“Pôr” e “para”: ainda sobre o acento diferencial

Um de nossos leitores questiona a “lógica” de suprimir o acento diferencial de “para” (verbo) e manter o de “pôr” (verbo).  Realmente estamos diante de dois casos semelhantes com soluções gráficas distintas.

O argumento geral da Academia Brasileira de Letras é que o contexto responde pela distinção das formas, como se deu com a abolição dos antigos acentos diferenciais (“sede” /ê/ e “sede” /é/; “ele” /ê/, o pronome, e “ele” /é/, o nome da letra etc.). O entendimento é que, superada a fase de transição, as pessoas deixarão de sentir falta desses acentos.

Isso ainda não explica, pelo menos de forma lógica, a questão do nosso leitor, mas sugere que a mudança é paulatina. Digamos que, futuramente, numa próxima revisão da ortografia, outros acentos diferenciais (os poucos que sobraram) poderão deixar de existir. Essa é uma suposição baseada  na sequência de reformas já existentes. É muito mais fácil suprimir um acento (ou qualquer grafema) do que recuperá-lo. Voltaremos a esse ponto quando estivermos tratando das alterações relativas ao uso do hífen.

Por ora, é bom lembrar que a manutenção do acento da forma infinitiva do verbo “pôr” leva à grafia de “pôr do sol” também com acento. Os hifens do composto desapareceram, tema de que trataremos mais adiante. Convém aqui fazer um alerta aos usuários do dicionário “Aulete” (eletrônico): nessa plataforma, a grafia de “pôr do sol” aparece ainda com os antigos hifens, carecendo, portanto, de correção. A fonte mais segura para a checagem de grafia hoje é o site da Academia Brasileira de Letras: www.academia.org.br.

Uma bela imagem do pôr do sol (com acento, sem os hifens).

Já a eliminação do acento da forma verbal “para” leva à sua eliminação também nos compostos que integra, como “para-brisa”, “para-choque”, “para-chuva”, “para-raios” etc., que, aliás, à exceção de “paraquedas”, “paraquedista” e “paraquedismo”, mantiveram o hífen.

É sempre divertido ler os para-choques (sem acento, com hífen) dos caminhões.

A omissão do hífen em “paraquedas” aparentemente se explica pelo fato de a palavra ter derivados. Esses derivados (oficialmente) grafavam-se antes “pára-quedismo” e “pára-quedista”. Digo oficialmente porque já era muito comum vermos a grafia aglutinada em textos sobre paraquedismo. Talvez, na percepção difusa das pessoas, não fizesse muito sentido que o hífen separasse um “pedaço” de palavra, como “quedismo” ou “quedista”, que não são formas independentes na língua. A nova grafia parece mais simples e até mais “lógica”.  Nos outros casos, porém, como não há derivação, os compostos continuam escritos com hífen.

Paraquedas agora se escreve sem hífen e sem acento.

Não se pode, porém, fazer confusão entre a forma verbal “para” que entra nos compostos e o prefixo “para-“, que aparece em grande número de palavras (paranormal, paradidático, paraestatal, paraolímpico etc.). É importante saber distinguir uma coisa de outra porque a forma verbal integra compostos hifenizados (exceção já comentada) e o prefixo geralmente vai aparecer “colado” à palavra seguinte – sem hífen.

É preciso lembrar, porém, que pode haver casos em que o prefixo seja unido pelo hífen ao termo subsequente. Isso é o que veremos quando estivermos examinando as regras de hifenização. Só para matar a curiosidade: um termo como “para-história” é escrito com hífen (e “para-” é o prefixo de origem grega, que significa, grosso modo, “ao lado de”).

Houve quem imaginasse que “para-raios” viesse a escrever-se “pararraios”. De modo algum. A regra de duplicação das letras “r” e “s” aplica-se aos prefixos terminados em vogal, somente a eles, não a formas verbais que integram compostos (para-raios, porta-retratos, porta-revistas, corta-rio, pega-rapaz, porta-seios, porta-sela, porta-sabre etc.).

Benjamin Franklin inventou o para-raios (com hífen, sem acento).

 

DICA: qual é o plural de “pôr do sol”? 

Basta flexionar a forma verbal substantivada “pôr”. Como assumiu o valor de um substantivo, “pôr” será flexionado de acordo com as regras próprias do substantivo, ou seja, “pores do sol”. Aquele terá sido um dos mais belos pores do sol que já vi.

 

Comentários

  1. Agradeço mais essa utilíssima aula, mas confesso que continuarei a sentir saudades do acento diferencial em “para” (verbo). A possibilidade de gerar ambiguidades em textos que deveriam ser objetivos me incomoda. Acho que só com o tempo (e o uso) eu vou acabar me acostumando…

  2. Thaís, uma pergunta: por que não se acaba com o hífen na língua portuguesa? Está mais claro que água que essa coisa é subjetiva ( parte de uns para a maioria), e não objetiva. Em espanhol, pelo o que ouvi dizer, deu-se fim ao hífen. A língua pertence também a quem a usa, não só aos que se dedicam a estudá-la.

