Publicidade

Perfil Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL.

Perfil completo

"Em matéria de língua e ortografia, é preciso qualificar o debate", diz Faraco

Por Thaís Nicoleti
13/11/14 20:46

O adiamento do prazo oficial de entrada em vigor do Acordo Ortográfico para 2016 e a discussão que se vem travando no Senado Federal acerca do tema, com direito a debate sobre uma proposta de ortografia fonética, podem fazer parecer que existe espaço para alguma mudança radical no sistema ortográfico do português.portugues em pauta

Para elucidar os pontos obscuros de toda essa discussão, desta vez conversei com nada mais, nada menos que o coordenador da Comissão Nacional brasileira do Instituto Internacional da Língua Portuguesa da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), o linguista Carlos Alberto Faraco, professor titular de língua portuguesa da Universidade Federal do Paraná, cujo currículo não deixa dúvida de que os trabalhos de implantação definitiva do Acordo estão em boas mãos.

Mestre pela Unicamp e doutor pela Salford University, com pós-doutorado pela University of California, Faraco tem uma vida dedicada aos estudos linguísticos. Foi presidente da Associação Brasileira de Linguística de 1985 a 1987 e pertenceu ao grupo de pesquisadores que criou o projeto VARSUL-Variação Linguística da Região Sul.

É autor e organizador de vários livros, entre os quais Linguagem escrita e alfabetização (Editora Contexto), Linguística histórica, Norma culta brasileira: desatando alguns nós, Linguagem e diálogo: as ideias linguísticas do Círculo de Bakhtin e Estrangeirismos: guerras em torno da língua (todos publicados pela Parábola).

Também é autor da coleção Português: língua e cultura (IBEP/Base) para o ensino médio e, em coautoria com o romancista Cristovão Tezza, de dois livros para o ensino de português no nível universitário: Prática de texto e Oficina de texto (ambos publicados pela Editora Vozes).

O professor Faraco vai direto ao ponto e definitivamente põe os pingos nos is. Deixa claro que “a ortografia de qualquer língua não é assunto plebiscitário ou para abaixo-assinados, ou para coletas aleatórias de ‘sugestões’” e alfineta a Comissão de Educação do Senado: “Ao constituir um grupo de trabalho apenas com dois críticos do Acordo, a CE vira as costas para a sociedade, desqualifica a opinião majoritária, marginaliza os especialistas e passa a falsa impressão de que o Brasil está se posicionando contra o  Acordo”. E resume a situação citando Shakespeare: “Muito barulho por nada”.

Questionado sobre as propaladas dificuldades que o Acordo teria trazido, Faraco é rápido no gatilho: “As poucas mudanças podem ser aprendidas em não mais que 15 minutos”. E tem mais, muito mais. Leia a seguir a entrevista concedida ao blog:

Thaís Nicoleti – Segundo o senador Cyro Miranda (PSDB – DF), presidente da Comissão de Educação do Senado, após a entrada em vigor do Acordo Ortográfico,  o Senado recebeu milhares de e-mails de cidadãos indignados com as dificuldades impostas pelas mudanças ortográficas, fato que provocou a abertura de discussões sobre o tema na Casa legislativa. Reportagem publicada no site Observatório da Língua Portuguesa informa que o senhor Ernani Pimentel, um dos representantes da Comissão de Educação do Senado brasileiro em missões internacionais, criou um movimento chamado “Acordar Melhor”, por meio do qual colheu grande quantidade de assinaturas favoráveis à simplificação da ortografia, fato que teria levado o Senado a  propor a discussão e o adiamento da entrada em vigor do Acordo. Diante disso, pergunto se o senhor considera ter faltado discussão antes da assinatura do Acordo. Na sua opinião, o Acordo foi imposto de forma autoritária?

Carlos Faraco – Seguramente não houve falta de discussão. As discussões para se alcançar um Acordo Ortográfico que unificasse as bases da ortografia do português começaram na década de 1920. Foram, portanto, quase 70 anos de discussões. Acrescente-se a isso o fato de que os pontos que exigiam uma harmonização para se alcançar a unificação das bases da ortografia eram poucos. Basicamente questões de acentuação e o tratamento das chamadas consoantes não articuladas. A cada tentativa de se estabelecer a unificação das bases (1931, 1943, 1945, 1971/1973, 1975, 1986, 1989) poliram-se arestas e acumularam-se alternativas que acabaram por ser consolidadas no texto de 1990.

No fundo, com o Acordo de 1990, houve apenas pequenos ajustes em cada uma das ortografias vigentes para submetê-las a um único conjunto de normas. Houve cedências de parte a parte, adotando uns soluções já existentes na grafia dos outros. Nada mais do que isso. Não houve nenhuma alteração das grandes coordenadas que fixaram a ortografia do português em 1911 (nem era este o objetivo). Também não houve imposição, e sim cedências. E ninguém esteve obrigado a adotar o Acordo, na medida em que cada país soberanamente teria de ratificá-lo. E o próprio calendário de ratificações é prova de que nada foi imposto.

TN – O senhor poderia relembrar aos nossos leitores como se deu o processo de ratificação do Acordo nos vários países da CPLP?

CF – Cada país seguiu a cronologia que lhe aprouve. Portugal foi o primeiro país a ratificar o Acordo já em 1991. O Brasil o fez em 1995. Posteriormente, foram assinados dois Protocolos Modificativos (em 1998 e 2004 respectivamente) para ajustar o prazo de vigência antes previsto para 1994. Esses Protocolos Modificativos foram ratificados pelo Brasil em 2004, por Cabo Verde em 2005, São Tomé e Príncipe em 2006, por Portugal em 2008 e por Timor-Leste e Guiné-Bissau em 2009. Em 2012, o Conselho de Ministros de Moçambique recomendou ao Parlamento daquele país que completasse o processo de ratificação. O Segundo Protocolo Modificativo, assinado por todos os países, estipula que o Acordo entraria em vigor com o terceiro depósito de instrumento de ratificação, o que ocorreu em 2006 (Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). O Acordo, portanto, está em vigor desde 2006.

O Brasil, porém, antes de implantar o Acordo, esperou que a Assembleia da República Portuguesa ratificasse os Protocolos Modificativos, o que veio a ocorrer em maio de 2008, ano em que, em conjunta Declaração Sobre a Língua Portuguesa, os chefes de estado e de governo da CPLP instavam a que tal acontecesse em todos os países de língua oficial portuguesa. Longos foram os anos e as discussões para se chegar ao Acordo de 1990 e longos têm sido os anos para sua ratificação e implantação para atingir o objetivo único de uniformizar as regras de ortografia em todos os países.

TN –  Diante disso, fica difícil afirmar que o Acordo foi imposto de modo autoritário, sem discussão. O fato é que esse tipo de afirmação foi feito em audiência pública no Senado por membros do (GTT) grupo de trabalho técnico da Comissão de Educação. O professor Ernani Pimentel, por exemplo, por meio de seu site, chegou a criar um concurso em que oferecia uma quantia em dinheiro para a pessoa que apresentasse a melhor proposta de simplificação ortográfica. Há nesse GTT da Comissão de Educação do Senado o entendimento de que qualquer pessoa está em condições de propor mudanças na ortografia. Essa seria talvez, no entender da CE, uma forma de democratizar o processo. Como o senhor vê isso? 

Quando se olha com atenção para a história, parece claro que são totalmente improcedentes afirmações de que não houve discussão e de que o Acordo foi uma imposição autoritária. A ortografia de qualquer língua não é assunto plebiscitário ou para abaixo-assinados ou para coletas aleatórias de “sugestões”. E menos ainda para  uma oferta  de “recompensa” em dinheiro para quem apresente a melhor proposta de simplificação. Não dá para acreditar que alguém leve essas propostas descabidas a sério. A ortografia resulta de uma longa construção histórica. É um trabalho de cuidadosa ourivesaria. Qualquer ajuste tem de ser muito bem pensado e avaliado, inclusive tomando em conta as tradições ortográficas bem consolidadas. É, portanto, um assunto eminentemente técnico e altamente complexo.

Não por acaso foram necessários quase 70 anos de discussões para se chegar à unificação das bases da ortografia do português, discussões que sempre foram cuidadosamente conduzidas por sucessivas gerações dos mais qualificados filólogos e linguistas de língua portuguesa. Por outro lado, falar em “dificuldades impostas pelas mudanças ortográficas”é mostrar preocupante desconhecimento do teor do Acordo. As poucas mudanças podem ser aprendidas em não mais que 15 minutos. Dizer também que nenhum professor conhece as mudanças (como tenho ouvido e lido nesse período de audiências públicas) é subestimar demais a inteligência dos professores. Eu mesmo, entre 2008 e 2010, fui muitas vezes chamado para discutir as mudanças com os professores de Curitiba e do Paraná. Nunca encontrei um sequer que dissesse estar encontrando problemas para assimilar o Acordo. O mesmo se deu com editores, revisores e jornalistas com quem trabalhei na época. Por isso, gostaria muito de ter acesso a estes propalados “milhares de e-mails” que teriam chegado ao Senado.

TN – Como já é suficientemente sabido, o professor Ernani Pimentel, proprietário de curso preparatório para concursos públicos, tem uma proposta de mudança do sistema ortográfico do português. Segundo ele, a ortografia deve refletir a fala, ou seja, o sistema deve ser fonético, eliminando-se a informação etimológica das palavras. Segundo ele, esse sistema seria mais lógico do que o atual e, portanto, mais simples.   Qual é a sua opinião sobre essa proposta?

CF – Trata-se de uma proposta inerentemente inviável pelo simples fato de que a língua comporta muitas variações de pronúncia. A ortografia, para ser de fato funcional no espaço e no tempo, não pode jamais refletir com precisão a fala de cada um; deve, ao contrário, pairar a uma certa distância das variações de pronúncia. A ortografia estabelece uma relação abstrata com a língua e nunca com a fala. Além disso, há todo um processo histórico que vai fixando tradições ortográficas. Alterá-las radicalmente em qualquer direção será sempre desastroso econômica, cultural e cognitivamente.  O próprio falante, como demonstram os estudos de psicologia cognitiva, opera com um léxico mental ortográfico que é não apenas fônico, mas também visual. Há nessas propostas uma certa ingenuidade conceitual. Por isso, elas têm sido sistematicamente rejeitadas na história da nossa ortografia e são uma ideia completamente abandonada desde o século 19. Os proponentes parecem fazer parte do time dos “reformadores da Natureza”, tão bem representados ficcionalmente por Monteiro Lobato com o personagem Américo Pisca-Pisca.

TN – Em recente audiência pública no Senado, da qual tive a oportunidade de participar, o professor Pimentel expôs a sua proposta, que, entretanto, não obteve a acolhida dos estudiosos presentes. A única manifestação de apoio foi feita pelo senador Fleury (DEM-GO), que disse ser professor de matemática.  Embora a proposta tenha sido criticada por quase todos os membros da mesa (à exceção do prof. Pasquale Cipro Neto e do professor Carlos André, de Goiás), o senhor Pimentel é o coordenador do grupo de trabalho técnico da Comissão de Educação, sendo inclusive, ao lado do prof. Pasquale, representante do Senado brasileiro em missões internacionais. Na sua opinião, ao ser representado no exterior apenas por  críticos do Acordo, ignorando as vozes que hoje acreditam na importância de implantá-lo definitivamente, o Senado passa a imagem de que os brasileiros se posicionam contrariamente ao Acordo Ortográfico?  É adequado que o senhor Pimentel  apresente a sua proposta de simplificação ortográfica nos países da CPLP na condição de representante do Senado brasileiro?

CF – Ainda bem que a proposta não obteve acolhida. Aliás, ela tem sido sistematicamente criticada e condenada com ótimos argumentos por vários artigos e editoriais publicados na imprensa nacional nos últimos  meses. Era o que se podia mesmo esperar. Encampar as propostas do sr. Pimentel seria não só um descalabro (pela absoluta falta de fundamentos técnicos), como seria um gesto de lesa-cultura, como procurei mostrar em um artigo publicado no jornal Gazeta do Povo com o título Vandalismo Ortográfico.

De qualquer forma, toda essa movimentação da Comissão de Educação do Senado é muito estranha. Até hoje não consegui captar os objetivos de “debater” o Acordo Ortográfico. Ele foi devidamente ratificado pelo Congresso Nacional em 1995 e novamente em 2004 (os Protocolos Modificativos). Foi incorporado à ordem jurídica interna por decreto presidencial de setembro de 2008. Entrou em vigor em 01/01/2009 e foi em pouquíssimo tempo adotado (e sem grandes percalços) pela imprensa, pelas editoras, pelo sistema escolar e por todas as esferas da administração pública. É hoje de uso universal no espaço público brasileiro. O que há ainda a “debater”?

É espantoso antes de qualquer coisa ouvir e ler as declarações de senadores da CE. Elas revelam grande desinformação sobre a matéria, o que é, sem dúvida, muito preocupante. Além disso, parece que a CE do Senado está um tanto alienada da sociedade (que – repito – já adotou universalmente o Acordo) e, pelo viés muito restrito com que vem abordando o assunto, tem superdimensionado questões que são menores. Mais espantoso ainda é a CE ter dado espaço quase exclusivamente a duas pessoas que fazem críticas (nem todas fundamentadas, diga-se de passagem) ao Acordo.  Há claros indícios de um encaminhamento tendencioso do debate, o que o desqualifica de saída. Nunca, nas audiências que promoveu, a CE chamou membros da Comissão que assessorou o governo no processo de implantação do Acordo em 2008; nunca chamou a Associação Brasileira de Linguística (que precisou tomar a iniciativa de ir lá entregar um documento com razões contrárias às propostas de mexer na ortografia e protocolar um pedido para ter um representante seu nas audiências); nunca chamou ninguém do mundo editorial nem da Universidade.

A CE parece também desconhecer a presença oficial do Brasil no Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), fórum da CPLP responsável pela discussão e encaminhamento de questões da língua que são do interesse do conjunto dos países de língua oficial portuguesa, inclusive a ortografia. Isso apesar de eu, em junho passado, ter entregado pessoalmente ao senador Cristovam Buarque (que é membro da CE) um documento da Comissão Nacional do IILP sobre a situação atual do Acordo e ter deixado com o secretário da CE cópia do mesmo documento. Diante desse panorama de desinformação, alienação e exclusão, só podemos esperar um grande desserviço ao país, à nossa cultura linguística e à causa da língua. Ao constituir um grupo de trabalho apenas com dois críticos do Acordo, a CE vira as costas para a sociedade; desqualifica a opinião majoritária (que se manifesta – insisto – na adoção universal do Acordo pela sociedade); marginaliza os especialistas e passa a falsa impressão de que o Brasil está se posicionando contra o  Acordo, como aconteceu quando da desastrada decisão da presidente Dilma de prorrogar por mais três anos a vigência definitiva do Acordo a pedido da CE do Senado. E ainda mais grave é esse grupo aleatoriamente constituído, sem qualquer representatividade acadêmica ou política, receber mandado da CE para, em seu nome, realizar “missões” internacionais. Acho que o mínimo que se espera é que a sociedade seja informada sobre quais os critérios usados para a designação dos dois, quais os objetivos dessas “missões”, os custos e os resultados.

