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Perfil Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL.

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Acordo ortográfico simplifica hifenização

Por Thaís Nicoleti
12/11/12 20:00

É chegado o momento de tratar dos hifens na nova ortografia. O tema, por si só, já deixa muita gente de cabelo em pé. Um dos motivos disso, cá entre nós, é que o sistema antigo também não era dominado com tanta segurança por boa parte dos usuários da língua. Com reforma ou sem reforma, é difícil encontrar quem conheça bem o assunto, excetuando-se, é claro, os profissionais da área. 

Dito isso, uma boa notícia: o sistema de hifenização dos prefixos ficou, sim, mais simples do que era. Para começar, no sistema antigo, era preciso distinguir os prefixos propriamente ditos dos elementos de composição ou falsos prefixos (radicais de origem grega e/ou latina que se antepõem aos termos).

“Hidro-“, do grego,  não é um prefixo propriamente dito, mas um radical que significa “água” ou “líquido”, enquanto “pre-” é um prefixo, um morfema não autônomo capaz de exprimir noções como anterioridade, antecipação etc. Antes era preciso distinguir um de outro para aplicar as regras de hifenização. Hoje isso não é mais necessário. A regra uniformiza todos os elementos antepositivos, tomando como base o que se fazia com os radicais. Daí terem surgido agora muitas palavras com “rr” e “ss”.

Muito bem. Tratemos por ora dos prefixos (todos, verdadeiros e falsos) terminados em vogal. Note bem: terminados em vogal. Se a sua vogal final for idêntica à vogal inicial do termo subsequente, haverá hífen. Assim: extra-abdominal, entre-eixo, micro-ondas etc.

Se o prefixo anteceder um termo iniciado por “h”, também haverá hífen. Assim: micro-habitat, mini-hospital, sobre-humano etc.  Nas demais situações, o prefixo ficará justaposto ao termo subsequente. Assim: antialérgico, extraordinário, infraestrutura, ultravioleta, infravermelho etc.

Quando a palavra subsequente ao prefixo se iniciar por “r” ou por “s”, haverá duplicação da referida consoante. Como todos sabemos, o “s” intervocálico tem som de “z” (asa, casa, mesa etc.), portanto, se escrevêssemos “antisocial”, com um “s” só, teríamos o som de “antizocial”. Para preservar a pronúncia, temos de duplicar o “s”. Assim: antissocial, autossuficiente, minissaia, ultrassom etc. O mesmo raciocínio vale para a letra “r”. Basta lembrar a distinção de pronúncia entre “caro” e “carro”. Teremos, portanto, grafias como estas: autorreferência, autorretrato, antirracista, extrarregulamentar etc. Observe que os “ss” e “rr” só aparecem entre duas vogais.

Essa é a regra básica de hifenização dos prefixos. Em resumo: separar por hífen as letras iguais, separar por hífen o h e dobrar “ss” e “rr” entre duas vogais.

Se você entendeu, responda rápido: carboidrato ou carbo-hidrato? O novo figurino manda hifenizar, certo? Certíssimo. “Carbo-” é um daqueles elementos de composição que sempre ficaram colados no termo seguinte. Segundo o sistema antigo, o “h”, por ser letra muda, desaparecia, daí a forma consagrada “carboidrato” que todos conhecemos. O sistema novo, porém, valoriza o “h” do radical. “Carboidrato” é uma palavra muito usada – para além dos estudos de química, o carboidrato é tema frequentíssimo em reportagens sobre boa forma, dietas etc.  Será que isso faz diferença?

Sim, mais do que possa parecer. A ABL (Academia Brasileira de Letras) não bateu o martelo sobre essa questão. Entendeu manter as duas grafias como oficialmente corretas. Muitos leitores hão de ficar irritados (com razão!), mas o fato é que fazer voltar uma letra que tinha sido suprimida é mais difícil do que suprimir uma letra ou um sinal gráfico qualquer. Muitos falantes não percebem mais o radical “hidro-” numa palavra como “carboidrato”. Na prática, temos duas grafias para a mesma palavra, ambas oficialmente corretas: carboidrato e carbo-hidrato.

Esse não é o único caso de dupla grafia. Vamos mostrar outros conforme avançarmos no estudo do hífen. Por ora, vale compreender a regra-mãe.

