Perfil Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL.

Perfil completo

Com “h” ou sem “h”?

Por Thaís Nicoleti
22/08/14 17:53

O Senado atribui a boato em rede social a divulgação de uma proposta radical de mudança na ortografia do português. O assunto ganhou as redes sociais, no entanto, depois de ter sido tema de reportagens publicadas no UOL e em outros veículos da imprensa. A reportagem do UOL foi modificada hoje.

Texto hoje publicado no site do Senado explica que, embora exista, essa proposta não foi formalizada, portanto não está em discussão.portugues em dia

Isso não significa, porém, que não venha a ser formalizada e discutida futuramente, já que seu autor é um dos coordenadores de um grupo técnico de trabalho constituído pela Comissão de Educação da casa com o objetivo de rever o Acordo Ortográfico.

A divulgação das demais propostas daria mais transparência ao processo, permitindo o enriquecimento do debate, e sobretudo evitaria que boatos se disseminassem nas redes sociais e até na imprensa.

Quem precisa abolir o “h”?

Por Thaís Nicoleti
20/08/14 17:13

Parece mentira, mas é verdade. Existe no Senado uma proposta de reforma ortográfica que mudaria radicalmente a grafia das palavras do português. portugues em dia

Entre as alterações desejadas por quem concebeu a ideia está a supressão do “h” inicial dos vocábulos. Na prática, a “hora H” viraria algo como “ora agá” e desapareceria a letra muda inicial de  homem, humano, herói, humildade, habitação, horta, hierarquia etc. O verbo “haver” sem “h” (“aver”) produziria algumas conjugações curiosas: eu ei de vencer, ele á de entender isso, aja paciência!…

O argumento brandido é o da “simplificação” da ortografia. Considera-se ser mais simples escrever como se fala, suprimindo, portanto, o “h” mudo, que não teria função. Essa linha de raciocínio leva a outras sugestões, como a extinção da letra “u” dos dígrafos “qu” e “gu”, o que resultaria em grafias como “qilombo” (no lugar de “quilombo”) e “gerra” (no lugar de “guerra”). “Casa” com “z” (“caza”) e “cachorro” com “x” (“caxorro”) passariam a ser as grafias corretas.

É muito improvável que a população brasileira se entusiasme com uma proposta radical como essa. Basta lembrar a saraivada de críticas de que foi alvo o Acordo Ortográfico de 1990 (vigente desde 2009), responsável por pequenas alterações (acentos e hifens) em 0,5% do léxico.

Quem diz que uma ortografia marcadamente fonética teria o poder de multiplicar o número de leitores pressupõe que as pessoas leiam pouco ou não saibam ler porque a ortografia é “difícil”.  Esse é um raciocínio algo contorcionista, pois, sendo a leitura um inegável canal de aprendizado da língua, o estímulo a essa prática é que pode tornar mais fácil o aprendizado não só da ortografia em si mas da língua como um todo.

Nada indica que os índices de analfabetismo ou de analfabetismo funcional se reduzam caso a ortografia se torne fonética. A informação etimológica que as palavras carregam, seja nas letras mudas, seja nas letras diferentes que representam um mesmo som, insere-as na história da língua e faculta ao professor o ensino integrado de aspectos morfossintáticos e semânticos.

O mínimo que se pode dizer dessa aventura reformista é que atribui à ortografia um papel muito maior do que aquele que ela realmente tem. O perigo é que um projeto desse teor sirva para mascarar as verdadeiras deficiências do ensino e as reais necessidades de investimento nessa área tão importante para o desenvolvimento do país.

Um acento facultativo

Por Thaís Nicoleti
11/08/14 20:14

O Novo Acordo Ortográfico, em vigor desde 2009, faculta o emprego do acento circunflexo na palavra “forma” quando pronunciada com “o” fechado, mas não o torna obrigatório.  portugues em diaNo registro oficial do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, a palavra é grafada sem acento nenhum.

