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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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“A saída não é simplificar a grafia, mas sofisticar a educação letrada”; leia entrevista com Sírio Possenti

Por Thaís Nicoleti

Desta vez, quem conversa com o blog sobre reforma ortográfica é Sírio Possenti, professor titular do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

Autor de diversas obras (“Discurso, Estilo e Subjetividade”, “Por que (Não) Ensinar Gramática na Escola”, “Os Humores da Língua”, “Os Limites do Discurso”, “Questões para Analistas do Discurso”, “Questões de Linguagem”, “Humor, Língua e Discurso”, entre outras), o linguista, filósofo e estudioso do humor também publica textos regularmente na imprensa (nas revistas “Língua” e “Ciência Hoje” e no jornal “O Estado de S. Paulo”).

Possenti já provou que não se furta a um bom debate. No seu “Blog do Sírio”, recentemente teceu críticas à proposta de ortografia fonética defendida pelo professor Ernani Pimentel, coordenador de um grupo de trabalho técnico criado pela Comissão de Educação do Senado para discutir o Acordo Ortográfico de 1990, em vigor desde 2009. Segundo Possenti, “o discurso da simplificação tem muito apelo, mas é furado” e “a verdadeira questão é o grau de letramento de uma sociedade”. portugues em pautaConheça as ideias do professor, que concedeu ao blog esta entrevista:

Thaís NicoletiRecentemente, a imprensa divulgou a existência de uma proposta radical de mudança do sistema ortográfico do português, baseada na fonética. Das informações publicadas, depreendem-se, por exemplo, as seguintes ideias:

a) eliminação do “h” inicial das palavras (por não representar um fonema). Exemplos: oje, omem, ora;

b) eliminação do “ç” (o fonema /s/ seria representado sempre pela letra “s”). Exemplos: pesa (no lugar de “peça”), masarico (no lugar de “maçarico”);

c) substituição do “ch” por “x”. Exemplos: caxorro, chave, xaruto, flexa;

e) representação do fonema /z/ sempre pela letra “z”. Exemplos: ezame, aza, pezar;

f) a letra “c” deixaria de ser usada antes de “e” e “i”. Exemplos: sebola, sigarro, sílio;

g) eliminação do dígrafo “qu”, passando a letra “q” a representar o fonema /k/ diante das vogais “e” e “i”. Exemplos: aqele, esqilo, leqe;

h) eliminação do dígrafo “gu”, passando a letra “g” a representar apenas o fonema /g/ mesmo antes de “e” e “i”. Exemplos: gitarra, gerra, gindaste;

h) a letra “j” passaria a representar o fonema /j/ em todas as situações. Exemplos: jeleia, ajenda, ajir.

Dessa forma, seriam eliminadas distinções gráficas como a de hora/ora, aja/haja, cozido/cosido, seção/sessão/cessão, entre muitas outras e, além disso, grafias tradicionais passariam a representar outras ideias. “Casa”, por exemplo, seria a nova forma de escrever “caça” e também “cassa”, “pesa” seria a nova grafia de “peça”. Há inúmeros casos semelhantes a esses, além de termos que sofreriam mais de uma alteração (“caxasa”, por “cachaça”, por exemplo) e daqueles de mais de uma pronúncia (“liquidação”, “hexacampeão” etc.), problema difícil de resolver no interior desse sistema, mas a ideia, segundo seu autor, visa à simplificação da ortografia. O senhor acha que esse sistema seria, de fato, mais simples? Por quê?

