Perfil Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL.

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Existe “linchamento” sem morte?

Por Thaís Nicoleti
11/06/14 10:24

 

O verbo “linchar”, proveniente da língua inglesa (da lei de Lynch, de origem controvertida, mas relacionada a execuções sumárias nos Estados Unidos da América), é nosso velho conhecido, porém recentemente seu uso causou dúvida na Redação da Folha. Afinal, “linchar” pressupõe ou não a ideia de “matar”? final portugues na folha

No entendimento expresso no dicionário “Houaiss”, o verbo pode indicar tanto a “execução sumária da vítima por ação de um grupo” (primeiro significado) quanto a “prática coletiva (por uma multidão) de graves atos de violência contra alguém” (segundo significado). Na segunda acepção, a morte pode ou não ocorrer. O que definiria, então, o ato de linchar seria a agressão coletiva contra alguém. Daí, provavelmente, vem o sentido figurado do termo, hoje largamente usado na expressão “linchamento moral”.

O fato de ambas as interpretações estarem consagradas no dicionário significa que ambas vêm sendo suficientemente empregadas pelos falantes da língua portuguesa. A dificuldade de optar por um ou outro sentido levou a muita discussão e a diferentes “soluções” pelos redatores. Vejamos duas construções:

(1)   “Homem que escapou de linchamento recebe alta” (“Cotidiano”, 15.5.14)

(2)   “…disse estar agradecido por estar vivo após sofrer uma tentativa de linchamento”. (“Cotidiano”, 15.5.14)

À primeira vista, as soluções parecem ter sido boas, dado que a vítima sobreviveu ao espancamento coletivo. Ocorre, porém, que, em (1), é possível interpretar que o homem escapou da pancadaria, não somente da morte, quando o que, de fato, ocorreu foi ter ele sido espancado por um grupo grande de pessoas e ter sobrevivido. Diríamos, então, com mais propriedade, que ele “escapou da morte”. Jornalisticamente, porém, não seria possível usar “morte” , ignorando o espancamento.

No fragmento (2), temos um problema semelhante, pois há quem interprete que as pessoas tentaram espancá-lo, mas não conseguiram levar a termo a empreitada, o que não corresponde à verdade. Que fazer, então?

Lembremos que os dois sentidos do termo (“linchamento”) são possíveis, mas que o compromisso com a clareza e a precisão deve preceder quaisquer opções de redação. Dessa forma, sendo o primeiro deles aquele que pressupõe a morte da vítima, numa construção como “fulano foi linchado”, por certo entenderemos que “fulano morreu vítima de linchamento” e, caso a pessoa não tenha morrido, aí sim, o redator se obrigará a deixar isso claro no texto (fulano sobreviveu ao linchamento, por exemplo). Vejamos opções aos fragmentos acima:

Homem que sobreviveu a linchamento recebe alta

…disse estar agradecido por estar vivo após ter sido vítima de linchamento

Fulano, beltrano e… sicrano

Por Thaís Nicoleti
06/06/14 20:01

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A imagem ao lado ilustrava um texto sobre comportamento na internet, publicado numa das páginas do portal UOL.

Não demorou muito até que alguém questionasse o uso da palavra “ciclano”. O fato é que, embora se ouça com alguma frequência essa forma, o termo que usamos para substituir o nome de uma pessoa, depois de “fulano” e “beltrano”, é “sicrano”.

Sua origem é controversa e mesmo bons etimologistas se abstêm de arriscar uma explicação definitiva sobre ela. O fato é que “fulano” vem do árabe e significa “um certo”, “determinado”, enfim, algo próximo do nosso pronome indefinido “alguém”.

A vantagem de usar “fulano” é que se pode mencionar na mesma sequência um “segundo fulano”, então por meio da palavra “beltrano”, cuja origem costuma ser atribuída ao nome próprio Beltrão, e um “terceiro”: o “sicrano”.

