Perfil Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL.

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CUJO OU ONDE?

Por Thaís Nicoleti
01/04/14 17:13

O leitor Emanuel Jackson traz uma questão sobre o emprego do pronome relativo “cujo”. O trecho apresentado por ele, extraído de prova de concurso, é o seguinte: final o leitor quer saber

Eles também mencionaram a importância do esforço conjunto que está sendo feito pelos TCs, cujo objetivo é traçar um diagnóstico sobre a gestão sustentável de zonas de preservação da floresta amazônica, estudando e analisando as principais ações do governo para a proteção do patrimônio ambiental…

Pergunta ele se haveria prejuízo da correção gramatical e do sentido original do texto caso se substituísse “cujo” por “onde o” e qual seria a função desse “onde o” na frase.

Em primeiro lugar, cumpre relembrar o emprego do pronome “cujo”, que estabelece com o antecedente relação de posse. Nas palavras de Celso Cunha e Lindley Cintra (“A Nova Gramática do Português Contemporâneo”), “cujo é, a um tempo, relativo e possessivo, equivalente pelo sentido a do qual, de quem, de que”.

No fragmento acima, o pronome pode relacionar os substantivos “esforço” e “objetivo” ou “Tribunais de Contas” e “ objetivo” (“o esforço cujo objetivo”, ou seja,  “o objetivo do esforço”; “os TCs, cujo objetivo”, ou seja, “o objetivo dos TCs” ). Essa equivalência nos dá uma pista para descobrir a função sintática do relativo “cujo”: o pronome substitui “do esforço” no sintagma “objetivo do esforço” ou “dos TCs” no sintagma “objetivo dos TCs”, logo exerce a função de adjunto adnominal, a mesma função exercida pelas referidas locuções.

Por estabelecer necessariamente a relação de posse entre dois substantivos (a moça cujos olhos = os olhos da moça; o rapaz cuja mãe = a mãe do rapaz), cujo sempre exercerá a função de adjunto adnominal.

O advérbio relativo “onde” equivale a “o lugar em que, no qual”. O termo aplica-se a lugares, portanto seu antecedente deve ser um nome que indique lugar (o país onde nasceu = o país no qual nasceu; a empresa onde trabalha = a empresa na qual trabalha) ou mesmo um advérbio de lugar (ali, onde nasce o sol = ali, no lugar em que nasce o sol). Sua função sintática é sempre a de adjunto adverbial de lugar.

O objetivo da questão proposta no concurso talvez fosse mostrar que o relativo “onde” retomaria TCs (Tribunais de Contas) como lugar em que alguma coisa tem existência, o que, a meu ver, alteraria o sentido original do texto, pois estaria sendo dito que os TCs são lugares onde [existe] o objetivo de traçar um diagnóstico sobre a gestão sustentável etc. Tal objetivo, como se depreende do contexto, está relacionado ao esforço conjunto que vem sendo feito pelos TCs. O objetivo desse esforço conjunto feito pelos TCs é traçar um diagnóstico sobre a gestão sustentável etc.

Note ainda que, para empregar “onde o”, aceitando o fato de que o sentido da mensagem se modificaria, seria necessário fazer algumas alterações no texto original. Não se construiria um texto assim: “… esforço feito pelos TCs, onde o objetivo é traçar um diagnóstico…”. Para que fosse cabível o emprego do “onde”, teríamos algo assim: “… esforço feito pelos TCs, onde existe o objetivo de…”.

É provável que a pergunta do exame tenha nascido da percepção de que o advérbio relativo “onde” tem sido usado com muita frequência nas mais variadas situações, como uma espécie de “articulador universal”, enquanto o pronome “cujo” tem sido escanteado por muita gente. Vale reforçar que cada um deles tem seu uso.  O manuseio seguro das formas contribui muito para a clareza e a fluência do texto.

