Perfil Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL.

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Ortografia é assunto no Senado; leia entrevista com prof. Evanildo Bechara

Por Thaís Nicoleti
16/09/14 13:29

O Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90) entrou em vigor no Brasil em 1º de janeiro de 2009 e, desde então, os usuários da língua escrita vêm passando por um processo de aprendizado das novas regras e de adaptação a elas. Como já foi dito inúmeras vezes, no que se refere ao português do Brasil, a mudança atingiu 0,5% do léxico, o que, convenhamos, representa uma parcela bem pequena do conjunto de palavras do idioma.portugues em dia

No sexto ano de vigência do Acordo, o acento agudo nos ditongos abertos das paroxítonas e o trema já parecem coisa do passado. O sistema de hifenização dos prefixos também  ficou bem mais simples que o anterior, mas, como não se está lidando com uma ciência exata, sobram aqui e ali exceções ou casos em que foi necessário interpretar o documento oficial — à luz, é claro, de seus princípios.

O trabalho de estabilização das normas propostas pelo Acordo foi feito pela Academia Brasileira de Letras, cuja Comissão de Lexicografia tem entre seus membros o lexicógrafo Evanildo Bechara, professor titular da UERJ e da UFF e doutor honoris causa da Universidade de Coimbra. Bechara dispensa apresentações para aqueles que têm na língua portuguesa o seu ofício, pois suas gramáticas são referência para qualquer estudioso do assunto, dentro e fora das universidades.

Apesar de as alterações propostas pelo Acordo terem sido mínimas, como convém a uma boa reforma ortográfica, críticas tanto ao texto do Acordo como à sua interpretação feita pela Comissão de Lexicografia da ABL, responsável pela confecção do VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), vêm aparecendo na imprensa. Recentemente, diversos sites e jornais divulgaram a existência de um grupo de trabalho técnico, designado pela Comissão de Educação do Senado, cujo objetivo é rever, reformar, revisar ou, quem sabe, revogar o Acordo (AO 90), com base no que esse próprio grupo considera serem “incoerências” ora do Acordo, ora do VOLP.

Um dos coordenadores desse grupo (GTT) vem divulgando uma proposta de “simplificação da ortografia” — exatamente aquela que chegou à imprensa e que foi objeto de celeuma até que o Senado desmentisse tê-la posto em discussão. A proposta, de autoria de Ernani Pimentel, professor de português que atua em Brasília, é polêmica, pois sugere uma transformação radical da ortografia do português, ou seja, a adoção de um critério estritamente fonético (grosso modo, escrever como se fala). Embora ainda não esteja em discussão, a proposta existe e é defendida por um professor a quem coube coordenar os trabalhos de revisão do Acordo Ortográfico na Comissão de Educação do Senado.  Um dos sites de Pimentel, em que apresenta suas ideias, intitula-se Acordar Melhor, pois sua intenção é “melhorar o Acordo”.

Será muito difícil, porém, que uma proposta como essa seja aceita em todos os países da chamada lusofonia, o que seria condição para a sua implantação, já que o Brasil assinou um Acordo de Unificação Ortográfica. Aliás, vale lembrar que o motivo dessa reforma ortográfica, vigente desde 2009, foi o projeto de unificação da ortografia nos países em que o português tem status de língua oficial. A menos que se revogue o Acordo e que se desista da ideia de unificação ortográfica, o professor Pimentel terá de convencer os demais países da CPLP a escrever omem, caxorro, ezérsito etc. A tarefa parece difícil. No Brasil, embora tenha chegado ao Senado, a ideia parece não ter tido ressonância nas universidades, entre os estudiosos da língua.

De resto, há os que, sem apresentarem qualquer proposta concreta de mudança, apontam supostas incoerências no Acordo e conclamam ao debate quaisquer cidadãos que tenham quaisquer propostas.Talvez seja mais sensato admitir que algumas exceções não são incoerências ou, havendo o entendimento de que o sejam, indicar a solução para eliminá-las sem incorrer em outras “incoerências”.