Obras de referência, como dicionários, costumam indicar a ordem “fulano, beltrano e sicrano”. De fato, ninguém usará “beltrano” ou “sicrano” sem antes ter mencionado “fulano”. Tudo indica que a terminação “-ano” desses termos tenha derivado do final da palavra “fulano”, à qual elas necessariamente se seguem. final o leitor quer saber

Vale observar que esses são termos expressivos, próprios da linguagem oral, o que torna ainda mais difícil descobrir a sua origem. Seja como for, o “fulano” faz tanto sucesso na linguagem informal que já ganhou flexão de gênero (fulana) e até de grau (fulaninho),  acentuando-se nesses casos o caráter pejorativo que o uso lhe vem emprestando. Há quem dê ao fulano um sobrenome (fulano de tal) e há ainda quem derive dele um verbo.

Já existe registro do termo “fulanizar”, que se emprega para dizer que  alguém atribui nome ou identificação a pessoas de início indeterminadas ou cuja identificação não interessa para discutir uma questão. Tomemos como exemplo uma discussão sobre o tema da corrupção em que um dos debatedores cite pessoas acusadas de ter cometido esse tipo de delito e o outro diga que não gostaria de “fulanizar” o debate, com isso querendo dizer que  não gostaria de mencionar nomes ou de mencionar casos concretos associados a uma ou outra pessoa em particular. O verbo, por sua vez, dá origem ao substantivo “fulanização” – e assim a língua continua seu processo de renovação.

 

 

Literalmente atropelado por uma informação

Por Thaís Nicoleti
01/06/14 14:51

 

Não faz muito tempo que um importante personagem da cena política brasileira, com a intenção de desmentir um boato, disse que tinha sido “literalmente atropelado” pela suposta informação de que seria pré-candidato a vice-presidente na chapa presidencial de seu partido. portugues na rua (1)

 

Como ele, não são poucas as pessoas que vêm usando o advérbio “literalmente” como uma espécie de advérbio de intensidade, por isso vale a pena refletir sobre o significado dessa palavra.

“Literalmente” quer dizer “em sentido literal”, “no sentido exato da palavra”. Empregar esse advérbio serve para avisar o leitor ou o interlocutor de que a expressão modificada não deve ser tomada em seu sentido figurado. Não se trata de metáfora, mas de sentido literal.

Alguém que diz ter sido “atropelado por uma informação” não pode estar empregando o verbo literalmente. A expressão em si já é conotativa (metafórica). Uma pessoa que tenha sido literalmente atropelada por certo terá sofrido um acidente, poderá ter-se machucado etc.

Bastaria, então, ter dito que foi “atropelado pela informação”, o que já seria bastante enfático. :)

 

 

Pronomes pessoais: registro oral e registro formal

Por Thaís Nicoleti
29/05/14 18:10

Não é de hoje que os falantes do português, pelo menos os do Brasil, vêm usando o pronome pessoal do caso reto  na posição de objeto direto. Estamos falando de construções que ouvimos diariamente, como “Eu chamei ele”, “Fulano encontrou ela na festa”, “O motorista do outro carro xingou ela”, todas muito familiares aos nossos ouvidos no dia a dia.portugues em dia

É interessante observar que esse uso é generalizado mesmo entre falantes escolarizados, desde que estejam operando em um registro informal da língua. O emprego dos pronomes átonos nessas frases (“Eu o chamei”, “Fulano encontrou-a na festa”, “O motorista do outro carro xingou-a”) é incomum na fala.  Isso é fato, mas não é motivo para negligenciarmos o seu uso nas comunicações formais – pelo menos, não ainda.

Vale notar que esse “desvio” da norma culta não ocorre igualmente com os pronomes retos das outras pessoas gramaticais. Não se ouve, por exemplo, algo como “ele viu eu” entre aqueles mesmos falantes que não hesitam em dizer “ele viu ela”. Na primeira pessoa do singular, a distinção entre o pronome reto (de sujeito) e o oblíquo (de objeto) continua intacta (“Ele me viu”, “Eu vi alguém”).

O pronome átono “te”, por sua vez, embora seja da segunda pessoa do singular, é largamente empregado por falantes que não fazem uso do pronome “tu” (pronome do caso reto de segunda pessoa).Na prática, os falantes misturam as pessoas gramaticais, realizando construções do tipo “Você me pediu ajuda e eu te disse o que fazer”. “Você”, pronome de tratamento, é da terceira pessoa e “te” é da segunda.