 

“Conselho de Classe”

Por Thaís Nicoleti
15/02/14 12:09

Tive a grata oportunidade de assistir ao espetáculo “Conselho de Classe”, encenado pela Cia. dos Atores no Sesc Belenzinho, em São Paulo. Fui atraída pelo título da peça  – e não deu outra: a sensação de “déjà-vu”, de reconhecer aqueles personagens, foi imediata, mesmo tendo eu sido temalivreprofessora de escolas da rede privada e tendo a ação transcorrido numa escola pública.

Na plateia, adivinhavam-se professores, que ora riam (sim, os atores são mesmo muito bons e o roteiro é ágil e divertido), ora sorriam, oscilando entre a comoção de ver seus problemas retratados ali em reprodução fiel (teatral sem ser caricata) e a solidariedade a seus “colegas” da cena.

A caracterização dos personagens é parte da diversão: os atores são todos homens, que representam “professoras”. O único personagem masculino é o jovem diretor substituto, que chega a um conselho de classe esvaziado, com meia dúzia de gatos pingados, numa sala excessivamente quente, com ventilador quebrado e sem água.

Discutem-se ali com humor problemas sérios, que vão desde as condições de trabalho e do próprio prédio da escola até questões propriamente educacionais. A professora “sacoleira”, vendendo roupas, xampus ou cremes, é um personagem muito comum nas salas de professores, que, ali, no palco, mostra o quanto é patética a situação de um profissional que tem de “arredondar o salário” para fazer face às despesas. A professora que, já de idade avançada, sofre um ataque cardíaco dentro da escola  é outro desses tipos simbólicos que saíram da realidade para subir ao palco.

O texto da peça tem o grande mérito de levantar questões e de mostrar diversos pontos de vista sem puxar a brasa para nenhuma das sardinhas. O jovem diretor substituto, que conhece muito de educação, mas ainda na teoria (“pela internet”), vê sua empolgação com as teses norte-americanas e as soluções de escolas estrangeiras chocar-se com uma realidade diversa. É preciso mudar as coisas, mas não se pode dispensar o saber daquelas pessoas que passaram a vida na linha de frente, ou seja, os professores. Será da discussão honesta, que considere todas as partes envolvidas, que surgirão as soluções.

Infelizmente, termina amanhã, 16 d fevereiro de 2014, a temporada da peça “Conselho de Classe” no Sesc Belenzinho, em São Paulo. (E anda cada vez mais difícil conseguir um ingresso no nosso querido Sesc.). Sucesso à Cia. dos Atores!

 

O dilema dos títulos jornalísticos

Por Thaís Nicoleti
03/02/14 17:22

Na semana passada, muitos leitores repercutiram nas redes sociais, na maior parte das vezes em tom de gozação, um dos subtítulos de uma reportagem do caderno “Cotidiano” da Folha.

O  título era este (veja o destaque):

mortos-vivos impresso

É evidente que os mortos não poderiam estar andando sobre a passarela. Quanto a isso, não há a menor dúvida.  O que se quer saber é como ou por que uma frase como essa é publicada sem que o redator perceba o problema.

Muito bem. Para os jornalistas, não é novidade que a tarefa de criar títulos para as reportagens não é nada fácil. O espaço delimitado e o tamanho das letras impõem a primeira dificuldade, daí ser comum ouvir entre os redatores que o “título bom é aquele que cabe” [no espaço]. Português Na Folha

É claro que não é só isso que torna a tarefa complicada. O leitor assíduo de jornais sabe que a reportagem tem um título principal, que deve informar sucintamente o fato relevante, um subtítulo (conhecido no jargão como “linha fina”) e ainda um destaque, o chamado “olho” ou “lupa”. Cada um desses subtítulos deve trazer uma informação que complete a principal, sem repetição nem quebra de palavra e em ordem hierárquica de importância. Vejamos um exemplo:

TÍTULOS E SUBTÍTULOS

No título principal, o fato noticioso: Campos usou a máquina [do governo] para divulgar assunto pessoal; no subtítulo (linha fina), a informação de que a reportagem foi removida do site oficial à tarde; no destaque (olho), a informação de que o governo de Pernambuco considerou equivocada a divulgação de assunto pessoal no site oficial.

Em suma, a leitura dos três títulos em sequência permite entender em linhas gerais o que houve. O texto trará as informações em detalhes.