O Sr. Pimentel pode, é claro, apresentar suas ideias onde bem quiser. Teve, inclusive, espaço para tanto na I Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Global, promovida pela CPLP em Brasília em março de 2010. Apresentou suas ideias, que, obviamente, não tiveram qualquer acolhida das delegações presentes, o que mostra bem a irrealizabilidade do projeto do ponto de vista diplomático. O que me parece totalmente sem propósito é o Senado Federal custear “missões” internacionais e permitir que se fale em seu nome para fazer proselitismo de uma proposta de alteração radical da ortografia, dando a impressão de que ela já está encampada por aquele órgão legislativo. Desmoraliza o Senado e desmoraliza o Brasil.

TN – Na última audiência pública acerca do tema, o professor Carlos André Pereira Nunes, proprietário do Instituto Carlos André, em Goiânia, demonstrou, por meio de questões de concursos públicos, que o sistema de hifenização do prefixo “pré-” é problemático. Ele apresentou questões de exames que exigiam dos candidatos saber a grafia correta de “prequestionar”/ “pré-questionar” e de pré-embrião/ preembrião. Segundo ele, pessoas perdem uma vaga de emprego porque a sistematização do hífen com os prefixos pré/pre é imprecisa. O problema mais grave é o do hífen com esses prefixos ou o das bancas que elaboram questões de concursos públicos?

CF – É óbvio que o problema está nas bancas que elaboram as questões. Há, em geral, uma concepção muito rastaquera do que é testar o domínio de língua dos candidatos. As questões costumam focar picuinhas de ortografia e gramática, deixando de avaliar o efetivo domínio das competências linguísticas que realmente interessam – a leitura compreensiva de textos de mediana complexidade, a escrita de um texto razoavelmente complexo e uma reflexão inteligente sobre as estruturas e os usos sociais da língua. Essas competências indicam efetivamente o nível de maturidade linguística dos candidatos. Eis aí um tema que a Comissão de Educação do Senado poderia debater com mais propriedade e relevância.      

TN –  O prefixo “pré” dominou boa parte da segunda audiência sobre o Acordo, embora esse item não tenha sido objeto de modificação. Houve queixas sobre a suposta incoerência das grafias preembrião/ pré-embrião e pré-embrionário (esta não é registrada com grafia dupla no VOLP); também se questionou o motivo de “prequestionar” ter o prefixo átono e “pré-qualificar” ter o prefixo tônico, segundo o VOLP. O pressuposto nesse caso era a semelhança das duas palavras baseada na letra “q” inicial do termo subsequente ao prefixo em ambas, o que deveria levá-las a um comportamento gráfico/ fonético semelhante. Pergunto se o raciocínio é necessariamente esse (o da letra inicial da palavra) ou se outros fatores, como tonicidade e sufixação podem intervir na pronúncia e, consequentemente, na grafia.

CF – Antes de mais nada, vamos conversar um pouco sobre o hífen nos compostos. Este foi, aliás, o único tópico identificado como problemático nas audiências da CE do Senado. Falou-se dele como se tivesse sido criado pelo AO de 1990 (o que não corresponde aos fatos) e se tentou justificar com ele a proposta de se “mexer” no Acordo (se a premissa é falsa, falsa é a conclusão, certo?). Com perdão da palavra, me pareceu que a montanha pariu um ratinho. Ou, como diz o título da peça de Shakespeare, “Muito barulho por nada”.

O hífen nos compostos é uma área ainda em adensamento na nossa ortografia. Desde o século 18, tenta-se uma razoável regulação de seu uso. Reconheça-se que o AO melhorou muito a questão. Basta compará-lo ao Formulário Ortográfico de 1943. Devíamos acabar com o hífen? Esta foi uma proposta que se fez em 1986, mas provocou uma forte reação negativa. Simplesmente aglutinar todos os prefixos às bases provocou um profundo estranhamento. Feriu os olhos e o léxico mental ortográfico dos falantes (que é eminentemente visual). Na sequência dos debates, trabalhou-se, então, no sentido de diminuir o uso do hífen nos compostos e formular algumas regras gerais. E isso foi alcançado no texto de 1990. Persistem problemas? Claro que sim. Mas esses problemas justificam a crítica que se fez nas audiências ao Acordo? Claro que não. Sem mexer no texto, esses problemas podem ser muito bem encaminhados. Basta interpretar tecnicamente o texto do AO, tendo o “espírito do legislador” como baliza. E o que diz o “espírito do legislador”? Diminuir o uso do hífen em compostos e formular princípios gerais. O resto é discussão bizantina.

A Equipe Central do VOC fez uma brilhante leitura do texto do Acordo e, sem alterá-lo em nada, condensou as regras de uso hífen nos compostos em 4 grandes coordenadas. Muitas vezes, quando nos apegamos excessivamente às árvores, não conseguimos enxergar a floresta e não percebemos que a solução  ovo de Colombo está na nossa frente.

Quanto ao caso específico dos prefixos pre- e pré-, é importante deixar claro que eles não são o mesmo prefixo, nem variantes, sem mais. São dois prefixos diferentes que por vezes têm o mesmo sentido mas que nem estão em distribuição complementar nem são sempre substituíveis um pelo outro. E elementos diferentes devem ser tratados diferentemente.  Dizer isso é importante para afastar a ideia de que os prefixos e as palavras cognatas em que são empregados possam ser tomadas como variantes ortográficas. Para dar um exemplo muito claro: preencher e pré-encher não são a mesma coisa. Acho que a explicação cabal de que isto não é um caso de dupla grafia fecha a questão. Mas vamos à análise de cada um dos prefixos, a ver se há mais argumentos. Em termos puramente ortográficos, pre- é um antepositivo átono, monossilábico, que como tal sempre se aglutinou ao elemento a que se associa; pré- é tônico e, por isso, acentuado graficamente, pelo que sempre se separou por hífen da base. A regra é simplérrima e qualquer aluno a conhece: se um prefixo tem acento gráfico, tem que ser separado da base por hífen. Em português não há palavras sobre-esdrúxulas, isto é, com acento antes da antepenúltima sílaba, logo, tem que ser usado o hífen com prefixos acentuados como pré-. Nada mudou com o Acordo no que diz respeito à sua escrita e não é necessário saber mais nada para saber como usar o hífen nesses dois casos.

Vamos, porém, a uma análise linguística mais profunda para explicar o que confundiu alguns debatedores nas sessões da CE do Senado. Sendo esses dois prefixos muito produtivos, os dicionários e vocabulários não registram todas as formas possíveis, como não o fazem para ex- ou anti-. Os critérios de inclusão (e.g., atestação num cânone ou num corpus específico) e de identidade lexical (e.g., não inclusão de formas com antepositivos hifenizados) de diferentes dicionários do português ditaram que na tradição lexicográfica não houvesse sistematicidade no registro de todas as formas com pre- e com pré-. Os instrumentos ortográficos são por natureza não extensivos, sendo meras projeções exemplificativas dos processos de definição por intensão das normas. Nada no que diz o VOLP impede os escreventes de usarem as formas que entenderem com pre- e com pré-, caso o queiram fazer. O VOLP não registra as palavras antitorturapraticamente, ex-presidente, iluminada ou beijoquice. Nada, porém, nos impede de as usar ou nos obriga a substituir por outras que ali estejam atestadas. Quanto à distribuição, é natural que pre-, sendo átono, tenha um comportamento clítico, formando uma única palavra prosódica com a base, ao passo que pré-, tendo acento próprio, tenha tendência para incorporar complexos prosódicos, sobretudo quando a base tem mais material fonético, sendo assento para um acento secundário. Além disto, a tendência, parece-me, será, com a frequência e habitualidade, de crescente preferência para o pre-, com a gradual perda de noção de composicionalidade semântica (quantos tomaremos ainda preencher por pré+encher?), sendo pré- preferido  para formações ocasionais e pre- tendencialmente usado em palavras em que sincronicamente não há noção da derivação. Tudo isto além, é claro, dos imprevisíveis processos de analogia que acompanham essa perda de noção de composicionalidades e que gerarão naturalmente assistematicidades.

Nada justifica o tipo de crítica que se faz, salvo uma visão erroneamente simplificadora daquilo que é complexo. A língua (e sua “subsidiária”, a ortografia) não pode, por sua própria natureza, ser reduzida a códigos de precisão matemática nem seriam propostas como esta agora feita ao Senado que permitiriam tal coisa. O uso é dinâmico e, como a história mostra claramente, produz tanto sistematicidades como assistematicidades. Uma faixa de indefinição ou instabilidade não constitui, por isso, problema. Ao contrário, mostra apenas que a prática e o senso linguístico dos falantes está em funcionamento. Isso nada tem que ver com regras de ortografia. O tempo vai indicando o rumo da estabilização. Em matéria de língua e ortografia, é preciso qualificar o debate, retirando-o do palpitismo.

 

TN –  O senhor pode explicar a situação de Portugal e dos demais países da CPLP em relação à implantação do Acordo? Portugal continua opondo resistência à unificação gráfica? Algum país ainda não ratificou o Acordo?

CF – Por desinformação, criou-se aqui no Brasil um mito de que Portugal continua se opondo à unificação das bases ortográficas. Confundem-se opiniões individuais publicadas, algumas até bem virulentas, com o real posicionamento daquele país. O que temos de fato é o seguinte: Portugal foi o primeiro país a ratificar o Acordo já em 1991, mostrando claramente seu comprometimento político com o fim da dualidade de ortografias oficiais. Depois, ratificou os Protocolos Modificativos em 2008. Pela Resolução 8/2011, o Conselho de Ministros deu início à implantação do Acordo naquele país a partir de 01/01/2012 em todas as esferas da administração pública e no sistema educativo a partir do ano letivo de 2011-2012. A mesma Resolução reiterava que, pelo Aviso 255/2010, o Acordo já se encontrava em vigor na ordem jurídica interna desde 13/05/2009 com carência de 6 anos para sua entrada definitiva em vigor, o que vai ocorrer, portanto, em 13/05/2015, sete meses e meio antes de sua vigência definitiva no Brasil.

O AO é neste momento aplicado plenamente por todos os serviços do Estado português. Vem sendo gradualmente aplicado em todos os níveis de ensino há mais de três anos, com o apoio explícito da Associação de Professores de Português e das associações de pais e sem que se notem particulares problemas da parte dos professores. No presente ano letivo, passou a ser aplicado obrigatoriamente nas últimas disciplinas (Português e Matemática de 9º ano), sendo também exigido como única grafia válida em todos os exames. O AO é aplicado em Portugal por todas as grandes redes televisivas e pela quase totalidade dos canais por cabo. O AO é há anos aplicado por todos os operadores de telecomunicações (MEO, ZON, Vodafone), por mais de 90% do mercado editorial (grupos Leya e Porto Editora, entre outros), por 9 dos 10 jornais mais vendidos (a exceção entre os mais vendidos é o jornal Público, de Lisboa, o nono mais vendido), pela quase totalidade das maiores empresas (bancos, todas as empresas de eletricidade e energia, etc.), além, é claro, das universidades e dos organismos dependentes do Governo e da própria Assembleia da República (a exceção é a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que não determinou ainda a obrigatoriedade definitiva do AO, permitindo as duas grafias), bem como todos os partidos com representação parlamentar (o último foi o Partido Comunista) e pela própria Assembleia da República, pelo Governo e pela União Europeia (há anos).

O desenvolvimento dos instrumentos de aplicação do AO em Portugal (VOP e Lince) incluiu especialistas de seis instituições muito representativas: Academia das Ciências de Lisboa, Universidade de Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, Universidade do Minho, Direção Geral de Tradução da União Europeia, ILTEC (Instituto de Linguística Teórica e Computacional). É preciso também destacar que tanto o Poder Legislativo como o Judiciário têm sistematicamente recusado iniciativas que solicitam que o país se desvincule do Acordo. A implantação do Acordo em Portugal, portanto, é já quase universal e o ciclo se encerra em maio de 2015.

Os demais países vêm progressivamente implantando o Acordo desde 2009. A situação está ainda indefinida em Angola e Moçambique. Neste, o Conselho de Ministros encaminhou recomendação ao Parlamento em 2012 para que ratificasse o Acordo. De qualquer forma, Moçambique já organizou, com base no Acordo, seu Vocabulário Ortográfico Nacional, concluído em maio último e já incorporado ao Vocabulário Ortográfico Comum. Isso claramente sinaliza que o país está se encaminhando para ratificar e implantar o Acordo.

O Parlamento de Angola ainda não ratificou o Acordo. No entanto, o governo daquele país foi o que deu até agora a maior contribuição financeira para a execução do VOC (Vocabulário Ortográfico Comum), o que também sinaliza o compromisso do país com o Acordo. Além disso, vem trabalhando na elaboração de seu Vocabulário Ortográfico Nacional a ser incorporado ao VOC. Tanto em Moçambique quanto em Angola se defendeu que o VOC era pré-requisito para a implantação do Acordo. Essa atitude é plenamente compreensível, considerando que nenhum deles dispunha de um Vocabulário Ortográfico Nacional. Mais ainda: o português nestes dois países incorpora continuamente muitas palavras das línguas bantu e é preciso estabelecer as bases para a incorporação ortográfica desses empréstimos. Os especialistas em linguística bantu daqueles países vêm pesquisando as melhores soluções para isso, o que, obviamente, toma tempo, mas, de novo, sinaliza o compromisso com o Acordo. Os pesquisadores de Moçambique, por exemplo, já consolidaram essas bases, em discussões entre especialistas nos últimos anos na Universidade Eduardo Mondlane, e as aplicaram na elaboração de seu Vocabulário Ortográfico Nacional.

 

TN –  Na audiência, em Brasília, afirmou-se que o Acordo foi feito pela Academia de Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras, cada uma dessas instituições possuindo apenas um especialista em lexicografia. Foi assim mesmo?

Sempre me espanta a desinformação em qualquer debate, assim como sempre me assusta a tentativa de esconder a história ou de reescrevê-la. O Acordo, como disse antes, foi precedido de quase 70 anos de debates. Nessas décadas, muitos linguistas e filólogos de ambas as academias, portuguesa e brasileira, se debruçaram sobre o assunto, bem como especialistas que não estavam afetos a cada academia, mas eram, sim, professores universitários de Linguística e Filologia (houve conferências e discussão pública em 1931, 1943-1945, 1967, 1975 e antes e depois de 1986 já agora incorporando especialistas dos outros países de língua oficial portuguesa). Houve, pois, inúmeras ocasiões para discutir o Acordo em âmbito técnico. Nessas ocasiões, a unificação das bases da ortografia foi sempre pensada em termos de grandes caminhos, sendo pesadas as diferentes opções técnicas gerais possíveis para obter o máximo de harmonização e aceitação política e social.

Nunca me lembro de ler a opinião de algum técnico envolvido nestas discussões defendendo uma reforma profunda à nossa grafia, de tão desavisado que tal seria. Por outro lado, não há nenhum motivo para desqualificar as duas Academias. Podemos, obviamente, discutir criticamente soluções que encaminharam aqui ou ali e os instrumentos que elaboram (isso faz parte do jogo), mas não podemos negar que elas construíram uma longa tradição lexicográfica que é, indiscutivelmente, um patrimônio da cultura de língua portuguesa e tem constituído o ponto de partida e referência para garantir a estabilidade da ortografia. E fizeram isso não só com a contribuição de seus membros, mas constituíram grupos permanentes de pesquisas na área – a Comissão de Lexicografia e Lexicologia da ABL e o Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa da ACL. Ambas as Academias sempre souberam também solicitar a contribuição de especialistas das Universidades.