O assunto pode parecer simples, ao alcance de todos, mas o processo de sistematização da ortografia é repleto de sutilezas e requer o conhecimento especializado de filólogos e demais estudiosos da língua. Se assim não for, estaremos a ponto de respaldar escolhas idiossincráticas apresentadas como “democráticas”.  O que mais espanta, a esta altura, é que o Senado se tenha mobilizado em prol de uma causa que se resume na suposta incoerência da grafia de uma dezena de palavras do idioma, se tanto.

ENTREVISTA

A seguir, o professor Evanildo Bechara comenta a questão em entrevista ao blog:

Thaís Nicoleti -Recentemente, foi assunto de grande número de reportagens na imprensa um projeto de simplificação da ortografia defendido por um professor de português de Brasília, ora designado coordenador de um grupo de trabalho 

portugues em pautatécnico da Comissão de Educação do Senado constituído com o intuito de rever as modificações da ortografia do português decorrentes da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.  O senhor deve ter tomado conhecimento dessas ideias (o “ch” seria substituído por “x”, o “h” inicial seria suprimido etc.). Que pensa o senhor acerca desse projeto? Há vantagens em privilegiar a fonética como critério de ortografia?

Evanildo Bechara – A substituição de “ch” por “x” em qualquer posição na palavra é proposta de um sistema ortográfico chamado fonético, proposta que vem sendo trazida à baila pelo menos desde o século XIX, à qual sempre os especialistas e os usuários responderam com providencial negativa. Muitos são os problemas que tal proposta traz como consequência. A primeira é a extinção dos homófonos não homógrafos, do tipo de seção, sessão e cessão, que ficam reduzidos a uma só grafia: sesão, o que, com certeza, prejudicará a compreensão da mensagem. A segunda é a necessidade de criar novos símbolos ortográficos ou maneira de representá-los: é o caso da diferença entre o “r” de ira e “rr” de terra. Um sistema antigo representava o “r” simples com “r” e o “r” múltiplo com “R”, grafando então ira e teRa. E assim por diante. Elimina-se o “h” de omem e oje, mas como fazer com o “h” dos dígrafos palatais lh (palha), nh (manhã)?

TN – Sim. Uma expressão como “hora H” teria de ser grafada “ora agá” e, a meu ver, perderia o sentido, pois o “h” é o “h” de hora. Enfim,  o argumento em que se baseia a proposta é o de que o processo de alfabetização se tornaria mais simples e, consequentemente, mais barato.

EB – Quanto à tese de que tal sistema simplifica o processo de alfabetização, a ciência e a experiência do real mostram-nos que tal relação é falsa. Se fora verdadeira, franceses e ingleses seriam analfabetos por terem grafias mais abstrusas que as nossas. E eles estão na vanguarda da nossa civilização. Nada substitui uma boa escola e competentes professores.

TN – Ouvem-se críticas ao fato de a última edição do  Vocabulário Ortográfico, pós-Acordo Ortográfico, registrar grafias duplas, como é o caso de “bi-hebdomadário” e “biebdomadário” ou mesmo de “ad-renal” e “adrenal”, “ab-rupto” e “abrupto”, “sub-humano” e “subumano”, “carboidrato” e “carbo-hidrato” etc.

EB – Quanto à duplicidade de grafias em biebdomadário, o caso é frequente em palavras eruditas das ciências e das tecnologias. Grafias duplas como abrupto e ab-ruptoadrenal e ad-renal são realidades da língua, em pleno uso. A forma adrenal, com o encontro consonantal que se profere em Adriano, nos foi legada pelo inglês, por isso corretamente o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa a agasalha, ao lado de outras tantas.

TN - Há quem critique o fato de a ABL ter optado pela grafia “coerdeiro” no Vocabulário Ortográfico, em dissonância com o texto do Acordo, no qual a grafia “co-herdeiro” aparece como um dos exemplos de emprego do hífen (Base XVI). Qual é a sua explicação para isso?