Cada texto passa por esse processo e o redator procura concentrar o máximo de informações nos títulos, dando agilidade à leitura. Tudo isso, não raro, a toque de caixa, já que, feitos depois do ajuste do texto ao espaço da página, os títulos são a parte final da redação.  Há uma série de fatores que, embora não justifiquem, propiciam a ocorrência do erro.

Vejamos novamente o título equivocado, agora na versão on-line:

mortos-vivos on-line

 

 

 

 

 

 

 

Título principal: Caminhão derruba passarela e mata quatro pessoas no Rio

Linha fina: Caçamba do veículo, que trafegava em horário irregular, estava levantada

Olho: Dois mortos andavam pelo elevado de 120 t, que desabou sobre dois carros, onde estavam as outras duas vítimas

Atendo-nos ao texto do “olho”, como se produziu a oração “dois mortos andavam pelo elevado”? A intenção, naturalmente, era dizer que, das quatro vítimas  (título principal), duas morreram quando estavam caminhando sobre a passarela e duas morreram esmagadas, dentro de carros que passavam sob o elevado.

Na ânsia de fazer caber a informação, uma construção como os que morreram quando andavam sobre a passarela virou “os mortos andavam sobre a passarela”. Às vezes, depois de muitas tentativas de fazer um texto que se encaixe em todos os requisitos, o redator nem percebe que falhou no principal: a coerência.  É lamentável, mas compreensível — ou vice-versa.

Favor e gentileza

Por Thaís Nicoleti
20/01/14 19:26

 Um favor é algo que se faz de graça, sem obrigação. Atuar em favor de uma causa é fazê-lo em benefício dessa mesma causa. Conquistar o favor de alguém nada mais é que granjear a simpatia da pessoa. A expressão “por favor” é uma espécie de símbolo da boa educação. Cedo aprendemos a usá-la antes de fazer algum pedido.

Convém observar que o modo verbal que usamos para pedir é o mesmo que usamos para mandar, para aconselhar e para convidar. Estamos falando do chamado portugues e cia “imperativo”.

Qualquer um percebe, no entanto, a diferença entre “Entregue o relatório até as 14h” e “Por favor, entregue o relatório até as 14h”. Claro está que, no ambiente de trabalho, sobretudo quando há hierarquia entre as partes envolvidas, a transformação da ordem em pedido indica respeito, é um traço de gentileza, mas não é segredo para ninguém que “pedido de chefe é ordem”, certo?

Há quem prefira usar a palavra “favor” de maneira “econômica”, sem a preposição “por” e seguida de um verbo no infinitivo impessoal. Quem já tiver recebido uma mensagem do tipo “Favor entregar o relatório até as 14h” certamente terá sentido o impacto dessa construção, que pode sugerir rispidez.

É provável que esse efeito rude esteja ligado mais à forma verbal que ao substantivo “favor” isolado da locução. Quando em exercício de ordem-unida, no Exército, a tropa recebe do comandante instruções do tipo “Batalhão, apontar… armas!”, “Descansar!”, “[À] direita, volver!”. Nesse caso, a opção pelo infinitivo com valor de imperativo é adequada, pois trata-se de um comando a ser seguido pela tropa como se ela fosse um só corpo. A impessoalidade da forma verbal (sem flexão de pessoa gramatical) enfatiza a ação em si.

No ambiente de trabalho, esse tipo de construção sintática funciona como um marcador hierárquico, desnecessário quando cada um conhece sua posição e suas funções. Além do mais, um pouco de gentileza costuma trazer melhores resultados (já dizia o profeta!).

 

“Tristeza e tinta fresca”

Por Thaís Nicoleti
18/01/14 10:00

O título acima reproduz um verso da bela canção “Gentileza”, de Marisa Monte,  inserido na seguinte estrofe: portugues em dia

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca

O fragmento pode ensejar uma conversa sobre concordância verbal e nominal na língua portuguesa. Vamos examinar os dois versos finais da estrofe: Só ficou no muro/ Tristeza e tinta fresca.