Nada se fez ex-nihilo,como parecem sugerir algumas intervenções nas audiências na Comissão de Educação do Senado, e o objetivo sempre foi o de conseguir a unificação das regras de ortografia entre os países, objetivo que estamos quase a atingir neste momento, ao fim de quase um século  de discussão e negociação.

TN –  O PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) já adotou as mudanças? Novas alterações a esta altura acarretariam prejuízo ao erário? Qual é a posição do mercado editorial sobre isso?

CF – Sim, o PNLD adotou a ortografia do Acordo já a partir de 2010. A Comissão que assessorou o governo federal no processo de implantação do Acordo em 2008 (da qual fiz parte) teve este cuidado: propôs que o prazo para a vigência definitiva do Acordo levasse em conta o cronograma do PNLD. Trata-se, como sabemos, do maior programa editorial do Brasil, que envolve altíssimo investimento de dinheiro público. Qualquer nova alteração traria enormes prejuízos ao erário. Mas também traria enormes prejuízos às editoras brasileiras (todas vêm adotando a ortografia do Acordo nas reedições e novas edições desde 2009) e à imprensa (que adotou o Acordo no seu primeiro dia de vigência em janeiro de 2009).

Quando ouço e leio que há gente defendendo novas (e até radicais) mudanças, me pergunto se a intenção de fundo não é quebrar o parque editorial brasileiro. Os editores são contrários a qualquer nova mudança. Uma primeira manifestação nesse sentido foi feita oficialmente pela ABEU – Associação Brasileira de Editoras Universitárias. Seu documento, muito bem fundamentado, foi enviado à Comissão de Educação do Senado. A informação que tenho é que a Câmara Brasileira do Livro está também acompanhando de perto o assunto para eventuais medidas contra novas mudanças. A CBL, aliás, promoveu, na última Bienal do Livro em São Paulo, uma mesa-redonda na qual se debateram essas questões.

TN – O senhor pode explicar o que será o VOC (Vocabulário Ortográfico Comum)? Já há um prazo para a sua publicação? O VOC estabelecerá nomenclatura científica, topônimos e grafia de estrangeirismos?

O VOC é um instrumento previsto no texto do Acordo de 1990. É um instrumento necessário para servir de referência geral da ortografia resultante da unificação das bases ortográficas. É um vocabulário ortográfico não apenas nacional – como até 1990 – mas um instrumento geral consolidador da ortografia definida pelo AO com a representação das formas gráficas do vocabulário comum corrente em todos os países de língua oficial portuguesa. Como o VOC agrega os Vocabulários Nacionais de cada país, ele registra também palavras correntes em apenas um ou em alguns dos países. É possível, então, uma consulta geral obtendo os espaços de que é característica cada forma e suas eventuais variantes, quando existam, assim como é possível uma consulta específica, na medida em que cada Vocabulário Nacional mantém sua integral autonomia no interior do VOC. Sendo um vocabulário que registra todas as variedades nacionais do português, o VOC será um instrumento imprescindível de normalização ortográfica e poderá servir, no futuro, de base para um grande dicionário geral da língua.

O VOLP-Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL não é um instrumento de referência geral porque apenas adaptou a antiga ortografia brasileira ao AO, abrange apenas o vocabulário corrente no Brasil e não deu representação às formas facultativas. O VOP-Vocabulário Ortográfico Português registra formas facultativas, mas, por ser um vocabulário basicamente português, não serve de referência geral do vocabulário comum. O VOC é, então, o instrumento que consolida a ortografia prevista no AO e abrange todos os países de língua oficial portuguesa. É uma base de dados lexicais eletrônica, de grande escala e aberta, que vem atender a necessidade da implementação da ortografia prevista no AO, bem como instaurar uma nova metodologia de trabalho conjunto dos países da CPLP na área do léxico da língua.

TN – O senhor poderia explicar como essa nova metodologia de trabalho torna possível, numa perspectiva de presente e de futuro, manter a unificação da ortografia nos países de língua oficial portuguesa?

A metodologia foi desenvolvida segundo o padrão tecnológico mais avançado existente na área. Essa base tecnológica de ponta permite: (a) ampliar as informações disponíveis sobre cada item lexical, quais sejam, o paradigma flexional, a divisão em sílabas e a marcação da sílaba tônica; (b) permite o reaproveitamento para ferramentas de processamento da linguagem natural (como os corretores ortográficos) e para pesquisas científicas; (c) facilita as consultas dos especialistas e do público em geral; e  (d) deixa pronta a via para futuras atualizações.

A sua elaboração tem também outro efeito importante, qual seja, a consolidação de critérios mais objetivos para resolver contextos ortográficos tradicionalmente problemáticos, como as regras de hifenização e a adaptação de palavras importadas de outras línguas. Há, portanto, toda uma dimensão generalizadora no VOC que pautará sua atualização futura e a gestão conjunta da ortografia do português. O VOC foi apresentado na  X Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP, realizada em Díli (Timor-Leste) em 23 de julho de 2014. Na Declaração Final dessa Cimeira, os Chefes de Estado e de Governo incluíram o VOC no patrimônio da CPLP, reconhecendo e recomendando seu desenvolvimento. A elaboração do VOC foi atribuída ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa pelo Plano de Ação de Brasília saído da I Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, realizada pela CPLP em Brasília em março de 2010. O IILP procurou o centro mais avançado no espaço da língua portuguesa em pesquisas lexicográficas na área do processamento de língua natural, identificando-o no ILTEC-Instituto de Linguística Teórica e Computacional, que está hoje integrado à Universidade de Coimbra. Assinou, então, um acordo de cooperação técnica com esse Instituto pelo qual o ILTEC assumiu a planificação e execução técnica do VOC, aproveitando sua experiência no desenvolvimento de várias ferramentas ortográficas, em especial o  VOP – Vocabulário Ortográfico Português, que foi adotado como referência oficial na aplicação do AO em Portugal pelo Conselho de Ministros em 2011.

O IILP fez também gestões junto ao governo português e à Academia Brasileira de Letras para obter a cessão das bases do VOP e do VOLP, respectivamente, para serem integradas ao VOC como o VON-Portugal (Vocabulário Ortográfico Nacional de Portugal) e o VON-Brasil (Vocabulário Ortográfico Nacional do Brasil). Ambas as gestões foram exitosas, o que garantiu um excelente ponto de partida para a elaboração do VOC, que agrega, pela primeira vez na história, as bases ortográficas portuguesas e brasileiras num único instrumento de referência, o que é uma grande vitória.

A esses Vocabulários se somaram, posteriormente, o Léxico do NILC -Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional da USP/ São Carlos e da Univ. Federal de São Carlos (que serve de base aos corretores ortográficos que operam acoplados ao processador de textos Microsoft Word no Brasil), o Vocabulário Atualizado da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa e o Corpus Brasileiro da PUC/SP. O IILP realizou uma reunião técnica internacional sobre o VOC em setembro de 2011, na cidade da Praia, Cabo Verde. Nessa reunião foram definidos, entre outros, os procedimentos para a elaboração de Vocabulários Ortográficos Nacionais dos países que ainda não dispunham de um. Ficou também estabelecida a constituição de um Corpo Internacional de Consultores com especialistas de cada país da CPLP para atuar junto à Equipe Central do VOC, analisando tecnicamente os critérios propostos por ela para chegar a um consenso interpretativo e contornar, quando necessário, eventuais omissões e ambiguidades do texto do AO.

Os trabalhos se desenvolveram a contento e uma primeira versão do VOC, incluindo o Vocabulário Nacional de quatro dos oito países de língua oficial portuguesa (Brasil, Moçambique, Portugal e Timor-Leste) foi apresentada em Lisboa na II Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, em outubro de 2013, sendo reconhecido oficialmente, já com a entrega para incorporação posterior do VON de Cabo Verde, na X Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP. O VON de São Tomé e Príncipe está em fase de validação e está previsto para dezembro próximo o lançamento oficial dessa grande base lexicográfica com pelo menos quatro países representados. Posteriormente, serão incorporados também os Vocabulários de Angola e Guiné-Bissau.

Os resultados alcançados até agora pelo projeto do VOC devem, sem dúvida, ser amplamente comemorados, considerando que representam significativos avanços na lexicografia do português e para uma real aproximação em sua normalização, já não apenas no plano político e legal, materializado no AO de 1990, mas também na efetiva aplicação técnica comum das normas dele resultantes. A questão terminológica fica para um outro momento, mas tem no VOC boas bases. No Plano de Ação de Brasília há uma diretriz sobre um futuro projeto de normalização terminológica. Será um projeto ambicioso, considerando a magnitude do problema terminológico em língua portuguesa que decorre do fato de essa questão nunca ter sido levada técnica e sistematicamente à frente, o que estimulou e continua a estimular indesejável divergência terminológica.  Essa situação só será enfrentada e resolvida adequadamente com a organização e publicação de glossários em que os termos técnicos apareçam definidos com precisão e haja, pelas equipes de especialistas, ou a opção por um dos termos divergentes ou o estabelecimento de equivalências entre termos diferentes já consolidados. E essas tarefas todas não se fazem apenas por meio de um vocabulário ortográfico. Essa diretriz foi incorporada ao Plano Estratégico de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior da CPLP para o período 2014-2020, atribuindo-se ao IILP-Instituto Internacional da Língua Portuguesa a tarefa de coordenar o referido projeto, que já foi aprovado pelo Conselho Científico do Instituto em sua última reunião ordinária, em maio de 2014.

TN – Por tudo o que o senhor explicou, por todas as informações generosamente disponibilizadas a este blog, tenho muito a lhe agradecer – em nome também dos nossos leitores de fato interessados no tema. E, para terminar, gostaria que o senhor dissesse se acha que o AO pode ser chamado de “Desacordo Ortográfico”.

CF – É claro que não. O Acordo foi feito com o único objetivo de dissolver a dualidade de ortografias oficiais que constituía um embaraço à internacionalização e ao futuro da língua. Seu objetivo não era unificar a grafia de todas as palavras, mas as bases da ortografia, ou seja, reunir num único formulário com valor legal internacional as regras que configuram a ortografia. Por isso, admitiu formas facultativas em alguns poucos casos (e não, como alguns disseram exageradamente, uma multiplicação desordenada de formas facultativas). Eu diria que o Acordo de 1990, consolidando 70 anos de discussões, alcançou plenamente seu objetivo. Por isso, foi, é e será um grande sucesso.

 

 

 

Acordo Ortográfico é discutido no Senado

Por Thaís Nicoleti
06/11/14 20:02

Na primeira de duas recentes audiências públicas promovidas pela Comissão de Educação do Senado para a discussão do Acordo Ortográfico (21 e 22/10/14), estive ao lado do prof. Evanildo Bechara, que representou a Academia Brasileira de Letras,  do professor Antonio Martins de Araújo , presidente da Academia Brasileira de Filologia, e de Ernani Pimentel, professor de português e proprietário de um curso preparatório para concursos públicos em Brasília. portugues em dia

A mesa foi presidida pelo senador Cyro Miranda (PSDB-GO), presidente da Comissão. Na segunda audiência, presidida pela senadora Ana Amélia (PP- RS), vice-presidente da Comissão de Educação, estiveram à mesa o professor Evanildo Bechara,  a professora  Stella Maris Bortoni, da Abralin (Associação Brasileira de Linguística),  o professor Pasquale Cipro Neto e o professor Carlos André Pereira Nunes, advogado, professor de português e proprietário de um curso preparatório para concursos públicos em Goiânia.

ORTOGRAFIA FONÉTICA

O professor Pimentel,  que acredita na necessidade de  mudança do sistema ortográfico do português, apresentou sua proposta de ortografia fonética. Nenhum dos presentes demonstrou apoio a ela, à exceção do senador Fleury  (DEM-GO), que, da plateia, contou ser professor de matemática.

Como era esperado, o professor Evanildo Bechara e a professora Stella Maris Bortoni apresentaram argumentos  contrários a uma mudança radical, como a que preconiza o prof. Pimentel. De minha parte, procurei demonstrar que a adaptação ao Acordo vem ocorrendo de maneira tranquila entre os profissionais da imprensa e que as dificuldades que se apresentam exigem de nós, professores, sair do “piloto automático” e buscar novas formas de explicar. Assumi um ponto de vista inverso ao do professor Pimentel. Para ele, é preciso simplificar a ortografia para que o professor consiga ensiná-la. No meu entender, precisamos melhorar as nossas aulas – e isso quer dizer mudar o enfoque do ensino de língua.

O suposto argumento de que uma ortografia calcada na fonética é mais lógica e, portanto, mais fácil de apreender e menos custosa, inclusive do ponto de vista financeiro, peca por ser simplista. É simplista por pressupor que o problema da alfabetização se resolva com o ensino do bê-á-bá em alguma cartilha. É simplista por menosprezar a dimensão do problema, ao supervalorizar a capacidade de decodificação de letras sem se importar com o processo de letramento. Como lidar com o analfabetismo funcional? Esse é o verdadeiro desafio.

Minha apresentação no Senado foi centrada nos aspectos técnicos, o que, a meu ver, mostraria que, embora a adaptação não se dê da noite para o dia, o processo em curso está bastante avançado no Brasil entre aqueles que trabalham com a língua escrita. Os livros que vêm sendo editados de 2009 para cá, como sabemos, já têm a grafia adaptada às novas regras. Onde estão os “absurdos” e incoerências perpetrados pelo Acordo Ortográfico? Quais são as mudanças incompreensíveis, que teriam motivado os milhares de e-mails que a Comissão de Educação do Senado disse ter recebido?

IMPRENSA

Procurei mostrar o papel da imprensa nesse processo –e falei pela Folha de S. Paulo, onde atuo como consultora de língua portuguesa desde 1999 – chamando a atenção para o fato de que, desde o primeiro dia da implantação do Acordo, o jornal produziu todo o seu conteúdo em consonância  com as novas regras. Para que isso fosse possível, desde novembro de  2008, treinei as equipes da Folha e do UOL, inclusive as das sucursais (Brasília, Rio de Janeiro e Ribeirão Preto). O  jornal publicou na Primeira Página de 1º de janeiro de 2009 um resumo das principais mudanças e, ao longo do processo, abriu espaço para esclarecimento de dúvidas e para discussões sobre o tema, inclusive para as críticas feitas ao Acordo.

Num primeiro momento, muitos professores foram críticos ao Acordo, ou por não verem nele muita utilidade como instrumento de estímulo ao intercâmbio cultural entre os países lusófonos ou por saber que as diferenças da língua nos vários países em que ela é falada jamais seriam eliminadas.

FILIGRANAS

Essa questão, no entanto, foi superada. Venceu a ideia de unificar a ortografia e, assim,  promover a língua portuguesa e a união dos países em que ela  é o idioma oficial. O gesto político de unificação é positivo e, de resto, as mudanças são poucas e simplificadoras. Contestações a esse processo com base em filigranas que podem ser corrigidas em errata ou nova edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa parecem um exagero. Há quem tenha tentado desmerecer o Acordo procurando no seu texto erros de digitação ou questionando o uso da vírgula antes da abreviatura “etc.”.

CONCURSO PÚBLICO

O professor Carlos André centrou sua argumentação contrária ao Acordo nas questões de concursos públicos que cobram dos candidatos o uso do hífen com o prefixo “pré”.  Como bem lembrou, o emprego de muitas pessoas depende desse tipo de conhecimento, pois essas questões reprovam  candidatos que pleiteiam  uma vaga no funcionalismo por meio de concurso público. O problema desse argumento é que ele menos embasa uma crítica ao Acordo ou ao sistema ortográfico vigente do que põe em relevo o absurdo (este sim!) de tal tipo de pergunta ainda figurar numa prova de português para concurso público. Que tipo de competência linguística se pode aferir com perguntas desse tipo?