Muita gente pergunta como proceder e até mesmo se “é melhor padronizar” uma só grafia (por exemplo, “fôrma” sempre que se pretender mencionar certo utensílio próprio para fazer bolos).

Se a intenção fosse “padronizar” uma grafia, teriam sido registrados dois verbetes (forma e fôrma), um deles com acento diferencial. Não era isso o que se queria fazer até mesmo porque quase todos os acentos diferenciais deixaram de existir.

O que se estabeleceu foi a possibilidade de usar esse acento nos casos em que a sua ausência pudesse tornar o texto ambíguo.  Vale como exemplo desse tipo de situação o trecho do poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, em que os dois termos, “forma” (ó) e “forma” (ô), aparecem juntos, no mesmo verso. Vamos relembrá-lo (segue um trecho do poema com a acentuação atualizada segundo as regras ora vigentes):

O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: — Meu cancioneiro

É bem martelado.

 

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos!

 

O meu verso é bom

Frumento sem joio

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

 

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A fôrmas a forma.

 

Nesse texto, um dos estandartes do modernismo brasileiro, Manuel Bandeira faz uma sátira dos poetas parnasianos, que se preocupavam excessivamente com o formato do poema, com as regras de versificação. Os modernistas acenavam, então, com o verso livre, sem rimas e sem regularidade métrica.

O sapo parnasiano do poema dá sua lição: “Reduzi sem danos/ A fôrmas a forma” . Com isso, ele quer dizer que as formas poéticas devem se encaixar em espécies de “fôrmas”. Agora, vejamos o texto sem o acento em “fôrmas”: “Reduzi sem danos/ A formas a forma”.

Fica mais difícil compreender de imediato a ideia, embora a rima  (“norma” rima com “forma”) nos ajude a chegar à interpretação desejada. Com o acento, o entendimento da passagem é imediato. Fica claro que não há necessidade de usar acento na palavra que integra a expressão “pão de forma”, por exemplo. Também não há necessidade do acento quando listamos os utensílios de cozinha (pratos, talheres, tigelas, formas, copos). Não é preciso “padronizar” nada. Basta o bom senso.

É importante observar que esse princípio (o do acento facultativo) já existe em alguns casos de emprego do acento grave (indicador de crase). Todos sabemos que a crase é a fusão de dois “aa” e que é essa fusão que assinalamos com o acento grave (à). Existe, porém, a possibilidade de usar esse sinal sem que ocorra, de fato, a crase – unicamente para evitar a ambiguidade. A título de exemplo, observemos uma frase como “Recebeu o sogro a bala”. Podemos entender que o sogro recebeu a bala (foi baleado) ou que alguém recebeu o próprio sogro a tiros. Vale lembrar que, nas locuções adverbiais de instrumento (é o caso de “a bala”), não aparece o artigo e, por conseguinte, não ocorre a crase. Caso a intenção do produtor da frase fosse dizer que o sogro foi recebido a bala, seria possível (e recomendável) escrever “Recebeu o sogro à bala”. Esse acento ajuda na compreensão imediata do sentido da frase.

É claro que qualquer frase sempre está inserida em um contexto ou em uma situação de comunicação, que é o que, de fato, garante a sua compreensão. Recursos facilitadores, como são esses acentos facultativos, podem, porém, facilitar esse processo.

A Indesejada das gentes

Por Thaís Nicoleti
24/07/14 10:00

CONSOADA

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga:

final sala de leitura — Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

O poema é de autoria de Manuel Bandeira, poeta que se notabilizou por tratar do tema morte em sua obra.O título do texto, “Consoada”, pode referir-se à ceia da noite de Natal na tradição católica ou a uma leve refeição noturna, sem carne, que se toma em dia de jejum.

Na leitura atenta de um poema, vale observar os possíveis significados de cada termo ou expressão, pois a linguagem figurativa é polissêmica, isto é, aciona, ao mesmo tempo, mais de um significado.