EB – Em mais de um artigo já expliquei o engano em conservar no Acordo Ortográfico de 1990 a grafia co-herdeiro, novidade trazida pelo ortógrafo português Rebelo Gonçalves, em 1940, e agasalhada pelas reformas de 1943 e 1945. Baseava-se Gonçalves numa pseudodiferença semântica desse prefixo. Desde a reforma de 1911, bem melhor que as sucedâneas, usava-se coerdeiro. Como o Acordo Ortográfico de 1990 está muito ligado à reforma portuguesa de 1945, escapou esse exemplo “co-herdeiro” , que contraria a lição deste último na Base XVI, 1º , b, obs. “Nas formações com prefixo co -  este aglutina-se em geral com o segundo elemento mesmo quando iniciado por o“. Por isso, se escrevo coabitar sem hífen e sem h inicial, terei de escrever coerdeiro, como propõe corretamente o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

TN – Há críticas ao fato de “paraquedas” ter passado a se escrever sem hífen, enquanto outras formações aparentemente similares continuaram a ser escritas com hífen (para-choque, para-raios, para-brisa, por exemplo). Tenho a impressão de que a grafia “paraquedas” se justifica não só pelo uso que já se fazia antes do Acordo como pelo fato de a palavra ter derivados, uma família de cognatos (paraquedismo, paraquedista), nos quais já se deu a sufixação, coisa que contribui para que se perca a percepção da composição. Como isso não ocorre com os demais termos considerados semelhantes quanto à formação, as soluções gráficas foram diferentes. Gostaria de ouvir a sua explicação.

EB – Tecnicamente, o bom ortógrafo tem de levar em conta a história de cada palavra dentro do léxico, razão por que recomenda a aglutinação das mais antigas, como girassol, mandachuva, pontapé, paraquedasPara-choque não é similar a paraquedas na história do léxico. Chegará o dia em que para-choque se usará aglutinadamente. Razões desta natureza justificam dizermos que uma reforma ortográfica, como tudo que ocorre nos domínios de uma língua histórica, é objeto de técnicos, e não de um simples usuário, por mais boa intenção que o mova.

TN – No início da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990, houve o entendimento de que a grafia “benfeito” substituiria a forma hifenizada “bem-feito”, uma vez que o Vocabulário não trazia a forma verbal “bem-fazer” nem o seu particípio, “bem-feito”. Aparentemente, essa mudança não foi bem-vinda. Ouviam-se muitas críticas a ela etc. Posteriormente, foi lançada uma Errata do Vocabulário Ortográfico em que voltou a aparecer a forma “bem-fazer”, da qual se deduz a grafia “bem-feito”. A ABL voltou atrás?

EB – No caso de benfeito, a Academia não voltou atrás; é que existe o verbo benfazer do qual saem derivados como benfeitor, benfeitoria.

TN – Sim. Vale então a distinção registrada no dicionário “Houaiss”: “benfazer” é praticar o bem, realizar benfeitorias, enquanto “bem-fazer” é fazer algo com capricho, com esmero. Outro caso interessante: a palavra “extraordinário”, no sistema antigo, era vista como exceção à regra de hifenização e hoje ela deixa de ser exceção para ser regra; palavras como “ultrassom” e “ultrassonografia” já se escreviam dessa forma quando o sistema (o antigo) previa uso de hífen (“ultra-som”, “ultra-sonografia”). “Paraquedas” e “paraquedismo” também se escreviam sem hífen mesmo na vigência do sistema antigo, quando oficialmente deveriam ser escritas com hífen e acento (“pára-quedas”, “pára-quedismo”). O uso generalizado foi levado em consideração na hora de propor a mudança?

EB – Essas são decisões que o uso consagra, para depois mudar a fim de atender a um novo princípio.

TN – Professor Evanildo Bechara, o assunto é fascinante e poderíamos falar muito sobre as palavras, sua história, suas mudanças de significado e seu indissociável vínculo com a vida social. Gostaria, finalmente, de que o senhor externasse sua opinião sobre a ideia do GTT do Senado de “democraticamente” abrir a discussão sobre a ortografia, facultando a qualquer cidadão o direito de propor um projeto que “melhore” o trabalho empreendido pela ABL na interpretação do texto do Acordo e na confecção do Vocabulário (VOLP).

EB – A língua é uma organização criada pelo espírito humano e deve ser estudada como uma ciência. Não é domínio de palpiteiros despreparados ou inocentes bem-intencionados. Já mais de uma vez disse aos reformistas do movimento que “Acordar melhor” deve ser interpretado não como “fazer melhor acordo”, mas como “despertar melhor, “abrir mais os olhos” ao tentar dar sugestões sobre a língua.