Questões desse teor, aliás, estimulam uma visão de língua muito antiquada, para dizer o mínimo. Partem do pressuposto de que a língua tem uma fixidez que ela, de fato, não tem. Estimulam uma espécie de virtuosismo linguístico que confunde o conhecimento da língua com a suposta erudição de quem decora listas, seja de coletivos, seja de superlativos eruditos, cujo conhecimento seria muito mais valioso se proveniente da leitura comparativa de textos de diferentes épocas e de diferentes fontes, ou seja, inserido na realidade dinâmica da língua, não mergulhado em listas sem objetivo.

Os professores que são proprietários de cursos preparatórios para esse tipo de prova devem, de fato, enfrentar um grande problema, mas talvez pudessem usar seu empenho e energia numa campanha pela melhoria do nível das perguntas desses exames.

LEXICÓGRAFOS

Há quem questione as interpretações  dadas pela ABL a pontos não totalmente claros no texto do Acordo. Note-se que tais interpretações foram dadas por lexicógrafos, não por quaisquer pessoas sem conhecimento da história da ortografia.  As críticas partem , no entanto, de professores que não têm formação específica nessa área.

Vale lembrar que há uma diferença entre Acordo Ortográfico e reforma ortográfica. A diferença está no objetivo e na dimensão de cada um. O intuito do Acordo era unificar divergências ortográficas que havia entre  o Brasil e Portugal, portanto o texto partiu dessas diferenças. Nos países africanos e no Timor Leste, o português convive com outras línguas locais, donde haver mais diferenças ainda, porém vale ressaltar que esses países assinaram o Acordo expressando o desejo comum de ver a língua portuguesa como fator de união da comunidade lusófona. Ressalte-se ainda que está em andamento o VOC (Vocabulário Orográfico Comum), documento que reunirá os Vocabulários Ortográficos Nacionais de todos os países signatários do Acordo.

O SENADO

Não há dúvida de que o Senado seja foro legítimo para o debate sobre o Acordo Ortográfico e isso exatamente por ser o texto um acordo internacional, não uma reforma ortográfica de âmbito nacional. Posto isso, cabe lembrar que a proposta de mudança de sistema ortográfico, a que se tem dedicado o professor Ernani Pimentel, extrapola o âmbito do debate sobre o Acordo Ortográfico de 1990. O professor, no entanto, representa o Senado brasileiro em missões no exterior, aonde tem levado sua proposta de ortografia fonética.

Vale dizer que, obviamente, ele pode levar suas ideias a qualquer lugar, mas é preocupante que o faça  em nome do Senado brasileiro, pois, dessa forma, passa a impressão de que os brasileiros desejam esse tipo de mudança, coisa que nem de longe se pode afiançar, apesar da incontestável simpatia com que o professor defende a causa que abraçou e das ótimas relações que estabeleceu na Comissão de Educação do Senado, cujos membros não se cansam de enaltecer suas qualidades e as dos seus pares, num amistoso clima de confraria.

Embora não estivesse no escopo do debate, ressurgiu das trevas uma menção ao “livro que ensinava errado” (alusão ao livro “Por Uma Vida Melhor”), uma história que já imaginávamos devidamente esclarecida, mas que a senadora Ana Amélia lembrou, deixando claro que se posicionava contrariamente aos pressupostos pedagógicos da autora. Esse é outro capítulo, mas mostra o tipo de enfoque dado pela Comissão de Educação ao ensino de língua.

ACORDO ORTOGRÁFICO: PROBLEMAS

É verdade que restou uma pequena lista de exceções referentes ao uso do hífen que só se explica pela necessidade de respeitar os exemplos citados no texto oficial. As palavras cor-de-rosa, arco-da-velha, pé-de-meia, água-de-colônia e mais-que-perfeito lá ficaram registradas com hífen, enquanto termos que lhes são análogos perderam os hifens, segundo a interpretação da ABL. Minha sugestão foi que se eliminassem essas exceções, que só têm servido para dar munição à crítica ao Acordo e à sua implantação.

Não deixa o problema de ser uma filigrana, dado que são apenas cinco palavras pinçadas num léxico de mais de 300 mil.

O acento diferencial da forma verbal “para”, eliminado no Acordo, ainda deixa saudade em alguns professores, mas a seu favor esses mesmos professores só têm exemplos por eles mesmos criados, fora de contexto e, portanto, fora da realidade. Levei exemplos reais, extraídos de manchetes da Folha de S.Paulo, por meio dos quais se percebe que o contexto resolve as possíveis ambiguidades. Ainda assim, sugeri que esse acento pudesse ser facultativo, como o de “fôrma”, que, embora não se registre na lista de palavras do VOLP, pode ser usado para desfazer ambiguidades, ou o da forma verbal  “dêmos” (presente do subjuntivo), quando necessário fazer distinção de “demos” (pretérito perfeito do indicativo).

O professor Evanildo Bechara explicou, no entanto,  que somente o acento circunflexo permaneceu como diferencial no texto do Acordo (pôr, pôde, obrigatórios; fôrma e dêmos, facultativos),  o que inviabiliza essa ideia, já que fazer isso abriria a possibilidade de retorno dos demais diferenciais. Como se vê, o trabalho do lexicógrafo é minucioso e é preciso reconhecer que requer um conhecimento muito especializado.

"Não cabe mais ficar discutindo filigranas"; leia entrevista com prof. Dante Lucchesi

Por Thaís Nicoleti
21/10/14 18:58

No esforço de compreender e divulgar o debate que ora se trava no Senado sobre eventuais mudanças a fazer no Acordo Ortográfico 90,  vigente desde 2009, este blog tem aberto espaço a todos os interessados na discussão.

Assim é que estudiosos da língua têm sido convidados a expor suas ideias sobre o tema.portugues em pauta

Os leitores que vêm acompanhando esse trabalho hoje terão a oportunidade de conhecer um pouco do pensamento do linguista Dante Lucchesi, professor titular de língua portuguesa da Universidade Federal da Bahia.

Mestre em linguística portuguesa histórica pela Universidade de Lisboa e doutor em linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele é coordenador do projeto Vertentes do Português Popular do Estado da Bahia  e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq.

É também autor do livro Sistema, Mudança e Linguagem (Parábola Editorial, 2004), além de organizador e autor do volume O Português Afro-Brasileiro (EDUFBA, 2009).

Com atuação em diversas áreas de pesquisa (análise sociolinguística, história da linguística, contato entre línguas e história da língua portuguesa), Dante Lucchesi conversou com o blog sobre ortografia e muito mais. Segundo o professor, que considera esquizofrênicas as nossas gramáticas, está na hora de pôr em pauta uma discussão sobre a atualidade da norma-padrão no Brasil. Abaixo a entrevista:

 

Thaís Nicoleti - Prof. Dante Lucchesi, o Acordo Ortográfico de 1990 foi objeto de uma série de críticas por ocasião de sua implementação, em 2009. Alguns o criticavam por não verem necessidade de unificar a grafia do português nos países lusófonos, outros criticaram as mudanças em si. O senhor acha que as pessoas têm certa tendência a repudiar as mudanças? O professor Sírio Possenti, por exemplo, afirmou em entrevista ao blog que preferiria que a ortografia de 1943, com todos os acentos diferenciais, tivesse sido mantida, embora acrescente que, para ele, isso não faz diferença. 

Dante Lucchesi – A promoção do Acordo Ortográfico sempre esteve inserida em um movimento pelo estreitamento das relações culturais entre os países de língua oficial portuguesa (Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste) e pelo fortalecimento do português como língua internacional, o que considero muito positivo. Mas você tem razão. Qualquer mudança em relação à língua provoca muitas reações. A língua está presente em todos os momentos e em todos os planos de nossas vidas. A condição humana, de animal simbólico, está estreitamente vinculada à faculdade da linguagem. E as pessoas constroem sua identidade em grande medida pelo seu comportamento linguístico. Assim, qualquer mudança, mesmo que apenas na representação ortográfica da língua, provoca reações de toda ordem. Sim, porque a ortografia é apenas uma representação da língua, já que o princípio da língua é a oralidade. Mas, em uma sociedade com uma longa tradição letrada, como a nossa, a modalidade escrita da língua tem um peso enorme, daí o grande impacto de qualquer proposta de alteração no sistema ortográfico.

TN – O senhor afirmou, em texto publicado na Folha, que “a sociedade já havia acatado e assimilado o acordo”, acrescentando que “os livros didáticos, as editoras, a imprensa, todos já haviam adotado o novo sistema ortográfico”, e que, portanto, houve um erro de avaliação da presidente da República ao prorrogar o período de transição até janeiro de 2016. A presidente assinou um adiamento da entrada em vigor das mudanças ortográficas, pensando provavelmente em alinhar o Brasil aos demais países lusófonos no processo de implantação. Isso, porém, parece ter ensejado a discussão em torno do texto do Acordo e do Volp. O senhor acha que oportuno fazer essa discussão agora?

 

DL - Ao que parece, foram alguns questionamentos fomentados na Comissão de Educação do Senado que levaram os senadores a pressionar o governo federal pela prorrogação do período de transição. Creio que essa prorrogação criou um ambiente de incertezas e confusão que considero prejudicial. Reafirmo que a sociedade assimilou o Acordo. A Folha e todos os demais jornais do país são publicados dentro do sistema previsto no Acordo. Todos os livros didáticos, bem como todas as editoras comerciais e públicas, seguem o Acordo. Assim, creio que faltou ao Senado, que fez a pressão pela prorrogação, a sensibilidade democrática para acatar o sentimento predominante na sociedade. Na língua, as coisas funcionam assim: o que vale é o que é consagrado pelo uso, pois não existem, entre as formas linguísticas que vão surgindo no devir histórico, formas melhores ou formas piores; o que existe é uma seleção social, que vai consagrando determinadas formas em detrimento de suas variantes. É nessa variação linguística que a língua vai mudando ininterrupta e inexoravelmente. Toda língua viva está em permanente estado de mudança, e essa mudança ininterrupta não compromete seu funcionamento. Infelizmente, existe na sociedade um desconhecimento enorme sobre realidade da linguagem humana. Há muitos mitos e disparates que são repetidos e propagados como grandes verdades, tais como o mito de que a língua está se deteriorando com as inovações da linguagem corrente e que a variação linguística prejudica a comunicação entre as pessoas. Essa ignorância generalizada dá espaço para que muitos equívocos sejam cometidos. E o que é pior: faz com que a língua seja o terreno propício para toda sorte de preconceito e discriminação. O preconceito linguístico é hoje um dos grandes empecilhos para o desenvolvimento de uma cidadania fundada no respeito à diferença.

 

TN – Todas essas questões merecem discussão séria. No entanto, o que está na pauta da Comissão de Educação do Senado neste momento é a ortografia da língua. A proposta de mudança do sistema ortográfico de autoria do professor Ernani Pimentel virou tema de debate em razão de ser esse professor o coordenador do grupo de trabalho técnico criado pela Comissão de Educação do Senado. O senhor acha que uma proposta de ortografia fonética é realista? Poderia ser de fato discutida no bojo do debate sobre o Acordo Ortográfico?

 

DL -  A proposta é totalmente irrealista. Trata-se de um desses grandes equívocos que só prosperam em função do grande desconhecimento que existe na sociedade em relação à realidade da língua. Soluções mágicas como essa trazem muito mais prejuízos do que benefícios. O atual sistema ortográfico permite fazer distinções, como entre caçar e cassar, que constituem uma grande riqueza do idioma e se perderiam com essa pseudopanaceia ortográfica. Deve-se também ter em conta o imenso custo adaptativo e os enormes gastos com reimpressões que a implementação dessa danosa reforma ensejaria. Assim, os custos e prejuízos excedem em muito os alegados benefícios.

 

TN -   Segundo o prof. Ernani Pimentel afirma em seu site, “a simplificação ortográfica é o maior projeto de inclusão social”. Também diz que o seu movimento “visa a propor uma simplificação na ortografia para que todos a dominem e se libertem de dicionários e manuais na hora de escrever x/ch, j/g, s/z, s/ss/sc/x/xc”. O senhor acha que é importante “libertar-se dos dicionários” e que esse seria um caminho para a inclusão social?

 

DL - Claro que não! A consulta aos dicionários é fonte de conhecimento e deve ser sempre estimulada. O desenvolvimento intelectual requer muito esforço e é lamentável que se fiquem propagando sofismas demagógicos da facilitação e de que o aprendizado deva ter apenas uma dimensão lúdica. O que é preciso fazer é oferecer aos nossos alunos as condições adequadas para o aprendizado da variedade formal da língua, desenvolvendo a leitura e a produção de textos em todos os gêneros, pois o ensino da língua tem de ampliar a consciência do indivíduo para a diversidade e a heterogeneidade da língua, desconstruindo essa imagem artificialmente rígida e imutável do idioma. Há quase vinte anos, o MEC estabeleceu, com a publicação do documento dos Parâmetros Curriculares Nacionais, diretrizes muito profícuas para o ensino de língua portuguesa. Nessa visão mais ampla, realista e eficaz, a ortografia é um problema de somenos. Assim, essa proposta de reforma, além de imprópria, é dispensável. Na verdade, até o critério de eliminar as diferenças arbitrárias, como na representação dos sons [s] e [z], para facilitar o aprendizado, não é seguido coerentemente, pois a regra de uso do dígrafo “qu” é clara e geral (o som [k] é sempre representado por “qu” antes de “e” e “i”), e sua eliminação, como proposta nessa reforma, escrevendo-se qeijo em vez de queijo, não facilitaria em nada a vida dos aprendizes e usuários da língua.

 

TN – No Brasil, os nomes próprios parecem não estar subordinados às regras ortográficas (Mario sem acento, Antonio sem acento, Karla com k, Wanessa com w etc.) e as pessoas demonstram grande apego pela grafia do próprio nome tal qual se encontra nos registros. Isso, de alguma forma, indica haver uma relação forte das pessoas com a imagem da palavra? Pensando assim, até que ponto seria democrática ou inclusiva uma reforma que alterasse radicalmente a grafia das palavras?

 

DL – Você observou bem. Numa cultura letrada como a nossa, a imagem da palavra fixada pela ortografia tem uma importância muito grande no imaginário coletivo. Isso torna o sistema ortográfico parte do patrimônio cultural da sociedade. Há que se ter muita cautela e responsabilidade ao propor qualquer alteração nesse sistema. Por essa razão, todas as reformas ortográficas que se sucederam ao longo do século XX foram conservadoras e pontuais, como no caso do Acordo Ortográfico de 1990. É exatamente o que falta a essa proposta de mutilação da ortografia do senhor Ernani Pimentel. Vale lembrar também que propostas esdrúxulas de simplificação como essa têm surgido desde o século XIX, sem qualquer sucesso. Antes de ser inclusiva, é uma proposta muito autoritária, que só se coloca, volto a repetir, pela ignorância que existe em relação à verdadeira realidade do idioma. O universo linguístico é demasiadamente amplo e complexo. Quem conhece bem a lógica da língua respeita muito sua diversidade e complexidade. Assim como não se pode sair por aí reformando a natureza (e eu lembro aqui o magistral conto de Monteiro Lobato), não se pode sair por aí reformando a língua. Só os incautos e ignorantes acham que podem reformar radicalmente o idioma. A língua é patrimônio do povo que a fala, e é o povo, em sua sábia e tácita democracia linguística, que vai moldando a língua, no uso corrente. Mas se alguém que saísse por aí tentando reformar a natureza (acabando com todos os insetos, por exemplo) não seria levado a sério, os reformadores da língua, infelizmente, se levantam com ares de grande autoridade, graças à já referida ignorância linguística da sociedade.