O sujeito de “ficar” é “tristeza e tinta fresca”. Foi apenas isso o que ficou no muro depois que pintaram tudo de cinza. Podemos, afinal, usar o verbo no singular com um sujeito composto?

A resposta é positiva, mas é preciso fazer uma ressalva. Essa concordância é possível quando o sujeito composto vem depois do verbo, exatamente como ocorre na letra da canção. A esse fenômeno – muito comum, aliás – chamamos concordância atrativa. É como se o verbo fosse atraído pelo núcleo que lhe é mais próximo (só ficou tristeza).

Muito bem. A nossa conversa sobre concordância ainda não terminou. Vejamos agora como se harmonizam substantivos e adjetivos nesses versos. Antes disso, porém, vale relembrar a regra de atribuição de adjetivo a uma sequência de substantivos.

O adjetivo que se coloca depois de dois ou mais substantivos pode concordar apenas com o último (concordância atrativa) ou ser flexionado em harmonia com o conjunto dos elementos. Se dissermos que alguém vestia calça e camisa azul, entenderemos que tanto a calça como a camisa eram azuis. Não há necessidade de pluralizar o adjetivo (calça e camisa azuis), embora isso também seja correto.  

Não há necessidade porque, tendo sido informada a cor da camisa, era de esperar que, sendo a calça de outra cor, isso também tivesse sido informado (calça preta e camisa azul, por exemplo); na ausência de informação, o adjetivo posposto abrange todos os elementos.

É o mesmo que ocorre quando dizemos que alguém estuda língua e literatura italiana. Poderíamos dizer língua e literatura italianas, mas isso não é imprescindível, dado que o adjetivo, mesmo no singular, abrange naturalmente os dois elementos.

Dito isso, voltemos ao verso final da estrofe em questão: “tristeza e tinta fresca”. O contexto e a própria natureza semântica do adjetivo (“fresca”) são suficientes para que se compreenda que “fresca” é uma qualidade apenas da “tinta” (a tinta fresca com a qual pintaram o muro de cinza). Em situações corriqueiras, nas quais possa surgir alguma dúvida sobre a interpretação desejada, costumamos optar por deixar o termo adjetivado antes daquele que é tomado em sentido absoluto. “Vestia saia curta e camisa”, por exemplo, numa situação em que apenas a saia fosse curta, seria melhor que “camisa e saia curta”, construção em que o adjetivo poderia ser interpretado como referente a ambos os elementos.

No caso da canção, a escolha não perturbou a compreensão da ideia e adequou-se perfeitamente à melodia.  Ouça.  

 

Fazer morrer de inveja gênios

Por Thaís Nicoleti
17/01/14 11:00

A flexão (ou não) do infinitivo é assunto recorrente entre as dúvidas da Redação. Como sabemos, o tema é complexo, avesso à simplificação, mas vale o esforço de tentar esclarecer alguns pontos.

Num texto recentemente publicado no caderno “Ilustrada”, encontramos a seguinte construção:      final portugues na folha

As aberturas de “Stranger to My Happiness” e “You’ll Be Lonely” são de fazer morrer de inveja gênios como James Brown e Prince –duas figuras que Sharon sempre cita entre seus favoritos.

Algumas pessoas perguntaram se estava mesmo correto o uso do infinitivo ou se a construção deveria ser “fazer morrerem de inveja gênios”, sendo “gênios” o sujeito de “morrer”. Objetivamente, a construção escolhida pelo redator está correta e atende perfeitamente à norma culta. Vamos entender o que ocorre nesse caso.

Há uma série de verbos transitivos diretos (mandar, deixar, fazer, ver, ouvir, sentir) que se completam com uma oração infinitiva de sujeito acusativo. “Acusativo” é um dos casos da gramática latina, que, grosso modo, equivale ao objeto direto da língua portuguesa. Tente pensar em alguns exemplos de frases em que os pronomes de objeto direto (me, te, se, o, a, nos, vos, os, as) exercem a função de sujeito. Você vai encontrar frases construídas com os tais verbos mencionados acima. Veja:

Não me faça rir.

Não o deixe partir.