No verso inicial, Bandeira emprega uma antonomásia, ao substituir a palavra “morte” pela perífrase “a Indesejada das gentes”; em seguida, então entre parênteses, o poeta demonstra dúvida sobre o modo de ela se apresentar — “dura” ou “caroável” ( “afável, gentil, afetuosa”) — e sobre a reação dele diante dela.

Os termos “dia” e “noite” são metáforas de “vida” e “morte”, respectivamente. Em seguida, o poeta retoma o uso dos parênteses, como se estivesse expressando algo tomado como ideia secundária: “a noite com seus sortilégios”. “Sortilégio” pode significar tanto “magia ou feitiço” como “sedução, fascínio, encanto” e até mesmo “conspiração ou maquinação”. Todos os significados são cabíveis e complementares no contexto.

Nos versos finais,  “Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,/ A mesa posta,/ Com cada coisa em seu lugar”, vale notar o emprego dos particípios (lavrado, limpa, posta) com valor de adjetivos em função de predicativo do objeto. Na função de predicativo, o adjetivo passa a caracterizar um ser tomado em determinado momento ou circunstância. Quando a morte chegar,  o campo estará lavrado, a casa estará limpa e a mesa estará posta.

O poeta, portanto, sente-se preparado para esse momento. Sente que “cumpriu sua missão”, ou seja, viveu.

Um dos maiores poetas brasileiros do século 20, o pernambucano Manuel Bandeira faleceu com 82 anos de idade, em outubro de 1968. Seu legado estará sempre entre nós.

Nos últimos dias, perdemos João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna, outros três grandes que nos deixam importante herança. Que seu desaparecimento físico seja apenas a sua passagem para a imortalidade.

Existe “linchamento” sem morte?

Por Thaís Nicoleti
11/06/14 10:24

 

O verbo “linchar”, proveniente da língua inglesa (da lei de Lynch, de origem controvertida, mas relacionada a execuções sumárias nos Estados Unidos da América), é nosso velho conhecido, porém recentemente seu uso causou dúvida na Redação da Folha. Afinal, “linchar” pressupõe ou não a ideia de “matar”? final portugues na folha

No entendimento expresso no dicionário “Houaiss”, o verbo pode indicar tanto a “execução sumária da vítima por ação de um grupo” (primeiro significado) quanto a “prática coletiva (por uma multidão) de graves atos de violência contra alguém” (segundo significado). Na segunda acepção, a morte pode ou não ocorrer. O que definiria, então, o ato de linchar seria a agressão coletiva contra alguém. Daí, provavelmente, vem o sentido figurado do termo, hoje largamente usado na expressão “linchamento moral”.

O fato de ambas as interpretações estarem consagradas no dicionário significa que ambas vêm sendo suficientemente empregadas pelos falantes da língua portuguesa. A dificuldade de optar por um ou outro sentido levou a muita discussão e a diferentes “soluções” pelos redatores. Vejamos duas construções:

(1)   “Homem que escapou de linchamento recebe alta” (“Cotidiano”, 15.5.14)

(2)   “…disse estar agradecido por estar vivo após sofrer uma tentativa de linchamento”. (“Cotidiano”, 15.5.14)

À primeira vista, as soluções parecem ter sido boas, dado que a vítima sobreviveu ao espancamento coletivo. Ocorre, porém, que, em (1), é possível interpretar que o homem escapou da pancadaria, não somente da morte, quando o que, de fato, ocorreu foi ter ele sido espancado por um grupo grande de pessoas e ter sobrevivido. Diríamos, então, com mais propriedade, que ele “escapou da morte”. Jornalisticamente, porém, não seria possível usar “morte” , ignorando o espancamento.

No fragmento (2), temos um problema semelhante, pois há quem interprete que as pessoas tentaram espancá-lo, mas não conseguiram levar a termo a empreitada, o que não corresponde à verdade. Que fazer, então?