 

TN -    O senhor acha possível conceber um sistema que elimine a distinção entre fala e escrita?

 

DL - Claro que não! É como se você quisesse eliminar a distinção entre a atmosfera e os oceanos. A fala e a escrita constituem duas realidades distintas da língua, cada uma com sua lógica e dinâmica próprias. A realidade primeva da língua é a oralidade. A escrita é um sucedâneo que surgiu com a civilização, para atender às necessidades que esse sistema mais complexo de relações sociais ensejava. O advento da escrita possibilitou um enorme progresso do conhecimento humano, impulsionando o desenvolvimento social. Com isso, a escrita alcançou, nas sociedades letradas, um estatuto de grande importância e reverência, tornando-se a medida para todos os julgamentos sobre a língua. Porém, não se pode sobrepor a realidade da escrita à realidade da língua falada. O espectro da variação linguística é muito mais amplo na fala do que na escrita, em função da realidade mais dinâmica e efêmera daquela em relação a esta. Esse predomínio ideológico da escrita sobre a fala é a base para essa visão estática e homogênea de língua, que considera todas as formas variantes, sobretudo, as formas da linguagem popular, como deterioradas ou inferiores, julgamento que não tem qualquer base científica e fomenta terríveis preconceitos. Ao contrário do que pensa o senso comum, não é a heterogeneidade, mas a homogeneidade que seria disfuncional, pois, se fosse um código rígido e inflexível, a língua não poderia funcionar plenamente, como funciona, tanto nas feiras livres, quanto nas sessões dos tribunais de justiça. Mas um pesado estigma se abate sobre estruturas da linguagem popular, como a falta de concordância nominal e verbal (e.g., “meus filho trabalha muito”), que têm uma correspondência evidente com o que ocorre em línguas de grande prestígio, como o inglês (“my sons work a lot”). Isso revela o caráter preconceituoso de tal julgamento. O mais grave é que o preconceito linguístico tem sido usado como um perverso mecanismo de legitimação da exclusão social em nosso país, como ficou evidente no lamentável episódio do livro de português do MEC, ocorrido em 2011. Pode-se entender, assim, a feroz resistência que os grupos mais conservadores da sociedade têm oposto à difusão do conhecimento científico da língua.

 

TN -    A origem das palavras é um dos aspectos do estudo da língua que mais atraem a atenção das pessoas. Monteiro Lobato já lançava mão de etimologia na Gramática da Emília, um livro infantil. Na sua opinião, ao ignorar a informação etimológica que a palavra carrega, substituindo-a pela transcrição fonética (aproximada) da pronúncia, estaremos ganhando ou perdendo?   

 

DL - Você também lembrou do Monteiro Lobato com muita propriedade. Com sua perenidade, a escrita tornou-se um poderoso mecanismo de transmissão e acúmulo do conhecimento, possibilitando, como já disse, um vertiginoso progresso social. A forma escrita da palavra se mantém, enquanto sua forma falada vai se alterando com tempo, o que torna a ortografia um registro da história da língua. O princípio etimológico, que mantém o “h”, em homem, harém e no prefixo hiper, preserva a história dessas palavras. Com a proposta do senhor Pimentel, tudo isso se perderia. Mas isso não é o mais grave. Essa proposta mutila de tal maneira o sistema ortográfico da língua, que as pessoas que dominam o sistema atual teriam de se realfabetizar para poder lidar com o novo sistema. E o pior ainda estaria por vir. As pessoas que viessem a ser alfabetizadas pelo sistema do senhor Pimentel teriam uma imensa dificuldade, ou seriam mesmo incapazes de ler qualquer texto escrito no sistema atual, criando uma terrível solução de continuidade na tradição escrita da língua, com imensos prejuízos para a transmissão do conhecimento e da cultura erudita. Se tivermos consciência da importância e do papel central da tradição ortográfica no contexto cultural da civilização, seremos capazes de compreender, por exemplo, por que os países de língua inglesa e francesa, que têm sistemas ortográficos muito mais “problemáticos” que o nosso, nem sequer cogitam fazer reformas simplificadoras na sua ortografia. Esse é um exemplo que deve ser seguido.

 

TN – O senhor acha que existe alguma alteração realmente importante a fazer no Acordo Ortográfico?  

 

DL - Muitos argumentam que os critérios de hifenação contidos no Acordo são contraditórios, mas, no geral, esses parâmetros de uma racionalidade abstrata não se adéquam à lógica e às especificidades da língua. Não creio que se deva continuar prolongando indefinidamente essa discussão em torno do Acordo Ortográfico. Há problemas mais importantes em relação à normatização linguística e ao ensino de língua portuguesa que merecem mais a nossa atenção. Vou aproveitar esta oportunidade para colocar uma questão que reputo da maior relevância e que não vem sendo devidamente tratada por órgãos, como a Comissão de Educação do Senado Federal. Refiro-me à necessidade de uma atualização de nossa norma de referência linguística, ou seja, a norma padrão brasileira. O enfrentamento da questão da normatização gramatical brasileira terá efeitos muito mais positivos sobre o ensino e o uso formal da língua no Brasil do que essa interminável discussão sobre a ortografia. A norma padrão atualmente vigente no Brasil é adventícia e estranha aos nossos usos linguísticos, pois é fruto do purismo gramatical do século XIX, que impôs, no Brasil, o padrão normativo de Portugal, contra a vontade de grandes expoentes da língua nacional, como o romancista José de Alencar. Com isso, o Brasil continua sendo colônia de Portugal, no plano da língua. Construções legítimas como “os candidatos têm sempre se acusado nos debates da televisão” são preteridas em função de construções estranhas aos nossos usos como “os candidatos têm-se sempre acusado nos debates da televisão”, porque nossas gramáticas tomam como modelo os usos da língua que se plasmaram em Portugal, a partir do final do século XVIII. Na verdade, nossas gramáticas normativas padecem de uma espécie de esquizofrenia, já que colocam a forma portuguesa no corpo de texto e o uso brasileiro em nota de rodapé, o que cria um enorme problema para o professor de Língua Portuguesa e para quem se propõe a escrever um texto formal.

Além disso, construções bem-aceitas entre os usuários cultos da língua no Brasil, como “analisou-se essas questões na última reunião” ou “na época que os colonizadores chegaram ao Brasil”, são condenadas até pelos gramáticos mais modernos, sob o argumento de que as construções próprias do que chamam indevidamente norma culta seriam: “analisaram-se essas questões na última reunião” e “na época em que os colonizadores chegaram ao Brasil.

É preciso fazer a devida distinção entre norma padrão (a norma linguística preconizada pela tradição gramatical – uma norma ideal) e norma culta (a forma como as pessoas cultas efetivamente usam a língua – uma norma objetiva). Um exemplo para ilustrar a pertinência dessa dicotomia vem mais uma vez da colocação pronominal. Pode-se encontrar em qualquer grande jornal brasileiro uma construção como “Diria-se que se trata de uma questão complexa”. Temos, portanto, uma construção legítima da norma culta brasileira. Porém, a tradição gramatical condena tal construção, defendendo, nesse caso, a mesóclise, que seria forma típica da norma padrão ainda vigente: “Dir-se-ia que se trata de uma questão complexa”.

A tensão entre a norma padrão e a norma culta é normal nas sociedades letradas, por conta da natureza estática daquela e do caráter dinâmico desta. Porém, essa tensão, no Brasil, atingiu um patamar crítico, em função, sobretudo, do problema de origem de nossa norma padrão. Em face disso, por que não colocar na pauta da sociedade a atualização de nossa normatização gramatical, conferindo aceitabilidade às formas já legitimadas no uso culto da língua, ao lado das construções tradicionais? Portanto, ao invés de ficar prolongando indefinidamente a discussão em torno das soluções contidas no Acordo Ortográfico, a Comissão de Educação do Senado deveria colocar em pauta uma discussão sobre a atualidade da norma padrão no Brasil.

 

TN –   Há quem critique a implantação do Acordo pelo modo como foi feita, não exatamente pelas alterações propostas. Dizem que a ABL não ouviu as pessoas. Na sua opinião, essa crítica procede? 

 

DL -  O Acordo foi formalizado em 1990 e só foi implementado em 2009, prevendo ainda um período de transição. Houve muita discussão em torno dele, sobretudo na década de 1990. Foram dezenove anos. É tempo mais do que suficiente para debater uma matéria. E o que é mais importante é que a sociedade brasileira já assimilou o Acordo, pois todos os jornais, revistas e livros já são publicados no Brasil segundo a ortografia nele definida. Não cabe mais ficar discutindo filigranas que têm pouca ou nenhuma relevância para o ensino e a regulamentação do uso formal da língua. As aparentes contradições sobre as regras de hifenação, que têm sido levantadas para postergar a efetivação do Acordo, se desfazem, em sua maioria, quando se atenta para as especificidades da história de cada palavra, como bem demonstrou o Professor Evanildo Bechara, em entrevista aqui mesmo neste Blog. Portanto, está na hora de a sociedade virar essa página e enfrentar questões mais relevantes para o ensino e a regulamentação do uso formal da língua, como a atualização de nossa norma padrão. Além disso, é preciso ter responsabilidade com os compromissos assumidos com os demais países de língua portuguesa e atentar para a importância de estreitamento das relações linguísticas e culturais com esses países, no contexto atual de um mundo globalizado, em que a formação de blocos é crucial.

 

TN –   Há quem argumente que os portugueses relutam em aceitar o Acordo e que, nos países africanos, a implantação é ainda mais lenta. O senhor acha que esses são empecilhos à implantação definitiva do Acordo no Brasil?

 

DL –  Creio que devemos encarar essa questão desde uma perspectiva diversa. Mais de 80% dos falantes nativos da língua portuguesa são brasileiros, e o Brasil é disparado o país de maior peso econômico dentre os países lusófonos. Além disso, o país tem assumido, nos últimos anos, um grande protagonismo no plano internacional. Nesse contexto, o Brasil deveria assumir também um papel de liderança e vanguarda nessa articulação em torno da língua portuguesa no mundo. A implementação definitiva do Acordo Ortográfico aqui teria um peso muito grande nessa direção, estimulando os demais países a seguirem o mesmo caminho. Devemos ter consciência da importância do estreitamento das relações com os países lusófonos e da implementação de projetos de cooperação, no plano da língua e da cultura, em um mundo cada vez mais internacionalizado. Há um grande potencial a ser explorado nesse campo, e projetos muito interessantes, como o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, já são uma realidade. O mais importante em projetos como esse é que o fortalecimento da unidade da língua portuguesa no mundo não entra em contradição com a diversidade de formas que ela assume na realidade específica de cada país. Não cabe mais a visão anacrônica de um colonialismo linguístico. A promoção da língua portuguesa no plano internacional só será sustentável se contemplar toda a riqueza de sua diversidade, tanto no plano das diferentes culturas dos países lusófonos quanto no plano da diversidade interna da cultura de cada país.

 

"A saída não é simplificar a grafia, mas sofisticar a educação letrada"; leia entrevista com Sírio Possenti

Por Thaís Nicoleti
09/10/14 16:32

Desta vez, quem conversa com o blog sobre reforma ortográfica é Sírio Possenti, professor titular do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

Autor de diversas obras (“Discurso, Estilo e Subjetividade”, “Por que (Não) Ensinar Gramática na Escola”, “Os Humores da Língua”, “Os Limites do Discurso”, “Questões para Analistas do Discurso”, “Questões de Linguagem”, “Humor, Língua e Discurso”, entre outras), o linguista, filósofo e estudioso do humor também publica textos regularmente na imprensa (nas revistas “Língua” e “Ciência Hoje” e no jornal “O Estado de S. Paulo”).

Possenti já provou que não se furta a um bom debate. No seu “Blog do Sírio”, recentemente teceu críticas à proposta de ortografia fonética defendida pelo professor Ernani Pimentel, coordenador de um grupo de trabalho técnico criado pela Comissão de Educação do Senado para discutir o Acordo Ortográfico de 1990, em vigor desde 2009. Segundo Possenti, “o discurso da simplificação tem muito apelo, mas é furado” e “a verdadeira questão é o grau de letramento de uma sociedade”. portugues em pautaConheça as ideias do professor, que concedeu ao blog esta entrevista:

Thaís NicoletiRecentemente, a imprensa divulgou a existência de uma proposta radical de mudança do sistema ortográfico do português, baseada na fonética. Das informações publicadas, depreendem-se, por exemplo, as seguintes ideias:

a) eliminação do “h” inicial das palavras (por não representar um fonema). Exemplos: oje, omem, ora;

b) eliminação do “ç” (o fonema /s/ seria representado sempre pela letra “s”). Exemplos: pesa (no lugar de “peça”), masarico (no lugar de “maçarico”);

c) substituição do “ch” por “x”. Exemplos: caxorro, chave, xaruto, flexa;

e) representação do fonema /z/ sempre pela letra “z”. Exemplos: ezame, aza, pezar;

f) a letra “c” deixaria de ser usada antes de “e” e “i”. Exemplos: sebola, sigarro, sílio;

g) eliminação do dígrafo “qu”, passando a letra “q” a representar o fonema /k/ diante das vogais “e” e “i”. Exemplos: aqele, esqilo, leqe;

h) eliminação do dígrafo “gu”, passando a letra “g” a representar apenas o fonema /g/ mesmo antes de “e” e “i”. Exemplos: gitarra, gerra, gindaste;

h) a letra “j” passaria a representar o fonema /j/ em todas as situações. Exemplos: jeleia, ajenda, ajir.

Dessa forma, seriam eliminadas distinções gráficas como a de hora/ora, aja/haja, cozido/cosido, seção/sessão/cessão, entre muitas outras e, além disso, grafias tradicionais passariam a representar outras ideias. “Casa”, por exemplo, seria a nova forma de escrever “caça” e também “cassa”, “pesa” seria a nova grafia de “peça”. Há inúmeros casos semelhantes a esses, além de termos que sofreriam mais de uma alteração (“caxasa”, por “cachaça”, por exemplo) e daqueles de mais de uma pronúncia (“liquidação”, “hexacampeão” etc.), problema difícil de resolver no interior desse sistema, mas a ideia, segundo seu autor, visa à simplificação da ortografia. O senhor acha que esse sistema seria, de fato, mais simples? Por quê?