Mandou-os sair da sala imediatamente.  

Nessas construções, os pronomes de objeto direto (me, o, os) exercem a função de sujeito do infinitivo (rir, partir, sair, respectivamente). Note que o infinitivo não se flexiona nesses casos, independentemente de o pronome estar no plural. Até aí, tudo bem.

Vamos agora imaginar que, no lugar desses pronomes, apareçam substantivos:

Não faça seu avô rir tanto!

Não deixe sua namorada partir.

Mandou os filhos sair da sala imediatamente.

A terceira frase é a que causa alguma hesitação, pois, no português moderno, a tendência é fazer a flexão do infinitivo quando o sujeito lhe é anteposto e representado por um substantivo (não por um pronome). Assim: Mandou os filhos saírem da sala imediatamente.

As duas construções estão, portanto, corretas no português moderno. Assim:

Mandou os filhos sair da sala.

Mandou os filhos saírem da sala.

A segunda (saírem) é mais frequente, pois, nessa posição, a expressão “os filhos” é claramente percebida pelos falantes do português como sujeito do verbo (filhos saírem).

Ocorre, no entanto, que uma simples alteração na ordem dos termos pode mudar essa percepção. Numa frase como “É preciso fazer valer os seus direitos”, muito dita e muito ouvida, dificilmente alguém flexiona o infinitivo para fazer a concordância com o sujeito “seus direitos”. Ao deixar o sujeito depois do infinitivo, este, em regra, não se flexiona. É exatamente isso o que se vê na construção escolhida pelo redator do texto em questão. Esse tipo de construção, com o sujeito posposto aos dois verbos, é tradicional e bastante usual quando o infinitivo é um verbo intransitivo. Vejamos alguns casos:

fazer morrer de inveja os gênios da música [morrer é intransitivo]

fazer valer os própros direitos [valer é intransitivo]

deixar passar na frente os mais velhos [passar é intransitivo]

deixar entrar primeiro as mulheres [entrar é intransitivo]

ouvir cantar os pássaros [cantar é intransitivo]

fazer rir até os mais empedernidos [rir é intransitivo]

LÍNGUA FALADA

É comum ouvirmos no dia a dia construções como “Deixe eu ver isso” ou “Mandou ele sair”. Por enquanto, ainda não ingressaram na norma culta, mas mostram a tendência à substituição do pronome de objeto pelo pronome de sujeito nessas construções.  

 

A professora mais boazinha da escola

Por Thaís Nicoleti
16/01/14 18:14

Recente coluna do nosso querido Jairo Marques, intitulada “A sala dos bobos”, começava com esta frase:     final portugues na folha

Tia Dulce, a professora mais boazinha e paciente do colégio, era a escalada para cuidar da sala onde eram alojadas todas as crianças que alguém, por motivos torpes quaisquer, considerava “especiais”.

A expressão que suscitou dúvida foi “a professora mais boazinha da escola”. Afinal, todos aprendemos desde cedo que são incorretas as construções ”mais bom” ou “mais boa”. Ninguém diria “a mais boa resposta”, certo? Sem dúvida, optaríamos automaticamente por “a melhor resposta”. Ocorre, porém, que o sufixo de diminutivo, nesse caso, parece fazer muita diferença.

Ser boa e ser boazinha são coisas muito distintas. Uma professora boa (ou uma boa professora) ensina bem, cumpre bem o seu papel profissional; uma professora “boazinha”, no entanto, independentemente de ser uma boa profissional, é tolerante, paciente, gentil, delicada etc. A mesma distinção aplica-se ao masculino (o professor bom e o professor bonzinho nem sempre são a mesma pessoa).

O que importa aqui é observar que o sufixo de diminutivo posto nesse adjetivo provoca sensível alteração no seu sentido original, o que dá ao termo resultante certa independência.

Não ousaríamos dizer que a “tia Dulce” era a professora “melhorzinha” do colégio, pois, se assim o fizéssemos, estaríamos dizendo algo muito diverso daquilo que o autor pretendeu (estaríamos dando a entender que as professoras do colégio eram ruins e que a tia Dulce era um pouquinho melhor que as demais).