About Thaís Nicoleti

Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL e coordenadora do Controle de Erros da Folha de S.Paulo. Formada em letras pela USP (Universidade de São Paulo), é professora de português desde 1984, tendo atuado em colégios e cursos pré-vestibulares e preparatórios às escolas militares. Autora dos livros “Redação Linha a Linha” (Publifolha), “Uso da Vírgula” (Manole) e “Manual Graciliano Ramos de Uso do Português” (editado e distribuído pela Secretaria de Comunicação do Estado de Alagoas), elaborou e, durante 12 anos, apresentou as aulas de gramática do programa “Vestibulando”, veiculado pela TV Cultura (São Paulo). Tendo vivido por três anos na cidade de Maceió, lá criou e apresentou os programas “Português Linha a Linha” – levado ao ar pela TV Pajuçara (afiliada do SBT e, posteriormente, da Rede Record) – e “Português em Dia”, produzido pela TV Gazeta (afiliada local da Rede Globo). Hoje, além de suas atividades no Grupo Folha-UOL, ministra cursos de português em empresas e palestras em diversas instituições.
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16 comentários feitos no blog

  1. Kaf comentou em 13/11/12 at 10:58 am Responder

    aprecio muito essa coluna.

  2. Jessé comentou em 13/11/12 at 11:01 am Responder

    MUITO bom o esclarecimento!

  3. JOSE CAMPOS DE JESUS comentou em 13/11/12 at 3:27 pm Responder

    Acho que tornou mais simples a “infernização” da língua portuguesa.

  4. Guilherme comentou em 13/11/12 at 3:31 pm Responder

    Olá Thaís.
    Qual seria o correto: ser-humano ou ser humano?
    Obrigado.

    • Thaís Nicoleti comentou em 14/11/12 at 6:47 pm Responder

      Guilherme,

      A expressão “ser humano” não leva hífen, certo? A regra de hifenização antes de palavras iniciadas pela letra “h” vale para os prefixos. São palavras como anti-horário, quilo-hertz, mini-hospital etc.

      • JOSÉ ANTONIO LOBO SANTOS comentou em 10/02/13 at 7:23 pm Responder

        A expressão “ser humano” não leva hífen, certo? A regra de hifenização antes de palavras iniciadas pela letra “h” vale para os prefixos. São palavras como anti-horário, quilo-hertz, mini-hospital etc.

  5. Beatriz comentou em 14/11/12 at 11:17 am Responder

    Thaís,

    Amei! sua explicação!

    Bia

  6. Célia Guimarães comentou em 15/11/12 at 9:20 am Responder

    Thaís,

    É muito bom contar com sua reflexão sobre dificuldades pertinentes ao meu trabalho!
    Obrigada!
    Célia

    • Thaís Nicoleti comentou em 21/11/12 at 7:01 pm Responder

      Célia, continue aparecendo por aqui e traga suas contribuições. Abraços, THaís

  7. Erica comentou em 16/11/12 at 2:44 pm Responder

    E “regra-mãe” fica com hífen? Não entendi…
    (última palavra citada em seu texto).

    Thaís, parabéns pelo seu trabalho!! Tenho acompanhado todas as matérias!!! Muito legal e didático!!

    • Thaís Nicoleti comentou em 21/11/12 at 6:59 pm Responder

      Oi, sim, fica sim, mas regra-mãe não é um caso de hífen com prefixo, portanto nada tem a ver com as regras que estamos estudando por enquanto. Há muitas palavras hifenizadas na língua que não sofreram nenhuma alteração com a reforma. Estão em outro capítulo! Continue acompanhando o trabalho. :)

  8. Verônica comentou em 28/11/12 at 2:14 pm Responder

    Thaís,

    Suas explicações são didáticas, de fácil compreensão.
    Estou acompanhando o blog.
    Parabéns pelo brilhante trabalho!

  9. Marcelo Sassine comentou em 29/11/12 at 3:03 pm Responder

    E ácido-base é o mesmo caso da “regra-mãe”? Ou seja não é hífen com prefixo?
    Então não alteramos essa palavra?

    • Thaís Nicoleti comentou em 04/12/12 at 2:32 pm Responder

      Isso mesmo, sem alteração, não se trata de hífen com prefixo.

  10. Dalka Costa de Lima comentou em 09/04/13 at 10:05 am Responder

    Quando teremos a explicação referente aos demais casos de hifenização?

    • Thaís Nicoleti comentou em 10/04/13 at 7:13 pm Responder

      Olá, Dalka, voltaremos logo ao assunto. Há muitos outros casos que ainda não foram abordados por não estarem ligados às mudanças. Abraços

      Thaís :)

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