Sírio Possenti – Não há dúvida de que seria mais simples. Algumas dúvidas atuais deixariam de existir, mas a questão crucial não é essa. Na verdade, há duas questões mais relevantes do que a “simplificação”. Uma é o fato de que a quantidade de erros de ortografia cometidos em decorrência das “dificuldades” que seriam eliminadas é menor do que se imagina. A verdadeira grande dificuldade é decorrente da relação entre letras e pronúncias variáveis. A reforma proposta não atingiria dificuldades como as que ocorrem numa palavra aparentemente simples como “menino”, que tem pronúncias variáveis da primeira (e/i) e da última vogal (o/u), o que leva a grafias como “me / mi” e “no / nu”. Uma palavra como “anos” pode receber a grafia “anus” em decorrência do alçamento da vogal átona final; a palavra “maldade” pode receber a grafia “maudade” (sem contar a variação da vogal final), em decorrência da vocalização do “l” em final de sílaba.  Os casos são, pode-se dizer, inúmeros (essa palavra pode vir a ser escrita “enúmeros/us”). Aliás, esse exemplo mostra outras dificuldades, ligadas exatamente à divisão de palavras… (“serhumano” ou “ser humano” – independentemente do “h”). A proposta não vai na direção de “escrever como se fala” (ainda bem), mas vale assinalar que não é verdade que a maior parte das dificuldades decorre de questões do tipo “hoje / oje / (h)oge”. A outra questão diz respeito aos custos financeiros, políticos e mesmo “escolares”. Tudo teria que ser reimpresso; ou as pessoas deveriam lidar com mais uma diferença de grafia, além daquelas com as quais elas já têm que lidar, quando fossem ler obras mais antigas que não tivessem sido adaptadas.  Os problemas políticos têm a ver com a aceitação da “nova” ortografia por todos os países nos quais o português é língua oficial. A saída não é simplificar a grafia, mas sofisticar a educação letrada.

TNEmbora a proposta tenha surgido por ocasião de discussões sobre o Acordo Ortográfico de 1990, que tratou basicamente de acentuação e hífen, seu objeto é, aparentemente, muito mais amplo. O Senado, acolhendo críticas ao Acordo Ortográfico de 1990, criou um GTT (grupo de trabalho técnico), cuja coordenação ficou a cargo do autor dessa proposta. Ainda que não esteja claro o trabalho que esse grupo empreende e, muito menos, se existe alguma possibilidade de essa proposta vir a ser discutida algum dia, pergunto se o senhor acha oportuno que esse tema seja objeto de discussão no Senado.

SP - Não acho oportuno. Aliás, acho muito inoportuno. Especialmente porque os especialistas nunca são convidados. Quando se discutiu a questão da pesquisa com células-tronco (para dar um exemplo), houve audiências públicas com geneticistas.   Mas, quando se discute ortografia, nunca se chamam linguistas. Dá-se o mesmo quando a mídia trata de educação. Quando provas nacionais ou internacionais revelam problemas escolares, a mídia entrevista donos ou professores de cursinhos, que são as instituições menos adequadas para falar de escola.

TN- No âmbito da universidade, existem críticas ao Acordo Ortográfico de 1990?

SP - Se houver, são “conversas” particulares. São poucos os que se envolvem com a questão. Até porque nunca são envolvidos. Diria que não é um tema considerado muito relevante. Pelo que sei, com exceção das questões políticas, que certamente são importantes, a maioria dos professores universitários (falo das universidades, não dos colegiões) sabe que se trata, do ponto de vista da escrita, de uma questão menor. Por um lado, sabem que o desempenho ortográfico depende de boa escola (basta ver o que ocorre na França e nos países de fala anglófona). Por outro, sabem que ortografia é apenas um aspecto, e é o menos relevante, de uma escrita que mereça este nome. Nossa sociedade sofre de fixação ortográfica. Muita gente metida a especialista não sabe analisar um texto; é por isso que sai à cata de erros de grafia.

TN – Nas redes sociais, é muito comum que as pessoas expressem uma espécie de “indignação” diante dos erros de grafia. A que o senhor atribui esse comportamento? Há uma supervalorização do aspecto visual das palavras?

SP - Nas redes sociais, e, na verdade, em qualquer lugar em que as pessoas podem opinar, os erros de grafia são objeto de crítica ou de gozação. Este fato resulta de três fatores: a) uma valorização excessiva da grafia (iguala-se “saber escrever” a “escrever sem erros de grafia”): b) o fato de que ninguém compreende as razões pelas quais os erros foram cometidos; c) trata-se de uma questão simples; como, frequentemente, não se consegue analisar o texto, seus argumentos etc., ele é desqualificado  com base nos erros. É uma atitude intelectualmente bem pobre.

TN- O site “Placas do Meu Brasil” faz sucesso nas redes sociais ao divulgar formas de  expressão popular, muitas das quais com erros de grafia. O senhor já comentou em artigos seus que muitas dessas grafias têm uma gramática. O senhor poderia citar alguns exemplos?

SP - Analisar as “Placas do Meu Brasil” ensina muita coisa. A principal é que os erros de grafia que uma proposta como a do prof. Pimentel evitaria são relativamente poucos. Os verdadeiros “problemas” não são do tipo escrever geladeira com “g” ou com” j”, mas escrever com ou sem ditongo (geladeira/geladera) e também “pexe/otro /oro”. Uma das consequências dessa variação que elimina semivogais é, curiosamente,  acrescentá-las onde “não existem”. O melhor exemplo é uma palavra estrangeira, “cover”, que pode vir a ser escrita “cover”, é claro, mas também, por hipercorreção, “couver” ou mesmo “colver”, embora tenha sempre a mesma pronúncia.

 TN. Em recente artigo seu, o senhor mostra isso. As diferenças entre grafia e pronúncia (pexe/ peixe; toca/touca), consideradas inclusive as diferenças regionais, são um problema maior para o aprendizado da escrita do que o emprego de pares consonantais como  g/j  ou  x/ch e esse tipo de problema não seria solucionado com uma reforma ortográfica, pois não há como unificar grafia e pronúncia. O senhor acha que alçar a ortografia a centro de discussões sobre a língua e a educação (no âmbito do Senado) é, de alguma forma, sobrevalorizar um tema menor? 

SP – Respondo “sim” a sua pergunta final. Especialmente quando se trata da questão escolar. O discurso da simplificação tem muito apelo, mas é furado. Basta ver como se anunciam livros e programas de TV: ensinam gramática de maneira simples e bem-humorada! É um verdadeiro horror. E é efeito do discurso de cursinho, instituição que gosta muito de aulas com piadas ou musiquinhas mnemônicas. Pouco engraçadas, aliás.

TNDe certa forma, esse tipo de aula (de cursinho, com piadas e parlendas) acaba por fomentar uma visão limitada (e talvez infantil) da língua? O senhor acha que o estudante precisa se divertir enquanto estuda? 

SP - Ora, estudar é um trabalho. Não precisa ser necessariamente desagradável. Mas achar que precisa ser divertido é uma bobagem. No fundo, esta atitude encobre a verdadeira natureza do aprendizado, reduzido, no fundo, a decoreba por associação.

TN – Em recente artigo publicado na Folha, o colunista Hélio Schwartsman afirma o seguinte: “Faria algum sentido abraçar uma mudança radical que tornasse a escrita tão foneticamente transparente quanto possível. Isso significaria aniquilar não só o “h” inicial, o “ch” e o “ç” como também disciplinar o “x”, domar o “r-rr” etc. O que ganharíamos? O processo de alfabetização se tornaria mais fácil, rápido e barato”. Como o senhor vê tal afirmação?

SP - Se selecionamos só esta passagem do texto dele, pode-se dizer que não leva em conta o tipo de argumento que apresento no meu texto “Simplificar a ortografia?” e que, resumidamente, apresentei acima. Mas, mais adiante, ele fala também em deixar as coisas em paz (“Meu apelo sincero aos legisladores é que deixem o idioma em paz. Se há norma que valeria a pena aprovar é uma que limite a três séculos a periodicidade das reformas ortográficas”).  Mas, mesmo modalizado, o argumento citado por ele, que é meio lugar-comum, não leva em conta leitura e escrita de verdade. Serviria mais para ditados artificiais (do tipo “soletrando”, que, em si, são uma bobagem, embora possam servir para despertar indiretamente mais vontade de estudar, algo que poderia ser obtido por meios mais relevantes).

TN – O autor fala em alfabetização mais rápida, porém, se pensarmos não propriamente em “alfabetização”, mas em “letramento”, esse argumento,  que, aliás,  é compartilhado pelo prof. Pimentel, autor da referida proposta, continuaria válido?

SP - Esse tipo de argumento se restringe ao que se poderia chamar de alfabetização, que é o domínio do código escrito, da representação dos sons. Mas o verdadeiro problema é o letramento, isto é, a inserção real dos alunos no mundo da escrita, que implica a capacidade de ler e escrever pelo menos na medida das necessidades sociais de cada cidadão (embora o ideal seja que a cultura letrada seja objeto de desejo de todos).

TN – Segundo o prof. Ernani Pimentel, “os psicólogos e biólogos já constatam que boa parte das crianças de hoje estão nascendo com um par a mais de cromossomos ativados, o que significa estar a humanidade passando por verdadeira mutação genética que traz uma visão quântica da realidade, descomunalmente superior à antiga visão linear a que os adultos ainda estamos condicionados”. E prossegue: “Hoje o estudante, e qualquer indivíduo, ri de quem aceita regras com exceções. Não faz sentido perder tempo. Ou o que se lhe ensina é lógico, prático ou não lhe desperta interesse”. O senhor concorda com isso? Nessa linha de raciocínio, poderíamos pensar que aquilo que se tem chamado de “internetês” será a ortografia do futuro?

SP - Sobre as supostas descobertas de psicólogos e biólogos, nunca ouvi falar delas, nem o prof. Pimentel cita as fontes, o que é bem típico, aliás. Citar fontes é uma prática das universidades, porque lá não se pode chutar. Mas, se tais mutações estiverem ocorrendo, por que seria necessário simplificar? Falando em “evolução”, seria mais adequado apostar na evolução tecnológica, que vai permitir que todo mundo logo escreva com computadores ou instrumentos similares, que contêm um dicionário acoplado e um corretor ortográfico que avisa quando a grafia de uma palavra está errada. As tentativas de corrigir acabam ensinando mais do que muitas aulas e dispensam até mesmo um sistema mais “lógico”. Sobre o internetês, quem já olhou esta escrita de perto percebeu que é um tipo de escrita silábica  (“vc” por “você”, “hj” por “hoje” etc). Observe-se que se trata sempre de privilegiar as consoantes (ninguém escreve “você” com “oe”). É uma escrita bem esperta, na verdade. Também vale a pena dizer que todo mundo que já anotou aulas na vida, antes dos computadores, usava essas mesmas abreviações. E que os jornais publicam desde sempre pequenos anúncios do tipo “vd ap c/ 4 q, gr” e ninguém achou que isso fosse um problema. O que quero dizer é que as escritas diversas aparecem em contextos diversos. O internetês é uma escrita de computador (e smartphone) e apenas para certos casos. Ninguém escreve assim em blogs…

TN- O senhor tem críticas ao Acordo Ortográfico?

SP - Minha crítica à proposta do prof. Pimentel não implica que eu considere excelentes os efeitos do recente acordo. Por mim, vigorariam as regras da reforma de 1943, que foi a “minha” ortografia, com muitos acentos diferenciais, como “êle”, para distinguir o pronome do nome da letra “L”, “aquêle”, para distinguir este pronome da primeira e da terceira pessoas do presente do subjuntivo do verbo “aquelar” etc. Mas é claro que, mesmo que não houvesse nenhum acento, isso não causaria nenhum problema para pessoas letradas. Ou seja: a verdadeira questão é o grau de letramento de uma sociedade.

TN – Na sua opinião, é importante haver uma “ortografia oficial”? Qual é o peso desse tema nos estudos empreendidos na universidade? 

SP - Não faz mal haver uma ortografia oficial. Mas não acho que seja tão necessária, se uma sociedade for de fato letrada. E, se houver uma oficial, preferia que não fosse objeto de legislação, mas de um acordo de editores, mais ou menos como ocorre com a escrita do inglês.

TN – O senhor  tem livros em que analisa piadas do ponto de vista linguístico. Em que esse material se mostra útil no estudo da língua?

SP - Para ficar no tema da entrevista: alguns aspectos da escrita são explorados em piadas. Veja este exemplo, uma piada que envolve um intelectual que, defendendo suas ideias com muita convicção, foi interrompido por alguém que lhe disse: “Mas suas ideias podem ser postas em xeque!”. E ele respondeu:  “De quanto?”. A graça da piada decorre da percepção das palavras homófonas xeque/cheque.  Veja esta outra piada, a da professora que pede ao aluno, o popular Joãozinho, que faça uma frase com “hospedar” e o menino responde: “Os pedar da minha bicicreta tá quebrado!”. A piada envolve divisão de palavra (hospedar/os pedar) e variação linguística (pedar/pedal e bicicreta/bicicleta). Em vez de decoreba de listas de palavras, uma aula poderia basear-se em histórias assim.

TN – Os professores de português poderiam, então,  em vez de contar piadas para distrair os alunos, analisar essas piadas a sério.  

 

"Língua é patrimônio do povo brasileiro"; leia entrevista com o filólogo Deonísio da Silva

Por Thaís Nicoleti
06/10/14 18:51

Ultimamente, a ortografia tem ocupado na mídia espaço maior que o esperado, o que talvez se explique não por ser um tema apaixonante, mas pelo fato de, no Brasil, ser objeto de lei. A perspectiva de haver novas mudanças na grafia das palavras cria certo alvoroço tanto no meio editorial como na imprensa e nas escolas, enfim, entre aqueles que mais diretamente estão comprometidos com o tema, seja porque publicam obras, seja porque ensinam a escrever.

O fato de existir no Senado um grupo técnico de trabalho encarregado de rever o último Acordo, que, embora date de 1990, entrou em vigor em 2009,  cria alguma apreensão e, de certa forma, desestimula os esforços que têm sido feitos em direção à adaptação às novas regras.

De início, muitas foram as vozes que o criticaram, afinal, a necessidade de unificação da grafia do português nos países lusófonos não parecia ser algo tão urgente. Além disso, antes da publicação do Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), havia muita dúvida sobre as novas regras e, consequentemente, proliferaram não só as criticas como também os equívocos.

Depois da publicação do Vocabulário (e de uma errata com substituições, correções e aditamentos) e, sobretudo, depois de ser o corpus posto gratuitamente à disposição para consulta no site da ABL (www.academia.org.br), os ânimos se acalmaram e o processo de adaptação parecia seguir seu rumo.

Eis que a divulgação de uma proposta de ortografia fonética, que imporia grandes mudanças à ortografia vigente (em nada comparáveis à supressão de alguns acentos e à alteração nas regras do hífen), vem novamente trazer à tona o tema da ortografia.

Hoje quem conversa com o blog a respeito do assunto é o professor Deonísio da Silva,  que é membro da Academia Brasileira de Filologia, professor universitário, escritor e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo.

Respeitado nos círculos acadêmicos, Deonísio é também muito conhecido fora deles – e não é à toa, pois sua página de etimologia na revista “Caras” é sucesso há 20 anos. Além desse trabalho, Deonísio tem uma coluna na Rádio Bandnews Fluminense e vem publicando, ao longo de sua vida, títulos de grande interesse, entre os quais está o best-seller “De Onde Vêm as Palavras”, já na 17ª edição. É autor de  34 livros, em meio aos quais se destacam outras obras voltadas à etimologia (“A Vida Íntima das Frases” e “Palavras de Direito”) e os romances “Lotte & Zweig” (2012), baseado na vida do escritor, poeta e dramaturgo austríaco Stefan Zweig, “Teresa d’Avila” (1997) e “Avante, Soldados: para trás” (2005), romance que recebeu o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por nada menos que José Saramago – e o Nobel de Literatura não lhe poupou elogios.

