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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Paraolimpíada ou Paralimpíada: complexo de vira-lata linguístico

Por Thaís Nicoleti

O Brasil vem fazendo bonito nos Jogos Paraolímpicos, o que é inegável. O que tem causado alguma celeuma é, por incrível que pareça, a palavra que nomeia esses jogos, formada do elemento “para-” associado ao adjetivo “olímpico”, de Olimpíada, que, por sua vez, tem raiz no nome da cidade grega de Olímpia, onde se realizavam os jogos naPortuguês Na Folha Antiguidade.

O prefixo grego “para-”, o mesmo que aparece em paranormal, paradidático ou parapsicologia, significa “para além de”, “ao lado de”. O mesmo prefixo aparece com o sentido de “defeito” em nomes de distúrbios como paralexia, paraplegia ou paramnésia, entre outros. As noções de proximidade e de oposição também estão associadas a essa forma (parágrafo, paradoxo etc.).

Olimpíada (substantivo) e olímpico (adjetivo) recebem o prefixo, dando origem aos termos Paraolimpíada e paraolímpico. Muito bem. De onde vêm, então, Paralimpíada e paralímpico, sem o “o”?

Por ocasião do encerramento dos Jogos de Londres, em 2012, anunciou-se a realização dos Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro, em 2016. O então Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB) decidiu criar uma corruptela do termo da língua portuguesa com o objetivo de alinhar a grafia da palavra à grafia do inglês (Paralympics ou Paralympic Games). Dessa forma, intitulou-se Comitê Paralímpico Brasileiro.

A Folha emprega regularmente o nome do comitê do modo como ele passou a intitular-se, mas não incorporou essa grafia aos seus textos noticiosos. Em português, as palavras são Paraolimpíada e paraolímpico. As mudanças linguísticas não ocorrem por decreto ou por acordo de um grupo de pessoas. As palavras pertencem à comunidade de seus falantes e exprimem a cultura de um povo.

Não é natural em português dizer “Paralimpíada”, extirpando o “o” do radical da palavra. Seria uma forma espontânea, por exemplo, “Parolimpíada”, em que a vogal átona final do prefixo desaparece – essa grafia refletiria a nossa pronúncia.  Entenda-se: não há a menor necessidade de mudar a palavra, mas o caminho natural dos falantes do português levaria a “Parolimpíada”, nunca a “Paralimpíada”.

Qual seria a necessidade de alinhar a grafia do português à de outra língua? Mais propósito haveria, então, em abolir o termo português e escrever a palavra em inglês.

O mais intrigante nesse complexo de vira-lata linguístico é que o Brasil está sediando os Jogos e que seus atletas (para-atletas) estão dando um verdadeiro show. Será que não podemos deixar o mundo ouvir um pouco a língua portuguesa?

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