Lembremos que os dois sentidos do termo (“linchamento”) são possíveis, mas que o compromisso com a clareza e a precisão deve preceder quaisquer opções de redação. Dessa forma, sendo o primeiro deles aquele que pressupõe a morte da vítima, numa construção como “fulano foi linchado”, por certo entenderemos que “fulano morreu vítima de linchamento” e, caso a pessoa não tenha morrido, aí sim, o redator se obrigará a deixar isso claro no texto (fulano sobreviveu ao linchamento, por exemplo). Vejamos opções aos fragmentos acima:

Homem que sobreviveu a linchamento recebe alta

…disse estar agradecido por estar vivo após ter sido vítima de linchamento

Fulano, beltrano e… sicrano

Por Thaís Nicoleti
06/06/14 20:01

ilustracao-para-materia-de-brigas-nas-redes-sociais-1401916226004_615x300 (1)

A imagem ao lado ilustrava um texto sobre comportamento na internet, publicado numa das páginas do portal UOL.

Não demorou muito até que alguém questionasse o uso da palavra “ciclano”. O fato é que, embora se ouça com alguma frequência essa forma, o termo que usamos para substituir o nome de uma pessoa, depois de “fulano” e “beltrano”, é “sicrano”.

Sua origem é controversa e mesmo bons etimologistas se abstêm de arriscar uma explicação definitiva sobre ela. O fato é que “fulano” vem do árabe e significa “um certo”, “determinado”, enfim, algo próximo do nosso pronome indefinido “alguém”.

A vantagem de usar “fulano” é que se pode mencionar na mesma sequência um “segundo fulano”, então por meio da palavra “beltrano”, cuja origem costuma ser atribuída ao nome próprio Beltrão, e um “terceiro”: o “sicrano”.

Obras de referência, como dicionários, costumam indicar a ordem “fulano, beltrano e sicrano”. De fato, ninguém usará “beltrano” ou “sicrano” sem antes ter mencionado “fulano”. Tudo indica que a terminação “-ano” desses termos tenha derivado do final da palavra “fulano”, à qual elas necessariamente se seguem. final o leitor quer saber

Vale observar que esses são termos expressivos, próprios da linguagem oral, o que torna ainda mais difícil descobrir a sua origem. Seja como for, o “fulano” faz tanto sucesso na linguagem informal que já ganhou flexão de gênero (fulana) e até de grau (fulaninho),  acentuando-se nesses casos o caráter pejorativo que o uso lhe vem emprestando. Há quem dê ao fulano um sobrenome (fulano de tal) e há ainda quem derive dele um verbo.

Já existe registro do termo “fulanizar”, que se emprega para dizer que  alguém atribui nome ou identificação a pessoas de início indeterminadas ou cuja identificação não interessa para discutir uma questão. Tomemos como exemplo uma discussão sobre o tema da corrupção em que um dos debatedores cite pessoas acusadas de ter cometido esse tipo de delito e o outro diga que não gostaria de “fulanizar” o debate, com isso querendo dizer que  não gostaria de mencionar nomes ou de mencionar casos concretos associados a uma ou outra pessoa em particular. O verbo, por sua vez, dá origem ao substantivo “fulanização” – e assim a língua continua seu processo de renovação.

 

 

Literalmente atropelado por uma informação

Por Thaís Nicoleti
01/06/14 14:51

 

Não faz muito tempo que um importante personagem da cena política brasileira, com a intenção de desmentir um boato, disse que tinha sido “literalmente atropelado” pela suposta informação de que seria pré-candidato a vice-presidente na chapa presidencial de seu partido. portugues na rua (1)

 

Como ele, não são poucas as pessoas que vêm usando o advérbio “literalmente” como uma espécie de advérbio de intensidade, por isso vale a pena refletir sobre o significado dessa palavra.

“Literalmente” quer dizer “em sentido literal”, “no sentido exato da palavra”. Empregar esse advérbio serve para avisar o leitor ou o interlocutor de que a expressão modificada não deve ser tomada em seu sentido figurado. Não se trata de metáfora, mas de sentido literal.