Com “h” ou sem “h”?

Por Thaís Nicoleti
22/08/14 17:53

O Senado atribui a boato em rede social a divulgação de uma proposta radical de mudança na ortografia do português. O assunto ganhou as redes sociais, no entanto, depois de ter sido tema de reportagens publicadas no UOL e em outros veículos da imprensa. A reportagem do UOL foi modificada hoje.

Texto hoje publicado no site do Senado explica que, embora exista, essa proposta não foi formalizada, portanto não está em discussão.portugues em dia

Isso não significa, porém, que não venha a ser formalizada e discutida futuramente, já que seu autor é um dos coordenadores de um grupo técnico de trabalho constituído pela Comissão de Educação da casa com o objetivo de rever o Acordo Ortográfico.

A divulgação das demais propostas daria mais transparência ao processo, permitindo o enriquecimento do debate, e sobretudo evitaria que boatos se disseminassem nas redes sociais e até na imprensa.

Quem precisa abolir o “h”?

Por Thaís Nicoleti
20/08/14 17:13

Parece mentira, mas é verdade. Existe no Senado uma proposta de reforma ortográfica que mudaria radicalmente a grafia das palavras do português. portugues em dia

Entre as alterações desejadas por quem concebeu a ideia está a supressão do “h” inicial dos vocábulos. Na prática, a “hora H” viraria algo como “ora agá” e desapareceria a letra muda inicial de  homem, humano, herói, humildade, habitação, horta, hierarquia etc. O verbo “haver” sem “h” (“aver”) produziria algumas conjugações curiosas: eu ei de vencer, ele á de entender isso, aja paciência!…

O argumento brandido é o da “simplificação” da ortografia. Considera-se ser mais simples escrever como se fala, suprimindo, portanto, o “h” mudo, que não teria função. Essa linha de raciocínio leva a outras sugestões, como a extinção da letra “u” dos dígrafos “qu” e “gu”, o que resultaria em grafias como “qilombo” (no lugar de “quilombo”) e “gerra” (no lugar de “guerra”). “Casa” com “z” (“caza”) e “cachorro” com “x” (“caxorro”) passariam a ser as grafias corretas.

É muito improvável que a população brasileira se entusiasme com uma proposta radical como essa. Basta lembrar a saraivada de críticas de que foi alvo o Acordo Ortográfico de 1990 (vigente desde 2009), responsável por pequenas alterações (acentos e hifens) em 0,5% do léxico.

Quem diz que uma ortografia marcadamente fonética teria o poder de multiplicar o número de leitores pressupõe que as pessoas leiam pouco ou não saibam ler porque a ortografia é “difícil”.  Esse é um raciocínio algo contorcionista, pois, sendo a leitura um inegável canal de aprendizado da língua, o estímulo a essa prática é que pode tornar mais fácil o aprendizado não só da ortografia em si mas da língua como um todo.

Nada indica que os índices de analfabetismo ou de analfabetismo funcional se reduzam caso a ortografia se torne fonética. A informação etimológica que as palavras carregam, seja nas letras mudas, seja nas letras diferentes que representam um mesmo som, insere-as na história da língua e faculta ao professor o ensino integrado de aspectos morfossintáticos e semânticos.

O mínimo que se pode dizer dessa aventura reformista é que atribui à ortografia um papel muito maior do que aquele que ela realmente tem. O perigo é que um projeto desse teor sirva para mascarar as verdadeiras deficiências do ensino e as reais necessidades de investimento nessa área tão importante para o desenvolvimento do país.

Um acento facultativo

Por Thaís Nicoleti
11/08/14 20:14

O Novo Acordo Ortográfico, em vigor desde 2009, faculta o emprego do acento circunflexo na palavra “forma” quando pronunciada com “o” fechado, mas não o torna obrigatório.  portugues em diaNo registro oficial do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, a palavra é grafada sem acento nenhum.

Muita gente pergunta como proceder e até mesmo se “é melhor padronizar” uma só grafia (por exemplo, “fôrma” sempre que se pretender mencionar certo utensílio próprio para fazer bolos).

