretas.

É muito improvável que a população brasileira se entusiasme com uma proposta radical como essa. Basta lembrar a saraivada de críticas de que foi alvo o Acordo Ortográfico de 1990 (vigente desde 2009), responsável por pequenas alterações (acentos e hifens) em 0,5% do léxico.

Quem diz que uma ortografia marcadamente fonética teria o poder de multiplicar o número de leitores pressupõe que as pessoas leiam pouco ou não saibam ler porque a ortografia é “difícil”.  Esse é um raciocínio algo contorcionista, pois, sendo a leitura um inegável canal de aprendizado da língua, o estímulo a essa prática é que pode tornar mais fácil o aprendizado não só da ortografia em si mas da língua como um todo.

Nada indica que os índices de analfabetismo ou de analfabetismo funcional se reduzam caso a ortografia se torne fonética. A informação etimológica que as palavras carregam, seja nas letras mudas, seja nas letras diferentes que representam um mesmo som, insere-as na história da língua e faculta ao professor o ensino integrado de aspectos morfossintáticos e semânticos.

O mínimo que se pode dizer dessa aventura reformista é que atribui à ortografia um papel muito maior do que aquele que ela realmente tem. O perigo é que um projeto desse teor sirva para mascarar as verdadeiras deficiências do ensino e as reais necessidades de investimento nessa área tão importante para o desenvolvimento do país.

Um acento facultativo

Por Thaís Nicoleti
11/08/14 20:14

O Novo Acordo Ortográfico, em vigor desde 2009, faculta o emprego do acento circunflexo na palavra “forma” quando pronunciada com “o” fechado, mas não o torna obrigatório.  portugues em diaNo registro oficial do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, a palavra é grafada sem acento nenhum.

Muita gente pergunta como proceder e até mesmo se “é melhor padronizar” uma só grafia (por exemplo, “fôrma” sempre que se pretender mencionar certo utensílio próprio para fazer bolos).

Se a intenção fosse “padronizar” uma grafia, teriam sido registrados dois verbetes (forma e fôrma), um deles com acento diferencial. Não era isso o que se queria fazer até mesmo porque quase todos os acentos diferenciais deixaram de existir.

O que se estabeleceu foi a possibilidade de usar esse acento nos casos em que a sua ausência pudesse tornar o texto ambíguo.  Vale como exemplo desse tipo de situação o trecho do poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, em que os dois termos, “forma” (ó) e “forma” (ô), aparecem juntos, no mesmo verso. Vamos relembrá-lo (segue um trecho do poema com a acentuação atualizada segundo as regras ora vigentes):

O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: — Meu cancioneiro

É bem martelado.

 

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos!

 

O meu verso é bom

Frumento sem joio

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

 

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A fôrmas a forma.

 

Nesse texto, um dos estandartes do modernismo brasileiro, Manuel Bandeira faz uma sátira dos poetas parnasianos, que se preocupavam excessivamente com o formato do poema, com as regras de versificação. Os modernistas acenavam, então, com o verso livre, sem rimas e sem regularidade métrica.

O sapo parnasiano do poema dá sua lição: “Reduzi sem danos/ A fôrmas a forma” . Com isso, ele quer dizer que as formas poéticas devem se encaixar em espécies de “fôrmas”. Agora, vejamos o texto sem o acento em “fôrmas”: “Reduzi sem danos/ A formas a forma”.

Fica mais difícil compreender de imediato a ideia, embora a rima  (“norma” rima com “forma”) nos ajude a chegar à interpretação desejada. Com o acento, o entendimento da passagem é imediato. Fica claro que não há necessidade de usar acento na palavra que integra a expressão “pão de forma”, por exemplo. Também não há necessidade do acento quando listamos os utensílios de cozinha (pratos, talheres, tigelas, formas, copos). Não é preciso “padronizar” nada. Basta o bom senso.

