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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Nova ortografia: o trema

Por Thaís Nicoleti

Em primeiro lugar, o que se diz é “o trema”, não “a trema” (como insistem alguns). Trata-se de palavra de origem grega terminada em “-ema”, como tema, dilema, diadema, fonema, problema, estratagema etc., todas masculinas.

Muito bem. O trema foi abolido da ortografia portuguesa há muito tempo, mas, aqui no Brasil, resistiu até 2009. Era empregado para indicar a pronúncia átona do “u” nos grupos gue, gui, que e qui, que podem ser lidos como dígrafos, ou seja, sem que o “u” seja pronunciado.

Hoje, escrevemos guerra, aguentar, aguerrido, linguiça, preguiça, arguição, guindaste, extinguir, distinguir, pinguim, redarguir, antiguidade, delinquente, sequela, aqueduto, aquífero, delinquir, quindim, líquido, liquidação. Será que você sabe ler corretamente todas essas palavras?

Uma dica: das 20 palavras enumeradas acima, nove se escreviam obrigatoriamente com trema (pois nelas a letra “u” é pronunciada), oito delas nunca tiveram trema (pois nelas a letra “u” é muda) e três delas tinham dupla grafia – com ou sem trema – acompanhando a sua dupla pronúncia (“u” pronunciado ou mudo).

Tente separá-las nos três grupos sem consultar os dicionários. Fácil?

Resposta amanhã aqui no blog.

VALE A PENA LEMBRAR

Pegou carona na eliminação do trema a supressão de certo acento agudo que existia na letra “u” dos grupos que, que, qui quando esse “u” era pronunciado de forma tônica. Alguns exemplos – com a grafia antiga – vão refrescar a nossa memória: averigúe, apazigúe, ele argúi, tu argúis, eles argúem. Essas palavras perderam esse acento agudo. Hoje se grafam assim: averigue, apazigue, ele argui, tu arguis, eles arguem.

O verbo “arguir”, normalmente usado no meio jurídico no sentido de alegar como prova ou acusar, mas também empregado, especificamente no Brasil, na acepção de examinar questionando (arguir o aluno sobre uma lição), perdeu não só o trema mas, nas suas flexões, o referido acento agudo. Assim, no presente do indicativo, temos o seguinte: eu arguo, tu arguis, ele argui, nós arguimos, vós arguis, eles arguem e, no pretérito perfeito do indicativo, temos estas formas: eu argui, tu arguiste, ele arguiu, nós arguimos, vós arguístes, eles arguiram.

Concentrando-nos apenas nas formas destacadas acima, temos o seguinte: tu arguis/ vós arguis (presente), ele argui (presente)/ eu argui (passado). A coincidência ocorre apenas nas grafias, cada uma com sua pronúncia. Quem se arrisca a pronunciar corretamente essas quatro formas? Tente responder indicando onde estaria o acento agudo ou o trema segundo a antiga ortografia.

Resposta amanhã aqui no blog.

AINDA SOBRE O TREMA

O trema extinto da língua portuguesa foi apenas o que indicava a pronúncia átona do “u” nos grupos que, qui, gue, gui. O sinal pode aparecer, embora raramente, em palavras derivadas de nomes próprios (como “mülleriano”, por exemplo, que é o adjetivo relativo à obra do alemão Heiner Müller) e, naturalmente, nos nomes estrangeiros que o exijam em sua grafia. Já se lembrou de uma famosa cujo nome leva trema?

Gisele Bündchen, com trema

 

 

 

 

 

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