Nas aulas de português, é comum que se trate tudo isso como “erros” a corrigir, muitas vezes reduzindo uma questão complexa à determinação de uma forma certa em contraposição à(s) errada(s). Quando fazemos isso, deixamos de observar o que a realidade teima em nos mostrar: o dinamismo da língua.

Nas universidades, os linguistas elegem a língua como seu objeto de estudo e buscam descrevê-la exatamente como ela se apresenta, “ao natural”. É por isso que, nesse nível de estudo, nunca se fala em erro e acerto.

De fato, não há como controlar o modo como as pessoas falam (é por isso que projetos de criar leis antiestrangeirismos nunca são levados a sério).  Quando alguém se põe a escrever, porém, a história é outra. O texto redigido não é espontâneo, mas fruto de reflexão. É por isso que, nesse tipo de registro, é esperado que as pessoas façam uso da norma-padrão, mais adequada à expressão concisa, clara e precisa das ideias.

Existem escritores que optam por levar o registro oral para as páginas de livros – e o fazem deliberadamente, obtendo com isso grande expressividade.

A linguagem que se pode (e se deve) regular é a dos textos informativos, objetivos, de caráter formal. Dessa forma, a mesma pessoa que  disse ao colega de trabalho que “o motorista xingou ela” poderá redigir uma carta a seu superior hierárquico na empresa empregando os pronomes átonos na posição de objeto direto (“Os documentos foram enviados ao setor jurídico. Depois de analisá-los, a equipe os devolverá ao senhor”).

Mudança na ordem dos termos evita duplo sentido

Por Thaís Nicoleti
22/05/14 15:32

“Pê-efe ‘secreto’ do McDonald’s não vale o preço, como os lanches”final portugues na folha

A frase foi título de uma crítica de gastronomia, publicada no caderno “Comida”, da Folha. À primeira vista, nenhum problema. Parece mesmo que o crítico, literalmente, “comeu e não gostou”.

O problema, percebido por algumas pessoas, está na segunda parte do enunciado, aquela iniciada pelo conectivo de comparação (“como”). Teria sido a intenção do autor estender a crítica aos lanches (nem o pê-efe nem os lanches valem o preço cobrado por eles) ou teria pretendido dizer que o pê-efe não vale o preço, como valem os lanches (os lanches valem, o pê-efe não)?

O texto que se segue a esse título, porém, não deixa dúvida de que, para o crítico, nem o pê-efe nem os lanches valem o preço que custam. Como, então, deixar isso claro já na chamada? A solução mais rápida (sempre haverá outras) seria fazer uma inversão da ordem dos termos. Note que, ao iniciarmos o período com o elemento comparativo, afastamos a ambiguidade. Veja:

Como os lanches, pê-efe “secreto” do McDonald’s não vale o preço

Por que será que isso acontece? O problema está na oração de verbo elíptico (subentendido) “como os lanches”. Posta no final do período, pode dar a entender tanto que o tal verbo elíptico está modificado pelo advérbio de negação quanto o contrário disso (vale/não vale); por outro lado, posta antes, seu significado será naturalmente idêntico ao da oração principal, portanto negativo, como queria o autor.

“A”, “há” ou nenhuma das anteriores

Por Thaís Nicoleti
07/05/14 18:20

Uma de nossas leitoras enviou uma interessante questão sobre o emprego de  “a” ou “há” em determinado enunciado. Ela precisava formular a seguinte sentença: “O veículo precisa estar sem sinal de GPS a (ou há?) mais de dois dias para ser colocado em quarentena”. Nesse caso, pergunta ela, seria cabível empregar a preposição “a” ou a forma verbal “há”?   final o leitor quer saber

É preciso considerar, em primeiro lugar, que a forma “há”, do verbo “haver”, indica tempo decorrido. Por esse motivo, são corretas construções como as seguintes: “Estou aqui há mais de dois dias”, “Trabalha na empresa há dez anos“, “Esteve em Berlim há dois anos” etc. A preposição “a”, por sua vez, pode indicar distanciamento, até mesmo quando associada à ideia de tempo. Veja-se, por exemplo, uma expressão como “daqui a pouco”, na qual a preposição “a” assinala um intervalo (de um ponto a outro, de um momento a outro). Como é fácil perceber, o intervalo não configura tempo decorrido, portanto não seria possível empregar nessa situação a forma do verbo “haver”.