É importante observar que esse princípio (o do acento facultativo) já existe em alguns casos de emprego do acento grave (indicador de crase). Todos sabemos que a crase é a fusão de dois “aa” e que é essa fusão que assinalamos com o acento grave (à). Existe, porém, a possibilidade de usar esse sinal sem que ocorra, de fato, a crase – unicamente para evitar a ambiguidade. A título de exemplo, observemos uma frase como “Recebeu o sogro a bala”. Podemos entender que o sogro recebeu a bala (foi baleado) ou que alguém recebeu o próprio sogro a tiros. Vale lembrar que, nas locuções adverbiais de instrumento (é o caso de “a bala”), não aparece o artigo e, por conseguinte, não ocorre a crase. Caso a intenção do produtor da frase fosse dizer que o sogro foi recebido a bala, seria possível (e recomendável) escrever “Recebeu o sogro à bala”. Esse acento ajuda na compreensão imediata do sentido da frase.

É claro que qualquer frase sempre está inserida em um contexto ou em uma situação de comunicação, que é o que, de fato, garante a sua compreensão. Recursos facilitadores, como são esses acentos facultativos, podem, porém, facilitar esse processo.

A Indesejada das gentes

Por Thaís Nicoleti
24/07/14 10:00

CONSOADA

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga:

final sala de leitura — Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

O poema é de autoria de Manuel Bandeira, poeta que se notabilizou por tratar do tema morte em sua obra.O título do texto, “Consoada”, pode referir-se à ceia da noite de Natal na tradição católica ou a uma leve refeição noturna, sem carne, que se toma em dia de jejum.

Na leitura atenta de um poema, vale observar os possíveis significados de cada termo ou expressão, pois a linguagem figurativa é polissêmica, isto é, aciona, ao mesmo tempo, mais de um significado.

No verso inicial, Bandeira emprega uma antonomásia, ao substituir a palavra “morte” pela perífrase “a Indesejada das gentes”; em seguida, então entre parênteses, o poeta demonstra dúvida sobre o modo de ela se apresentar — “dura” ou “caroável” ( “afável, gentil, afetuosa”) — e sobre a reação dele diante dela.

Os termos “dia” e “noite” são metáforas de “vida” e “morte”, respectivamente. Em seguida, o poeta retoma o uso dos parênteses, como se estivesse expressando algo tomado como ideia secundária: “a noite com seus sortilégios”. “Sortilégio” pode significar tanto “magia ou feitiço” como “sedução, fascínio, encanto” e até mesmo “conspiração ou maquinação”. Todos os significados são cabíveis e complementares no contexto.

Nos versos finais,  “Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,/ A mesa posta,/ Com cada coisa em seu lugar”, vale notar o emprego dos particípios (lavrado, limpa, posta) com valor de adjetivos em função de predicativo do objeto. Na função de predicativo, o adjetivo passa a caracterizar um ser tomado em determinado momento ou circunstância. Quando a morte chegar,  o campo estará lavrado, a casa estará limpa e a mesa estará posta.

O poeta, portanto, sente-se preparado para esse momento. Sente que “cumpriu sua missão”, ou seja, viveu.

Um dos maiores poetas brasileiros do século 20, o pernambucano Manuel Bandeira faleceu com 82 anos de idade, em outubro de 1968. Seu legado estará sempre entre nós.

Nos últimos dias, perdemos João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna, outros três grandes que nos deixam importante herança. Que seu desaparecimento físico seja apenas a sua passagem para a imortalidade.

Existe "linchamento" sem morte?

Por Thaís Nicoleti
11/06/14 10:24

 

O verbo “linchar”, proveniente da língua inglesa (da lei de Lynch, de origem controvertida, mas relacionada a execuções sumárias nos Estados Unidos da América), é nosso velho conhecido, porém recentemente seu uso causou dúvida na Redação da Folha. Afinal, “linchar” pressupõe ou não a ideia de “matar”? final portugues na folha

No entendimento expresso no dicionário “Houaiss”, o verbo pode indicar tanto a “execução sumária da vítima por ação de um grupo” (primeiro significado) quanto a “prática coletiva (por uma multidão) de graves atos de violência contra alguém” (segundo significado). Na segunda acepção, a morte pode ou não ocorrer. O que definiria, então, o ato de linchar seria a agressão coletiva contra alguém. Daí, provavelmente, vem o sentido figurado do termo, hoje largamente usado na expressão “linchamento moral”.