Alguém que diz ter sido “atropelado por uma informação” não pode estar empregando o verbo literalmente. A expressão em si já é conotativa (metafórica). Uma pessoa que tenha sido literalmente atropelada por certo terá sofrido um acidente, poderá ter-se machucado etc.

Bastaria, então, ter dito que foi “atropelado pela informação”, o que já seria bastante enfático. :)

 

 

Pronomes pessoais: registro oral e registro formal

Por Thaís Nicoleti
29/05/14 18:10

Não é de hoje que os falantes do português, pelo menos os do Brasil, vêm usando o pronome pessoal do caso reto  na posição de objeto direto. Estamos falando de construções que ouvimos diariamente, como “Eu chamei ele”, “Fulano encontrou ela na festa”, “O motorista do outro carro xingou ela”, todas muito familiares aos nossos ouvidos no dia a dia.portugues em dia

É interessante observar que esse uso é generalizado mesmo entre falantes escolarizados, desde que estejam operando em um registro informal da língua. O emprego dos pronomes átonos nessas frases (“Eu o chamei”, “Fulano encontrou-a na festa”, “O motorista do outro carro xingou-a”) é incomum na fala.  Isso é fato, mas não é motivo para negligenciarmos o seu uso nas comunicações formais – pelo menos, não ainda.

Vale notar que esse “desvio” da norma culta não ocorre igualmente com os pronomes retos das outras pessoas gramaticais. Não se ouve, por exemplo, algo como “ele viu eu” entre aqueles mesmos falantes que não hesitam em dizer “ele viu ela”. Na primeira pessoa do singular, a distinção entre o pronome reto (de sujeito) e o oblíquo (de objeto) continua intacta (“Ele me viu”, “Eu vi alguém”).

O pronome átono “te”, por sua vez, embora seja da segunda pessoa do singular, é largamente empregado por falantes que não fazem uso do pronome “tu” (pronome do caso reto de segunda pessoa).Na prática, os falantes misturam as pessoas gramaticais, realizando construções do tipo “Você me pediu ajuda e eu te disse o que fazer”. “Você”, pronome de tratamento, é da terceira pessoa e “te” é da segunda.

Nas aulas de português, é comum que se trate tudo isso como “erros” a corrigir, muitas vezes reduzindo uma questão complexa à determinação de uma forma certa em contraposição à(s) errada(s). Quando fazemos isso, deixamos de observar o que a realidade teima em nos mostrar: o dinamismo da língua.

Nas universidades, os linguistas elegem a língua como seu objeto de estudo e buscam descrevê-la exatamente como ela se apresenta, “ao natural”. É por isso que, nesse nível de estudo, nunca se fala em erro e acerto.

De fato, não há como controlar o modo como as pessoas falam (é por isso que projetos de criar leis antiestrangeirismos nunca são levados a sério).  Quando alguém se põe a escrever, porém, a história é outra. O texto redigido não é espontâneo, mas fruto de reflexão. É por isso que, nesse tipo de registro, é esperado que as pessoas façam uso da norma-padrão, mais adequada à expressão concisa, clara e precisa das ideias.

Existem escritores que optam por levar o registro oral para as páginas de livros – e o fazem deliberadamente, obtendo com isso grande expressividade.

A linguagem que se pode (e se deve) regular é a dos textos informativos, objetivos, de caráter formal. Dessa forma, a mesma pessoa que  disse ao colega de trabalho que “o motorista xingou ela” poderá redigir uma carta a seu superior hierárquico na empresa empregando os pronomes átonos na posição de objeto direto (“Os documentos foram enviados ao setor jurídico. Depois de analisá-los, a equipe os devolverá ao senhor”).

Mudança na ordem dos termos evita duplo sentido

Por Thaís Nicoleti
22/05/14 15:32

“Pê-efe ‘secreto’ do McDonald’s não vale o preço, como os lanches”final portugues na folha

A frase foi título de uma crítica de gastronomia, publicada no caderno “Comida”, da Folha. À primeira vista, nenhum problema. Parece mesmo que o crítico, literalmente, “comeu e não gostou”.

