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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Questão de tempo

Por Thaís Nicoleti

Na prova de português da segunda fase da Fuvest, a banca selecionou para uma das questões um fragmento de texto publicado na Folha, exatamente um dos que apresentei em audiência no Senado Federal em 21 de outubro de 2014, portugues em diaquando se discutia o novo Acordo Ortográfico.

No texto em questão, o colunista esportivo Juca Kfouri apoiava um comentário da ombudsman do jornal dirigido à Redação. A observação dela, por sua vez,  repercutia texto de outro colunista do jornal, ardoroso defensor da volta do acento diferencial da forma verbal “para”, suprimido ao lado dos outros diferenciais agudos.

Vejamos o que perguntava o vestibular acerca desse texto.

Questão: Leia o seguinte texto jornalístico:

PARA PARA

 Numa de suas recentes críticas internas, a ombudsman desta Folha propôs uma campanha para devolver o acento que a reforma ortográfica roubou do verbo “parar”. Faz todo sentido.

O que não faz nenhum sentido é ler “São Paulo para para ver o Corinthians jogar”. Pior ainda que ler é ter de escrever.

Juca Kfouri, Folha de S.Paulo, 22/09/2014. Adaptado.

 

  1. No primeiro período do texto, existe alguma palavra cujo emprego conota a opinião do articulista sobre a reforma ortográfica? Justifique sua resposta.
  2. Para evitar o “para para” que desagradou ao jornalista, pode-se reescrever a frase “São Paulo para para ver o Corinthians jogar”, substituindo a preposição que nela ocorre por outra de igual valor sintático-semântico ou alterando a ordem dos termos que a compõem. Você concorda com essa afirmação? Justifique sua resposta.

 

A questão proposta não era das mais difíceis. Para responder corretamente ao item (a), o candidato deveria perceber que o verbo “roubar”, de conotação negativa, não foi escolhido por acaso. Se a reforma “roubou” o acento, é sinal de que cometeu algo condenável. Essa é a opinião do autor do texto, que repercute a de outros críticos da reforma.

O item (b), por sua vez, mostrava que a língua oferece muitas possibilidades de expressão, que incluem volteios semânticos e sintáticos. Substituir uma palavra por outra ou mudar a ordem dos termos são procedimentos disponíveis a todos os usuários do idioma. A inteligência da pergunta está justamente em explorar, a partir de uma questão menor (supressão de acento diferencial), as possibilidades de manuseio da língua.

Caberia ao estudante concordar com a afirmação feita no enunciado, pois, sim, é possível substituir a preposição “para” pela locução prepositiva “a fim de”, de idêntico valor semântico (São Paulo para a fim de ver o Corinthians jogar), ou por outras locuções (São Paulo para com o intuito de/ com a intenção de ver… etc.), bem como é igualmente possível alterar a ordem dos termos do período, desfazendo o encontro que desagradou ao nosso Juca (Para ver o Corinthians jogar, São Paulo para).

Quando levei esse fragmento (entre muitos outros) à audiência no Senado, tive a intenção de mostrar que o período imaginado pelo colunista, ao contrário do que ele disse, faz sentido e não cria nenhum problema de compreensão – exatamente por causa da repetição. O falante imediatamente identifica que cada “para” pertence a uma classe gramatical – tanto isso é verdade que a frase não traz problema de compreensão a quem a ouve.

Quem tiver paciência poderá encontrar outros casos de frases um tanto artificiais, como a do colunista, em que há encontros semelhantes (Aquela cola cola tudo/ Espero que a saia saia bem cortada etc.). Ninguém pensaria em inventar um acento diferencial só por causa da repetição, certo?  O colunista, como muita gente que escreve, pode ter estranhado a nova grafia da palavra, mas, com o tempo, vai-se acostumar com ela.

No início da vigência da reforma, em 2009, as pessoas estranhavam muito mais grafias como autorretrato ou antissocial do que hoje. É apenas uma questão de tempo. Como bem disse o professor Evanildo Bechara, que pacientemente atendeu a inúmeras entrevistas sobre o tema, a reforma não é para nós, mas para as gerações futuras. E deve ser verdade.

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