Se a intenção fosse “padronizar” uma grafia, teriam sido registrados dois verbetes (forma e fôrma), um deles com acento diferencial. Não era isso o que se queria fazer até mesmo porque quase todos os acentos diferenciais deixaram de existir.

O que se estabeleceu foi a possibilidade de usar esse acento nos casos em que a sua ausência pudesse tornar o texto ambíguo.  Vale como exemplo desse tipo de situação o trecho do poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, em que os dois termos, “forma” (ó) e “forma” (ô), aparecem juntos, no mesmo verso. Vamos relembrá-lo (segue um trecho do poema com a acentuação atualizada segundo as regras ora vigentes):

O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: — Meu cancioneiro

É bem martelado.

 

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos!

 

O meu verso é bom

Frumento sem joio

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

 

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A fôrmas a forma.

 

Nesse texto, um dos estandartes do modernismo brasileiro, Manuel Bandeira faz uma sátira dos poetas parnasianos, que se preocupavam excessivamente com o formato do poema, com as regras de versificação. Os modernistas acenavam, então, com o verso livre, sem rimas e sem regularidade métrica.

O sapo parnasiano do poema dá sua lição: “Reduzi sem danos/ A fôrmas a forma” . Com isso, ele quer dizer que as formas poéticas devem se encaixar em espécies de “fôrmas”. Agora, vejamos o texto sem o acento em “fôrmas”: “Reduzi sem danos/ A formas a forma”.

Fica mais difícil compreender de imediato a ideia, embora a rima  (“norma” rima com “forma”) nos ajude a chegar à interpretação desejada. Com o acento, o entendimento da passagem é imediato. Fica claro que não há necessidade de usar acento na palavra que integra a expressão “pão de forma”, por exemplo. Também não há necessidade do acento quando listamos os utensílios de cozinha (pratos, talheres, tigelas, formas, copos). Não é preciso “padronizar” nada. Basta o bom senso.

É importante observar que esse princípio (o do acento facultativo) já existe em alguns casos de emprego do acento grave (indicador de crase). Todos sabemos que a crase é a fusão de dois “aa” e que é essa fusão que assinalamos com o acento grave (à). Existe, porém, a possibilidade de usar esse sinal sem que ocorra, de fato, a crase – unicamente para evitar a ambiguidade. A título de exemplo, observemos uma frase como “Recebeu o sogro a bala”. Podemos entender que o sogro recebeu a bala (foi baleado) ou que alguém recebeu o próprio sogro a tiros. Vale lembrar que, nas locuções adverbiais de instrumento (é o caso de “a bala”), não aparece o artigo e, por conseguinte, não ocorre a crase. Caso a intenção do produtor da frase fosse dizer que o sogro foi recebido a bala, seria possível (e recomendável) escrever “Recebeu o sogro à bala”. Esse acento ajuda na compreensão imediata do sentido da frase.

É claro que qualquer frase sempre está inserida em um contexto ou em uma situação de comunicação, que é o que, de fato, garante a sua compreensão. Recursos facilitadores, como são esses acentos facultativos, podem, porém, facilitar esse processo.

A Indesejada das gentes

Por Thaís Nicoleti
24/07/14 10:00

CONSOADA

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga:

final sala de leitura — Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

O poema é de autoria de Manuel Bandeira, poeta que se notabilizou por tratar do tema morte em sua obra.O título do texto, “Consoada”, pode referir-se à ceia da noite de Natal na tradição católica ou a uma leve refeição noturna, sem carne, que se toma em dia de jejum.

Na leitura atenta de um poema, vale observar os possíveis significados de cada termo ou expressão, pois a linguagem figurativa é polissêmica, isto é, aciona, ao mesmo tempo, mais de um significado.

No verso inicial, Bandeira emprega uma antonomásia, ao substituir a palavra “morte” pela perífrase “a Indesejada das gentes”; em seguida, então entre parênteses, o poeta demonstra dúvida sobre o modo de ela se apresentar — “dura” ou “caroável” ( “afável, gentil, afetuosa”) — e sobre a reação dele diante dela.