Da mesma forma, é a preposição “a” que usamos em construções como “A dois meses do início da Copa do Mundo” (dois meses antes do início) ou “A duas semanas do jogo” (duas semanas antes do jogo). Note que não se trata de tempo decorrido, mas, ao contrário disso, de um tempo futuro.

A frase enviada pela leitora rigorosamente não comporta nenhuma dessas duas formas. A preposição “a” logo seria descartada, pois não há demarcação de intervalo (como há em “de domingo a terça-feira”) nem projeção de tempo futuro (como há em “a dois meses da Copa”). A forma do verbo “haver”, por sua vez, poderia parecer, ao menos à primeira vista, ser a melhor solução, já que indica duração. Ocorre, no entanto, um problema: o tempo verbal da frase. Caso o verbo principal estivesse no presente do indicativo,  teríamos o seguinte: “O veículo está há mais de dois dias sem sinal de GPS” ou ainda “Faz mais de dois dias que o veículo está sem sinal de GPS”.

Na sentença original, porém, não seria adequado empregar a forma “há”, pois a situação ainda não se concretizou e, consequentemente, o tempo não decorreu. Para fazer a ligação entre os elementos (falta de sinal de GPS + tempo de mais dois dias), é necessário empregar uma preposição que indique apenas a ideia de duração (sem a ideia de “passado”). Veja uma sugestão: “Para ser posto em quarentena, o veículo deve estar sem sinal de GPS por mais de dois dias”. 

 

 

Notas sobre a construção do suspense no conto “A Causa Secreta” (2)

Por Thaís Nicoleti
20/04/14 13:48

 

De volta à seção Sala de Leitura, segue mais um trecho do conto “A Causa Secreta”, de Machado de Assis. final sala de leituraÉ muito interessante observar nesse conto o modo como o autor constrói o suspense. Vamos lá:

Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No ano de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta  da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas, ainda assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois. Morava na Rua de D. Manuel. Uma de suas raras distrações era ir ao teatro de S. Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês, e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé dele.  

A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e remorsos; mas Fortunato ouviu-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi pelo Beco do Cotovelo, Rua de São José, até o Largo da Carioca. Ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando. No Largo da Carioca entrou num tílburi, e seguiu para os lados da Praça da Constituição. Garcia voltou para casa sem saber mais nada.

TINHA-SE FORMADO

Note-se o emprego do hífen, que demarca a ênclise ao verbo auxiliar da locução. Hoje, no português do Brasil, existe certa tendência a omitir esse hífen, como se o pronome “se” estivesse proclítico ao verbo principal (“formado”). Isso decorre da pronúncia brasileira, que confere tonicidade ao pronome átono. Em alguns exames de português, o uso desse hífen ainda é cobrado.

DESCRIÇÃO

Com poucos elementos, Machado consegue caracterizar cenas e personagens, criando a atmosfera de suspense que conduz o texto.  Nesse trecho, vemos o personagem Fortunato pelos olhos de Garcia (“Fez-lhe impressão a figura”), embora não saibamos em detalhes como é essa “figura”. Sabemos apenas que não passou despercebida aos olhos de Garcia. Ficamos sabendo ainda que Garcia não era dado a sair, afinal  ir ao teatro que ficava próximo de sua casa era uma de suas “raras distrações”. Da expressão “raras distrações” podemos inferir como era a vida de Garcia. Machado não perde tempo com detalhes – ele escolhe o que dizer e o que deixar que o leitor deduza. Esse é um dos motivos de sua prosa ser tão instigante. Sem perceber, o leitor é “cooptado” pelo narrador e fica preso até a última linha do conto.