Sírio Possenti – Não há dúvida de que seria mais simples. Algumas dúvidas atuais deixariam de existir, mas a questão crucial não é essa. Na verdade, há duas questões mais relevantes do que a “simplificação”. Uma é o fato de que a quantidade de erros de ortografia cometidos em decorrência das “dificuldades” que seriam eliminadas é menor do que se imagina. A verdadeira grande dificuldade é decorrente da relação entre letras e pronúncias variáveis. A reforma proposta não atingiria dificuldades como as que ocorrem numa palavra aparentemente simples como “menino”, que tem pronúncias variáveis da primeira (e/i) e da última vogal (o/u), o que leva a grafias como “me / mi” e “no / nu”. Uma palavra como “anos” pode receber a grafia “anus” em decorrência do alçamento da vogal átona final; a palavra “maldade” pode receber a grafia “maudade” (sem contar a variação da vogal final), em decorrência da vocalização do “l” em final de sílaba.  Os casos são, pode-se dizer, inúmeros (essa palavra pode vir a ser escrita “enúmeros/us”). Aliás, esse exemplo mostra outras dificuldades, ligadas exatamente à divisão de palavras… (“serhumano” ou “ser humano” – independentemente do “h”). A proposta não vai na direção de “escrever como se fala” (ainda bem), mas vale assinalar que não é verdade que a maior parte das dificuldades decorre de questões do tipo “hoje / oje / (h)oge”. A outra questão diz respeito aos custos financeiros, políticos e mesmo “escolares”. Tudo teria que ser reimpresso; ou as pessoas deveriam lidar com mais uma diferença de grafia, além daquelas com as quais elas já têm que lidar, quando fossem ler obras mais antigas que não tivessem sido adaptadas.  Os problemas políticos têm a ver com a aceitação da “nova” ortografia por todos os países nos quais o português é língua oficial. A saída não é simplificar a grafia, mas sofisticar a educação letrada.

TNEmbora a proposta tenha surgido por ocasião de discussões sobre o Acordo Ortográfico de 1990, que tratou basicamente de acentuação e hífen, seu objeto é, aparentemente, muito mais amplo. O Senado, acolhendo críticas ao Acordo Ortográfico de 1990, criou um GTT (grupo de trabalho técnico), cuja coordenação ficou a cargo do autor dessa proposta. Ainda que não esteja claro o trabalho que esse grupo empreende e, muito menos, se existe alguma possibilidade de essa proposta vir a ser discutida algum dia, pergunto se o senhor acha oportuno que esse tema seja objeto de discussão no Senado.

SP – Não acho oportuno. Aliás, acho muito inoportuno. Especialmente porque os especialistas nunca são convidados. Quando se discutiu a questão da pesquisa com células-tronco (para dar um exemplo), houve audiências públicas com geneticistas.   Mas, quando se discute ortografia, nunca se chamam linguistas. Dá-se o mesmo quando a mídia trata de educação. Quando provas nacionais ou internacionais revelam problemas escolares, a mídia entrevista donos ou professores de cursinhos, que são as instituições menos adequadas para falar de escola.

TN- No âmbito da universidade, existem críticas ao Acordo Ortográfico de 1990?

SP – Se houver, são “conversas” particulares. São poucos os que se envolvem com a questão. Até porque nunca são envolvidos. Diria que não é um tema considerado muito relevante. Pelo que sei, com exceção das questões políticas, que certamente são importantes, a maioria dos professores universitários (falo das universidades, não dos colegiões) sabe que se trata, do ponto de vista da escrita, de uma questão menor. Por um lado, sabem que o desempenho ortográfico depende de boa escola (basta ver o que ocorre na França e nos países de fala anglófona). Por outro, sabem que ortografia é apenas um aspecto, e é o menos relevante, de uma escrita que mereça este nome. Nossa sociedade sofre de fixação ortográfica. Muita gente metida a especialista não sabe analisar um texto; é por isso que sai à cata de erros de grafia.

TN – Nas redes sociais, é muito comum que as pessoas expressem uma espécie de “indignação” diante dos erros de grafia. A que o senhor atribui esse comportamento? Há uma supervalorização do aspecto visual das palavras?

SP – Nas redes sociais, e, na verdade, em qualquer lugar em que as pessoas podem opinar, os erros de grafia são objeto de crítica ou de gozação. Este fato resulta de três fatores: a) uma valorização excessiva da grafia (iguala-se “saber escrever” a “escrever sem erros de grafia”): b) o fato de que ninguém compreende as razões pelas quais os erros foram cometidos; c) trata-se de uma questão simples; como, frequentemente, não se consegue analisar o texto, seus argumentos etc., ele é desqualificado  com base nos erros. É uma atitude intelectualmente bem pobre.

TN- O site “Placas do Meu Brasil” faz sucesso nas redes sociais ao divulgar formas de  expressão popular, muitas das quais com erros de grafia. O senhor já comentou em artigos seus que muitas dessas grafias têm uma gramática. O senhor poderia citar alguns exemplos?