Os termos “dia” e “noite” são metáforas de “vida” e “morte”, respectivamente. Em seguida, o poeta retoma o uso dos parênteses, como se estivesse expressando algo tomado como ideia secundária: “a noite com seus sortilégios”. “Sortilégio” pode significar tanto “magia ou feitiço” como “sedução, fascínio, encanto” e até mesmo “conspiração ou maquinação”. Todos os significados são cabíveis e complementares no contexto.

Nos versos finais,  “Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,/ A mesa posta,/ Com cada coisa em seu lugar”, vale notar o emprego dos particípios (lavrado, limpa, posta) com valor de adjetivos em função de predicativo do objeto. Na função de predicativo, o adjetivo passa a caracterizar um ser tomado em determinado momento ou circunstância. Quando a morte chegar,  o campo estará lavrado, a casa estará limpa e a mesa estará posta.

O poeta, portanto, sente-se preparado para esse momento. Sente que “cumpriu sua missão”, ou seja, viveu.

Um dos maiores poetas brasileiros do século 20, o pernambucano Manuel Bandeira faleceu com 82 anos de idade, em outubro de 1968. Seu legado estará sempre entre nós.

Nos últimos dias, perdemos João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna, outros três grandes que nos deixam importante herança. Que seu desaparecimento físico seja apenas a sua passagem para a imortalidade.

Existe “linchamento” sem morte?

Por Thaís Nicoleti
11/06/14 10:24

 

O verbo “linchar”, proveniente da língua inglesa (da lei de Lynch, de origem controvertida, mas relacionada a execuções sumárias nos Estados Unidos da América), é nosso velho conhecido, porém recentemente seu uso causou dúvida na Redação da Folha. Afinal, “linchar” pressupõe ou não a ideia de “matar”? final portugues na folha

No entendimento expresso no dicionário “Houaiss”, o verbo pode indicar tanto a “execução sumária da vítima por ação de um grupo” (primeiro significado) quanto a “prática coletiva (por uma multidão) de graves atos de violência contra alguém” (segundo significado). Na segunda acepção, a morte pode ou não ocorrer. O que definiria, então, o ato de linchar seria a agressão coletiva contra alguém. Daí, provavelmente, vem o sentido figurado do termo, hoje largamente usado na expressão “linchamento moral”.

O fato de ambas as interpretações estarem consagradas no dicionário significa que ambas vêm sendo suficientemente empregadas pelos falantes da língua portuguesa. A dificuldade de optar por um ou outro sentido levou a muita discussão e a diferentes “soluções” pelos redatores. Vejamos duas construções:

(1)   “Homem que escapou de linchamento recebe alta” (“Cotidiano”, 15.5.14)

(2)   “…disse estar agradecido por estar vivo após sofrer uma tentativa de linchamento”. (“Cotidiano”, 15.5.14)

À primeira vista, as soluções parecem ter sido boas, dado que a vítima sobreviveu ao espancamento coletivo. Ocorre, porém, que, em (1), é possível interpretar que o homem escapou da pancadaria, não somente da morte, quando o que, de fato, ocorreu foi ter ele sido espancado por um grupo grande de pessoas e ter sobrevivido. Diríamos, então, com mais propriedade, que ele “escapou da morte”. Jornalisticamente, porém, não seria possível usar “morte” , ignorando o espancamento.

No fragmento (2), temos um problema semelhante, pois há quem interprete que as pessoas tentaram espancá-lo, mas não conseguiram levar a termo a empreitada, o que não corresponde à verdade. Que fazer, então?

Lembremos que os dois sentidos do termo (“linchamento”) são possíveis, mas que o compromisso com a clareza e a precisão deve preceder quaisquer opções de redação. Dessa forma, sendo o primeiro deles aquele que pressupõe a morte da vítima, numa construção como “fulano foi linchado”, por certo entenderemos que “fulano morreu vítima de linchamento” e, caso a pessoa não tenha morrido, aí sim, o redator se obrigará a deixar isso claro no texto (fulano sobreviveu ao linchamento, por exemplo). Vejamos opções aos fragmentos acima:

Homem que sobreviveu a linchamento recebe alta

…disse estar agradecido por estar vivo após ter sido vítima de linchamento

Fulano, beltrano e… sicrano

Por Thaís Nicoleti
06/06/14 20:01

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A imagem ao lado ilustrava um texto sobre comportamento na internet, publicado numa das páginas do portal UOL.

