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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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“Pôr” e “para”: ainda sobre o acento diferencial

Por Thaís Nicoleti

Um de nossos leitores questiona a “lógica” de suprimir o acento diferencial de “para” (verbo) e manter o de “pôr” (verbo).  Realmente estamos diante de dois casos semelhantes com soluções gráficas distintas.

O argumento geral da Academia Brasileira de Letras é que o contexto responde pela distinção das formas, como se deu com a abolição dos antigos acentos diferenciais (“sede” /ê/ e “sede” /é/; “ele” /ê/, o pronome, e “ele” /é/, o nome da letra etc.). O entendimento é que, superada a fase de transição, as pessoas deixarão de sentir falta desses acentos.

Isso ainda não explica, pelo menos de forma lógica, a questão do nosso leitor, mas sugere que a mudança é paulatina. Digamos que, futuramente, numa próxima revisão da ortografia, outros acentos diferenciais (os poucos que sobraram) poderão deixar de existir. Essa é uma suposição baseada  na sequência de reformas já existentes. É muito mais fácil suprimir um acento (ou qualquer grafema) do que recuperá-lo. Voltaremos a esse ponto quando estivermos tratando das alterações relativas ao uso do hífen.

Por ora, é bom lembrar que a manutenção do acento da forma infinitiva do verbo “pôr” leva à grafia de “pôr do sol” também com acento. Os hifens do composto desapareceram, tema de que trataremos mais adiante. Convém aqui fazer um alerta aos usuários do dicionário “Aulete” (eletrônico): nessa plataforma, a grafia de “pôr do sol” aparece ainda com os antigos hifens, carecendo, portanto, de correção. A fonte mais segura para a checagem de grafia hoje é o site da Academia Brasileira de Letras: www.academia.org.br.

Uma bela imagem do pôr do sol (com acento, sem os hifens).

Já a eliminação do acento da forma verbal “para” leva à sua eliminação também nos compostos que integra, como “para-brisa”, “para-choque”, “para-chuva”, “para-raios” etc., que, aliás, à exceção de “paraquedas”, “paraquedista” e “paraquedismo”, mantiveram o hífen.

É sempre divertido ler os para-choques (sem acento, com hífen) dos caminhões.

A omissão do hífen em “paraquedas” aparentemente se explica pelo fato de a palavra ter derivados. Esses derivados (oficialmente) grafavam-se antes “pára-quedismo” e “pára-quedista”. Digo oficialmente porque já era muito comum vermos a grafia aglutinada em textos sobre paraquedismo. Talvez, na percepção difusa das pessoas, não fizesse muito sentido que o hífen separasse um “pedaço” de palavra, como “quedismo” ou “quedista”, que não são formas independentes na língua. A nova grafia parece mais simples e até mais “lógica”.  Nos outros casos, porém, como não há derivação, os compostos continuam escritos com hífen.

Paraquedas agora se escreve sem hífen e sem acento.

Não se pode, porém, fazer confusão entre a forma verbal “para” que entra nos compostos e o prefixo “para-“, que aparece em grande número de palavras (paranormal, paradidático, paraestatal, paraolímpico etc.). É importante saber distinguir uma coisa de outra porque a forma verbal integra compostos hifenizados (exceção já comentada) e o prefixo geralmente vai aparecer “colado” à palavra seguinte – sem hífen.

É preciso lembrar, porém, que pode haver casos em que o prefixo seja unido pelo hífen ao termo subsequente. Isso é o que veremos quando estivermos examinando as regras de hifenização. Só para matar a curiosidade: um termo como “para-história” é escrito com hífen (e “para-” é o prefixo de origem grega, que significa, grosso modo, “ao lado de”).

Houve quem imaginasse que “para-raios” viesse a escrever-se “pararraios”. De modo algum. A regra de duplicação das letras “r” e “s” aplica-se aos prefixos terminados em vogal, somente a eles, não a formas verbais que integram compostos (para-raios, porta-retratos, porta-revistas, corta-rio, pega-rapaz, porta-seios, porta-sela, porta-sabre etc.).

Benjamin Franklin inventou o para-raios (com hífen, sem acento).

 

DICA: qual é o plural de “pôr do sol”? 

Basta flexionar a forma verbal substantivada “pôr”. Como assumiu o valor de um substantivo, “pôr” será flexionado de acordo com as regras próprias do substantivo, ou seja, “pores do sol”. Aquele terá sido um dos mais belos pores do sol que já vi.

 

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