RARAS DISTRAÇÕES/ SINGULAR INTERESSE/ APARECEU ALI …

Em algumas passagens, o autor opta pelo uso do adjetivo antes do substantivo e pelo sujeito posposto ao verbo. Que efeito obtém com essas inversões?  Os adjetivos (“raras”, “singular”) ganham relevo e, como poderá o leitor perceber, eles são fundamentais na construção do suspense. O sujeito posto depois do verbo também reforça a atmosfera de suspense (a ação aparece antes do agente).

A PEÇA ERA UM DRAMALHÃO, COSIDO A FACADAS, MAS FORTUNATO OUVIU-A COM SINGULAR INTERESSE.

O narrador, já em tom de cumplicidade com o leitor, descreve a peça como algo que não deveria ser levado a sério (“dramalhão cosido a facadas”).  Ao usar a conjunção adversativa “mas”, reforça essa ideia e cria oposição entre o ponto de vista do narrador (e do leitor) e o de Fortunato. Alimenta, assim, a desconfiança a respeito da conduta do personagem.  Segue-se a descrição do movimento de seus olhos, que iam “avidamente de um personagem a outro” . O advérbio “avidamente”, que indica o modo de uma ação,  é altamente caracterizador da personalidade de Fortunato. A descrição do personagem não é estática, mas diluída nas suas ações.

DRAMA, DRAMALHÃO E FARSA /ENTROU NUM TÍLBURI.  QUE SABEMOS SOBRE FORTUNATO ATÉ AGORA?

Era médico, sua figura impressionava, assistia avidamente a um dramalhão cosido a facadas, dispensou a farsa (peça ligeira, cômica), dava bengaladas em cães, andava devagar, cabisbaixo, solitário. “Garcia voltou para casa sem saber mais nada”. E nós, leitores, estamos tão desconfiados quanto Garcia. Garcia é o homem comum com quem nos identificamos. O narrador põe lenha na fogueira e está feito o suspense.

Note-se ainda que o fato de a ação transcorrer num local conhecido (lá estão os nomes das ruas) aumenta a adesão do leitor, pois a verossimilhança está criada. As notas da edição Garnier (do volume “Várias Histórias”) informam que o Beco do Cotovelo é a atual Rua Vieira Fazenda  e que a Praça da Constituição é hoje a Praça Tiradentes.

COSIDO E COZIDO

Não vale confundir um e outro, certo? “Coser”, com “s”, é “costurar”, enquanto “cozer”, com “z”, é “cozinhar”.

(Quem quiser retomar o início do conto poderá pôr “A Causa Secreta” no buscador do blog).

 

CUJO OU ONDE?

Por Thaís Nicoleti
01/04/14 17:13

O leitor Emanuel Jackson traz uma questão sobre o emprego do pronome relativo “cujo”. O trecho apresentado por ele, extraído de prova de concurso, é o seguinte: final o leitor quer saber

Eles também mencionaram a importância do esforço conjunto que está sendo feito pelos TCs, cujo objetivo é traçar um diagnóstico sobre a gestão sustentável de zonas de preservação da floresta amazônica, estudando e analisando as principais ações do governo para a proteção do patrimônio ambiental…

Pergunta ele se haveria prejuízo da correção gramatical e do sentido original do texto caso se substituísse “cujo” por “onde o” e qual seria a função desse “onde o” na frase.

Em primeiro lugar, cumpre relembrar o emprego do pronome “cujo”, que estabelece com o antecedente relação de posse. Nas palavras de Celso Cunha e Lindley Cintra (“A Nova Gramática do Português Contemporâneo”), “cujo é, a um tempo, relativo e possessivo, equivalente pelo sentido a do qual, de quem, de que”.

No fragmento acima, o pronome pode relacionar os substantivos “esforço” e “objetivo” ou “Tribunais de Contas” e “ objetivo” (“o esforço cujo objetivo”, ou seja,  “o objetivo do esforço”; “os TCs, cujo objetivo”, ou seja, “o objetivo dos TCs” ). Essa equivalência nos dá uma pista para descobrir a função sintática do relativo “cujo”: o pronome substitui “do esforço” no sintagma “objetivo do esforço” ou “dos TCs” no sintagma “objetivo dos TCs”, logo exerce a função de adjunto adnominal, a mesma função exercida pelas referidas locuções.