Não demorou muito até que alguém questionasse o uso da palavra “ciclano”. O fato é que, embora se ouça com alguma frequência essa forma, o termo que usamos para substituir o nome de uma pessoa, depois de “fulano” e “beltrano”, é “sicrano”.

Sua origem é controversa e mesmo bons etimologistas se abstêm de arriscar uma explicação definitiva sobre ela. O fato é que “fulano” vem do árabe e significa “um certo”, “determinado”, enfim, algo próximo do nosso pronome indefinido “alguém”.

A vantagem de usar “fulano” é que se pode mencionar na mesma sequência um “segundo fulano”, então por meio da palavra “beltrano”, cuja origem costuma ser atribuída ao nome próprio Beltrão, e um “terceiro”: o “sicrano”.

Obras de referência, como dicionários, costumam indicar a ordem “fulano, beltrano e sicrano”. De fato, ninguém usará “beltrano” ou “sicrano” sem antes ter mencionado “fulano”. Tudo indica que a terminação “-ano” desses termos tenha derivado do final da palavra “fulano”, à qual elas necessariamente se seguem. final o leitor quer saber

Vale observar que esses são termos expressivos, próprios da linguagem oral, o que torna ainda mais difícil descobrir a sua origem. Seja como for, o “fulano” faz tanto sucesso na linguagem informal que já ganhou flexão de gênero (fulana) e até de grau (fulaninho),  acentuando-se nesses casos o caráter pejorativo que o uso lhe vem emprestando. Há quem dê ao fulano um sobrenome (fulano de tal) e há ainda quem derive dele um verbo.

Já existe registro do termo “fulanizar”, que se emprega para dizer que  alguém atribui nome ou identificação a pessoas de início indeterminadas ou cuja identificação não interessa para discutir uma questão. Tomemos como exemplo uma discussão sobre o tema da corrupção em que um dos debatedores cite pessoas acusadas de ter cometido esse tipo de delito e o outro diga que não gostaria de “fulanizar” o debate, com isso querendo dizer que  não gostaria de mencionar nomes ou de mencionar casos concretos associados a uma ou outra pessoa em particular. O verbo, por sua vez, dá origem ao substantivo “fulanização” – e assim a língua continua seu processo de renovação.

 

 

Literalmente atropelado por uma informação

Por Thaís Nicoleti
01/06/14 14:51

 

Não faz muito tempo que um importante personagem da cena política brasileira, com a intenção de desmentir um boato, disse que tinha sido “literalmente atropelado” pela suposta informação de que seria pré-candidato a vice-presidente na chapa presidencial de seu partido. portugues na rua (1)

 

Como ele, não são poucas as pessoas que vêm usando o advérbio “literalmente” como uma espécie de advérbio de intensidade, por isso vale a pena refletir sobre o significado dessa palavra.

“Literalmente” quer dizer “em sentido literal”, “no sentido exato da palavra”. Empregar esse advérbio serve para avisar o leitor ou o interlocutor de que a expressão modificada não deve ser tomada em seu sentido figurado. Não se trata de metáfora, mas de sentido literal.

Alguém que diz ter sido “atropelado por uma informação” não pode estar empregando o verbo literalmente. A expressão em si já é conotativa (metafórica). Uma pessoa que tenha sido literalmente atropelada por certo terá sofrido um acidente, poderá ter-se machucado etc.

Bastaria, então, ter dito que foi “atropelado pela informação”, o que já seria bastante enfático. :)

 

 

Pronomes pessoais: registro oral e registro formal

Por Thaís Nicoleti
29/05/14 18:10

Não é de hoje que os falantes do português, pelo menos os do Brasil, vêm usando o pronome pessoal do caso reto  na posição de objeto direto. Estamos falando de construções que ouvimos diariamente, como “Eu chamei ele”, “Fulano encontrou ela na festa”, “O motorista do outro carro xingou ela”, todas muito familiares aos nossos ouvidos no dia a dia.portugues em dia

É interessante observar que esse uso é generalizado mesmo entre falantes escolarizados, desde que estejam operando em um registro informal da língua. O emprego dos pronomes átonos nessas frases (“Eu o chamei”, “Fulano encontrou-a na festa”, “O motorista do outro carro xingou-a”) é incomum na fala.  Isso é fato, mas não é motivo para negligenciarmos o seu uso nas comunicações formais – pelo menos, não ainda.

