-

Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Discursos em torno da “cultura do estupro”

Por Thaís Nicoleti

Recentemente, a divulgação do vídeo de uma moça desacordada, vítima de um estupro coletivo, provocou grande indignação na população e numerosas manifestações nas redes sociais. Sem dúvida, um aspecto positivo dessa nova forma de comunicação é a mobilização rápida de muita gente ao mesmo tempo.

Engana-se, porém, quem pensa que as imagens chocantes desencadearam o mesmo tipo de reação nas pessoas. Num primeiro momento, prevaleceu a revolta diante da barbárie e a percepção de que o machismo, base da chamada “cultura do estupro”, persiste na sociedade. temalivre

A OAB do Rio de Janeiro, cidade onde se deu o fato, expressou em nota repúdio ao ato criminoso (“Os atos repulsivos demonstram, lamentavelmente, a cultura machista que ainda existe, em pleno século 21”) e conclamou a população a lutar contra a violência “em cada lar, em cada comunidade, em cada bairro”, alertando sobre o efeito deletério das piadas sexistas, das frases e propagandas de cunho machista.

Passado o primeiro momento, as opiniões divergentes começaram a surgir. Pode-se dizer, basicamente, que há um embate entre dois discursos, o do feminismo e o da recusa do feminismo, sendo este apoiado na ideia geral de que não existe machismo de fato, para além do discurso feminista.

Percebe-se, assim, um mecanismo de negação da existência do machismo, este, por sua vez, a base de uma cultura que, de forma insidiosa, acolhe e legitima a violência (em diversos níveis) contra a mulher. Vejamos, então, como essa negação embasa diferentes argumentos.

O primeiro desses discursos – não à toa o mais grosseiro deles – é o da inversão de papéis, num jogo perverso em que se atribui à vítima a culpa pelo ato bárbaro perpetrado contra ela. Buscou-se traçar uma espécie de perfil da moça, de modo a atribuir a tragédia ao seu comportamento.

Está na base desse raciocínio a ideia de que a mulher deve ser recatada, pois os homens são “feras incontroláveis”, ou seja, homens são impelidos a esse tipo de ato por sua própria “natureza” e cabe à mulher não provocá-los. Conservador e comodista, esse discurso transforma a indignação em conformismo. Nada (no estado “natural” das coisas) precisa mudar.

Entre os que não veem o machismo como propulsor de crimes desse tipo (ou negam a existência do machismo) estão aqueles (e aquelas!) que consideraram os autores do ato uns “monstros”, o que faz do episódio um caso isolado, perpetrado por pessoas más. O problema, assim, é particular, não geral. É apenas um caso policial.

Houve quem analisasse o fato do ponto de vista da psicologia, sugerindo que, num estupro coletivo, o que importa é o grupo, não a mulher (como ocorre nos trotes contra calouros e na agressão entre torcidas de futebol), para chegar à conclusão de que os estupradores eram masoquistas, pois “a crueldade e o sadismo são formas invertidas do masoquismo”.

Embora o autor dessa análise diga acreditar na existência da cultura do estupro, prefere, segundo ele próprio esclarece, desenvolver uma explicação para o desejo do estuprador. Mais uma vez, temos uma reflexão que, mesmo sendo mais sofisticada, se propõe explicar os fatos à luz do indivíduo e seu psiquismo.

Outros deslocam o problema para as classes sociais menos favorecidas. São os que costumam ficar horrorizados com a existência de favelas, ambientes onde meninas dançam com pouca roupa ao som das letras machistas do funk. Esse discurso, ao situar o problema no “mundo dos pobres”, que não são formadores de opinião, passa a impressão de que o machismo, se (ainda) existe, está circunscrito a uma classe social, longe dos olhos das classes média e alta.

Também se tentou enxergar a coisificação da mulher como arma usada por ela própria para obter dinheiro ou proteção de um homem. Nessa chave interpretativa, mostrar-se como objeto é uma opção da mulher, o que não justifica o estupro em si, mas tira do horizonte a ideia de uma cultura machista por trás de crimes dessa natureza. Faltou dizer, porém, que a “opção” só se põe como tal num ambiente machista, em que o corpo da mulher é sua moeda de troca.

Como se não faltassem argumentos para embasar a negação da cultura do estupro, surge o viés político. Certo articulista vê na expressão “cultura do estupro”, que diz não saber o que é, uma bandeira da esquerda, que, como sabemos, hoje vem sendo demonizada como a razão de todos os males.

Não custa lembrar a quem tem memória curta e aos jovens, ainda não nascidos na ocasião (fim dos anos 80), que um certo Paulo Maluf, político muito conhecido, então candidato à Presidência da República, disparou a célebre frase: “Está com vontade sexual? Estupra, mas não mata”.

Para ficar em caso mais recente, tivemos o não menos conhecido deputado Jair Bolsonaro a dizer a uma deputada que não a estupraria porque ela mão “merecia”, como se o estupro fosse uma lisonja a uma mulher. Mesmo assim, há quem diga não entender a expressão “cultura do estupro”.

Sobre o tema, indico duas reflexões bastante boas, publicadas na Folha: a da jornalista Cláudia Collucci e a do jornalista José Henrique Mariante.

 

 

 

Blogs da Folha