Nada disso. Ela era, de fato, a professora mais boazinha da escola. É assim que intuitiva e corretamente as pessoas  falam.

O e-mail no mundo corporativo

Por Thaís Nicoleti
06/01/14 07:30

Hoje é até difícil imaginar (ou lembrar) como era a nossa vida antes da internet e da agilidade do envio de mensagens pela rede. O fato é que, no mundo empresarial, a ferramenta não só facilitou a comunicação entre as pessoas como também trouxe alguns problemas.

Por um lado, expôs a dificuldade que muita gente tem ao empregar a língua na variante culta, apropriada para a comunicação formal, e, portugues e ciapor outro, criou embaraços que beiram o universo da etiqueta: nem sempre as pessoas sabem ao certo como fazer um pedido, como dar uma ordem, como finalizar uma mensagem etc.

Antes da era do e-mail, havia fórmulas de correspondência, das quais alguns ainda devem recordar-se. Expressões como “por obséquio”, “sem mais para o momento, subscrevo-me”, “venho por meio desta”, “grato” etc., que hoje soam antiquadas, eram usadas com muita frequência — o ato de redigir uma carta era em si uma atividade formal.  É claro que a formalidade ainda existe, mas a ausência de modelos fixos constantemente põe em questão a busca do tom adequado.

É evidente que uma expressão como “por obséquio” não foi banida da comunicação, mas pode soar artificial, desviando para si a atenção do leitor. A linguagem ideal não é a que parece artificial, distante  da que se usa no dia a dia, mas aquela que “não aparece”, que é sóbria, sem afetação, ou seja, aquela que cumpre à risca o papel que deve cumprir na situação. “Por favor”, por exemplo, é simples e eficaz.

Terminar a mensagem com o advérbio “atenciosamente” é algo ainda bastante usado e correto. De uns tempos para cá, entrou na moda a abreviatura “att.”, do inglês, recomendável apenas para quem estiver escrevendo a sua mensagem inteira em inglês. Não há nada que justifique encerrar uma mensagem escrita em português com a abreviatura em inglês. E o pior: pode parecer afetação.

É um equívoco pensar que o uso de anglicismos, por si só, valoriza o texto. O melhor caminho ainda é a fluência na língua portuguesa e seu uso seguro na variante de padrão culto. O ideal é empregar uma linguagem limpa, impessoal e cordial, como, de resto, devem ser o ambiente de trabalho e o comportamento entre colegas.

 

Dupla negativa pode causar confusão

Por Thaís Nicoleti
27/12/13 10:30

Nosso amigo José Wilson Faustino trouxe uma questão capciosa, que pode ser interessante para muita gente. Certa passagem de uma tradução de um romance de Balzac foi o que suscitou a dúvida do atento leitor.

A frase era a seguinte: “São raros os homens que não sobem sem vivas emoções as escadarias da Corte Real”. Como podemos observar, o trecho destacado final o leitor quer saber apresenta dupla negação – e é exatamente aí que mora o problema.

A ler o que está escrito, como percebe o leitor, estaria o narrador balzaquiano dizendo “que poucos homens sobem as escadarias tomados de vivas emoções” e que o personagem citado “seria uma exceção, pois ele se deixa tomar de forte emoção ao subir aqueles degraus”. Ocorre que, ao confrontar essa tradução com o texto original, o que percebemos é que o sentido pretendido era o inverso. O personagem em questão era, sim, uma exceção à regra, mas “a regra” era que poucos homens sobem aquelas escadarias sem vivas emoções (ou no controle dessas fortes emoções). O referido personagem era um desses homens capazes de dominar as emoções.

Esse tipo de confusão é frequente quando se empregam verbos como “evitar” ou “impedir”, que têm sentido negativo. Ao usar a negativa com esses verbos, o seu sentido passa a ser positivo (quem não evita filhos, por exemplo, permite que eles sejam gerados; quem não impede uma ação certamente a permite).