O problema, percebido por algumas pessoas, está na segunda parte do enunciado, aquela iniciada pelo conectivo de comparação (“como”). Teria sido a intenção do autor estender a crítica aos lanches (nem o pê-efe nem os lanches valem o preço cobrado por eles) ou teria pretendido dizer que o pê-efe não vale o preço, como valem os lanches (os lanches valem, o pê-efe não)?

O texto que se segue a esse título, porém, não deixa dúvida de que, para o crítico, nem o pê-efe nem os lanches valem o preço que custam. Como, então, deixar isso claro já na chamada? A solução mais rápida (sempre haverá outras) seria fazer uma inversão da ordem dos termos. Note que, ao iniciarmos o período com o elemento comparativo, afastamos a ambiguidade. Veja:

Como os lanches, pê-efe “secreto” do McDonald’s não vale o preço

Por que será que isso acontece? O problema está na oração de verbo elíptico (subentendido) “como os lanches”. Posta no final do período, pode dar a entender tanto que o tal verbo elíptico está modificado pelo advérbio de negação quanto o contrário disso (vale/não vale); por outro lado, posta antes, seu significado será naturalmente idêntico ao da oração principal, portanto negativo, como queria o autor.

“A”, “há” ou nenhuma das anteriores

Por Thaís Nicoleti
07/05/14 18:20

Uma de nossas leitoras enviou uma interessante questão sobre o emprego de  “a” ou “há” em determinado enunciado. Ela precisava formular a seguinte sentença: “O veículo precisa estar sem sinal de GPS a (ou há?) mais de dois dias para ser colocado em quarentena”. Nesse caso, pergunta ela, seria cabível empregar a preposição “a” ou a forma verbal “há”?   final o leitor quer saber

É preciso considerar, em primeiro lugar, que a forma “há”, do verbo “haver”, indica tempo decorrido. Por esse motivo, são corretas construções como as seguintes: “Estou aqui há mais de dois dias”, “Trabalha na empresa há dez anos“, “Esteve em Berlim há dois anos” etc. A preposição “a”, por sua vez, pode indicar distanciamento, até mesmo quando associada à ideia de tempo. Veja-se, por exemplo, uma expressão como “daqui a pouco”, na qual a preposição “a” assinala um intervalo (de um ponto a outro, de um momento a outro). Como é fácil perceber, o intervalo não configura tempo decorrido, portanto não seria possível empregar nessa situação a forma do verbo “haver”.

Da mesma forma, é a preposição “a” que usamos em construções como “A dois meses do início da Copa do Mundo” (dois meses antes do início) ou “A duas semanas do jogo” (duas semanas antes do jogo). Note que não se trata de tempo decorrido, mas, ao contrário disso, de um tempo futuro.

A frase enviada pela leitora rigorosamente não comporta nenhuma dessas duas formas. A preposição “a” logo seria descartada, pois não há demarcação de intervalo (como há em “de domingo a terça-feira”) nem projeção de tempo futuro (como há em “a dois meses da Copa”). A forma do verbo “haver”, por sua vez, poderia parecer, ao menos à primeira vista, ser a melhor solução, já que indica duração. Ocorre, no entanto, um problema: o tempo verbal da frase. Caso o verbo principal estivesse no presente do indicativo,  teríamos o seguinte: “O veículo está há mais de dois dias sem sinal de GPS” ou ainda “Faz mais de dois dias que o veículo está sem sinal de GPS”.

Na sentença original, porém, não seria adequado empregar a forma “há”, pois a situação ainda não se concretizou e, consequentemente, o tempo não decorreu. Para fazer a ligação entre os elementos (falta de sinal de GPS + tempo de mais dois dias), é necessário empregar uma preposição que indique apenas a ideia de duração (sem a ideia de “passado”). Veja uma sugestão: “Para ser posto em quarentena, o veículo deve estar sem sinal de GPS por mais de dois dias”. 

 

 

Publicidade
Publicidade
Publicidade

Folha Shop