    1. Pertence, é claro, a todos os que a usam!! A ortografia é uma questão de convenção. É útil que haja um sistema e que ele seja o mais simples e lógico possível para que todos se entendam. Não se pode dizer, porém, que abolir todos os acentos e hifens vá tornar a nossa vida mais fácil. Aliás, não é nada fácil a tarefa de fazer uma reforma ortográfica. Os problemas de sistematização são muitos.

  3. Thaís,

    Pode até ser que outros acentos diferenciais venham a ser suprimidos em futuros arreglos, mas é virtualmente impossível suprimi-los todos.

    Quanto a futuras ‘reformas’, espero que não nos imponham mais nenhuma antes do século XXI. Enfrentar três em menos de 50 anos (1943, 1971 e 1990) é dose para elefante. Conheço pessoas, alfabetizadas antes de 1943, que, aplicadas, ainda juntam as poucas forças que lhes restam para (tentar) aprender a escrever pela quarta vez! É muito para uma vida só, um desatino.

    Quanto aos acentos diferenciais, jamais será possível eliminá-los todos. A grafia terá de manter uma marca, seja ela qual for, a distinguir os pares: e/é, a/à, da/dá, o/ó, por/pôr, nos/nós & companhia. São monossílabos por demais frequentes e pedem um sinal qualquer que os diferencie. Ainda que caiam todos os outros acentos, uns poucos diferenciais essenciais permanecerão.

    Aliás, falando em eliminar acentos e outros sinais, fico aqui a cismar. O inglês, recheado de monossílabos homógrafos de sentido diferente, sobrevive há séculos sem um acento sequer. E todos se entendem. O espanhol, língua ultrapróxima da nossa, desconhece o hífen. E não lhe faz falta.

    Cáspite, se eles podem, por que não nós? Seria esquisitíssimo no começo, concedo. Ia parecer que o indivíduo usou um teclado inglês, falho de acentos. Mas seria questão de uma geração, 15 ou 20 anos. O que são duas dezenas de anos numa língua que já roça seu primeiro milênio?

    Se dependesse de mim, não duvide: acabava com os acentos e com os hífens. Como exceção à regra geral, sobrariam (muito poucos) casos particulares. Justamente por serem escassos, seriam facilmente memorizáveis.

    Isso liberaria gente instruída e bem intencionada como você para dedicar-se a uma sina mais gratificante do que repetir sempiternamente que esta palavra leva acento, mas não aquela, ou que esta locução é hifenizada mas não aqueloutra.

    Nossa língua anda tão empoeirada quanto a burocracia que atormenta nossa existência, você não acha?

    Abraço.

    1. Também espero que não tenhamos de enfrentar mais uma reforma até o fim do século XXI, mas é fato que há uma tendência à simplificação nestes tempos em que vivemos. O nosso sistema de acentuação é baseado em oposições, mas, quando me referi a acentos diferenciais, eu quis dizer, de fato, acentos diferenciais (não seria o caso de nós/nos, por exemplo). Espero que continue acompanhando o blog e possa perceber que minha boa intenção poderá ir além de tratar de pôr acento aqui ou acolá! Grande abraço 🙂

  4. A simplificação da escrita é uma tendência incontornável. Como a pessoa comum é cada vez mais alfabetizada, cada vez melhor saberá ler o contexto quer fonético quer escrito. Acho muito bem.

  5. Boa noite, Thaís. Você mencionou a palavra “paraolímpico” no seu texto. O uso da forma “paralímpico” e “paralimpíadas” pelos meios de comunicação foi doloroso de ouvir. Como ficou essa questão? (ou simplesmente não há questão, e a forma correta continua a ser “paraolímpico”?)

    1. Zulmira, em português, a forma é “paraolímpico”. Caso uma das vogais desaparecesse em razão da pronúncia, seria a vogal final (átona) do prefixo “para-“, não a vogal “o”, que pertence ao radical da palavra. Não se criam palavras dentro de gabinetes, como parece ter sido a intenção do tal Comitê intitulado Paralímpico… Essa história serviu para criar confusão. A mídia ficou dividida porque cabe a ela transmitir as informações com correção – o nome do comitê passou a ser “paralímpico” (era preciso reproduzir o “nome oficial”) -, mas a ingerência dessas pessoas, até onde entendo, cessa aí. Cada qual que se intitule como quiser, mas, daí a obrigar-nos a escrever ou, ainda pior, a falar de um modo totalmente estranho aos nossos costumes linguísticos, vai uma longa distância…

    2. Zulmira e Thaís,

      Toda regra tem ao menos uma exceção que a confirma.

