Olimpíada de Língua Portuguesa mobiliza estudantes de todo o país

Fazer que estudantes adquiram o pleno domínio da leitura e da escrita tem sido um grande desafio enfrentado pelos professores de língua portuguesa. Dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), coordenado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), ajudam a mapear a situação da aprendizagem.

O objetivo dessa avaliação internacional, em linhas gerais, é saber quanto os alunos apreendem da educação escolar e como isso se dá – em suma, em que medida estão preparados para a vida adulta. É claro que, para fazer uma medição desse porte, é necessário um entendimento sobre o que se deseja alcançar num processo educativo.

Do ponto de vista da leitura e da escrita, que aqui nos interessa mais de perto, o objetivo é aferir, muito além da habilidade de decifrar letras e palavras, a capacidade de compreender aquilo que se lê, de usar a linguagem para expressar-se, de refletir sobre ela, enfim, de desenvolver, por meio dela, o intelecto e participar da sociedade como sujeito ativo.

Os dados do penúltimo Pisa (2015), os últimos divulgados (mais para o final deste ano, será conhecido o resultado da avaliação feita no ano passado), mostravam que a maior parte dos estudantes brasileiros não ultrapassava o nível 2 (entre 7 níveis) em letramento de leitura. Isso quer dizer que ainda temos um longo caminho pela frente na tarefa de preparar os jovens para o pleno exercício da cidadania, mas não quer dizer, como poderia parecer à primeira vista, que nada esteja dando certo.

É importante lembrar, neste momento, que há consenso entre os especialistas em educação acerca das habilidades a desenvolver, do objetivo a perseguir, que é o de formar cidadãos, e também dos caminhos pedagógicos, ancorados na ideia de engajamento dos estudantes naquilo que lhes é proposto como atividade na escola.

Muito mais do que instruir ou apresentar informações a serem memorizadas, hoje, mais do que nunca, é necessário apresentar ao estudante situações de aprendizado que lhe permitam reagir ao que lê, interpretar as informações, fazer conexões entre elas e usar seu conhecimento como forma de inserção na vida social – afinal, ninguém aprende sem estar motivado.

Vai longe o tempo em que se acreditava que o aluno tinha de literalmente apanhar para aprender alguma coisa. Herdeira da velha palmatória é a ideia de disciplina rígida como motor de aprendizado. Desse ponto de vista, estudar seria um tormento necessário. Ao contrário disso, a disciplina surge espontaneamente do engajamento na atividade, e este, por sua vez, surge quando a atividade tem um sentido para o estudante.

É na interação entre os membros do grupo, nas relações que se estabelecem, que o conhecimento se constrói. Bem se vê que, nessa perspectiva, todo tema que esteja em discussão na sociedade deve estar presente na escola, a qual, por sua vez, deve fomentar um ambiente de liberdade e de estímulo ao diálogo, ou seja, ao uso da palavra como forma de mediação de conflitos.

Esse aprendizado é, por natureza, paulatino, pois implica e é implicado pelo desenvolvimento e pelo amadurecimento do jovem, no seu ritmo. Induzir e administrar esse processo é a tarefa hercúlea a que se dedicam os professores, não raro em meio a grandes dificuldades, sobretudo quando se considera o conjunto heterogêneo da rede pública de ensino.

“Escrevendo o Futuro”

Para contribuir nesse processo, instituições privadas têm-se aproximado do Estado para oferecer programas na área de educação. A Fundação Itaú Social criou em 2002 o projeto Escrevendo o Futuro, que atua em conjunto com os professores de português da rede pública. Com a coordenação técnica do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), oferece aos professores inscritos cursos a distância ou presenciais, com suporte pedagógico e metodológico, e um espaço virtual para troca de experiências. Além disso, promove um concurso de produção textual entre os alunos da rede pública de todo o país.

Desde 2008, tornou-se uma política pública, incluído entre as ações do Plano de Desenvolvimento da Educação, ao firmar parceria com o Ministério da Educação. Nessa ocasião, ampliou-se passando a abranger não só os alunos do quinto e do sexto ano, como antes, mas todos os estudantes do ensino fundamental 2 e do médio. Foi nesse momento que o concurso recebeu o nome de Olimpíada de Língua Portuguesa.