A estrutura não… sem, de dupla negativa, é apropriada para afirmar algo de maneira indireta. Vale lembrar uma antiga campanha publicitária de cartão de crédito (Não saia de casa sem ele), que, com humor, foi parafraseada por Jô Soares como bordão de seu programa noturno (Não vá para a cama sem ele).

Não sair de casa sem o cartão de crédito significa sair de casa sempre com ele; não ir para a cama sem o Jô Soares significa ir para cama só depois de ver o programa. Em suma, “não… sem” produz, sim, sentido positivo. A estrutura é bastante usada no dia a dia. Vejam-se frases como “Fulano não passa um dia sem ligar para a mãe”, ou seja, liga para a mãe diariamente.  

Só não vale confundir esse caso com o de frases como “Não fez nada” ou “Não viu ninguém”, que são corretas e mantêm seu sentido negativo. Esse tema fica para a próxima!

 

 

Só ou sós?

Por Thaís Nicoleti
25/12/13 19:18

Quem é leitor de jornal certamente já deparou com os desagradáveis erros de digitação ou outros problemas de redação, muitos dos quais fruto do ritmo de produção dos textos.   Português Na Folha

Na Folha, realizamos um trabalho interno com os jornalistas a fim de ajudá-los a aprimorar o texto final e de minimizar os erros gramaticais. Na lida diária com as questões propostas por eles ou mesmo em posterior trabalho de análise do material publicado, tratamos dos mais diversos temas. Nesta seção, traremos ao leitor um pouco da rotina da Consultoria de Língua Portuguesa da Folha de S.Paulo.

Quem tiver lido o jornal nesta data natalina, terá visto a manchete “Triplica o número de idosos que vivem sós”. Muito bem. O emprego da forma “sós”, no plural, chegou a provocar dúvida entre os redatores. Afinal, ou sós?  “Sós”, exatamente como foi publicado.

Essa questão é frequente, uma vez que a palavra “só” pode ser um advérbio, caso em que não admitirá a flexão de número (plural), ou um adjetivo (sinônimo de “sozinho”), quando obececerá ao princípio da concordância, harmonizando-se com o substantivo a que se referir. Vejamos dois casos:

(1) Idosos só viajam acompanhados [com valor de advérbio, "só" equivale a "somente"; não admite plural]

(2) Idosos sós viajam pouco [com valor de adjetivo, "sós" equivale a "sozinhos"; concorda com "idosos"]

(3) Muitos idosos viajam sós [com valor de adjetivo, "sós" equivale a "sozinhos"; concorda com "idosos"]

O leitor atento terá notado que, em (2) e (3), embora tenha o mesmo valor semântico (sinônimo de “sozinhos”), o adjetivo “sós” produz sentidos diversos nas duas construções. Em (2), ”sós” é uma característica permanente dos idosos (eles são efetivamente sós), mas, em (3), “sós” é uma característica circunstancial (sabemos que viajam sós, portanto são “sós” quando viajam). Entender essa distinção equivale a compreender a diferença entre adjunto adnominal (2) e predicativo do sujeito (3), dois nomes familiares a quem estuda a gramática do português. Essas são funções sintáticas que o adjetivo pode assumir na frase.

POR SI SÓ

Vez ou outra alguém quer saber se essa expressão é “invariável”. Não, não é. Vejamos um exemplo, publicado na coluna de Janio de Freitas (4.4.13):

“As exigências burocráticas de difícil acesso pelos empregadores domésticos tendem, por si sós, a multiplicar descumprimentos até que haja a prometida simplificação.”

O adjetivo “sós” está concordando com  “exigências burocráticas”, a expressão a que se refere. Caso se tratasse de uma só exigência, teríamos “por si só”. Veja:

A exigência burocrática tende, por si  só, a multiplicar…

A SÓS

Agora sim temos uma expressão invariável, que pode ser aplicada a um ou mais seres. Veja dois exemplos:

(1) Ele gostava de ouvir música a sós. [sozinho]

(2) Os namorados ficaram a sós depois do jantar. [um com o outro, sem outra companhia]

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Ainda em tempo de desejar a todos que o espírito de paz e confraternização permaneça para além das festas.

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