Leia, a seguir, a entrevista com o professor Deonísio da Silva:

Thaís NicoletiO senhor esteve no Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, realizado recentemente em Brasília (nos dias 10, 11 e 12 de setembro)?  portugues em pautaO senhor apresentou uma proposta de revisão do Acordo Ortográfico de 1990? Em que ela consiste?

Deonísio da Silva – Sim, estive no simpósio, que teve seu herói,  o escritor José Carlos Gentili, que do nada tirou aquele evento. Para fazer jus ao convite, preparei um “paper”. O título foi “A Extinção do Hífen”, mas não o apresentei porque notei certo enfado dos presentes com a repetição de questões de complexas sutilezas, cuja explicação é inútil, apesar da alta qualificação dos conferencistas.  Fiz, então, da etimologia a referência solar de minha intervenção, ilustrando com exemplos concretos o quanto perderíamos se adotássemos uma escrita fonética, de resto impossível de ser sequer formulada, quanto mais aplicada. Copo é copo, e leite é leite, mas “copo de leite” designa um copo com leite, porém “copo-de-leite” [com hifens] designa a açucena, uma planta ornamental. “Copo” e “leite” vieram ambos do latim, respectivamente de “cuppa” e de “lacte”; açucena veio do árabe “as-susana”, designando o que o grego conhecia por “leírion”, que deu “lilium” em latim e “lírio” em português. Essas questões etimológicas tornam-se ainda mais esclarecedoras no caso dos fármacos, em que a mudança de uma letra, não apenas da dosagem, pode designar remédio ou veneno. Além do mais, sou de Santa Catarina e lá se pronuncia “leite” de um modo diferente do que ouvi por longos anos no Rio Grande do Sul, no Paraná e em São Paulo, estados onde morei por vários anos. E no Rio, onde vivo há 11 anos, a pronúncia tem outras variações. Minha crítica foi esta: o Acordo ouviu muito pouca gente! Não me refiro a plebiscitos, mas acredito que profissionais da língua, como aqueles que, como eu, a estudam e a explicam a alunos ou a leitores, devam ser ouvidos. Essa foi a minha proposta. Como é que pode o nosso amigo Evanildo Bechara ser o executor das medidas de emergência do Acordo? Ele é altamente qualificado, é uma honra ser colega dele na Academia Brasileira de Filologia, mas ele precisa consultar, por exemplo, os colegas das duas Academias: da ABL e da ABRAFIL! Pelo menos esses!

TNHá alguma proposta de revisão do Acordo formalizada, além da sua, em condições de ser discutida no âmbito do Senado?

DS – Creio que ainda não, mas achei bom o Senado estar envolvido nisso.

TNA quem caberá liderar essa discussão no Senado e como exatamente se definirão as novas regras, na hipótese de isso vir a acontecer? Há um conselho de pessoas especializadas?

DS – Se houver uma proposta, ela deverá ser formulada por quem entende do riscado. O brasileiro tem uma habilidade verbal impressionante, mas estuda pouco a sua língua. É bom que seus representantes no Senado examinem esta questão. Alguns dos que têm determinado como devemos escrever deveriam usar tornozeleiras eletrônicas para sabermos por onde andam e por que formulam tantas impropriedades. Não é o caso de Ernani Pimentel. Ele detectou certa hostilidade em minhas críticas, mas eu não critico pessoas. Critico instituições. E elas, apesar de conduzidas por pessoas, também moldam aqueles que as conduzem.

TN – A quem exatamente o senhor se refere?

DS –  Por exemplo: recentemente, o dinheiro público financiou uma edição de 600 mil exemplares de “O Alienista”, de Machado de Assis, em que, em vez de serem explicadas as palavras que ampliavam e melhoravam o vocabulário dos leitores, principalmente alunos, elas eram substituídas por outras, tidas por mais fáceis, resultando em edição falsificada de nosso maior escritor, paga com dinheiro público! Ora, todos sabemos que o autor é modelo de escrever bem.

TN – Novamente a ideia de que é preciso “simplificar” as coisas. Penso que seria mais produtivo ensinar mais e melhor, fomentar a leitura e despertar o interesse pela nossa literatura. Mas, ainda sobre as possíveis mudanças ortográficas, o senhor acredita que um GTT [grupo de trabalho técnico, criado pela Comissão de Educação do Senado] coordenado por alguém que está fora do meio acadêmico vai conseguir congregar professores e estudiosos das universidades para debater o tema?

DS – Não vai. O meio acadêmico trabalha sobre credenciais, vitae, competência, desempenho, aferidos trienalmente por suas publicações, palestras, conferências etc., de acordo com a Plataforma Lattes, do CNPQ.

TN – O senhor percebeu alguma intenção desse GTT de levar o debate aos especialistas que estão nas universidades? O Senado, ao criar o GTT, não deveria ter buscado a universidade?

DS - “Pau que nasce torto, nunca se endireita”, como diz o Melô do Tchan,  e “menina que requebra… mãe, pega na cabeça”. O GTT – ele existe? – começou mal e pode terminar pior. “Depois de nove meses você vê o resultado”. Vai nascer um monstrinho.

TN – O senhor acha que o GTT vai realmente propor alguma mudança ou o papel desse grupo é apenas levantar a questão?   

DS – Soube que o Senado vai fazer uma audiência pública sobre o tema. Parece uma boa coisa, mas eu tenho minhas dúvidas sobre se vale a pena e se este é o melhor caminho. Temo que entre os interessados haja gente interessada em outra coisa. Por exemplo: ganhar dinheiro com publicações apressadas, incluindo fazer dicionários com verbetes errados, como fizeram quando da “decretação” do Acordo.

TN – O senhor acredita que haja intenção por parte da própria ABL de propor algum tipo de alteração no Acordo ou no Volp [Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa]?

DS – Eu me esforço para acreditar que haja, mas estou muito desconfiado de que não seja assim! Ademais, a ABL não é sequer a instituição mais indicada para fazer isso. Examinemos os “vitae” de cada um dos acadêmicos. Quem ali pode fazer isso? Poucos. Acho que há excluídos até mesmo no interior da ABL, quanto mais fora! Os responsáveis pelo Acordo não podem desprezar os centros universitários de excelência onde a língua portuguesa é pesquisada e ensinada.

TN – Que críticas o senhor faz ao texto do Acordo Ortográfico e/ou à interpretação que a ABL fez dele? 

DS – A principal é não terem consultado mais gente. “In medio virtus”, como ensinaram os sábios romanos. Não era necessário fazer plebiscito sobre os temas, mas tampouco era necessário tratar o Acordo como obra de “illuminati”. Ainda mais que pesam tantas controvérsias sobre se são tão “illuminati” assim.

TN – O senhor acredita que qualquer pessoa, independentemente da formação acadêmica, possa propor um novo sistema ortográfico?

DS – Não! Se eu não acreditasse na relação bunda-cadeira-hora, não teria estudado tanto! Quando um técnico de informática vem resolver um problema em meu computador, não lhe pergunto se ele sabe quais as mais de 21 mil palavras com hífen que sofreram alterações no português com o Acordo. E espero que ele não me pergunte se eu sei as sutis diferenças entre um “software” e um “hardware”. Dele espero que entenda de computador. Se as pessoas que inventaram computadores, celulares e “smartphones” escrevessem como seus usuários escrevem nesses utensílios, estaríamos na idade do “chip” lascado…

TN – Na sua avaliação, o Acordo Ortográfico de 1990 era necessário? Fazer a reforma desse Acordo vale a pena? 

DS – Se você está passando mal e não sabe o que tem, é melhor procurar um médico no qual confie. O português estava passando bem e, ainda assim, resolveram medicá-lo e, mais do que isso, submetê-lo a intervenções cirúrgicas dispensáveis. A verdade é que não precisávamos deste Acordo. Unificar modos de escrever, como fez o árabe, que tinha 14 grafias e agora tem uma apenas, para efeito internacional, respeitando a variação de cada país, tudo bem. Mas impor, não! Fala-se em Acordo com as outras nações lusófonas. Certo! Mas antes é preciso fazer o Acordo com os brasileiros. Esta proposta de refazê-lo é pior ainda. Este coelho não saiu do mato. Saiu de alguma cartola.

TN – O professor Ernani Pimentel, coordenador do GTT, apresenta em seu site uma proposta de ortografia fonética que chegou a ser divulgada por vários veículos de comunicação. Após a divulgação, as reportagens foram desmentidas pela Agência Senado, mas o desmentido foi baseado apenas no fato de que tal proposta não estaria “formalizada”. O senhor acha que os senadores que criaram o GTT conhecem, de fato, essa proposta? Cristóvão Buarque aparece no site do prof. Ernani Pimentel  ao lado de declaração favorável a ela.  

DS – Tenho grande apreço pelo senador Cristóvão Buarque, aliás, um bom romancista, mas esta parte de sua biografia é sempre esquecida. E sempre tenho  sido um defensor intransigente de  parlamentos, por piores que sejam, pois nos representam. Se o jabuti está no galho da árvore, alguém o pôs lá. Então, se são aqueles os nossos representantes, foi o povo quem os pôs lá. E livremente. Mas senadores podem ser enganados por espertos, por desavisados, por quem não tem maldade, mas prejudica mais do que se tivesse… Sem contar que os senadores não são santos. Enfim, todo cuidado é pouco quando se mexe no patrimônio público. E a língua é isso: um patrimônio do povo brasileiro.

 

Ortografia é assunto no Senado; leia entrevista com prof. Evanildo Bechara

Por Thaís Nicoleti
16/09/14 13:29

O Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90) entrou em vigor no Brasil em 1º de janeiro de 2009 e, desde então, os usuários da língua escrita vêm passando por um processo de aprendizado das novas regras e de adaptação a elas. Como já foi dito inúmeras vezes, no que se refere ao português do Brasil, a mudança atingiu 0,5% do léxico, o que, convenhamos, representa uma parcela bem pequena do conjunto de palavras do idioma.portugues em dia

No sexto ano de vigência do Acordo, o acento agudo nos ditongos abertos das paroxítonas e o trema já parecem coisa do passado. O sistema de hifenização dos prefixos também  ficou bem mais simples que o anterior, mas, como não se está lidando com uma ciência exata, sobram aqui e ali exceções ou casos em que foi necessário interpretar o documento oficial — à luz, é claro, de seus princípios.

O trabalho de estabilização das normas propostas pelo Acordo foi feito pela Academia Brasileira de Letras, cuja Comissão de Lexicografia tem entre seus membros o lexicógrafo Evanildo Bechara, professor titular da UERJ e da UFF e doutor honoris causa da Universidade de Coimbra. Bechara dispensa apresentações para aqueles que têm na língua portuguesa o seu ofício, pois suas gramáticas são referência para qualquer estudioso do assunto, dentro e fora das universidades.

Apesar de as alterações propostas pelo Acordo terem sido mínimas, como convém a uma boa reforma ortográfica, críticas tanto ao texto do Acordo como à sua interpretação feita pela Comissão de Lexicografia da ABL, responsável pela confecção do VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), vêm aparecendo na imprensa. Recentemente, diversos sites e jornais divulgaram a existência de um grupo de trabalho técnico, designado pela Comissão de Educação do Senado, cujo objetivo é rever, reformar, revisar ou, quem sabe, revogar o Acordo (AO 90), com base no que esse próprio grupo considera serem “incoerências” ora do Acordo, ora do VOLP.

Um dos coordenadores desse grupo (GTT) vem divulgando uma proposta de “simplificação da ortografia” — exatamente aquela que chegou à imprensa e que foi objeto de celeuma até que o Senado desmentisse tê-la posto em discussão. A proposta, de autoria de Ernani Pimentel, professor de português que atua em Brasília, é polêmica, pois sugere uma transformação radical da ortografia do português, ou seja, a adoção de um critério estritamente fonético (grosso modo, escrever como se fala). Embora ainda não esteja em discussão, a proposta existe e é defendida por um professor a quem coube coordenar os trabalhos de revisão do Acordo Ortográfico na Comissão de Educação do Senado.  Um dos sites de Pimentel, em que apresenta suas ideias, intitula-se Acordar Melhor, pois sua intenção é “melhorar o Acordo”.

Será muito difícil, porém, que uma proposta como essa seja aceita em todos os países da chamada lusofonia, o que seria condição para a sua implantação, já que o Brasil assinou um Acordo de Unificação Ortográfica. Aliás, vale lembrar que o motivo dessa reforma ortográfica, vigente desde 2009, foi o projeto de unificação da ortografia nos países em que o português tem status de língua oficial. A menos que se revogue o Acordo e que se desista da ideia de unificação ortográfica, o professor Pimentel terá de convencer os demais países da CPLP a escrever omem, caxorro, ezérsito etc. A tarefa parece difícil. No Brasil, embora tenha chegado ao Senado, a ideia parece não ter tido ressonância nas universidades, entre os estudiosos da língua.

De resto, há os que, sem apresentarem qualquer proposta concreta de mudança, apontam supostas incoerências no Acordo e conclamam ao debate quaisquer cidadãos que tenham quaisquer propostas.Talvez seja mais sensato admitir que algumas exceções não são incoerências ou, havendo o entendimento de que o sejam, indicar a solução para eliminá-las sem incorrer em outras “incoerências”.

O assunto pode parecer simples, ao alcance de todos, mas o processo de sistematização da ortografia é repleto de sutilezas e requer o conhecimento especializado de filólogos e demais estudiosos da língua. Se assim não for, estaremos a ponto de respaldar escolhas idiossincráticas apresentadas como “democráticas”.  O que mais espanta, a esta altura, é que o Senado se tenha mobilizado em prol de uma causa que se resume na suposta incoerência da grafia de uma dezena de palavras do idioma, se tanto.

ENTREVISTA

A seguir, o professor Evanildo Bechara comenta a questão em entrevista ao blog:

Thaís Nicoleti -Recentemente, foi assunto de grande número de reportagens na imprensa um projeto de simplificação da ortografia defendido por um professor de português de Brasília, ora designado coordenador de um grupo de trabalho 

portugues em pautatécnico da Comissão de Educação do Senado constituído com o intuito de rever as modificações da ortografia do português decorrentes da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.  O senhor deve ter tomado conhecimento dessas ideias (o “ch” seria substituído por “x”, o “h” inicial seria suprimido etc.). Que pensa o senhor acerca desse projeto? Há vantagens em privilegiar a fonética como critério de ortografia?

Evanildo Bechara – A substituição de “ch” por “x” em qualquer posição na palavra é proposta de um sistema ortográfico chamado fonético, proposta que vem sendo trazida à baila pelo menos desde o século XIX, à qual sempre os especialistas e os usuários responderam com providencial negativa. Muitos são os problemas que tal proposta traz como consequência. A primeira é a extinção dos homófonos não homógrafos, do tipo de seção, sessão e cessão, que ficam reduzidos a uma só grafia: sesão, o que, com certeza, prejudicará a compreensão da mensagem. A segunda é a necessidade de criar novos símbolos ortográficos ou maneira de representá-los: é o caso da diferença entre o “r” de ira e “rr” de terra. Um sistema antigo representava o “r” simples com “r” e o “r” múltiplo com “R”, grafando então ira e teRa. E assim por diante. Elimina-se o “h” de omem e oje, mas como fazer com o “h” dos dígrafos palatais lh (palha), nh (manhã)?

TN – Sim. Uma expressão como “hora H” teria de ser grafada “ora agá” e, a meu ver, perderia o sentido, pois o “h” é o “h” de hora. Enfim,  o argumento em que se baseia a proposta é o de que o processo de alfabetização se tornaria mais simples e, consequentemente, mais barato.