Olimpíada de Língua Portuguesa

A última Olimpíada, realizada em 2016, envolveu 4.874 municípios brasileiros (o país tem pouco mais de 5.500), quase 40 mil escolas e mais de 80 mil professores, com a participação de mais de 5 milhões de alunos nas oficinas de redação e escrita.

A expectativa é que esses números sejam ainda mais expressivos na 6ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa, a ser realizada neste ano (2019). Embora o projeto seja permanente, o concurso se dá a cada dois anos – a partir deste ano, ocorrerá nos anos ímpares (os anteriores se deram em 2008, 2010, 2012, 2014 e 2016).

O projeto, que já atinge 87% dos municípios brasileiros, ainda que tenha a forma de uma competição, dada pelo seu nome e pela existência de premiação de alunos, professores e escolas, é uma grande mobilização em torno da língua portuguesa como vetor de expressão e de exercício da cidadania.

Alunos da rede pública do 5º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio participam de um processo de produção textual, sob a supervisão de seus professores, os quais, por sua vez, têm acesso a orientações metodológicas, que os ajudam na preparação dos estudantes para o concurso.

As categorias do concurso foram baseadas no aprendizado da língua por meio da teoria de gêneros textuais, da qual os pesquisadores Joaquim Dolz e Bernard Schneuwly, ambos da Universidade de Genebra, entre outros estudiosos, são importante referência. Produzidos nas mais variadas situações sociais, os gêneros são, por isso mesmo, entendidos como formas de funcionamento da língua. Na prática pedagógica, por meio dos gêneros, os estudantes percebem a importância e o sentido do aprendizado da língua.

Foram escolhidos cinco gêneros textuais como as categorias nas quais os alunos podem se inscrever, de acordo com o ano que estejam cursando. Os do 5º ano do ensino fundamental escreverão poemas, os do 6º e do 7º farão memórias literárias, os do 8º e do 9º escreverão crônicas. Os estudantes do 1º e do 2º ano do ensino médio serão os primeiros a desenvolver pequenos documentários – o gênero foi introduzido nesta edição da Olimpíada e, como todo o projeto, está em consonância com a BNCC (Base Nacional Curricular Comum), em que se inclui a produção oral em língua portuguesa. Com a tecnologia disponível em seus telefones celulares, os jovens farão vídeos curtos (de aproximadamente três minutos) em grupos de até três integrantes. Os alunos do 3º ano do ensino médio escreverão artigos de opinião.

A superintendente do Itaú Social, Angela Dannemann, enfatiza que o objetivo da Olimpíada de Língua Portuguesa não é ser uma espécie de caça-talentos, como ocorre com a conhecida olimpíada de matemática. “Usamos o nome [Olimpíada] como isca”, diz ela em tom de brincadeira, enquanto explica que, “nesta Olimpíada todos são vencedores”. Isso porque o projeto envolve todos os alunos da turma, com oficinas realizadas durante as próprias aulas.

O resultado, como não poderia deixar de ser, é permanente. Os professores têm a oportunidade de atualizar conhecimentos, em contato com o trabalho de pesquisa feito nas universidades, e de estabelecer importante diálogo com a inovação, pondo em prática novas metodologias e recursos didáticos. E quem ganha são todos: alunos, professores, gestores escolares. Afinal, o objetivo é um só: aprender, evoluir, desenvolver habilidades de leitura e escrita.

“O lugar onde vivo”

O tema geral da Olimpíada, sobre o qual todos os participantes escreverão, nos variados gêneros textuais, é “O lugar onde vivo”. A escolha, que se mantém desde a primeira edição da Olimpíada, permite a qualquer estudante exprimir algo próprio de sua vivência, que o toque pelos mais diversos motivos: a emoção de uma lembrança, uma paisagem, pessoas, mas também as carências e dificuldades que, por vezes, são parte da sua rotina.

Poder falar e, sobretudo, poder falar-se, saber-se ouvido, esse é o grande ganho no aprendizado da língua, que só amadurece quando o jovem percebe a potência da linguagem na própria existência, como instrumento de ser e estar num mundo que é – ou deve ser – em si mesmo um lugar onde todos possam viver, respeitando as diferenças e aprendendo uns com os outros.

SERVIÇO

As inscrições no projeto podem ser feitas ainda até o fim deste mês (30 de abril de 2019). Basta seguir o link, onde estão disponíveis todas as informações.

 

 

 

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