Por estabelecer necessariamente a relação de posse entre dois substantivos (a moça cujos olhos = os olhos da moça; o rapaz cuja mãe = a mãe do rapaz), cujo sempre exercerá a função de adjunto adnominal.

O advérbio relativo “onde” equivale a “o lugar em que, no qual”. O termo aplica-se a lugares, portanto seu antecedente deve ser um nome que indique lugar (o país onde nasceu = o país no qual nasceu; a empresa onde trabalha = a empresa na qual trabalha) ou mesmo um advérbio de lugar (ali, onde nasce o sol = ali, no lugar em que nasce o sol). Sua função sintática é sempre a de adjunto adverbial de lugar.

O objetivo da questão proposta no concurso talvez fosse mostrar que o relativo “onde” retomaria TCs (Tribunais de Contas) como lugar em que alguma coisa tem existência, o que, a meu ver, alteraria o sentido original do texto, pois estaria sendo dito que os TCs são lugares onde [existe] o objetivo de traçar um diagnóstico sobre a gestão sustentável etc. Tal objetivo, como se depreende do contexto, está relacionado ao esforço conjunto que vem sendo feito pelos TCs. O objetivo desse esforço conjunto feito pelos TCs é traçar um diagnóstico sobre a gestão sustentável etc.

Note ainda que, para empregar “onde o”, aceitando o fato de que o sentido da mensagem se modificaria, seria necessário fazer algumas alterações no texto original. Não se construiria um texto assim: “… esforço feito pelos TCs, onde o objetivo é traçar um diagnóstico…”. Para que fosse cabível o emprego do “onde”, teríamos algo assim: “… esforço feito pelos TCs, onde existe o objetivo de…”.

É provável que a pergunta do exame tenha nascido da percepção de que o advérbio relativo “onde” tem sido usado com muita frequência nas mais variadas situações, como uma espécie de “articulador universal”, enquanto o pronome “cujo” tem sido escanteado por muita gente. Vale reforçar que cada um deles tem seu uso.  O manuseio seguro das formas contribui muito para a clareza e a fluência do texto.

 

“Conselho de Classe”

Por Thaís Nicoleti
15/02/14 12:09

Tive a grata oportunidade de assistir ao espetáculo “Conselho de Classe”, encenado pela Cia. dos Atores no Sesc Belenzinho, em São Paulo. Fui atraída pelo título da peça  – e não deu outra: a sensação de “déjà-vu”, de reconhecer aqueles personagens, foi imediata, mesmo tendo eu sido temalivreprofessora de escolas da rede privada e tendo a ação transcorrido numa escola pública.

Na plateia, adivinhavam-se professores, que ora riam (sim, os atores são mesmo muito bons e o roteiro é ágil e divertido), ora sorriam, oscilando entre a comoção de ver seus problemas retratados ali em reprodução fiel (teatral sem ser caricata) e a solidariedade a seus “colegas” da cena.

A caracterização dos personagens é parte da diversão: os atores são todos homens, que representam “professoras”. O único personagem masculino é o jovem diretor substituto, que chega a um conselho de classe esvaziado, com meia dúzia de gatos pingados, numa sala excessivamente quente, com ventilador quebrado e sem água.

Discutem-se ali com humor problemas sérios, que vão desde as condições de trabalho e do próprio prédio da escola até questões propriamente educacionais. A professora “sacoleira”, vendendo roupas, xampus ou cremes, é um personagem muito comum nas salas de professores, que, ali, no palco, mostra o quanto é patética a situação de um profissional que tem de “arredondar o salário” para fazer face às despesas. A professora que, já de idade avançada, sofre um ataque cardíaco dentro da escola  é outro desses tipos simbólicos que saíram da realidade para subir ao palco.