O fato de ambas as interpretações estarem consagradas no dicionário significa que ambas vêm sendo suficientemente empregadas pelos falantes da língua portuguesa. A dificuldade de optar por um ou outro sentido levou a muita discussão e a diferentes “soluções” pelos redatores. Vejamos duas construções:

(1)   “Homem que escapou de linchamento recebe alta” (“Cotidiano”, 15.5.14)

(2)   “…disse estar agradecido por estar vivo após sofrer uma tentativa de linchamento”. (“Cotidiano”, 15.5.14)

À primeira vista, as soluções parecem ter sido boas, dado que a vítima sobreviveu ao espancamento coletivo. Ocorre, porém, que, em (1), é possível interpretar que o homem escapou da pancadaria, não somente da morte, quando o que, de fato, ocorreu foi ter ele sido espancado por um grupo grande de pessoas e ter sobrevivido. Diríamos, então, com mais propriedade, que ele “escapou da morte”. Jornalisticamente, porém, não seria possível usar “morte” , ignorando o espancamento.

No fragmento (2), temos um problema semelhante, pois há quem interprete que as pessoas tentaram espancá-lo, mas não conseguiram levar a termo a empreitada, o que não corresponde à verdade. Que fazer, então?

Lembremos que os dois sentidos do termo (“linchamento”) são possíveis, mas que o compromisso com a clareza e a precisão deve preceder quaisquer opções de redação. Dessa forma, sendo o primeiro deles aquele que pressupõe a morte da vítima, numa construção como “fulano foi linchado”, por certo entenderemos que “fulano morreu vítima de linchamento” e, caso a pessoa não tenha morrido, aí sim, o redator se obrigará a deixar isso claro no texto (fulano sobreviveu ao linchamento, por exemplo). Vejamos opções aos fragmentos acima:

Homem que sobreviveu a linchamento recebe alta

…disse estar agradecido por estar vivo após ter sido vítima de linchamento

Fulano, beltrano e... sicrano

Por Thaís Nicoleti
06/06/14 20:01

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A imagem ao lado ilustrava um texto sobre comportamento na internet, publicado numa das páginas do portal UOL.

Não demorou muito até que alguém questionasse o uso da palavra “ciclano”. O fato é que, embora se ouça com alguma frequência essa forma, o termo que usamos para substituir o nome de uma pessoa, depois de “fulano” e “beltrano”, é “sicrano”.

Sua origem é controversa e mesmo bons etimologistas se abstêm de arriscar uma explicação definitiva sobre ela. O fato é que “fulano” vem do árabe e significa “um certo”, “determinado”, enfim, algo próximo do nosso pronome indefinido “alguém”.

A vantagem de usar “fulano” é que se pode mencionar na mesma sequência um “segundo fulano”, então por meio da palavra “beltrano”, cuja origem costuma ser atribuída ao nome próprio Beltrão, e um “terceiro”: o “sicrano”.

Obras de referência, como dicionários, costumam indicar a ordem “fulano, beltrano e sicrano”. De fato, ninguém usará “beltrano” ou “sicrano” sem antes ter mencionado “fulano”. Tudo indica que a terminação “-ano” desses termos tenha derivado do final da palavra “fulano”, à qual elas necessariamente se seguem. final o leitor quer saber

Vale observar que esses são termos expressivos, próprios da linguagem oral, o que torna ainda mais difícil descobrir a sua origem. Seja como for, o “fulano” faz tanto sucesso na linguagem informal que já ganhou flexão de gênero (fulana) e até de grau (fulaninho),  acentuando-se nesses casos o caráter pejorativo que o uso lhe vem emprestando. Há quem dê ao fulano um sobrenome (fulano de tal) e há ainda quem derive dele um verbo.

Já existe registro do termo “fulanizar”, que se emprega para dizer que  alguém atribui nome ou identificação a pessoas de início indeterminadas ou cuja identificação não interessa para discutir uma questão. Tomemos como exemplo uma discussão sobre o tema da corrupção em que um dos debatedores cite pessoas acusadas de ter cometido esse tipo de delito e o outro diga que não gostaria de “fulanizar” o debate, com isso querendo dizer que  não gostaria de mencionar nomes ou de mencionar casos concretos associados a uma ou outra pessoa em particular. O verbo, por sua vez, dá origem ao substantivo “fulanização” – e assim a língua continua seu processo de renovação.

 

 

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