Vale notar que esse “desvio” da norma culta não ocorre igualmente com os pronomes retos das outras pessoas gramaticais. Não se ouve, por exemplo, algo como “ele viu eu” entre aqueles mesmos falantes que não hesitam em dizer “ele viu ela”. Na primeira pessoa do singular, a distinção entre o pronome reto (de sujeito) e o oblíquo (de objeto) continua intacta (“Ele me viu”, “Eu vi alguém”).

O pronome átono “te”, por sua vez, embora seja da segunda pessoa do singular, é largamente empregado por falantes que não fazem uso do pronome “tu” (pronome do caso reto de segunda pessoa).Na prática, os falantes misturam as pessoas gramaticais, realizando construções do tipo “Você me pediu ajuda e eu te disse o que fazer”. “Você”, pronome de tratamento, é da terceira pessoa e “te” é da segunda.

Nas aulas de português, é comum que se trate tudo isso como “erros” a corrigir, muitas vezes reduzindo uma questão complexa à determinação de uma forma certa em contraposição à(s) errada(s). Quando fazemos isso, deixamos de observar o que a realidade teima em nos mostrar: o dinamismo da língua.

Nas universidades, os linguistas elegem a língua como seu objeto de estudo e buscam descrevê-la exatamente como ela se apresenta, “ao natural”. É por isso que, nesse nível de estudo, nunca se fala em erro e acerto.

De fato, não há como controlar o modo como as pessoas falam (é por isso que projetos de criar leis antiestrangeirismos nunca são levados a sério).  Quando alguém se põe a escrever, porém, a história é outra. O texto redigido não é espontâneo, mas fruto de reflexão. É por isso que, nesse tipo de registro, é esperado que as pessoas façam uso da norma-padrão, mais adequada à expressão concisa, clara e precisa das ideias.

Existem escritores que optam por levar o registro oral para as páginas de livros – e o fazem deliberadamente, obtendo com isso grande expressividade.

A linguagem que se pode (e se deve) regular é a dos textos informativos, objetivos, de caráter formal. Dessa forma, a mesma pessoa que  disse ao colega de trabalho que “o motorista xingou ela” poderá redigir uma carta a seu superior hierárquico na empresa empregando os pronomes átonos na posição de objeto direto (“Os documentos foram enviados ao setor jurídico. Depois de analisá-los, a equipe os devolverá ao senhor”).

Mudança na ordem dos termos evita duplo sentido

Por Thaís Nicoleti
22/05/14 15:32

“Pê-efe ‘secreto’ do McDonald’s não vale o preço, como os lanches”final portugues na folha

A frase foi título de uma crítica de gastronomia, publicada no caderno “Comida”, da Folha. À primeira vista, nenhum problema. Parece mesmo que o crítico, literalmente, “comeu e não gostou”.

O problema, percebido por algumas pessoas, está na segunda parte do enunciado, aquela iniciada pelo conectivo de comparação (“como”). Teria sido a intenção do autor estender a crítica aos lanches (nem o pê-efe nem os lanches valem o preço cobrado por eles) ou teria pretendido dizer que o pê-efe não vale o preço, como valem os lanches (os lanches valem, o pê-efe não)?

O texto que se segue a esse título, porém, não deixa dúvida de que, para o crítico, nem o pê-efe nem os lanches valem o preço que custam. Como, então, deixar isso claro já na chamada? A solução mais rápida (sempre haverá outras) seria fazer uma inversão da ordem dos termos. Note que, ao iniciarmos o período com o elemento comparativo, afastamos a ambiguidade. Veja:

Como os lanches, pê-efe “secreto” do McDonald’s não vale o preço

Por que será que isso acontece? O problema está na oração de verbo elíptico (subentendido) “como os lanches”. Posta no final do período, pode dar a entender tanto que o tal verbo elíptico está modificado pelo advérbio de negação quanto o contrário disso (vale/não vale); por outro lado, posta antes, seu significado será naturalmente idêntico ao da oração principal, portanto negativo, como queria o autor.

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