O texto da peça tem o grande mérito de levantar questões e de mostrar diversos pontos de vista sem puxar a brasa para nenhuma das sardinhas. O jovem diretor substituto, que conhece muito de educação, mas ainda na teoria (“pela internet”), vê sua empolgação com as teses norte-americanas e as soluções de escolas estrangeiras chocar-se com uma realidade diversa. É preciso mudar as coisas, mas não se pode dispensar o saber daquelas pessoas que passaram a vida na linha de frente, ou seja, os professores. Será da discussão honesta, que considere todas as partes envolvidas, que surgirão as soluções.

Infelizmente, termina amanhã, 16 d fevereiro de 2014, a temporada da peça “Conselho de Classe” no Sesc Belenzinho, em São Paulo. (E anda cada vez mais difícil conseguir um ingresso no nosso querido Sesc.). Sucesso à Cia. dos Atores!

 

O dilema dos títulos jornalísticos

Por Thaís Nicoleti
03/02/14 17:22

Na semana passada, muitos leitores repercutiram nas redes sociais, na maior parte das vezes em tom de gozação, um dos subtítulos de uma reportagem do caderno “Cotidiano” da Folha.

O  título era este (veja o destaque):

mortos-vivos impresso

É evidente que os mortos não poderiam estar andando sobre a passarela. Quanto a isso, não há a menor dúvida.  O que se quer saber é como ou por que uma frase como essa é publicada sem que o redator perceba o problema.

Muito bem. Para os jornalistas, não é novidade que a tarefa de criar títulos para as reportagens não é nada fácil. O espaço delimitado e o tamanho das letras impõem a primeira dificuldade, daí ser comum ouvir entre os redatores que o “título bom é aquele que cabe” [no espaço]. Português Na Folha

É claro que não é só isso que torna a tarefa complicada. O leitor assíduo de jornais sabe que a reportagem tem um título principal, que deve informar sucintamente o fato relevante, um subtítulo (conhecido no jargão como “linha fina”) e ainda um destaque, o chamado “olho” ou “lupa”. Cada um desses subtítulos deve trazer uma informação que complete a principal, sem repetição nem quebra de palavra e em ordem hierárquica de importância. Vejamos um exemplo:

TÍTULOS E SUBTÍTULOS

No título principal, o fato noticioso: Campos usou a máquina [do governo] para divulgar assunto pessoal; no subtítulo (linha fina), a informação de que a reportagem foi removida do site oficial à tarde; no destaque (olho), a informação de que o governo de Pernambuco considerou equivocada a divulgação de assunto pessoal no site oficial.

Em suma, a leitura dos três títulos em sequência permite entender em linhas gerais o que houve. O texto trará as informações em detalhes.

Cada texto passa por esse processo e o redator procura concentrar o máximo de informações nos títulos, dando agilidade à leitura. Tudo isso, não raro, a toque de caixa, já que, feitos depois do ajuste do texto ao espaço da página, os títulos são a parte final da redação.  Há uma série de fatores que, embora não justifiquem, propiciam a ocorrência do erro.

Vejamos novamente o título equivocado, agora na versão on-line:

mortos-vivos on-line

 

 

 

 

 

 

 

Título principal: Caminhão derruba passarela e mata quatro pessoas no Rio

Linha fina: Caçamba do veículo, que trafegava em horário irregular, estava levantada

Olho: Dois mortos andavam pelo elevado de 120 t, que desabou sobre dois carros, onde estavam as outras duas vítimas

Atendo-nos ao texto do “olho”, como se produziu a oração “dois mortos andavam pelo elevado”? A intenção, naturalmente, era dizer que, das quatro vítimas  (título principal), duas morreram quando estavam caminhando sobre a passarela e duas morreram esmagadas, dentro de carros que passavam sob o elevado.

Na ânsia de fazer caber a informação, uma construção como os que morreram quando andavam sobre a passarela virou “os mortos andavam sobre a passarela”. Às vezes, depois de muitas tentativas de fazer um texto que se encaixe em todos os requisitos, o redator nem percebe que falhou no principal: a coerência.  É lamentável, mas compreensível — ou vice-versa.

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