Ortografia e educação

Thaís Nicoleti

Há dez anos, entrava em vigor o Acordo Ortográfico de 1990. Isso mesmo: começou a valer quase 20 anos depois de sua criação. O mais os interessados no tema já sabem: muita controvérsia, alguma resistência e, finalmente, a compreensão de seu valor de instrumento de unificação ortográfica do português como meio de fortalecimento da língua no âmbito internacional.

Infelizmente, no Brasil, ainda convivemos com um deficit educacional muito expressivo, que faz parecer surrealista toda a controvérsia em torno de trema, hífen e alguns poucos acentos. Não é preciso ir muito longe para aferir a precariedade do conhecimento ortográfico da população. A comprovação está, para além das provas de português de exames vestibulares, nos comentários espalhados em sites pela internet.

Em alguns casos, é nítida a falta de familiaridade com a língua escrita. Grafias como “interter” (por “entreter”), “entretendimento” (por “entretenimento”), “impresa” (por “empresa”), “ábito” ou “abto” (por “hábito”), “concerteza” (por “com certeza”), “sencurados” (por “censurados”), “concinhencia” (por “consciência”), “em dividual” (por “individual”), “sentenas” (por “centenas”), “haveriguar” (por “averiguar”), “houvindo” (por “ouvindo”), “uma nova hera” (por “uma nova era”), “fachetária” (por “faixa etária”), “absterce” (por “abster-se”), “impessão” (por “impeçam”), “auto-se desdruindo” (por “autodestruindo-se” ou “destruindo-se”), “custume” (por “costume”), “vulgir” (por “fugir”), “usufluir” (por “usufruir”) ilustram o tamanho do problema.

Várias dessas formas de grafar espelham-se no modo como as palavras são ouvidas pelo falante e no conhecimento incipiente do sistema ortográfico. Para essas pessoas, que infelizmente não são poucas em nosso país, o Acordo Ortográfico nunca foi o problema, tampouco a solução. Não me alinho, como sabe o leitor deste blog, entre os detratores do Acordo de 1990, pois, por um lado, ele cumpre a sua função e, por outro, a dificuldade nos bancos escolares não está em pequenas alterações da convenção ortográfica.

Um exame mais detido desses exemplos e de tantos outros que se avolumam dia após dia pode revelar algumas curiosidades. Chama a atenção a falsa analogia, de formas como “houvindo” e “haveriguar”, que se explica antes pelo conhecimento (ainda que precário) do sistema que pela simples tentativa de reproduzir as palavras ouvidas. Trocas de “o” por “u” e de “e” por “i” devem-se claramente à reprodução da língua ouvida. Existe, é claro, algum conhecimento do sistema, mas flagrante deficit de leitura.

Esse nível de erro de grafia deixa patente que a pessoa não lê, que tem poucas referências culturais, o que não quer dizer que não saiba pensar ou não tenha boas ideias, mas certamente indica fragilidade. A internet e os aplicativos de mensagens estimularam o uso da língua escrita, que passou a ser empregada constantemente por todos, deixando de ser o registro refletido da língua para ser uma tradução literal da oralidade.

Se antes a escrita pressupunha um cuidado maior, oriundo da reflexão, hoje, com a possibilidade de comunicação instantânea em redes sociais, ela apenas reproduz, sem cerimônia, o registro oral, acrescido das gírias do meio, das abreviações conhecidas como “internetês” e, cada vez mais, de figurinhas de todo tipo.

Não se trata, é claro, de condenar o internetês e as figurinhas, que, aliás, são muito democráticos, já que, eficazes e de fácil apreensão, põem os internautas no mesmo nível. É preciso, no entanto, ir além disso.

Entre as tarefas dos educadores deve estar o uso da internet em favor do processo educacional, fomentando a reflexão baseada em leituras e na comparação entre as diversas manifestações da língua. De resto, aprender — seja lá o que for, inclusive a ortografia — requer engajamento.

É preciso fazer mais que apresentar as regras de ortografia. É preciso mobilizar os alunos em projetos nos quais eles se sintam instados a fazer reflexões maduras, embasadas em leituras, e dar-lhes voz para que sejam levados a produzir um discurso autônomo. A competência em ortografia é consequência do empenho constante de professores e alunos.

 

 

 

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