Manchete com título no futuro: a morte calculada

Thaís Nicoleti

Perdi-me dentro de mim 
Porque eu era labirinto, 
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim  (Mário de Sá-Carneiro, poeta e suicida)

No último dia 10 de maio de 2018, a Folha, em sua versão impressa, publicou uma notícia cujo título, diferentemente do que ocorre na prática jornalística, continha um verbo no futuro: “David Goodall morrerá hoje aos 104 anos”. Na versão online, o verbo volta para o presente jornalístico.

O inusitado do título fora de padrão é que a notícia não era a morte daquele cientista, que em si não renderia manchete de jornal, mas o próprio tempo verbal do verbo morrer.

A novidade era, portanto, poder dizer que alguém vai morrer, por sua própria vontade, com hora e local marcado. Em países mais desenvolvidos, já existem empresas com nomes sugestivos (Life Circle, Eternal Spirit, Dignitas, Exit) que ajudam os cidadãos a realizar o suicídio, em determinados casos visto como um direito.

O cientista, segundo a reportagem, arcou com o custo aproximado de 10 mil francos suíços (o equivalente a cerca de R$ 36 mil). O preço da morte digna pode variar, mas, ainda segundo o texto, há opções para quem não tem recursos financeiros.

Antes de efetivar o contrato de morte (deve existir algo do gênero), a empresa se certifica de que o solicitante não tem depressão. Goodall, para tanto, passou por duas visitas médicas com profissionais diferentes.

O profissionalismo das instituições que oferecem o serviço é indiscutível: elas pedem aos pacientes que ingiram pentobarbital sódico, um sedativo eficaz que, em doses fortes o suficiente, faz com que o músculo cardíaco pare de bater. A Eternal Spirit optou por infusões intravenosas, pois a substância é alcalina e queima um pouco quando engolida.

Um profissional prepara a agulha, mas cabe ao paciente abrir a válvula que permite que a substância de curta duração se misture com uma solução salina e comece a fluir em sua veia. 


Os trechos em itálico são extraídos do texto da reportagem. Vale atentar para as marcas de impessoalidade do discurso de venda de um serviço, o que, de certa forma, contribui para a superação do questionamento ético. Essa organização discursiva dá credibilidade ao serviço, apresentado como uma opção no mercado, o último ato de compra do cliente.

Enfatizou-se que o solicitante/paciente (cliente?) estava lúcido e tomou a decisão por estar infeliz. Conta-se que passou dois dias no chão da cozinha após uma queda até que a faxineira o encontrasse. Ele tinha 104 anos e, por certo, debilidades físicas, mas estava lúcido, portanto a mente estava saudável o suficiente para tomar uma decisão desse porte (suicídio).

O modo como o discurso se organiza torna fácil e até tentador aceitar isso como algo normal, como uma morte digna. E aqueles que se ocupam de propiciar o serviço são uma espécie de benfeitores. Pode ser mesmo.

Outros dados da reportagem também chamam a atenção. Um deles é a proporção entre homens e mulheres na clientela do serviço; outro é a sua faixa etária predominante: “Dos 175 suicídios assistidos realizados entre 2012 e 2015, 115 foram em mulheres. A faixa etária predominante é de 60 a 89 anos”.

O desejo de acabar com a própria vida pode ocorrer em qualquer idade, como sabemos. Sentimos como uma tragédia o suicídio de jovens e adolescentes, que pode ter muitos fatores motivadores (a violência do bullying ou a decepção amorosa, por exemplo).

Depois dessa fase, temos uma espécie de relação ambígua com o suicídio: geralmente se considera que o suicida era fraco ou que “tinha problemas” (não raro, as pessoas fazem uma releitura da personalidade da pessoa e descobrem que o suicida era mesmo um sujeito esquisito), mas o tema continua sendo tabu. O suicídio continua sendo algo condenável, embora a culpa sempre recaia no autor do gesto.

O que vemos agora é que, a partir de certa idade, o suicídio deixa de ser o gesto de um fraco, desesperado, problemático e passa a ser um gesto de dignidade, apoiado por uma estrutura assistencial.

É paradoxal que a vida moderna se paute por um verdadeiro culto à saúde, vendido ininterruptamente (não fumar, não ingerir bebida alcoólica em excesso, fazer exercícios regularmente, comer alimentos orgânicos, beber dois litros de água por dia, tomar vitaminas, repor o colágeno, usar protetor solar etc.), e que não saibamos que destino oferecer a quem envelhece em vez de morrer naturalmente mais cedo.

O mais triste é o processo de exclusão que a pessoa vai sofrendo com a perda da juventude. O que seria um atributo de valor na idade avançada, a saber, a experiência e o saber acumulado, não tem utilidade na lógica de descarte do tipo de sociedade em que vivemos.

Ouso pensar que quem vive as coisas com alguma intensidade enfrente no decorrer da vida labirintos que parecem oferecer apenas a morte como solução. Normalmente o desejo de morrer é o maior sintoma de depressão, aquele que leva as pessoas aos terapeutas e analistas (ou não leva).

A pergunta a fazermos a nós mesmos, creio, é se esse suicídio racionalizado não seria a única saída que o nosso modelo de sociedade oferece a quem ousa atravessar a barreira dos anos. Em que medida a decisão é, de fato, individual e racional?

É digno de nota que uma expressiva maioria dos suicidas assistidos sejam mulheres, para as quais o envelhecimento é ainda mais sofrido por motivos, infelizmente, óbvios.

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