SP – Analisar as “Placas do Meu Brasil” ensina muita coisa. A principal é que os erros de grafia que uma proposta como a do prof. Pimentel evitaria são relativamente poucos. Os verdadeiros “problemas” não são do tipo escrever geladeira com “g” ou com” j”, mas escrever com ou sem ditongo (geladeira/geladera) e também “pexe/otro /oro”. Uma das consequências dessa variação que elimina semivogais é, curiosamente,  acrescentá-las onde “não existem”. O melhor exemplo é uma palavra estrangeira, “cover”, que pode vir a ser escrita “cover”, é claro, mas também, por hipercorreção, “couver” ou mesmo “colver”, embora tenha sempre a mesma pronúncia.

 TN. Em recente artigo seu, o senhor mostra isso. As diferenças entre grafia e pronúncia (pexe/ peixe; toca/touca), consideradas inclusive as diferenças regionais, são um problema maior para o aprendizado da escrita do que o emprego de pares consonantais como  g/j  ou  x/ch e esse tipo de problema não seria solucionado com uma reforma ortográfica, pois não há como unificar grafia e pronúncia. O senhor acha que alçar a ortografia a centro de discussões sobre a língua e a educação (no âmbito do Senado) é, de alguma forma, sobrevalorizar um tema menor? 

SP – Respondo “sim” a sua pergunta final. Especialmente quando se trata da questão escolar. O discurso da simplificação tem muito apelo, mas é furado. Basta ver como se anunciam livros e programas de TV: ensinam gramática de maneira simples e bem-humorada! É um verdadeiro horror. E é efeito do discurso de cursinho, instituição que gosta muito de aulas com piadas ou musiquinhas mnemônicas. Pouco engraçadas, aliás.

TNDe certa forma, esse tipo de aula (de cursinho, com piadas e parlendas) acaba por fomentar uma visão limitada (e talvez infantil) da língua? O senhor acha que o estudante precisa se divertir enquanto estuda? 

SP – Ora, estudar é um trabalho. Não precisa ser necessariamente desagradável. Mas achar que precisa ser divertido é uma bobagem. No fundo, esta atitude encobre a verdadeira natureza do aprendizado, reduzido, no fundo, a decoreba por associação.

TN – Em recente artigo publicado na Folha, o colunista Hélio Schwartsman afirma o seguinte: “Faria algum sentido abraçar uma mudança radical que tornasse a escrita tão foneticamente transparente quanto possível. Isso significaria aniquilar não só o “h” inicial, o “ch” e o “ç” como também disciplinar o “x”, domar o “r-rr” etc. O que ganharíamos? O processo de alfabetização se tornaria mais fácil, rápido e barato”. Como o senhor vê tal afirmação?

SP – Se selecionamos só esta passagem do texto dele, pode-se dizer que não leva em conta o tipo de argumento que apresento no meu texto “Simplificar a ortografia?” e que, resumidamente, apresentei acima. Mas, mais adiante, ele fala também em deixar as coisas em paz (“Meu apelo sincero aos legisladores é que deixem o idioma em paz. Se há norma que valeria a pena aprovar é uma que limite a três séculos a periodicidade das reformas ortográficas”).  Mas, mesmo modalizado, o argumento citado por ele, que é meio lugar-comum, não leva em conta leitura e escrita de verdade. Serviria mais para ditados artificiais (do tipo “soletrando”, que, em si, são uma bobagem, embora possam servir para despertar indiretamente mais vontade de estudar, algo que poderia ser obtido por meios mais relevantes).

TN – O autor fala em alfabetização mais rápida, porém, se pensarmos não propriamente em “alfabetização”, mas em “letramento”, esse argumento,  que, aliás,  é compartilhado pelo prof. Pimentel, autor da referida proposta, continuaria válido?

SP – Esse tipo de argumento se restringe ao que se poderia chamar de alfabetização, que é o domínio do código escrito, da representação dos sons. Mas o verdadeiro problema é o letramento, isto é, a inserção real dos alunos no mundo da escrita, que implica a capacidade de ler e escrever pelo menos na medida das necessidades sociais de cada cidadão (embora o ideal seja que a cultura letrada seja objeto de desejo de todos).