      A língua não tolera o neologismo *paralímpico, que está mais para marca de produto de limpeza do que para esporte. Faço parte dos que se insurgem contra uma forma que atenta contra o espírito de nossa linguagem. A Thaís já se encarregou de explicar os comos e os porquês. Estou de pleno acordo.

      *Paralímpico é obra de ignorantes. Não passa de transcrição feita por gente para quem uma fortuna bem guardada nalgum paraíso fiscal conta bem mais que regras de formação de palavras. Certas ou erradas, palavras não trazem dólares nem costumam levar a paraísos.

      Antes que me esqueça: parabéns à Folha de SP. Dentre os grandes quotidianos brasileiros, foi o único ― digo bem, o único! ― a mostrar espírito crítico e a não deslizar para a vala comum. Todos os outros adotaram, sem pestanejar, a ‘genial’ novidade. Me fez lembrar do antigo álcool combustível que, no dia seguinte ao da histórica visita do presidente Bush ao Lula, passou a se chamar etanol. Sem questionamento, todo o rebanho quebrou para o lado e seguiu a nova picada. Mas isso já é outra história.

      O novo e estranho *paralímpico já é usado, faz anos, em línguas tais como o inglês, o francês, o alemão, o espanhol. Aos ouvidos dos falantes desses idiomas, a ablação de uma parte do radical não soa aberrante. Melhor para eles. Para nós, não é assim. A roupa que veste João nem sempre serve em Pedro.

      No entanto… No entanto, convivemos há 30 anos com uma anomalia na mesma linha. Refiro-me a sambódromo. Qualquer brasileiro enche a boca para pronunciar esse termo, como se tivesse sido criado na Idade Média, imortalizado pelo Padre Vieira e utilizado por Machado de Assis. Não é assim. Foi bolado nos anos 80 para nomear a nova passarela construída para os desfiles do Carnaval carioca.

      Não me lembro de ter jamais ouvido alguém se insurgir contra esse termo mal parido. No entanto, ele também contraria o espírito básico: conserva intacto o sufixo, enquanto mutila o nome principal.

      Dizem que o uso do cachimbo faz a boca torta. Nossos lábios estão irremediavelmente torcidos. Embora samba + dromo devesse dar «sambádromo», será que alguém ousaria hoje pronunciar dessa maneira?

      1. Houve quem reclamasse, sim, de “sambódromo”, mas não pelo uso da vogal de ligação “o” em substituição à vogal átona de “samba” (vogais átonas não costumam transformar-se em tônicas e, além disso, esse “a” não pertence ao radical de “samba”, tanto que desaparece também em “sambista”), e sim pelo fato de o sufixo grego “-dromo” significar “lugar em que se corre”. Os puristas, de modo geral, condenam os hibridismos, caso em que se enquadra “sambódromo”, mas, sinceramente, isso parece excesso de conservadorismo. O neologismo que surge para nomear o que passa a ter existência é muito bem-vindo. O caso de “sambódromo” não se compara ao de “paralímpico”, que, em inglês, pode fazer sentido, pois o sistema fonético da língua é bem diferente do nosso. “Paralímpico” não é um neologismo; é uma adulteração de uma palavra existente. É por isso que nos incomoda! Caso tivéssemos de suprimir uma letra da palavra, seria justamente o “a” final do prefixo, que é átono (seria mais fácil conceber algo como “parolímpico” do que essa forma estranha à nossa língua).

  6. Thaís, posso imaginar poeticamente o uso do plural de pôr do sol, mas não tive a oportunidade e não conheço ninguém que tivesse a chance se usá-lo numa frase. Mais provável seria dizer: “Foi o mais belo pôr do sol que eu já vi (na vida)”. O plural é conhecimento que pode ser usado se fazer uma prova, porém restrito para a comunicação.

    1. Otávio, como consultora de um grande jornal brasileiro, sou obrigada a discordar. Frequentemente as pessoas perguntam sobre isso para usar em textos jornalísticos. E usam! Nada de restrito para a comunicação, nada disso. 🙂

      1. Posso pensar em dois exemplos rápidos: “O ancião havia assistido a inúmeros pores do sol”; e “Devido à poluição atmosférica, os pores do sol ficam mais avermelhados a cada dia”. Aliás, a expressão “pores do sol” é perfeita para a nossa boa e velha Terra, onde é sempre o mesmo Sol que nasce e se põe. Mas, quando chegarmos às estrelas (sim, sou um otimista!) e visitarmos sistemas estelares duplos ou triplos, poderemos dizer: “Esses pores dos sóis são extraordinários!” rsrs

    1. Robson, o Redação Linha a Linha, da Publifolha, está atualizado e inclui um apêndice com o sistema atual de acentuação e hifenização. Já o “Uso da Vírgula”, da Manole, talvez não esteja atualizado do ponto de vista ortográfico (não tenho certeza). Os dois podem ser encontrados no site da Livraria da Folha: http://livraria.folha.com.br. Abraços, Thaís

Deixe uma resposta