EB – Quanto à tese de que tal sistema simplifica o processo de alfabetização, a ciência e a experiência do real mostram-nos que tal relação é falsa. Se fora verdadeira, franceses e ingleses seriam analfabetos por terem grafias mais abstrusas que as nossas. E eles estão na vanguarda da nossa civilização. Nada substitui uma boa escola e competentes professores.

TN – Ouvem-se críticas ao fato de a última edição do  Vocabulário Ortográfico, pós-Acordo Ortográfico, registrar grafias duplas, como é o caso de “bi-hebdomadário” e “biebdomadário” ou mesmo de “ad-renal” e “adrenal”, “ab-rupto” e “abrupto”, “sub-humano” e “subumano”, “carboidrato” e “carbo-hidrato” etc.

EB – Quanto à duplicidade de grafias em biebdomadário, o caso é frequente em palavras eruditas das ciências e das tecnologias. Grafias duplas como abrupto e ab-ruptoadrenal e ad-renal são realidades da língua, em pleno uso. A forma adrenal, com o encontro consonantal que se profere em Adriano, nos foi legada pelo inglês, por isso corretamente o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa a agasalha, ao lado de outras tantas.

TN - Há quem critique o fato de a ABL ter optado pela grafia “coerdeiro” no Vocabulário Ortográfico, em dissonância com o texto do Acordo, no qual a grafia “co-herdeiro” aparece como um dos exemplos de emprego do hífen (Base XVI). Qual é a sua explicação para isso?

EB – Em mais de um artigo já expliquei o engano em conservar no Acordo Ortográfico de 1990 a grafia co-herdeiro, novidade trazida pelo ortógrafo português Rebelo Gonçalves, em 1940, e agasalhada pelas reformas de 1943 e 1945. Baseava-se Gonçalves numa pseudodiferença semântica desse prefixo. Desde a reforma de 1911, bem melhor que as sucedâneas, usava-se coerdeiro. Como o Acordo Ortográfico de 1990 está muito ligado à reforma portuguesa de 1945, escapou esse exemplo “co-herdeiro” , que contraria a lição deste último na Base XVI, 1º , b, obs. “Nas formações com prefixo co -  este aglutina-se em geral com o segundo elemento mesmo quando iniciado por o“. Por isso, se escrevo coabitar sem hífen e sem h inicial, terei de escrever coerdeiro, como propõe corretamente o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

TN – Há críticas ao fato de “paraquedas” ter passado a se escrever sem hífen, enquanto outras formações aparentemente similares continuaram a ser escritas com hífen (para-choque, para-raios, para-brisa, por exemplo). Tenho a impressão de que a grafia “paraquedas” se justifica não só pelo uso que já se fazia antes do Acordo como pelo fato de a palavra ter derivados, uma família de cognatos (paraquedismo, paraquedista), nos quais já se deu a sufixação, coisa que contribui para que se perca a percepção da composição. Como isso não ocorre com os demais termos considerados semelhantes quanto à formação, as soluções gráficas foram diferentes. Gostaria de ouvir a sua explicação.

EB – Tecnicamente, o bom ortógrafo tem de levar em conta a história de cada palavra dentro do léxico, razão por que recomenda a aglutinação das mais antigas, como girassol, mandachuva, pontapé, paraquedasPara-choque não é similar a paraquedas na história do léxico. Chegará o dia em que para-choque se usará aglutinadamente. Razões desta natureza justificam dizermos que uma reforma ortográfica, como tudo que ocorre nos domínios de uma língua histórica, é objeto de técnicos, e não de um simples usuário, por mais boa intenção que o mova.

TN – No início da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990, houve o entendimento de que a grafia “benfeito” substituiria a forma hifenizada “bem-feito”, uma vez que o Vocabulário não trazia a forma verbal “bem-fazer” nem o seu particípio, “bem-feito”. Aparentemente, essa mudança não foi bem-vinda. Ouviam-se muitas críticas a ela etc. Posteriormente, foi lançada uma Errata do Vocabulário Ortográfico em que voltou a aparecer a forma “bem-fazer”, da qual se deduz a grafia “bem-feito”. A ABL voltou atrás?

EB – No caso de benfeito, a Academia não voltou atrás; é que existe o verbo benfazer do qual saem derivados como benfeitor, benfeitoria.

TN – Sim. Vale então a distinção registrada no dicionário “Houaiss”: “benfazer” é praticar o bem, realizar benfeitorias, enquanto “bem-fazer” é fazer algo com capricho, com esmero. Outro caso interessante: a palavra “extraordinário”, no sistema antigo, era vista como exceção à regra de hifenização e hoje ela deixa de ser exceção para ser regra; palavras como “ultrassom” e “ultrassonografia” já se escreviam dessa forma quando o sistema (o antigo) previa uso de hífen (“ultra-som”, “ultra-sonografia”). “Paraquedas” e “paraquedismo” também se escreviam sem hífen mesmo na vigência do sistema antigo, quando oficialmente deveriam ser escritas com hífen e acento (“pára-quedas”, “pára-quedismo”). O uso generalizado foi levado em consideração na hora de propor a mudança?

EB – Essas são decisões que o uso consagra, para depois mudar a fim de atender a um novo princípio.

TN – Professor Evanildo Bechara, o assunto é fascinante e poderíamos falar muito sobre as palavras, sua história, suas mudanças de significado e seu indissociável vínculo com a vida social. Gostaria, finalmente, de que o senhor externasse sua opinião sobre a ideia do GTT do Senado de “democraticamente” abrir a discussão sobre a ortografia, facultando a qualquer cidadão o direito de propor um projeto que “melhore” o trabalho empreendido pela ABL na interpretação do texto do Acordo e na confecção do Vocabulário (VOLP).

EB – A língua é uma organização criada pelo espírito humano e deve ser estudada como uma ciência. Não é domínio de palpiteiros despreparados ou inocentes bem-intencionados. Já mais de uma vez disse aos reformistas do movimento que “Acordar melhor” deve ser interpretado não como “fazer melhor acordo”, mas como “despertar melhor, “abrir mais os olhos” ao tentar dar sugestões sobre a língua.

Com "h" ou sem "h"?

Por Thaís Nicoleti
22/08/14 17:53

O Senado atribui a boato em rede social a divulgação de uma proposta radical de mudança na ortografia do português. O assunto ganhou as redes sociais, no entanto, depois de ter sido tema de reportagens publicadas no UOL e em outros veículos da imprensa. A reportagem do UOL foi modificada hoje.

Texto hoje publicado no site do Senado explica que, embora exista, essa proposta não foi formalizada, portanto não está em discussão.portugues em dia

Isso não significa, porém, que não venha a ser formalizada e discutida futuramente, já que seu autor é um dos coordenadores de um grupo técnico de trabalho constituído pela Comissão de Educação da casa com o objetivo de rever o Acordo Ortográfico.

A divulgação das demais propostas daria mais transparência ao processo, permitindo o enriquecimento do debate, e sobretudo evitaria que boatos se disseminassem nas redes sociais e até na imprensa.

Quem precisa abolir o "h"?

Por Thaís Nicoleti
20/08/14 17:13

Parece mentira, mas é verdade. Existe no Senado uma proposta de reforma ortográfica que mudaria radicalmente a grafia das palavras do português. portugues em dia

Entre as alterações desejadas por quem concebeu a ideia está a supressão do “h” inicial dos vocábulos. Na prática, a “hora H” viraria algo como “ora agá” e desapareceria a letra muda inicial de  homem, humano, herói, humildade, habitação, horta, hierarquia etc. O verbo “haver” sem “h” (“aver”) produziria algumas conjugações curiosas: eu ei de vencer, ele á de entender isso, aja paciência!…

O argumento brandido é o da “simplificação” da ortografia. Considera-se ser mais simples escrever como se fala, suprimindo, portanto, o “h” mudo, que não teria função. Essa linha de raciocínio leva a outras sugestões, como a extinção da letra “u” dos dígrafos “qu” e “gu”, o que resultaria em grafias como “qilombo” (no lugar de “quilombo”) e “gerra” (no lugar de “guerra”). “Casa” com “z” (“caza”) e “cachorro” com “x” (“caxorro”) passariam a ser as grafias corretas.

É muito improvável que a população brasileira se entusiasme com uma proposta radical como essa. Basta lembrar a saraivada de críticas de que foi alvo o Acordo Ortográfico de 1990 (vigente desde 2009), responsável por pequenas alterações (acentos e hifens) em 0,5% do léxico.

Quem diz que uma ortografia marcadamente fonética teria o poder de multiplicar o número de leitores pressupõe que as pessoas leiam pouco ou não saibam ler porque a ortografia é “difícil”.  Esse é um raciocínio algo contorcionista, pois, sendo a leitura um inegável canal de aprendizado da língua, o estímulo a essa prática é que pode tornar mais fácil o aprendizado não só da ortografia em si mas da língua como um todo.

Nada indica que os índices de analfabetismo ou de analfabetismo funcional se reduzam caso a ortografia se torne fonética. A informação etimológica que as palavras carregam, seja nas letras mudas, seja nas letras diferentes que representam um mesmo som, insere-as na história da língua e faculta ao professor o ensino integrado de aspectos morfossintáticos e semânticos.

O mínimo que se pode dizer dessa aventura reformista é que atribui à ortografia um papel muito maior do que aquele que ela realmente tem. O perigo é que um projeto desse teor sirva para mascarar as verdadeiras deficiências do ensino e as reais necessidades de investimento nessa área tão importante para o desenvolvimento do país.

Um acento facultativo

Por Thaís Nicoleti
11/08/14 20:14

O Novo Acordo Ortográfico, em vigor desde 2009, faculta o emprego do acento circunflexo na palavra “forma” quando pronunciada com “o” fechado, mas não o torna obrigatório.  portugues em diaNo registro oficial do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, a palavra é grafada sem acento nenhum.

Muita gente pergunta como proceder e até mesmo se “é melhor padronizar” uma só grafia (por exemplo, “fôrma” sempre que se pretender mencionar certo utensílio próprio para fazer bolos).

Se a intenção fosse “padronizar” uma grafia, teriam sido registrados dois verbetes (forma e fôrma), um deles com acento diferencial. Não era isso o que se queria fazer até mesmo porque quase todos os acentos diferenciais deixaram de existir.

O que se estabeleceu foi a possibilidade de usar esse acento nos casos em que a sua ausência pudesse tornar o texto ambíguo.  Vale como exemplo desse tipo de situação o trecho do poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, em que os dois termos, “forma” (ó) e “forma” (ô), aparecem juntos, no mesmo verso. Vamos relembrá-lo (segue um trecho do poema com a acentuação atualizada segundo as regras ora vigentes):

O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: — Meu cancioneiro

É bem martelado.

 

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos!

 

O meu verso é bom

Frumento sem joio

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

 

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A fôrmas a forma.

 

Nesse texto, um dos estandartes do modernismo brasileiro, Manuel Bandeira faz uma sátira dos poetas parnasianos, que se preocupavam excessivamente com o formato do poema, com as regras de versificação. Os modernistas acenavam, então, com o verso livre, sem rimas e sem regularidade métrica.

O sapo parnasiano do poema dá sua lição: “Reduzi sem danos/ A fôrmas a forma” . Com isso, ele quer dizer que as formas poéticas devem se encaixar em espécies de “fôrmas”. Agora, vejamos o texto sem o acento em “fôrmas”: “Reduzi sem danos/ A formas a forma”.

Fica mais difícil compreender de imediato a ideia, embora a rima  (“norma” rima com “forma”) nos ajude a chegar à interpretação desejada. Com o acento, o entendimento da passagem é imediato. Fica claro que não há necessidade de usar acento na palavra que integra a expressão “pão de forma”, por exemplo. Também não há necessidade do acento quando listamos os utensílios de cozinha (pratos, talheres, tigelas, formas, copos). Não é preciso “padronizar” nada. Basta o bom senso.

É importante observar que esse princípio (o do acento facultativo) já existe em alguns casos de emprego do acento grave (indicador de crase). Todos sabemos que a crase é a fusão de dois “aa” e que é essa fusão que assinalamos com o acento grave (à). Existe, porém, a possibilidade de usar esse sinal sem que ocorra, de fato, a crase – unicamente para evitar a ambiguidade. A título de exemplo, observemos uma frase como “Recebeu o sogro a bala”. Podemos entender que o sogro recebeu a bala (foi baleado) ou que alguém recebeu o próprio sogro a tiros. Vale lembrar que, nas locuções adverbiais de instrumento (é o caso de “a bala”), não aparece o artigo e, por conseguinte, não ocorre a crase. Caso a intenção do produtor da frase fosse dizer que o sogro foi recebido a bala, seria possível (e recomendável) escrever “Recebeu o sogro à bala”. Esse acento ajuda na compreensão imediata do sentido da frase.

É claro que qualquer frase sempre está inserida em um contexto ou em uma situação de comunicação, que é o que, de fato, garante a sua compreensão. Recursos facilitadores, como são esses acentos facultativos, podem, porém, facilitar esse processo.

A Indesejada das gentes

Por Thaís Nicoleti
24/07/14 10:00

CONSOADA

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga:

final sala de leitura — Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

O poema é de autoria de Manuel Bandeira, poeta que se notabilizou por tratar do tema morte em sua obra.O título do texto, “Consoada”, pode referir-se à ceia da noite de Natal na tradição católica ou a uma leve refeição noturna, sem carne, que se toma em dia de jejum.

Na leitura atenta de um poema, vale observar os possíveis significados de cada termo ou expressão, pois a linguagem figurativa é polissêmica, isto é, aciona, ao mesmo tempo, mais de um significado.

No verso inicial, Bandeira emprega uma antonomásia, ao substituir a palavra “morte” pela perífrase “a Indesejada das gentes”; em seguida, então entre parênteses, o poeta demonstra dúvida sobre o modo de ela se apresentar — “dura” ou “caroável” ( “afável, gentil, afetuosa”) — e sobre a reação dele diante dela.

Os termos “dia” e “noite” são metáforas de “vida” e “morte”, respectivamente. Em seguida, o poeta retoma o uso dos parênteses, como se estivesse expressando algo tomado como ideia secundária: “a noite com seus sortilégios”. “Sortilégio” pode significar tanto “magia ou feitiço” como “sedução, fascínio, encanto” e até mesmo “conspiração ou maquinação”. Todos os significados são cabíveis e complementares no contexto.

Nos versos finais,  “Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,/ A mesa posta,/ Com cada coisa em seu lugar”, vale notar o emprego dos particípios (lavrado, limpa, posta) com valor de adjetivos em função de predicativo do objeto. Na função de predicativo, o adjetivo passa a caracterizar um ser tomado em determinado momento ou circunstância. Quando a morte chegar,  o campo estará lavrado, a casa estará limpa e a mesa estará posta.

O poeta, portanto, sente-se preparado para esse momento. Sente que “cumpriu sua missão”, ou seja, viveu.

Um dos maiores poetas brasileiros do século 20, o pernambucano Manuel Bandeira faleceu com 82 anos de idade, em outubro de 1968. Seu legado estará sempre entre nós.

Nos últimos dias, perdemos João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna, outros três grandes que nos deixam importante herança. Que seu desaparecimento físico seja apenas a sua passagem para a imortalidade.

Publicidade
Publicidade
Publicidade

Folha Shop