TN – Segundo o prof. Ernani Pimentel, “os psicólogos e biólogos já constatam que boa parte das crianças de hoje estão nascendo com um par a mais de cromossomos ativados, o que significa estar a humanidade passando por verdadeira mutação genética que traz uma visão quântica da realidade, descomunalmente superior à antiga visão linear a que os adultos ainda estamos condicionados”. E prossegue: “Hoje o estudante, e qualquer indivíduo, ri de quem aceita regras com exceções. Não faz sentido perder tempo. Ou o que se lhe ensina é lógico, prático ou não lhe desperta interesse”. O senhor concorda com isso? Nessa linha de raciocínio, poderíamos pensar que aquilo que se tem chamado de “internetês” será a ortografia do futuro?

SP – Sobre as supostas descobertas de psicólogos e biólogos, nunca ouvi falar delas, nem o prof. Pimentel cita as fontes, o que é bem típico, aliás. Citar fontes é uma prática das universidades, porque lá não se pode chutar. Mas, se tais mutações estiverem ocorrendo, por que seria necessário simplificar? Falando em “evolução”, seria mais adequado apostar na evolução tecnológica, que vai permitir que todo mundo logo escreva com computadores ou instrumentos similares, que contêm um dicionário acoplado e um corretor ortográfico que avisa quando a grafia de uma palavra está errada. As tentativas de corrigir acabam ensinando mais do que muitas aulas e dispensam até mesmo um sistema mais “lógico”. Sobre o internetês, quem já olhou esta escrita de perto percebeu que é um tipo de escrita silábica  (“vc” por “você”, “hj” por “hoje” etc). Observe-se que se trata sempre de privilegiar as consoantes (ninguém escreve “você” com “oe”). É uma escrita bem esperta, na verdade. Também vale a pena dizer que todo mundo que já anotou aulas na vida, antes dos computadores, usava essas mesmas abreviações. E que os jornais publicam desde sempre pequenos anúncios do tipo “vd ap c/ 4 q, gr” e ninguém achou que isso fosse um problema. O que quero dizer é que as escritas diversas aparecem em contextos diversos. O internetês é uma escrita de computador (e smartphone) e apenas para certos casos. Ninguém escreve assim em blogs…

TN- O senhor tem críticas ao Acordo Ortográfico?

SP – Minha crítica à proposta do prof. Pimentel não implica que eu considere excelentes os efeitos do recente acordo. Por mim, vigorariam as regras da reforma de 1943, que foi a “minha” ortografia, com muitos acentos diferenciais, como “êle”, para distinguir o pronome do nome da letra “L”, “aquêle”, para distinguir este pronome da primeira e da terceira pessoas do presente do subjuntivo do verbo “aquelar” etc. Mas é claro que, mesmo que não houvesse nenhum acento, isso não causaria nenhum problema para pessoas letradas. Ou seja: a verdadeira questão é o grau de letramento de uma sociedade.

TN – Na sua opinião, é importante haver uma “ortografia oficial”? Qual é o peso desse tema nos estudos empreendidos na universidade? 

SP – Não faz mal haver uma ortografia oficial. Mas não acho que seja tão necessária, se uma sociedade for de fato letrada. E, se houver uma oficial, preferia que não fosse objeto de legislação, mas de um acordo de editores, mais ou menos como ocorre com a escrita do inglês.

TN – O senhor  tem livros em que analisa piadas do ponto de vista linguístico. Em que esse material se mostra útil no estudo da língua?

SP – Para ficar no tema da entrevista: alguns aspectos da escrita são explorados em piadas. Veja este exemplo, uma piada que envolve um intelectual que, defendendo suas ideias com muita convicção, foi interrompido por alguém que lhe disse: “Mas suas ideias podem ser postas em xeque!”. E ele respondeu:  “De quanto?”. A graça da piada decorre da percepção das palavras homófonas xeque/cheque.  Veja esta outra piada, a da professora que pede ao aluno, o popular Joãozinho, que faça uma frase com “hospedar” e o menino responde: “Os pedar da minha bicicreta tá quebrado!”. A piada envolve divisão de palavra (hospedar/os pedar) e variação linguística (pedar/pedal e bicicreta/bicicleta). Em vez de decoreba de listas de palavras, uma aula poderia basear-se em histórias assim.

TN – Os professores de português poderiam, então,  em vez de contar piadas para distrair os alunos, analisar essas piadas a sério.  

 

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